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domingo, 3 de janeiro de 2021

A HISTÓRIA DE UBERABA DE HILDEBRANDO PONTES

INTRODUÇÃO

Desde pelo menos o início do século XX, Hildebrando Pontes (1879-1940) efetuou pesquisas sobre a História de Uberaba, acumulando, com o passar dos anos, informações, conhecimentos e documentos.

No Governo Municipal do engenheiro Guilherme Ferreira (outubro de 1930 a fevereiro de 1935) Hildebrando foi contratado para elaborar livro sobre o município com todos os dados históricos e estatísticos conhecidos e disponíveis. No apagar das luzes da referida administração municipal ou logo em seguida, Hildebrando entregou seu trabalho, então intitulado “O Município de Uberaba”.

Dado o desinteresse da sociedade e, em decorrência o dos políticos e administradores que a representam, e, ainda, a descontinuidade administrativa dos executivos municipais, a obra, em seus alentados cinco volumes manuscritos e encadernados, permaneceu inédita por décadas e só sabida e frequentada por um ou outro historiador (José Mendonça e Gabriel Toti, por exemplo), somente sobrevivendo pelos cuidados pessoais e especiais que lhe dedicou o escritor e secretário da Prefeitura, Lúcio Mendonça.

Por incrível possa parecer, atestando o alto grau de desinteresse e descaso pela História do município e pela obra de Hildebrando, nem mesmo por ocasião das ruidosas comemorações do centenário da elevação da vila (município) de Uberaba ao título honorífico de cidade, em 1956, foi lembrada e resgatada do olvido a que as administrações municipais a relegaram. Mesmo tendo a Prefeitura recebido do Governo Estadual de Juscelino Kubitschek, segundo consta, 5 milhões de cruzeiros (4 milhões para educação e/ou saúde e 1 milhão para a comemoração).


DESCOBERTA E PUBLICIDADE


Estava escrito que um dia, no futuro, essa omissão e descaso chegariam ao fim. E chegaram!

Em julho de 1968 começou a ser editado o “Suplemento Cultural do Correio Católico”, em formato tabloide e periodicidade variando entre quinzenal e mensal. Com certa carência de matérias publicáveis e nenhuma atinente à História local, a editoria do Suplemento, tomando conhecimento da existência da obra de Hildebrando, considerou que ela deveria conter informações sobre a literatura e o passado cultural da cidade. Não deu outra! Lá estava incrustado, em determinado de seus cinco grandes e volumosos volumes, capítulo intitulado “O Intelectualismo em Uberaba”, que, copiado à mão e posteriormente datilografado, foi reproduzido com destaque de primeira página no nº 20, de 12 de abril de 1969, do Suplemento, antecedido de nota introdutória e ilustrado com foto do autor.

FINALMENTE, EM LIVRO


A partir daí, a editoria do Suplemento e o advogado e escritor Edson Prata, à época secretário da Academia de Letras do Triângulo Mineiro, decidiram tentar publicar a obra. Edson Prata entrou em contato com a direção do então operoso Instituto Nacional do Livro, solicitando-lhe fosse incluída em sua ativa programação editorial, que exigiu fosse obra de interesse geral e não apenas local, pelo que, dada sua abrangência, com larga introdução histórica sobre a formação brasileira, Edson Prata a reintitulou, muito apropriadamente, de “História de Uberaba e a Civilização no Brasil Central”.

Mesmo assim, não se logrou editá-la pelo mencionado Instituto, assoberbado por extensa lista e fila de inéditos aguardando publicação.

Em decorrência dessa impossibilidade, Edson Prata e a editoria do Suplemento voltaram suas vistas para a própria detentora dos direitos autorais da obra, a Prefeitura, cujo prefeito, engenheiro João Guido, prontificou-se a cobrir 50% (cinquenta por cento) dos custos, orçados em C$ 14.000,00.

Obtida essa participação, os originais foram em 1969 encaminhados à gráfica, estando concluída a impressão um ano depois, 1970, para lançamento no salão principal do Jóquei Clube de Uberaba, totalmente lotado.


Guido Bilharinho

José Mendonça: História de Uberaba

O advogado José Mendonça nasceu em Uberaba em 1904, aqui falecendo em 1968



O AUTOR 

José Mendonça nasceu em Uberaba em 1904, aqui falecendo em 1968. Estudou no então Grupo Escolar Brasil e no Colégio Marista Diocesano, formando-se em Direito no Rio de Janeiro, em 1926. Exerceu a profissão até 1930 na cidade do Prata, transferindo-se em seguida para Uberaba. Paralelamente ao exercício profissional, lecionou na Escola Normal e nas faculdades de Filosofia e de Direito.
Participou da fundação, integrou as diretorias e também presidiu a 14ª Subseção da OAB, o Rotary Clube de Uberaba e a Academia de Letras do Triângulo Mineiro.

José Mendonça discursando.
 Foto Arquivo Público de Uberaba



História de Uberaba

OBRAS



Além das obras inéditas que deixou − Soluções Econômicas e Sociais, Ação Declaratória e História das Américas − escreveu e publicou os livros Ação Nacional (1937), que suscitou o entusiasmo de Monteiro Lobato e de vários outros intelectuais brasileiros, 

A Prova Civil (1940), considerado um clássico no assunto, e, ainda, os ensaios históricos O Centenário do Município de Uberaba (1936), Santa Casa de Misericórdia de Uberaba (1949) e O Visconde de Taunay e o Triângulo Mineiro em 1865 (1964).




PESSOAS E INSTITUIÇÕES FOCALIZADAS

O livro abrange a maioria dos acontecimentos e instituições mais importantes da cidade.
Além disso, são ressaltadas em capítulos especiais as atuações do major Eustáquio (fundador da cidade), vigário Silva (seu primeiro vigário e primeiro historiador), frei Eugênio (missionário e gênio empreendedor, construtor do primeiro cemitério e do hospital da Santa Casa), des Genettes (fundador da imprensa), dom Eduardo (primeiro bispo), dr. José Ferreira (um dos maiores médicos do país e o visconde de Mauá do Brasil Central), Fidélis Reis (introdutor do ensino técnico profissional no país) e Quintiliano Jardim (notável jornalista), focalizando também, ao final do volume, mais de trinta outras figuras históricas na seção “Pequenas Notas Biográficas”, como as denominou.


Fidélis Reis, Quintiliano Jardim, José Mendonça e Valdemar Vieira.  
Foto Arquivo Público de Uberaba


Guido Bilharinho é advogado em Uberaba e autor de livros de literatura, cinema, fotografia, estudos brasileiros, História do Brasil e regional editados em papel e, desde setembro/2017.




terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Discurso Pronunciado pelo Sr. Dr. José Mendonça, na solenidade programada pela Ordem dos Advogados do Brasil, em homenagem ao Dr. José de Souza Prata

Meritíssimos Juízes,

Prezados Colegas,

Dizem um adágio francês que quinze dias fazem de uma morte recente uma velha noticia.

Outro afirma que esquecimento cresce mais depressa nos corações dos homens do que a erva sobre os túmulos. 


Mas nós, Prata nosso amigo e nosso irmão, estamos aqui para dizer-lhe que por mais que passe o tempo continuaremos a vê-lo, nesta casa, que por mais de trinta anos você honrou e enalteceu pelo espírito, pela inteligência, pela cultura, pelo caráter, pela capacidade de trabalho e sacrifício pelo amor ao Direito, à Pátria e a Humanidade, representando o que temos de melhor e de mais puro em nossa própria civilização. 
 
  Dr. José de Souza Prata. (Foto do acervo pessoal da família Prata).
 ★1897 †1962

Estamos aqui, querido Prata para dizer-lhe que por mais que decorram os dias e os anos, continuaremos e senti-lo ao nosso lado, envolvendo-nos com o carinho de sua amizade, guiando-nos e orientando-nos com os exemplos perenes de seu reto procedimento, de suas preclaras virtudes morais e cívicas, de sua dedicação de todas as nobres causas humanas e patrióticas, iluminando-nos com as luzes de sua sabedoria.

Continuaremos, principalmente, a sentir as palpitações do seu grande coração, que tanto soube amar e sofrer, ungido de ternura e vibrando forte quando se tratava de lutar pela justiça , e que, por isso mesmo, não pode pulsar, neste mundo, por dilatado tempo, grande coração de advogado.

Você foi juiz e advogado. E, no exercício dessas profissões, um apóstolo do bem e da verdade.

Você creu, Prata na redenção espiritual e moral dos homens; na expressão romana do Direito, na expressão cristã da justiça e da bondade.

Creu no aperfeiçoamento da nossa espécie pela razão e pela fé: num mundo melhor, onde as gerações vindouras poderão viver libertas de todos os temores, cantando o hino da fraternidade, do trabalho e da paz.

Por isso você fez de sua vida um poema de amor ao Direito, à Humanidade e ao Brasil.

Você conquistou o respeito e o afeto de nossa gente, por sua prolongada atuação na luta pelo Direito; pela compressão profunda do dever: pela sua coragem que foi como um sopro divino, fazer justiça e em proclamar a verdade.

Juiz e advogado!

A sua vida, Prata, nosso amigo e nosso irmão, foi santificada pelo amor ao Direito.

Mas, você foi, também, professor.

Para ensinar, é preciso muito amar .

Ensinar! Que maravilha de altruísmo, de dedicações e de serviços encerra essa simples palavra!

Ensinar não é, apenas iluminar espíritos, redimindo-os das trevas da ignorância

Ensinar é plasmar caracteres e formar corações; é abrir às gerações, que começam a viver, os amplos e claros horizontes do saber, do trabalho, da alegria de existir para ser útil a família à, à pátria e Humanidade.

Ensinar é fazer compreender aos jovens que ninguém pode viver sem religião, sem honra e sem moral.

Ensinar é infundir no espírito dos moços a certeza de que os bens supremos , neste mundo, são os de ordem espiritual e moral, principalmente o Direito, a Justiça e a Liberdade.

Ensinar é ajudar a ser bom, pois, sem a bondade a vida seria insuportável.

Ensinar é transmitir aos outros alguma coisa do nosso próprio “eu”; é fazer com que uma chamado nosso ideal brilhe fulgure no espírito dos nossos semelhantes; é fazer com que nossa orquestra interior vibre, em sons maravilhosos.

Ensinar é formar homens.

E você querido Prata, foi um dos melhores professores de Uberaba, na Escola Normal e na Faculdade de Direito.

A sua escolha para paraninfo dos bacharéis do ano passado, em nossa Faculdade, é a melhor prova do que afirmo.

E centenas de jovens vão continuar, no tempo e no espaço, a pureza dos seu sentimentos, seguir as diretrizes de suas lições, as linhas restas dos seus propósitos, o grande, o imenso, o maravilhoso idealismo de bondade, de amor à justiça e ao dever, que aclarava a sua vida.

Centenas de moços estão hoje, elevando aos céus as preces mais comovidas, para que você encontre, no seio carinhoso de Deus, aquele mesmo e ardente amor que sempre dedicou à juventude.

Formador de caracteres plasmador de inteligências e de corações!

E você foi ainda, jornalista. Nunca a sua pena transformou em punhal do sicário, nunca feriu, nunca fraudou, nunca, direta ou indiretamente, levou o mal a quem quer seja.

Na contrário, ensinando, doutrinando, manifestando-se tão somente de acordo com os ditames da sã consciência, voltou-se, exclusivamente, aos interesses do bem comum, desdobrou-se era benefícios, fez esplender a beleza ensinou, confortou, encorajou, entusiasmou

Quantos espíritos iluminou, a quantos indicou o caminho da verdade, quantas almas confortou, quanto bem realizado!

Uberaba o abençoa pelos frutos de ouro das messes e das cearas opimas que fez crescer, das fecundas sementeiras, que espalhou!

Colega e amigo, Prata, nenhum melhor que você.

Porque não animava, apenas o sentimento das mais completa e absoluta lealdade.

Você se distinguia pela sua vontade de ser útil, de bem servir aos seus colegas, aos seus companheiros. E nos era viva, que era intensa a sua alegria, quando tinha a oportunidade prestar um serviço a qua quer que um de nós.

Eu mesmo, em momentos de dúvida, muitas vezes me dirigi a você, procurando as luzes da sabedoria e da experiência .

E via, logo, que você tinha prazer em me ajudar, em estudar comigo a matéria controvertida.

No seu grande coração, cabiam todos os seus colegas, todos os seu amigos, todos os seus companheiros.

Por isso, estamos aqui para dizer-lhe que em nossos corações, a sua presença será perene, você estará sempre vivo, na perenidade do nosso amor.

O pensamento de sua morte, Prata, nos trás pensamento de Vida.

à de sua morte, nos traz pensamento de melhoria, de purificação da nossa própria existência.

O pensamento de sua morte nos traz o pensamento de que a vida só vale como você a viveu, para a realização de nobres aspirações , que reduzem em benefício dos outros homens e aprimorem o nosso próprio espírito. O pensamento de sua morte nos faz considerar que devemos aproveitar esta vida, tão transitória , tão efêmera, para pelejarmos, como você pelejou , para que, um dia, todas as crianças sejam alegres e sadias e cresçam, sem temor do mundo e do futuro; para que todos os homens e todas as mulheres sejam felizes no trabalho, tenham um teto, alimentação, vestuário, livros, remédios educação; para que a pobreza, as misérias, as humilhações, as violências, as rapinas, as perseguições desapareceram da face da terra; para que todos os povos vivam em paz.

O pensamento de sua morte nos solicita a viver e lutar, como você viveu e lutou, pela razão , pelo direito, pela justiça, pela liberdade, pela fraternidade.

O pensamento de sua morte nos aproxima de Deus e nos renova a esperança de que viveremos, gloriosamente, mais felizes, num mundo melhor, onde você, com certeza, está vivendo.



“...ó carrilhões dos cismos

Tangei! Torres da fé vibrai os { nossos brados}

Dizei, sinos da terra, em {clamores supremos},

Toda a nossa tortura aos {astros de onde vimos, Toda a nossa esperança aos {astros aonde iremos”

Prata, amigo e irmão, vimos, hoje, trazer-lhes flores mais lindas que há no mundo; - as flores da amizade, do carinho e da ternura, nascidas no coração , para que ela, naquele mundo melhor, você as tenha perpetuamente ao seu lado, significado a perenidade do nosso Amor! 
 

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

O ITALIANO QUE MUDOU A FACE DA CIDADE

O que têm em comum em nossa cidade o sobradão da Câmara Municipal, a Santa Casa de Misericórdia, a velha Fábrica de Tecidos do São Benedito, os prédios do Senai/Fiemg, a capela do Colégio Nossa Senhora das Dores, a sede da Associação Comercial, o Asilo Santo Antônio e o Sanatório Espírita? Todos esses prédios – entre centenas de outros menos conhecidos – têm a mão daquele que foi o maior dos construtores que repaginaram a cidade de Uberaba na primeira metade do século passado: o imigrante italiano Santos Guido.

Santos Guido (de terno claro), Alfredo Sabino, José Mendonça e Odilon Fernandes
 em reunião do Rotary Club de Uberaba, 1963.Fotógrafo não identificado / Casa do Cinza

Nascido na pequena vila de Scigliano, na região da Calábria (a ponta da “bota” no sul da Itália) em outubro de 1889, Santos Guido chegou em Uberaba ainda muito jovem. Em 1913, com pouco mais de 20 anos de idade, foi um dos fundadores da Liga Operária local – provavelmente a primeira das iniciativas associacionistas que marcaram a sua vida em nossa cidade. “Oriundi” orgulhoso de suas origens, foi um dos fundadores (e primeiro presidente) do time de futebol Palestra Itália de Uberaba, em 1918. Nas décadas seguintes, trabalhou pela estruturação da Associação Comercial e da liga “Fratelanza Itália”. Foi ainda membro do Rotary Clube e da Loja Maçônica “Estrela Uberabense”.

Prédio em estilo Art Decó onde funcionava a carpintaria e o depósito de materiais de construção das Indústrias Santos Guido na década de 1930 (Praça Comendador Quintino, esquina com Rua Henrique Dias). Foto do Google, em julho de 2011.

Mas foi no ramo da construção civil que Santos Guido se destacou. Engenheiro e arquiteto autodidata, operário, marceneiro e dono de lojas de materiais de construção, Guido já era, no início da década de 1930, o mais renomado construtor da cidade. No triênio 1928-1930, mudanças no código de obras municipal haviam obrigado os proprietários a alterar as fachadas das edificações construídas defronte às ruas do centro. Saíam de cena as velhas casas coloniais, com os beirais dos telhados pendurados sobre as calçadas, para dar lugar às novas fachadas retas com platibandas decoradas. O historiador Hidelbrando Pontes atribui a Santos Guido “a introdução das ordens civis modernas” em nossa cidade: normas técnicas e urbanísticas que disciplinaram a construção civil.

Localização onde funcionou a serraria das Indústrias Santos Guido entre o início da década de 1930 e meados dos anos 1960. Trecho inicial da atual Avenida Odilon Fernandes.
Detalhe de planta da cidade elaborada por Gabriel Totti em 1956.

Em dezembro de 1934, o jornal Lavoura e Comércio dedicou uma matéria de uma página (escrita por um cronista que assinou apenas P. S.) sobre as empresas de Santos Guido. O construtor era dono de uma grande serraria – situada na baixada da atual avenida Dr. Odilon Fernandes, ao lado da praça da Concha Acústica – onde grandes toras de madeira de lei se transformavam em tábuas, caibros e vigas. Na esquina das ruas Martim Francisco e Henrique Dias, um elegante predinho em estilo “art déco” abrigava sua carpintaria e um depósito de materiais de construção. Na praça Rui Barbosa, quase defronte ao Paço Municipal, ficavam os escritórios. As empresas somavam uma centena de empregados e Santos Guido era o maior cliente da companhia de luz e força da cidade (o consumo só perdia para o da fábrica de tecidos, que dispunha de usina própria).

Matéria especial sobre Santos Guido, publicada na edição de 24/25 de 
dezembro de 1934 do jornal uberabense Lavoura e Comércio.

Perguntado sobre quantas casas havia construído até então, Santos Guido não soube responder. Dizia ele que ao menos um terço das casas do centro havia passado por suas mãos, na construção ou em reformas. E que nos dois terços restantes, certamente havia alguma madeira, cal ou cimento fornecido por suas lojas. Laços familiares ampliavam essa participação. Sua irmã, Rosina Guido, casou-se com outro importante empreiteiro italiano estabelecido em Uberaba: Miguel Laterza, um dos construtores da igreja de São Domingos.

Detalhe do caminhão das indústrias Santos Guido na Praça Rui Barbosa. Lavoura e Comércio, 24/12/1934

Santos Guido também foi, por décadas, o maior construtor de obras públicas do município e um inovador em diversos setores. Trouxe à cidade o primeiro caminhão pesado movido a óleo diesel (provavelmente um Fiat 642N italiano), introduziu um estilo de residências recuadas em relação à rua do tipo “bungalow” – um contraponto menos suntuoso aos antigos “palacetes” – e foi um dos entusiastas e construtores da primeira piscina pública de Uberaba: no clube da Associação Comercial, na rua Manoel Borges, inaugurada em janeiro de 1936.

Caminhão italiano pesado Fiat 642N fabricado no início dos anos 1930. Provavelmente, do mesmo modelo utilizado pelas indústrias Santos Guido, primeiro caminhão movido a óleo diesel de Uberaba.
Foto: Wikipedia

Um de seus filhos, João Guido, formou-se engenheiro na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. No final dos anos 1940, passou a dirigir a empresa – renomeada Santos Guido & Filhos – ao lado do pai. Duas décadas mais tarde, foi eleito prefeito municipal. Aliviado do cotidiano dos negócios, Santos Guido dedicou-se ao associativismo, à militância política e a obras de filantropia. Foi delegado local da Federação das Indústrias e presidente por vários mandatos do asilo Santo Antônio.

Embarque de gado zebu em um avião Curtiss C-46 no aeroporto de Uberaba em junho de 1948. Detalhe do caminhão das Indústrias Santos Guido & Filhos Ltda.
Foto de J. Schroden Jr.

“Santos Guido não tem seu nome ligado à história de Uberaba”, dizia P. S. na premonitória crônica de 1934. “Não venceu exércitos nem comandou legiões de eleitores. Mas fez mais do que isso. Fez casas para muita gente que hoje, metida dentro de quatro paredes confortáveis, nem sequer se lembra das mãos do artista que delas fez a planta, que as elevou e que sobre elas arranjou as telhas”. O construtor faleceu em 1982, pouco antes de completar 93 anos de idade. São raras as suas fotos e não consta que alguém tenha publicado sua biografia.

Palanque de recepção ao presidente Getúlio Vargas em maio de 1953, na praça Rui Barbosa. No canto direito superior, um detalhe dos escritórios das Indústrias Santos Guido no centro da cidade.
Foto do Arquivo Nacional.

(André Borges Lopes / uma primeira versão desse texto foi publicada na coluna "Binóculo Reverso" do Jornal de Uberaba em 24 de novembro de 2019. )

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Cidade de Uberaba


sexta-feira, 19 de julho de 2019

CARTA ( ABERTA ) Á LUIZ GUARITÁ NETO – CODAU

Oi, turma !
(É gritante a diferença entre nobres e plebeus no Brasil...)


Caro Presidente, 

Acuso sua amável lembrança (uma esferográfica do CODAU). Obrigado. Transcrevo o bilhete que veio junto>-“Gonzaga, foi um prazer enorme ,ler o seu artigo sobre o meu pai. Concordo que ele foi especial. Leal, digno, honesto. Estas foram as “fortunas” que ele deixou para mim e Dulce. Minha gratidão por este reconhecimento. Luiz Neto”.

Aprendi com meus dois “gurus”, Netinho e Jorge Zaidan, os meandros que por vocação, iniciado desde tenra idade e pratico até hoje, a comunicação. Não fossem os exemplos deles, não sei se teria continuado na profissão .Netinho e Jorge, ofereceram-me a dádiva da sabedoria – pródigo nos elogios, parcimonioso nas críticas -! Lema que pratico, sem pestanejar. A verdade é o apanágio da informação. A dignidade do jornalista, está atrelada a verdade da noticia. Faltar com a verdade, subverter a crítica ou elogio, por ato desonesto, foge daquilo que com eles, aprendi. Souberam honrar a íngreme profissão que abraçaram , que este pobre pecador, com todos os vícios e e defeitos, procura praticar.

Saiba, Presidente, acompanho sua trajetória desde a infância. Talento, inteligência, trabalho e competência, nunca lhe faltaram. Fizeram “morada” no seu curriculum , caro “Alemão”. Bom de bola como o pai, preferiu os estudos. Fez bem. Vocação para a política, veio ao depois. Secretário de Hugo Rodrigues da Cunha, o “ pulo” à Prefeito, era inevitável ! Votei em Você, 2 vezes. Suplente de senador, não conheci o titular. Sei que está preso. Você, não! Sua formação moral, não permite. Como Prefeito, deu “alma nova”, produziu a auto=estima do uberabense.Ganhou muitos louvores.

Discordei e continuo discordando da infeliz decisão da mudança do aniversário da CIDADE de Uberaba. Alterar o “registro de nascimento” da santa terrinha, onde Você, eu, nossos familiares e amigos, nascemos, foi doloroso ! Que o levou a tão infeliz medida ? Dinheiro ? Não ! Você não precisa. Vaidade do cargo? Não acredito... Ingerência externa ? Não tenho como responder... Creia-me, Presidente, a alteração foi um erro histórico ! Uberaba, não merecia tal decisão !Envelhecer a cidade 36 anos ! Praquê?

Desculpe-me a petulância ! Errar é humano; persistir no erro.. .Poderia responder porque não ouviu a população? A imprensa não ter sido convidada a participar dos debates ? Não recorrer as pesquisas sérias de historiadores sérios da terrinha, Hildebrando Pontes, José Mendonça, Gabriel Toti, Edelweis Teixeira, Guido Bilharinho, ainda vivo e são ? Não levar em consideração o parecer da Assessoria Jurídica da Câmara Municipal ? Louvar-se tão somente numa “historiadora” do Arquivo Público municipal, titubeante até na sua explanação de motivos?

Você, Luiz Neto, não precisa dessa campanha fajuta e mentirosa de “ Uberaba-200 anos “. Sua popularidade, prestigio, credibilidade e trabalho, são seus grandes e verdadeiros trunfos ! Um pedido seu à Câmara municipal, à revogar a lei de 1994, que regrediu Uberaba a condição de FREGUESIA, isto é, CURRUTELA, não coaduna com os nosso foros de civilização e cultura. Uberaba, é uma das mais importantes cidades brasileiras pelo passado que preservou, pelo presente que ostenta, com alguns senões e um futuro promissor que nos aguarda!

O uberabense ficará eternamente agradecido se tomar tal medida. Dos céus, Ataliba Guaritá Neto e Jorge Zaidan, darão pulos de alegria e aqui na terrinha, esse humilde escriba, não comentará mais a aberração produzida.

Esse espaço está a sua disposição, caso seja a sua vontade em responder a minha sugestão. Uberabensemente o meu fraterno abraço. “ Marquez do Cassú".






Cidade de Uberaba


sábado, 8 de junho de 2019

Hildebrando Pontes e a descendência familiar

Uberaba, realmente é uma cidade que prima pelos contrastes, pela incoerência e falta de conhecimento histórico. Seus verdadeiros historiadores e políticos , vão “ do céu ao fundo mar”. Homens e mulheres responsáveis pela guarda da nossa memória-história , cometem “gafes” que o mais leigo observador da nossa santa terrinha, duvida. Uberaba, homenageia, hoje, com intensidade histórica, embora atrasada no tempo, neto e bisneta de um dos maiores nomes da literatura e história da cidade, o imortal Hildebrando Pontes.

Hildebrando de Araújo Pontes - Foto: Arquivo Público de Uberaba.

Hildebrando Pontes Neto, escritor e advogado brilhante, herdou do meu saudoso e querido amigo, Alberto Pontes, nome respeitado no foro jurídico brasileiro, a verve oratória do pai e o talento de escritor do avô. Alessandra Pontes Roscoe, jornalista e escritora de méritos, filha dos saudosos amigos Sérgio Roscoe e Romilda Pontes, a garra e o talento dos pais, avós e bisavô. Há anos, figuras de projeção em Belo Horizonte e Brasilia, lançam, na terrinha, seus novos livros. Será sucesso tenho absoluta certeza. O sangue literário esta impregnado na inteligência de ambos. “O Velho Carrossel” e a “Arvore Voadora” se juntam a outras obras dos autores. Eles herdaram do eminente e saudoso Hildebrando Pontes, a veia literária familiar. Uberaba, muito se orgulha da hereditariedade e dinastia brilhantes.

Embora com tardia homenagem a um dos seus filhos mais importantes, a Prefeitura de Uberaba, vai dar o nome de “Hildebrando Pontes” ao seu arquivo publico. Justiça, reconhecimento e valor, o legado de livros publicados sobre a historia da terrinha .”História de Uberaba e a Civilização no Brasil Central “,” História do Futebol de Uberaba”,” Vida, Casos e Perfis”, são obras antológicas sobre a santa terrinha. Engenheiro agrônomo, editor da “Revista Agricola”, Vereador, Presidente e agente executivo, hoje, o cargo chama-se Prefeito, Hildebrando Pontes, não só escreveu, mas fez história.

A Ignorância histórica dos “historiadores” de Uberaba, se fez sentir em 1994 , quando num ato impensado, fora de propósito e com objetivos escusos, o então prefeito Luiz Guarita Neto, com a conivência da Câmara Municipal, presidida pelo vereador Ademir Vicente da Silveira, com a simples justificativa da funcionaria do APU, Aparecida , em obediência ao prefeito Luiz Neto, apresentou um relato duvidoso, sem citar os historiadores locais, Hildebrando Pontes, José Mendonça, Edelweis Teixeira e Guido Bilharinho, entre outros, apresentou projeto alterando o “registro de nascimento” da CIDADE de Uberaba, não citando em nenhum momento esses renomados historiadores, especialmente o grande Hildebrando Pontes.

Com o “parecer contrario” da douta Assessoria Jurídica da Câmara Municipal, os vereadores optaram pela simples “justificativa” da sra. Manzan, que não deve ter lido, pois, nem citou a obra de Hildebrando Pontes, que no livro “ História de Uberaba....”, à página 84, escreve sobre a “Freguesia de 2 de março de 1820” e à página 86, do mesmo livro, registra que “ Uberaba foi elevada a categoria de CIDADE, pela Lei no.759, e 2 de maio de 1856”. Teria sido ignorância histórica da sra. Manzan, ou má fé, ou coisa que o valha, do prefeito Luiz Guaritá Neto e votos favoráveis dos excelentíssimos senhores vereadores?

Por justiça e um preito de homenagem e gratidão àquele que, hoje, recebe o nome do nosso Arquivo Público, repositório da história de Uberaba e a civilização regional, é mais do que coerente, Uberaba retome o seu normal “ registro de nascimento” como CIDADE e apague, de vez, a conotação de Freguesia, que não representa a nossa realidade. Do seu sacratíssimo mausoléu, Hildebrando Pontes, ficaria eternamente grato.


Luiz Gonzaga de Oliveira



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Cidade de Uberaba

sexta-feira, 29 de março de 2019

Noite histórica

E a casa esteve com sua lotação esgotada na noite da última terça-feira, 26/03/2019. O lugar é a Academia de Letras do Triângulo Mineiro e as presenças foram de universitários representantes dos Diretórios Acadêmicos do IFTM, Fazu, Uniube, UFTM e seus renomados Mestres, além do Programa U+20 e da Diretoria de Turismo da Prefeitura Municipal de Uberaba. Soma-se o apoio do Museu do Zebu da ABCZ, representado por Thiago Ricioppo e Maria Goretti dos Santos, além da empresa Bela Vista Cultural, capitaneada pelo megaeditor Fábio Ávila. Foi uma noite histórica! 

Projetado para ser um evento simples por Carlos Mardegan, como deveras foi, algo beirou as raias do infinito, quando cada um dos presentes, todos amantes das letras, se identificaram com o pensamento do ambiente que era o de valorizar e oportunizar a afloração de suas escritas.

A Casa criada por José Mendonça, Edson Prata e Juvenal Arduini, lá nos idos de 1962, abre espaço para que a juventude se aproxime e almeje ocupar ali uma cadeira, quem sabe a minha (32), no momento oportuno. Em cada olhar, em cada semblante e postura vimos frente a frente jovens, cujas vidas e condutas diferem muito do que comumente assistimos. Usaram o coração e a sensibilidade quando Fábio Ávila chamou alguns deles à frente para declamarem poemas escritos por alunos do ensino médio. Vi lágrimas correrem naquelas faces.

O projeto de entrelaçar os Acadêmicos com estudantes de todos os níveis vem de longa data, porém, para levá-lo à materialização, reconheçamos, havia um caminho longo a percorrer. Com o advento da sede própria doada pela Universidade de Uberaba, esse caminho encurtou sobremaneira. E agora vamos percorrê-lo sempre, realizando eventos de natureza cultural.

A abordagem sobre o Arquivo Público de Uberaba, feita pela Superintendente Marta Zednik de Casanova, e os relatos de Paulo Fernando Silveira, em referência às suas obras, foram pontos de destaque com os quais a nossa Casa de Letras brindou os presentes. Ambos, na condição de Acadêmicos, enfocaram seus temas em nome da Academia.

Nosso Sodalício, como entidade cultural sem fins lucrativos, não tem muito a oferecer no campo material, entretanto, no imaterial seus alcances vão muito além do que as vistas alcançam. O que farão aqueles universitários com o que puderam interagir na data histórica de 26/03/2019 no seio da Academia de Letras do Triângulo Mineiro? Ali estavam vários “Machado de Assis”. Disso não tenho dúvidas. Basta que tenham “uma alavanca e um ponto de apoio”, segundo o sábio Arquimedes. A nossa ALTM sempre será essa alavanca e esse ponto de apoio.


João Eurípedes Sabino -Uberaba/MG/Brasil.

Membro da Academia de Letras do Triângulo Mineiro.

Cronista do Jornal da Manhã e Rádio Sete Colinas.


Cidade de Uberaba

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Advogados, autoridades da comarca e serventuários do Fórum de Uberaba

Advogados, autoridades da comarca e serventuários do Fórum de Uberaba

Advogados, autoridades da comarca e serventuários do Fórum
de Uberaba posam pra foto em 30 de janeiro de 1944
(Foto: Autoria desconhecida/Acervo José Mendonça)



quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

JOSÉ MENDONÇA


Dr.José Mendonça


Nasceu José Mendonça aos 19 de março de 1904, em Uberaba (MG), na Ladeira Brasil, hoje Rua Segismundo Mendes, casa número 42, então propriedade de sua tia e madrinha Ana Joaquina da Silva.

Seus pais, Mário de Mendonça Bueno de Azevedo e Tertuliana Cristina de Azevedo, casaram-se em Patrocínio (MG), onde ele exerceu a profissão de Promotor. Advogado provisionado, transferiu-se para Uberaba, exercendo aqui a profissão por mais de vinte anos.

Mário de Mendonça Bueno de Azevedo era natural de Cristina (MG). Era de nobre e distinta ascendência. Por parte de sua mãe, D. Júlia Drummond Furtado de Mendonça, descendia diretamente da preclara família Drummond, da Escócia, que deu reis ao país e pertencia a sua alta nobreza. Um dos seus membros veio para a Ilha da Madeira, onde se casou na família Furtado de Mendonça, uma das mais antigas e ilustres da Espanha e de Portugal, da qual provieram prelados, magistrados, homens de guerra, políticos, administradores, professores, homens de ciência, jornalistas. E estão no Brasil há mais de quatro séculos.

Pelo lado de seu pai, Francisco de Paula Bueno de Azevedo – administrador dos Correios de Minas, em Ouro Preto, pertencia Mário de Mendonça Bueno de Azevedo, aos Buenos, intrépidos bandeirantes paulistas, do tronco de Amador Bueno.

Entre os mais próximos parentes de Francisco de Paula Bueno de Azevedo, podemos citar Hipólito José da Costa Furtado de Mendonça, o fundador do famoso “Correio Brasiliense”, que se editou em Londres, para pugnar pela causa da nossa independência; os seus tios Lúcio de Mendonça, fundador da Academia Brasileira de Letras e Ministro do Supremo Tribunal; Salvador de Mendonça, também da Academia e nosso embaixador em Washington, os seus primos Jorge de Mendonça, conhecido pintor, Carlos Sussekind de Mendonça e Frederico Sussekind de Mendonça, professores e magistrados no Rio de Janeiro.

Tertuliana Cristina de Azevedo era de humilde família de Patrocínio, no Triângulo Mineiro – Marques Ferreira. Entre os parentes de Tertuliana Cristina, podemos citar os Drs. José Maria dos Reis e Fidélis Reis (filhos da tia avó Escolástica Marques Ferreira e do denodado bandeirante Fidélis Gonçalves dos Reis); Dom Almir Marques Ferreira, bispo; Frei Henrique Marques da Silva, dominicano; Dr. Obregon de Carvalho, professor de direito em Belo Horizonte; Cel. Emídio Marques Ferreira, advogado e uma das mais ilustres personalidades do Triângulo Mineiro e Desidério de Melo, que foi famoso jornalista e deputado estadual por esta região.

Jose Mendonça frequentou a escola do professor Joaquim Flávio de Lima, na praça Comendador Quintino e o Grupo Escolar Brasil.

Concluiu o curso primário na escola de D. Maria Áurea de Faria.

Em 1913, foi estudar no Ginásio Diocesano. Em 1920 e 1921 em São Paulo, no Ginásio Osvaldo Cruz, preparou-se para o ensino superior.

Em 1922, matriculou-se na Faculdade de Direito da Universidade do Rio de Janeiro, concluindo o curso em 1926.
Foi sócio Fundador da Academia de Letras da Faculdade e, foi sempre, representante da turma no diretório acadêmico.
Casou-se em 1930 com Maria Cunha Campos, tendo quatro filhos.

Iniciou sua carreira de advogado na cidade do Prata (MG), transferindo-se para Uberaba após 4 anos (1930), onde atuou com presteza como advogado e jurista, professor, historiador, jornalista, crítico literário, escritor, político, músico e servidor da comunidade.

Deixou duas obras inéditas: História das Américas e Ação Declaratória.

José Mendonça era irmão de Lúcio Mendonça de Azevedo, advogado, escritor e letrista que empresta seu nome ao “Palácio da Cultura Dr. Lúcio Mendonça de Azevedo.

Integrava na singular personalidade de Dr. José Mendonça a sabedoria do coração e da mente. Era dotado de inteligência rara, cultura incomum e alma extremamente sensível, que empregava na realização dos valores que considerava essenciais, como o trabalho, a retidão, a justiça individual e social, a promoção do homem e do meio social em que vive, o aperfeiçoamento pessoal, a humildade, a bondade, o desapego aos bens materiais, a solidariedade e o espírito de serviço.
Revelou toda a imensa sensibilidade de sua alma, ao escrever: “Só têm êxito, realmente, só triunfam na vida, os que são úteis aos seus semelhantes, os que contribuem pelo seu trabalho, pelos seus esforços, por sua generosidade, pelo seu idealismo, para a felicidade e o bom estar do seu próximo, os que cooperam para o aprimoramento espiritual, moral e material da humanidade, os que lutam pela paz, pela fraternidade, pelo direito, pela justiça. Assim, maior êxito tem o que mais serve. Só não vive em vão aquele que é útil ao seu próximo e à humanidade. Os homens mais nobres, os que em verdade vencem nesta vida, são os bons servidores.”

Sempre foi imparcial nos julgamentos e apreciações que fazia. Sua cultura histórica e seu discernimento crítico permitiam-lhe enxergar e sentir os fatos além das simples aparências e exterioridades, pelo que nunca adotou a posição cômoda das generalizações fáceis e precipitadas, considerando o mundo de sua época simplesmente atrasado ou avançado, bom ou ruim. Distinguindo o certo e o errado, aplaudia e estimulava o primeiro, condenava e censurava o segundo. Mas, dotado do profundo espírito construtivo, suas censuras e condenações eram invariavelmente acompanhadas de apelos e sugestões práticas, visando o abandono do erro, a correção das falhas, a mudança de idéias e de atitudes que estavam a comprometer o progresso e o bem estar da humanidade.

Apresentava inúmeras soluções, dependendo do setor de atividade que estava a examinar, o que torna impossível até mesmo a sua simples enumeração. Possível, contudo, apontar uma de suas sugestões básicas, um dos pontos de partida que reputava essencial na árdua caminhada dos homens em busca da paz e da felicidade.

Empolgado com a criação, na época, da Comunidade Européia do “Carvão e do Aço”, do “Mercado Comum”, e do “Euraton”, previa, a partir daí, a formação de “uma só Europa” e acenava, com esse acontecimento histórico, para que todos os povos lutassem sem trégua, sem descanso, obstinadamente, em busca da organização de “um mundo só”.
Muito escreveu sobre este ideal, enfatizando certa vez:

“E, porque não teremos também um mundo só? Hoje, as comunicações econômicas, sociais, culturais entre todos os povos são tão intensas e se fazem com tanta celeridade, que já podemos dizer que constituímos uma única família, a família humana. Por isso, as fronteiras deverão ser consideradas como comunicações e indicações de divisões administrativas. Não devem separar povos que não se compreendem, que não se auxiliem mutuamente, que tenham prevenções uns dos outros, que não se amam.

Como constituir “um mundo só”?

Todos os países abdicarão parte da sua soberania para a organização de um “Governo Mundial” que assegure a paz entre os povos, que resolva, em última instância, as divergências entre as nações, que promova a cooperação de todos, nos domínios da inteligência, da cultura, do trabalho, da economia. Esse “Governo Mundial” conseguirá, sem dúvida, transformar a terra num planeta livre de ódios, de intranqüilidades, de terrores, de angústia. Banirá a guerra, definitivamente.”
Amava a vida e satisfazia-se com pouco. Era trabalhador incansável, que pouquíssimas vezes saiu de férias, pequenas viagens pelo interior ou ao Rio de Janeiro e a São Paulo.

Alegre, expansivo, comunicativo, mas dentro dos limites da sobriedade.

Eram-lhe essenciais o convívio diuturno com sua esposa, que sempre teve como parte integrante e indissociável dele, o contato permanente com os filhos, o remanso do lar e a leitura.

Causavam-lhe viva alegria os encontros com os amigos que eram muitos. Apreciava a boa mesa e o bom vinho. Em tudo, era um simples.

Faleceu no dia 04 de junho de 1968, aos 64 anos de idade, em conseqüência de um enfarte do miocárdio.
Silenciou José Mendonça, mas permaneceu na saudade e no reconhecimento daqueles que o conheceram.
Foi um simples, humilde, teve o coração puro, possuiu a terra e chegou a Deus.


Fonte: Paolinelli, Sônia Maria Rezende. Coletânea Biográfica de Escritores Uberabenses. Uberaba (MG): Sociedade Amigos da Biblioteca Pública Municipal “Bernardo Guimarães”, 2009. 121 p