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domingo, 7 de junho de 2020

AS FESTIVIDADES DE MAIO EM UBERABA

PASSOU o primeiro de maio, sem alarde de manifestantes; dois de maio, sem comemoração tradicional do aniversário da cidade; três de maio, sem inauguração da Exposição no Parque Fernando Costa, sem baile do governador no Uberaba Tênis Clube, sem Schroden, nem Prieto ou Akira explodindo flashes e tirando fotos de políticos que eram ídolos do país – pasmem, mas naquele tempo existia isso! – acenando para multidões ou levando às pistas de dança as moças mais lindas da cidade, no dois-pra-lá, dois-pra-cá ou nos rodopios embalados pelas melhores orquestras do país e da cidade.

JK com Daça Rodrigues da Cunha, hoje Barbosa, em desfrute no Baile do Presidente, Jockey Club de Uberaba

Mas ainda é dia cinco de maio e, se me permitem, podemos entrar no clima daquelas festividades que se prolongavam até dia 10. Portanto, estamos dentro do período festivo e, usando de artifício – uma janela para a história –, retomamos a época de ouro que fez de Uberaba referência nacional de elegância e savoir vivre.

Adalberto Rodrigues da Cunha com o presidente Getúlio Vargas

Para resumir o período, os anos de 1940, 1950 e até 60 foram fascinantes para a classe média alta uberabense – mulheres de longos e homens de smoking, levando o glamour ao apogeu – e tiveram como ícones dois dos maiores políticos brasileiros: Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek. Ambos se encontravam em Uberaba durante as exposições de gado, arregimentando profissionais de todas as áreas, da segurança aos bufês, no rigoroso sistema de segurança, no caso do Pai dos Pobres (Vargas).

Tancredo Neves, Celuta Leite Rodrigues da Cunha, Juscelino Kubitschek e o prefeito Antônio Próspero

Para quem os viveu, aqueles momentos foram “coisa de cinema”. Para quem não fez e aconteceu por lá, entre beldades e autoridades, a salvação vem através do acesso que eu tive, e agora o leitor, em versão reduzida, aos álbuns de fotografia de Dadaça Barbosa – guardiã da memória da família. Estas relíquias trazem de volta a memória da casa paterna. Era na residência de seus pais que Getúlio Vargas se hospedava e a magia dos anos 50 ressoa através das imagens congeladas em papel de qualidade.

Elegância dos homens de smoking em jantar chez Celuta e Adalberto

A residência de Celuta e Adalberto Rodrigues da Cunha, presidente por 15 anos da Sociedade Rural do Triângulo Mineiro (leia-se ABCZ), tinha aspecto cerimonioso no período da Exposição, pois lá se hospedava o presidente Getúlio Vargas, amado pelas mulheres, que com ele alçaram o direito a voto, e admirado pelos homens, que, com ele, obtiveram carteira de trabalho e aposentadoria. Tido por vários historiadores como o maior estadista brasileiros de todos os tempos, Getúlio chegava com seu entourage, incluindo militares de destaque, seguranças e a guarda montada, que fazia a ronda, 24 horas/dia, pelo quarteirão compreendido entre Segismundo Mendes, Alaor Prata, praça Manuel Terra e Leopoldino de Oliveira, local da residência.

Três mesas para o banquete; confiram os detalhes

Os hostess se adaptavam muito bem às exigências protocolares do hóspede famoso. Getúlio ocupava a suíte do casal – o quarto, propriamente dito, mais quarto de vestir (closet), banheiro e terraço, com vista para os jardins e para a avenida [não seria boulevard o nome correto?] –, por onde corria o córrego a céu aberto, arborizada por imensas tipuanas. Gregório, o homem de confiança do presidente, depois ditador, hospedava-se no quarto ao lado, dito “das crianças”. No anexo da casa, que, no futuro, seria transformado em boate, se juntavam os vários seguranças.

1956 – Chiquérrimo Adalberto com JK, no Parque Fernando Costa

Crianças, em casa, nem pensar. Antônio Carlos, Soninha, Dadaça, Luiz Carlos e Rosinha (Joãozinho ainda não era nascido) chispavam para a casa da avó, Lídia Leite. As empregadas domésticas entravam com Getúlio e só podiam sair da casa na despedida dele. Nada de entrar pela manhã e sair à noite.


Outro momento de JK e Adalberto no Parque de Exposição

A casa, projetada e construída pelo arquiteto austríaco Carlos Simoneck, em torno de 1942, se adequava, perfeitamente, aos jantares oferecidos a Getúlio Vargas e demais personalidades do mundo político nacional. Às vezes, à mesa de jantar se somavam duas outras, no formato de U, criando o aspecto tradicional de banquete. Sobre o toalhado de linho bordado em richelieu, vindos da Ilha da Madeira, os grandes arranjos de crisântemos, replicados nas corbeilles, ao fundo das salas, ampliavam o requinte da decoração.
Celuta e Adalberto recebiam como poucos e procuravam descontrair o ambiente em momento de cerimonial rigoroso.

Luiz Carlos, Renato e Soninha, Rosinha, Juscelino e Dadaça no Baile do Presidente, Jockey Club de Uberaba

Vargas não era homem de pista de dança, mas, numa das exceções, enlaçou Vitória Helena pela cintura, no salão do Jockey Club, no embalo de alguns ritmos da época; um bolero, possivelmente.


Rodney, fi lho de Maria Alice e o médico Carlos Smith

Os filhos de Celuta e Adalberto só tiveram acesso aos bailes quando, já grandinhos, Juscelino Kubitschek, que antes se hospedava na mansão de Marico Rodrigues da Cunha (Hotel Tamareiras), ocupou a Presidência da República, num dos períodos mais vertiginosos da vida brasileira. JK, sim, era pé-de-valsa, e queria dançar, de preferência a noite toda, com todas as belas do baile.

Estatueta do presidente Getúlio Vargas: coleção historiadora Sônia Fontoura

Que seja agradável a viagem do leitor ao futuro do pretérito desta história! Eu gostaria... eu poderia... Mas não pode mais. Uma pena! Viajar neste futuro somente Woody Allen, em “Era uma Vez em Paris”. Pois vamos às fotografias e desfrutemos delas, com agradecimentos à Dadaça!

(Jorge Alberto Nabut _Uma primeira versão desse texto foi publicada no Jornal da Manhã, em 05/05/2020 )






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TAPETE VOADOR

• Preservação - A residência de Celuta e Adalberto foi salva da destruição ao ser comprada, restaurada e adaptada para atender à Boticário. Um dos raros exemplos bem-sucedidos de utilização do patrimônio arquitetônico da cidade.

• Uma árvore de lembrança - Como lembrança da avenida de sua infância e juventude, Dadaça plantou em sua residência uma tipuana. Nada mais coerente com sua história de vida.

• Caindo na real - Agora, sim, podemos fechar o álbum, respirar fundo e retomar a realidade, tão exasperadora do período em que nos encontramos, dominados por um inimigo comum e invisível, possivelmente criado para nos devastar da face da Terra e denominado Covid-19.

• Choradeira – O amor do brasileiro por Getúlio Vargas era tamanho que, no dia em que ele se suicidou – 24 de agosto – a confeiteira que fazia o bolo para um aniversário saiu chorando e foi um custo para trazê-la de volta ao ofício.

• Bonequinho – Paixão por Getúlio levava brasileiros a colocarem foto dele na sala de visitas e a adquirir imagens do presidente, como fizeram os pais da historiadora Sônia Fontoura, que a conserva como preciosidade.

• Morte de Getúlio – O país praticamente entrou em pânico com a morte de Getúlio Vargas. As revistas traziam na capa a inumerável multidão que acompanhou seu corpo até o aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro. Minha mãe guardou o exemplar da Manchete como relíquia.

• Getúlio no carnaval – Getúlio Vargas foi tema de várias marchinhas de carnaval e uma delas o leitor poderá se deliciar na nossa edição online de hoje. Trata-se de “A Menina Presidência” (1937), de Nássara e Cristóvão Alencar, na interpretação de Sílvio Caldas.

• A Menina Presidência - A marchinha brinca com as idas e vindas da campanha eleitoral de 1936/37. No momento em que a música foi gravada, duas candidaturas pareciam destinadas a polarizar a disputa: a do paulista Armando Salles, seu Manduca, pela oposição, e a do gaúcho José Américo de Almeida, seu Vavá, um dos principais nomes da Revolução de 30, pelo governo.




** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do JORNAL DA MANHÃ e UBERABA EM FOTOS

O conteúdo é de responsabilidade exclusiva do autor.


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Cidade de Uberaba



domingo, 19 de janeiro de 2020

MÉDICOS NA CADEIA



Nos últimos dias de novembro de 2019, reuniu-se em Uberaba um pequeno grupo de médicas e médicos veteranos. Alguns são da região, outros vieram de longe especialmente para o evento: Arlindo Pardini (de Belo Horizonte), Benito Ruy Meneghello, Hiroji Okano e Nilza Martinelli (de Uberaba), Honório Gomes de Mello (de Goiânia), José Ernesto Teixeira (de Brumadinho) e Zoé Sellmer (de São Paulo). Tinham em comum – além dos cabelos brancos, da longa experiência e da consagração na profissão que escolheram – a emoção de um reencontro: comemoravam os 60 anos de sua formatura na então Faculdade de Medicina do Triângulo Mineiro. No final do distante ano de 1959, a FMTM concretizou a ousadia de um antigo sonho ao entregar os diplomas para sua primeira turma de doutorandos. E Minas Gerais passou a ter, de fato, mais uma faculdade de medicina.

Década de 1920 – a recém inaugurada Penitenciária de Uberaba, prédio construído pelos arquitetos italianos Luigi Dorça e Miguel Laterza. Foto do acervo do Arquivo Mineiro
Desde o início do século XX, Uberaba era um centro médico importante. Viajantes chegavam todos os dias das imensidões do sertão brasileiro em busca de atendimento. Com o tempo, multiplicaram-se os consultórios médicos, as clínicas, casas de saúde e hospitais. Era comum que os filhos dos pecuaristas e das demais famílias abastadas da cidade fossem estudar medicina fora – em geral no Rio de Janeiro ou em São Paulo, mas por vezes até no exterior. Formados e especializados, retornavam a cidade para exercer a profissão. A eles se juntavam médicos de vindos de outras partes do Brasil, atraídos pela promessa de uma clínica farta. Muitos conciliavam a prática médica com as atividades rurais – uma combinação que se tornou usual na região.

1953 (circa) – Prédio da penitenciária em obras para receber a Faculdade de Medicina. Fotógrafo não identificado.
Minas Gerais já era o terceiro estado mais populoso do Brasil, mas contava somente com a Faculdade de Medicina de Belo Horizonte. Fundada em 1911 e mais tarde incorporada à Universidade Federal (UFMG), foi lá que formou-se médico o futuro presidente da república Juscelino Kubitschek de Oliveira. Em janeiro de 1951, JK elegeu-se governador de Minas Gerais pelo PSD, com apoio de diversos partidos e a promessa de dar uma cara nova ao estado. Além do binômio “Energia e Transporte”, Juscelino queria aumentar o número de médicos. Decidiu apoiar duas iniciativas de abrir novas faculdades: uma em Juiz de Fora e outra no Triângulo Mineiro.

23 de março de 1954 – No Palácio Rio Negro (Petrópolis, RJ), o presidente Getúlio Vargas entrega ao deputado Mário Palmério a autorização de funcionamento da Faculdade de Medicina do Triângulo Mineiro. Foto do acervo do Arquivo Nacional.
Na época, Uberaba dava mostras de que estava vencendo uma antiga maldição: desde a fugaz experiência com o Instituto Agrotécnico (que entre 1895 e 1899 formou uma única turma de engenheiros agrônomos) a cidade colecionava fracassos nas tentativas de montar escolas de ensino superior. Até que, em 1947, o professor Mário Palmério – já dono do Colégio Triângulo e da Escola Técnica de Comércio – colocou em funcionamento uma Faculdade de Odontologia e, quatro anos mais tarde, um curso de Direito. Paralelamente, as Irmãs Dominicanas davam início à montagem do que se tornaria a FISTA – Faculdades Integradas São Tomás de Aquino. Mas com JK à frente do governo mineiro, Palmério – que havia sido eleito deputado federal pelo PTB – resolveu dobrar a aposta e buscou seu apoio para abrir na cidade uma faculdade de medicina,

1955 (circa) – Praça do Mercado e o prédio da Faculdade de Medicina, ainda em obras. Ainda não haviam sido erguidos os pavilhões nos fundos do prédio original. No canto direito, a Faculdade de Odontologia. Foto Postal Colombo.

        04 de maio de 1957 – Juscelino Kubitschek vem a Uberaba para a inauguração da Exposição de Gado Zebu. Estudantes se manifestam, pedindo a federalização da Faculdade de Medicina. Foto do acervo do Arquivo Nacional.

03 de maio de 1956 – Já como Presidente da República, Juscelino Kubitschek visita Uberaba e inaugura oficialmente o prédio da FMTM. Foto do acervo do Arquivo Nacional.
1960c – Prédio da FMTM nos primeiros anos de funcionamento da faculdade. Foto do acervo do IBGE.

Junho de 1968 – Alunos e professores da UFTM defronte ao prédio da faculdade. Foto publicada em matéria da revista semanal Manchete, do Rio de Janeiro.

Julho de 2013 – Prédio da Faculdade de Medicina da UFTM ao cair da noite. Foto de André Lopes.

Embora não fosse da região, Juscelino tinha um histórico de proximidade com Uberaba. Em 1934, acompanhou o interventor Benedito Valadares na visita a Exposição Agropecuária e deu início ao hábito de frequentar as feiras de gado zebu. Isso não impediu que, em abril de 1952, a cidade fosse palco de uma assombrosa revolta popular contra um aumento de impostos estaduais promovida por seu governo, que só foi contida por tropas enviadas da capital e resultou em dezenas de uberabenses presos. O motim deixou claro que crescia a força do movimento separatista do Triângulo Mineiro, que tinha em Palmério um dos seus entusiastas.

Velha raposa política, JK aproveitou a oportunidade para estreitar os laços com a região. Poucos dias depois da revolta, desembarcou na cidade em companhia do presidente Getúlio Vargas, de quem era fiel aliado. Reza a lenda que teria prometido transformar o belo prédio da praça do Mercado – construído em estilo eclético na década de 1910, por Luigi Dorça e Miguel Laterza, para sediar uma penitenciária estadual – em uma faculdade de medicina. No ano seguinte, um projeto de lei foi aprovado pela Assembleia Legislativa mineira cedendo o prédio e fornecendo apoio financeiro estadual ao projeto. Coube ao presidente Vargas autorizar o funcionamento do curso em 23 de março de 1954. O médico Mozart Furtado Nunes foi escolhido como o primeiro diretor, à frente de um grupo inicial de 18 professores. No mês seguinte, JK veio a Uberaba para dar pessoalmente a aula inaugural para os alunos aprovados no primeiro vestibular.

Estudar medicina deixava de ser um privilégio das famílias muito ricas da região mas, por alguns meses, os calouros da nova faculdade dividiram o grande prédio, ainda em obras, com algumas dezenas de detentos, que continuavam encarcerados no andar superior. “Eles gostavam da nossa presença: nos pediam cigarros, comida e conselhos médicos”, contou no evento o Dr. Hiroji Okano. Parte das aulas eram ministradas nas salas e laboratórios da Faculdade de Odontologia.

Eleito Presidente da República em 1955, JK relutou, mas acabou cedendo à pressão dos estudantes e da comunidade uberabense que pediam a federalização da escola, Em 1960, Uberaba passou a contar com seu primeiro curso superior público e gratuito. Com o passar dos anos, a FMTM ganhou cursos de pós graduação, programas de pesquisa e residência médica, angrariando respeito e prestígio dentro da comunidade científica brasileira e internacional. A partir do final dos anos 1980, novos cursos de graduação e pós graduação foram abertos na área de saúde. Em 2005, durante o governo do presidente Lula, a FMTM foi enfim transformada em uma Universidade Federal.

(André Borges Lopes / Uma primeira versão desse texto foi publicada na coluna Binóculo Reverso do Jornal de Uberaba em 08/12/2019)


terça-feira, 17 de dezembro de 2019

O ITALIANO QUE MUDOU A FACE DA CIDADE

O que têm em comum em nossa cidade o sobradão da Câmara Municipal, a Santa Casa de Misericórdia, a velha Fábrica de Tecidos do São Benedito, os prédios do Senai/Fiemg, a capela do Colégio Nossa Senhora das Dores, a sede da Associação Comercial, o Asilo Santo Antônio e o Sanatório Espírita? Todos esses prédios – entre centenas de outros menos conhecidos – têm a mão daquele que foi o maior dos construtores que repaginaram a cidade de Uberaba na primeira metade do século passado: o imigrante italiano Santos Guido.

Santos Guido (de terno claro), Alfredo Sabino, José Mendonça e Odilon Fernandes
 em reunião do Rotary Club de Uberaba, 1963.Fotógrafo não identificado / Casa do Cinza

Nascido na pequena vila de Scigliano, na região da Calábria (a ponta da “bota” no sul da Itália) em outubro de 1889, Santos Guido chegou em Uberaba ainda muito jovem. Em 1913, com pouco mais de 20 anos de idade, foi um dos fundadores da Liga Operária local – provavelmente a primeira das iniciativas associacionistas que marcaram a sua vida em nossa cidade. “Oriundi” orgulhoso de suas origens, foi um dos fundadores (e primeiro presidente) do time de futebol Palestra Itália de Uberaba, em 1918. Nas décadas seguintes, trabalhou pela estruturação da Associação Comercial e da liga “Fratelanza Itália”. Foi ainda membro do Rotary Clube e da Loja Maçônica “Estrela Uberabense”.

Prédio em estilo Art Decó onde funcionava a carpintaria e o depósito de materiais de construção das Indústrias Santos Guido na década de 1930 (Praça Comendador Quintino, esquina com Rua Henrique Dias). Foto do Google, em julho de 2011.

Mas foi no ramo da construção civil que Santos Guido se destacou. Engenheiro e arquiteto autodidata, operário, marceneiro e dono de lojas de materiais de construção, Guido já era, no início da década de 1930, o mais renomado construtor da cidade. No triênio 1928-1930, mudanças no código de obras municipal haviam obrigado os proprietários a alterar as fachadas das edificações construídas defronte às ruas do centro. Saíam de cena as velhas casas coloniais, com os beirais dos telhados pendurados sobre as calçadas, para dar lugar às novas fachadas retas com platibandas decoradas. O historiador Hidelbrando Pontes atribui a Santos Guido “a introdução das ordens civis modernas” em nossa cidade: normas técnicas e urbanísticas que disciplinaram a construção civil.

Localização onde funcionou a serraria das Indústrias Santos Guido entre o início da década de 1930 e meados dos anos 1960. Trecho inicial da atual Avenida Odilon Fernandes.
Detalhe de planta da cidade elaborada por Gabriel Totti em 1956.

Em dezembro de 1934, o jornal Lavoura e Comércio dedicou uma matéria de uma página (escrita por um cronista que assinou apenas P. S.) sobre as empresas de Santos Guido. O construtor era dono de uma grande serraria – situada na baixada da atual avenida Dr. Odilon Fernandes, ao lado da praça da Concha Acústica – onde grandes toras de madeira de lei se transformavam em tábuas, caibros e vigas. Na esquina das ruas Martim Francisco e Henrique Dias, um elegante predinho em estilo “art déco” abrigava sua carpintaria e um depósito de materiais de construção. Na praça Rui Barbosa, quase defronte ao Paço Municipal, ficavam os escritórios. As empresas somavam uma centena de empregados e Santos Guido era o maior cliente da companhia de luz e força da cidade (o consumo só perdia para o da fábrica de tecidos, que dispunha de usina própria).

Matéria especial sobre Santos Guido, publicada na edição de 24/25 de 
dezembro de 1934 do jornal uberabense Lavoura e Comércio.

Perguntado sobre quantas casas havia construído até então, Santos Guido não soube responder. Dizia ele que ao menos um terço das casas do centro havia passado por suas mãos, na construção ou em reformas. E que nos dois terços restantes, certamente havia alguma madeira, cal ou cimento fornecido por suas lojas. Laços familiares ampliavam essa participação. Sua irmã, Rosina Guido, casou-se com outro importante empreiteiro italiano estabelecido em Uberaba: Miguel Laterza, um dos construtores da igreja de São Domingos.

Detalhe do caminhão das indústrias Santos Guido na Praça Rui Barbosa. Lavoura e Comércio, 24/12/1934

Santos Guido também foi, por décadas, o maior construtor de obras públicas do município e um inovador em diversos setores. Trouxe à cidade o primeiro caminhão pesado movido a óleo diesel (provavelmente um Fiat 642N italiano), introduziu um estilo de residências recuadas em relação à rua do tipo “bungalow” – um contraponto menos suntuoso aos antigos “palacetes” – e foi um dos entusiastas e construtores da primeira piscina pública de Uberaba: no clube da Associação Comercial, na rua Manoel Borges, inaugurada em janeiro de 1936.

Caminhão italiano pesado Fiat 642N fabricado no início dos anos 1930. Provavelmente, do mesmo modelo utilizado pelas indústrias Santos Guido, primeiro caminhão movido a óleo diesel de Uberaba.
Foto: Wikipedia

Um de seus filhos, João Guido, formou-se engenheiro na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. No final dos anos 1940, passou a dirigir a empresa – renomeada Santos Guido & Filhos – ao lado do pai. Duas décadas mais tarde, foi eleito prefeito municipal. Aliviado do cotidiano dos negócios, Santos Guido dedicou-se ao associativismo, à militância política e a obras de filantropia. Foi delegado local da Federação das Indústrias e presidente por vários mandatos do asilo Santo Antônio.

Embarque de gado zebu em um avião Curtiss C-46 no aeroporto de Uberaba em junho de 1948. Detalhe do caminhão das Indústrias Santos Guido & Filhos Ltda.
Foto de J. Schroden Jr.

“Santos Guido não tem seu nome ligado à história de Uberaba”, dizia P. S. na premonitória crônica de 1934. “Não venceu exércitos nem comandou legiões de eleitores. Mas fez mais do que isso. Fez casas para muita gente que hoje, metida dentro de quatro paredes confortáveis, nem sequer se lembra das mãos do artista que delas fez a planta, que as elevou e que sobre elas arranjou as telhas”. O construtor faleceu em 1982, pouco antes de completar 93 anos de idade. São raras as suas fotos e não consta que alguém tenha publicado sua biografia.

Palanque de recepção ao presidente Getúlio Vargas em maio de 1953, na praça Rui Barbosa. No canto direito superior, um detalhe dos escritórios das Indústrias Santos Guido no centro da cidade.
Foto do Arquivo Nacional.

(André Borges Lopes / uma primeira versão desse texto foi publicada na coluna "Binóculo Reverso" do Jornal de Uberaba em 24 de novembro de 2019. )

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Cidade de Uberaba


segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Almoço realizado na chácara do Sr. Mário de Almeida Franco

Almoço realizado na chácara do Sr. Mário de Almeida Franco
Almoço realizado na chácara do Sr. Mário de Almeida Franco, em homenagem a visita do presidente Getúlio Vargas a XVIII Exposição de Feira Agropecuária. Sentados da esq. para dir.: Carlos Smith (presidente da Sociedade Rural do Triângulo Mineiro), presidente Getúlio Vargas, governador de Minas Gerais Juscelino Kubitschek, Ministro da Justiça Negrão de Lima e o prefeito de Uberaba Antônio Próspero.

Ano: 1951

Foto: Autoria desconhecida


Fonte: Universidade de Uberaba (Uniube)


Cidade de Uberaba

domingo, 30 de dezembro de 2018

A história do "Edifício A Equitativa"

Na história de Uberaba, houve momentos em que algumas coisas deram tão errado que chegou-se a suspeitar que havia alguma praga ou maldição atrapalhando o progresso local. Um dos casos emblemáticos foi o do edifício “A Equitativa”: aquele que deveria ter sido um dos primeiros – e o mais moderno – arranha-céu do interior de Minas Gerais, transformou-se de sonho em pavoroso esqueleto que, por décadas, assombrou o centro da cidade.

Fundada em 1896, a sociedade mútua de seguros gerais “A Equitativa dos Estados Unidos do Brasil” foi uma das maiores companhias seguradoras nacionais na primeira metade do século passado – chegando a contar com mais de dois milhões de clientes em sua carteira. A empresa tinha como sócio o governo federal e vendia seguros de vida individuais, imobiliários e para empresas. Em São Paulo e no Rio de Janeiro, seus escritórios ocupavam edifícios imponentes nos centros das cidades.

Não se sabe exatamente quando “A Equitativa” começou a atuar em Uberaba, mas no início dos anos 1930 encontramos na imprensa anúncios e notícias sobre representantes na região. Os negócios prosperaram durante os anos da ditadura de Getúlio Vargas, e a empresa tinha o costume de sortear prêmios em dinheiro aos segurados, publicando nos jornais grandes anúncios com o nome dos contemplados. Os representantes regionais Joaquim Cunha Campos e Fernando Sabino Júnior eram figuras de destaque na cidade e participavam ativamente na Associação Comercial.

A Equitativa dos Estados Unidos do Brasil.

Por conta disso, foi grande o entusiasmo quando, em junho de 1942, a Equitativa realizou um grande evento para anunciar que pretendia construir um “majestoso edifício” para seus escritórios regionais no centro de Uberaba. O terreno ficava nos fundos da Companhia Telefônica local, bem ao lado de onde estavam sendo canalizados os córregos e pavimentadas as futuras avenidas Leopoldino de Oliveira e Fidélis Reis. O prédio, com mais de 10 andares em concreto armado, iria se juntar ao do Grande Hotel – inaugurado na ano anterior – dando impulso à verticalização e ao progresso da cidade, que vivia um dos apogeus da pecuária do Zebu.

O coquetel de lançamento contou com a presença de René Cassinelli, gerente geral da companhia, que veio do Rio para a ocasião. Uma caixa de aço contendo os jornais do dia e cartões de visita de todos os participantes foi concretada dentro da pedra fundamental do edifício, no meio do terreno. Matérias de página inteira, com fotos dos eventos, estamparam os jornais nos dias seguintes. Muita fumaça para pouco fogo: a construção prometida não começou. A entrada no Brasil na 2ª Guerra e a crise do Zebu em 1944 e o fim do governo Vargas congelaram o projeto.

Nova tentativa foi feita dez anos depois. Em maio de 1952, Getúlio era novamente Presidente, dessa vez pelo voto. Ele o governador Juscelino Kubitscheck vieram à cidade para inaugurar a Exposição e aproveitaram para relançar em grande estilo o prédio, rebatizado como “Edifício Getúlio Vargas”. Dessa vez, havia plantas, desenhos e maquetes do arranha-céu, que apresentava linhas modernas e conceitos sofisticados para a época: lojas no térreo com pé direito duplo, dois andares de escritórios – onde ficaria a sede da seguradora – e três apartamentos residenciais em cada um dos andares superiores. No 11º piso, um amplo salão com uma marquise de formato irregular, rodeada por um terraço jardim, semelhante aos projetos de Artacho Jurado, que faziam sucesso em São Paulo no início dos anos 1950.

De novo, muito barulho e pouca ação. Vargas suicidou-se dois anos depois, sem que as obras do prédio que levava seu nome tivessem começado: somente em 1955 foram concluídas as fundações. Nos dois anos seguintes, os andares foram sendo erguidos e, no final de 1957 a Equitativa instalou-se provisoriamente no andar térreo e colocou à venda os primeiros apartamentos. Por fim, parecia que a obra ia sair.

Uma nova decepção: a seguradora entrou em uma crise financeira e não concluiu as obras. Em 1966, o governo militar encerrou as atividades da empresa, dando início a uma longa liquidação judicial, atrasada por processos trabalhistas. O prédio inacabado passou as décadas seguintes em abandono, servindo de outdoor para anúncios de uma marca de televisores. Só em 1977 as obras foram retomadas. Dois anos depois, os apartamentos foram colocados à venda, no rebatizado “Edifício Everest”. O prédio arrojado dos anos 1950 já estava obsoleto: não tinha garagens para os moradores, o “terraço jardim” fora suprimido e o centro da cidade começava a perder a atração como lugar residencial.


Andre Borges Lopes





Cidade de Uberaba

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

RODOLPHO MACHADO BORGES E O PRESIDENTE GETÚLIO DORNELLES VARGAS

Presidente Vargas e o criador Rodolpho Machado Borges


Ano: 1939

O criador Rodolpho Machado Borges, apresenta ao presidente Getúlio Vargas e ao Ministro da Agricultura Fernando Costa, o gado Indubrasil de registro número 5.

Acervo: Museu do Zebu

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

ALMOÇO REALIZADO NA CHÁCARA DO SR. MÁRIO DE ALMEIDA FRANCO, EM HOMENAGEM A VISITA DO PRESIDENTE GETÚLIO VARGAS

Getúlio Vargas e autoridades na chácara do Sr. Mário de Almeida Franco


Almoço realizado na chácara do Sr. Mário de Almeida Franco, em homenagem a visita do presidente Getúlio Vargas a XVIII Exposição de Feira Agropecuária. Sentados da esq. para dir.: Carlos Smith (presidente da Sociedade Rural do Triângulo Mineiro), presidente Getúlio Vargas, governador de Minas Gerais Juscelino Kubitschek, Ministro da Justiça Negrão de Lima e o prefeito de Uberaba Antônio Próspero.
Ano: 1951
Foto: Autoria desconhecida
Fonte: Universidade de Uberaba (Uniube)

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

ESCOLA ESTADUAL MINAS GERAIS - UBERABA

Escola Estadual Minas Gerais

NESSE ANO DE 2014 A ESCOLA ESTADUAL MINAS GERAIS COMPLETA 70 ANOS. A ESCOLA FOI INAUGURADA EM 1944, PORÉM O PRÉDIO DA ESCOLA LOCALIZADO NA PRAÇA FREI EUGÊNIO FOI CONSTRUÍDO NO ANO DE 1929 MANTENDO SUAS CARACTERÍSTICAS ORIGINAIS. DURANTE O SÉCULO XX AS ESCOLAS ERAM CHAMADAS DE GRUPOS ESCOLARES, O ENTÃO GRUPO ESCOLAR MINAS GERAIS FOI O SEGUNDO A SER FUNDADO EM UBERABA. A LEI DE CRIAÇÃO DO GRUPO DATA 1927, NO ENTANTO, DEVIDO A UMA SÉRIE DE ACONTECIMENTOS POLÍTICOS A INAUGURAÇÃO DA ESCOLA SÓ FOI POSSÍVEL 17 ANOS DEPOIS. ATÉ ESSA DATA A POPULAÇÃO ANSIAVA POR MAIS UMA INSTITUIÇÃO DE ENSINO PRIMÁRIO EM UBERABA. O PRÉDIO ONDE HOJE ESTA A ESCOLA ABRIGOU SOLDADOS E ENFERMARIA DURANTE A DÉCADA DE 1930 JÁ QUE O BATALHÃO DA CIDADE NA ÉPOCA NÃO SUPORTAVA A DEMANDA DE HOMENS DEVIDO A CHAMADA “REVOLUÇÃO DE 30” PELA QUAL GETÚLIO VARGAS CHEGOU AO GOVERNO DO PAÍS. COM A CONCLUSÃO DAS OBRAS DO NOVO BATALHÃO NO ALTO DO FABRÍCIO O SEGUNDO GRUPO ESCOLAR DE UBERABA PASSOU A RECEBER ALUNOS E ATÉ HOJE É UMA DAS PRINCIPAIS REFERENCIAS EM EDUCAÇÃO BÁSICA EM UBERABA.