terça-feira, 2 de junho de 2026

ALDO ROBERTO, O TL DO CAZARRÉ E O TEU DA RUA ALAOR PRATA

Volkswagen TL semelhante ao que pertenceu ao ator Older Cazarré e que protagonizou uma divertida história nos bastidores do Teatro Experimental de Uberaba, na década de 1970. Foto de acervo de Uberaba em Fotos.

Vou contar um episódio que aconteceu comigo, com Aldo Roberto Silva, o Salsichachau e o Natal Raphael, hoje barbeiro, filho do saudoso Domingos Caparrelli, o “General Barbeiro”.

Isso aconteceu em meados da década de 1970, na porta do Teatro Experimental de Uberaba, que funcionava na Rua Alaor Prata, nº 20.

Naquele dia estava em cartaz a peça Marido, Matriz e Filial, estrelada pelo ator Older Cazarré, ao lado das atrizes Ivete Bonfá e Georgia Gomide.

Eu e o Natal tínhamos 12 ou 13 anos. Éramos amigos de infância e vizinhos.

Já Aldo Roberto Silva, além de ator e diretor, fazia de tudo no teatro: cenografia, figurino, iluminação, maquiagem e até faxina quando precisava.

Quando morou em São Paulo, Aldo chegou a fazer novela de rádio e fez amizade com vários atores e atrizes. Depois passou a convidá-los para trazer suas peças para se apresentarem em Uberaba.

No teatro havia um bar, e todo o caixa era responsabilidade do Aldo. Eu e o Natal ajudávamos durante o intervalo das peças, servindo o público.

O elenco de Cazarré entraria em cena às 19 horas.

De repente, o Aldo percebeu que tinha esquecido de comprar gelo. Na mesma hora pediu a chave do carro ao Cazarré, um Volkswagen TL azul, impecável, dizendo que iria comprar gelo e voltaria rapidinho.

Cazarré respondeu na hora:

"Nunca! "Aqui não". "Não empresto o carro!"  "Você não sabe dirigir!"

Mas o Aldo era bom de conversa e insistiu tanto que acabou convencendo o ator a emprestar o carro.

E lá fomos nós três: Aldo ao volante, eu no banco da frente e o Natal no banco de trás.

Na hora de sair, o Aldo apanhou um pouco para engatar a marcha e não conseguiu controlar direito a embreagem. O carro deu um arranco, voltou um pouco em diagonal e acabou batendo em outro carro que estava estacionado, amassando a lateral direita do lado do passageiro.

A lata era dura, mas afundou o paralama e chegou a apertar o pneu. O Aldo e algumas pessoas que estavam por perto puxaram a lataria para não pegar na roda.

Nessa hora já tinha gente olhando, porque o movimento na porta do teatro começava a aumentar.

O Aldo olhou o estrago e disse com a maior calma do mundo:

" Ahhh… isso é só um amassadinho de nada."

Entramos no carro novamente e ele saiu cantando pneus.

Enquanto isso, já começava a formar fila na porta do teatro.

Fomos primeiro na peixaria Pororoca, no final da Rua Tristão de Castro. Não tinha gelo.

Seguimos então para a Pescave, na Avenida Prudente de Moraes. Lá conseguimos o gelo.


Foi nesse momento que descobrimos uma coisa: o Aldo era “barbeiro” no volante.

Na volta, faltando poucos minutos para começar a peça, o Cazarré estava na porta do teatro esperando, com as veias do pescoço saltadas de nervoso.

"Aldo, eu te mato!"

O Aldo, tranquilo como sempre, respondeu:

"É só um arranhadinho de nada… sua peça cobre isso e ainda sobra dinheiro! Cazarré para de birra".

Cazarré continuou esbravejando até chegar ao bar.

Então o Aldo abriu um refrigerante, deu um beijo no Cazarré e tudo terminou em risada.

No dia seguinte, mesmo com o carro amassado, o Cazarré seguiu viagem com as atrizes para Araxá.

Peguei esta foto apenas para ilustrar o carro, um Volkswagen TL semelhante ao que o ator Older Cazarré tinha na época, usado naquela corrida atrás de gelo antes da peça no Teatro Experimental de Uberaba, na Rua Alaor Prata, em Uberaba.

Antônio Carlos Prata

BAR L&M, TRADIÇÃO E PROSA BOA DESDE 1978

Fachada do Bar L&M. Foto Antônio Carlos Prata.

Fundado em 1978, o Bar L&M, dos irmãos Luiz e Marcos, é um marco tradicional de Uberaba. Localizado na Rua Governador Valadares, 350, o bar se tornou ao longo dos anos um verdadeiro ponto de encontro de amigos.

Ali, o ambiente é simples, bem ventilado e acolhedor, lugar onde o freguês chega, encosta o cotovelo no balcão, puxa uma prosa, conta um causo e deixa a conversa correr solta.

No cardápio, o cliente encontra clássicos de boteco que conquistaram gerações: torresmo crocante, o famoso bauru dos deuses, tilápia ao alho, frango a passarinho, carne de panela com mandioca frita, além de salgados e diversas porções caprichadas.

Para acompanhar, todas as marcas de cerveja sempre bem geladas, do jeito que o brasileiro gosta.

Com o passar do tempo, o bar ganhou apelidos carinhosos. Muitos o chamam de “Bar do Cotovelo”, por estar localizado bem na virada da rua,  ponto perfeito para encostar e conversar. Também ficou conhecido como “Bar dos Aposentados”, já que por ali se reúnem velhos amigos, histórias de uma vida inteira e memórias da cidade.

Mais que um bar, o Bar L&M é parte viva da história e do cotidiano de Uberaba: um lugar onde a amizade é antiga, a conversa é boa e a memória da cidade continua sendo contada dia após dia.

Funcionamento:

Aberto de segunda a segunda, das 7h às 23h. 


Antônio Carlos Prata

PARQUE FERNANDO COSTA, GPS ERA A BANDEIRA DO BRASIL E O PALANQUE

Quando a bandeira do Brasil era o nosso GPS. Foto Antônio Carlos Prata.

O ponto de encontro de gerações de

Parei em frente à bandeira do Brasil e bati essa foto para lembrar com vocês e compartilhar.

Bateu aquela lembrança de um tempo pré-histórico antes do celular existir. 

Naquela época, perder alguém em festa não era acidente, era praticamente tradição familiar. No meio da multidão, de repente vinha a voz do locutor pelo Parque Fernando Costa:

“Eita, meninada perdida essa de Uberaba!!!" 

E não era pouca gente, não. Principalmente os pestinhas, esses tinham carteirinha VIP no alto-falante. Era só soltar a mão por 10 segundos que pronto, já viravam atração oficial do evento.

E não pense que a culpa caía só nos pais. Nada disso. Entrava todo mundo no pacote: pai, mãe, avó, avô, bisavô, papagaio, periquito, parecia chamada de reunião de condomínio. O locutor não economizava, anunciava a árvore genealógica completa. Só faltava puxar o CPF e o histórico escolar da criança. 

E ainda soltava com naturalidade: “Tá aqui no palanque e não tá nem chorando mais não, viu!”

Virava quase um programa de auditório. E o “perdido”? Perdido nada, já estava enturmado, tranquilo, às vezes até com cara de quem queria pegar o microfone e ajudar nos próximos anúncios. 

Geralmente ficavam ali perto das bandeiras dos estados ou do mastro da bandeira do Brasil, como quem diz: “Se precisar, tô disponível.”

Hoje reparei: no tempo que estive com meu filho, só uns gatos pingados se perderam. Evoluímos ou talvez não.

Porque observei, bem disfarçado, que tinha gente estrategicamente parada perto do mastro. Vai que, né, uma nostalgia bate, uma fama repentina aparece.

Hoje o povo se perde e se acha no celular. Antes se perdia e ainda saía famoso no Parque Fernando Costa. 

Antônio Carlos Prata

UBERABA DOS ANOS 70 ENTRE RODEIOS TRADIÇÕES E MULTIDÕES


Pista de julgamentos e o palanque com suas escadarias mostram bem como tudo era original no Parque Fernando Costa. Foto: Renato Peixoto Júnior.

Trago uma foto de Peixotinho, lá da década de 1970, pra gente viajar no tempo. A cerca de madeira, a pista de julgamentos e o palanque com suas escadarias mostram bem como tudo era original no Parque Fernando Costa.

Era tempo de multidão, com grandes cantores à noite e rodeios durante o dia. Na arena, o locutor animava tudo, sempre com uma sátira sobre o montador, arrancando risadas e levantando o público.

Logo na entrada e pelo parque, chamava atenção a bandeira do Brasil erguida, rodeada pelas bandeiras dos estados, tremulando ao vento e dando aquele ar de grandiosidade. Espalhadas por todo lado, muitas propagandas de fazendas, tratores e equipamentos agrícolas reforçavam a força do campo e o peso do agronegócio na exposição.

Os pavilhões de cavalos e zebus eram um espetáculo à parte. Tratadores conviviam com os animais, alguns até dormindo em redes armadas no alto. A abertura oficial reunia a Associação Brasileira dos Criadores de Zebu, autoridades, governadores, gente do Brasil e do mundo, e até presidentes da República marcavam presença.

Entre as figuras conhecidas, estava Badú Rocha, com seus cabritos e porcos de raça, sempre caprichoso no chiqueiro e no capril.

O parque era um verdadeiro mosaico cultural, com baianas fazendo acarajé, gaúchos, nordestinos e gente de toda parte. As mulheres desfilavam com botas e chapéus, cheias de charme.

Tinha de tudo um pouco: barraca do vinho, parque infantil com o grande tobogã, quebra-queixo, maçã do amor e pipoca no saquinho de papel. E no meio da festa, muita bexiga colorida, de vários formatos, enfeitando o parque e alegrando a criançada. E o restaurante Chopim, parada obrigatória pra boa comida e prosa.

Do lado de fora, a movimentação continuava. A avenida Marcos Cherém tinha a boate Vira Copos e o tradicional Bar do Nakayama, ponto certo de encontro, sempre cheio, com conversa animada, cerveja gelada e tira-gosto no balcão, naquele clima simples e acolhedor que só quem viveu sabe. Na avenida Fernando Costa, o Bar do Dica era referência. A antiga boate que virou o Espelhão reunia gente de todo tipo, e a Rua São Lourenço completava o cenário da época.

Estacionar era fácil, o dia rendia, e os táxis,  Corcel, Simca e Opala, cruzavam a cidade. E ali estavam os choferes Zé de Castro e Baía, figuras conhecidas, sempre bem apresentados, com carros grandes e de respeito, levando autoridades e sendo parte viva daquele tempo.

Era uma Uberaba viva, intensa, cheia de encontros, sons e histórias. Um tempo que passou, mas nunca saiu da memória.



Antônio Carlos Prata

POR TRÁS DOS TAPUMES O PALACETE RESSURGE EM UBERABA


Palácio Episcopal São Luiz, 
conhecido como Palacete do Bispo. Foto Antônio Carlos Prata. 

Hoje tirei esta foto do alto para mostrar o andamento das obras, já que os tapumes impedem a visão de quem passa a pé ou de carro. 

Construído em 1903, o casarão de estilo chalet (eclético), projetado pelo engenheiro Alexandre di Gusberti, foi residência de Getúlio Guaritá. Mais tarde, foi adquirido pela Arquidiocese de Uberaba para abrigar o Bispo Diocesano, passando a ser chamado Palácio Episcopal São Luiz, conhecido como Palacete do Bispo. 

A partir da década de 1990, o prédio deixou de ser residência e passou a ter outros usos, como o Jornal de Uberaba e escolas. O imóvel segue pertencendo à Cúria Metropolitana de Uberaba.

Atualmente, passa por restauração, com previsão de conclusão em 2026. O projeto preserva a arquitetura original e transforma o espaço em um centro comercial e cultural, com cerca de 20 lojas, áreas de convivência e estacionamento. 

Na foto, já se vê o avanço das obras, com novas estruturas sendo erguidas ao redor pelo sistema de construção a seco, integrando o antigo ao moderno e contribuindo para a revitalização do centro de Uberaba. A obra está sendo executada pela Construtora Toubes. 

Antônio Carlos Prata


MÁRIO SALVADOR, O ETERNO TIO MÁRIO, DEIXA LEGADO DE AMOR E DEDICAÇÃO EM UBERABA

Mário Salvador. Foto de Acervo pessoal de Uberaba em Fotos.

É com o coração profundamente entristecido que comunico o falecimento de Mário Salvador, o nosso eterno e querido “Tio Mário”.

Nascido em Araguari, em 14 de janeiro de 1935, construiu em Uberaba uma trajetória que ultrapassa qualquer currículo: construiu histórias, formou gerações e espalhou afeto por onde passou. Seu jeito simples, acolhedor e sempre próximo fez com que fosse abraçado por todos,  especialmente pelas crianças, que lhe deram o mais bonito dos títulos: “Tio Mário”. Um nome que nasceu do carinho e o acompanhou por toda a vida.

À frente do programa infantil Roda Gigante, exibido pela extinta TV Uberaba nas décadas de 1970 e 1980, levou alegria, ensinamentos e encantamento a inúmeros lares. Como idealizador do Clube do Tio Mário, dedicou-se à formação de jovens, incentivando a leitura, o respeito e a cultura, ajudando a moldar cidadãos e sonhos.

Sua caminhada foi marcada por uma atuação intensa e comprometida em diversas áreas. Foi editor responsável do Correio Católico na década de 1970; diretor executivo do Jornal da Manhã por cerca de 10 anos, onde também assinava a coluna “Comentando”; advogado do SESI durante a implantação do FGTS; professor no SENAC, professor de Direito Tributário na Faculdade de Ciências Econômicas e docente de Contabilidade no Colégio São Judas Tadeu; diretor executivo do Uberaba Tênis Clube por mais de duas décadas; presidente da Academia de Letras do Triângulo Mineiro; sócio-fundador do Rotary Club Uberaba Leste; presidente da Associação de Aposentados e Pensionistas de Uberaba; além de ter presidido a Fundação Cultural de Uberaba, o Arquivo Público e o CODEMPHAU.

Mais do que títulos e funções, deixa um legado humano incomparável: o de quem viveu para servir, ensinar e acolher. Uberaba se despede hoje de uma de suas figuras mais queridas, mas sua presença permanece viva na memória de todos, crianças, jovens e adultos, que tiveram o privilégio de conviver com sua generosidade e alegria.

Hoje nos despedimos não apenas de um homem, mas de uma presença rara, daquelas que iluminam vidas e deixam marcas profundas. Ficam as lembranças, os ensinamentos, os gestos simples e o sorriso acolhedor que jamais será esquecido.

Que Deus o receba em Sua infinita paz e que conforte o coração de todos os familiares e amigos.

“Tio Mário” não se vai por completo… porque quem planta amor, permanece para sempre no coração de todos que tiveram o privilégio de conhecê-lo.

O velório será realizado a partir das 16h30, na LIV, localizada na Avenida Edilson Lamartine Mendes, 137, no bairro Parque das Américas, em Uberaba, em frente ao portão da ABCZ.

 Será um momento de despedida marcado pela saudade, mas também pela gratidão, um encontro de corações para homenagear quem tanto fez pelo próximo.

Até o momento, não há confirmação sobre o horário do sepultamento.

Antônio Carlos Prata

TOTINHO, O HÓSPEDE FANTASMA DO GRANDE HOTEL

José Antônio Costa, Totinho. Imagem gerada por IA para fins de ilustração.

Vou contar um causo bastante conhecido do passado, lá no início dos anos 1970. Vou ser breve, peço perdão.

José Antônio Costa, o famoso Totinho, filho de Dona Ana, zeladora do Grupo Escolar Brasil, cresceu entre corredores, histórias e o vai e vem da cidade. Ruivo, cheio de pintinhas e dono de uma lábia afiada, era o típico “pau pra toda obra”, sempre disposto a ajudar em qualquer situação.

No meio da comunicação, entre rádio e TV, fazia um pouco de tudo. Tinha uma esperteza afiada, carisma de sobra e uma conversa que abria portas como mágica. Sempre bem vestido e cheiroso, era figura conhecida nos cinemas, teatros, barzinhos do centro acadêmico e nas rodas boêmias da cidade.

Quase sempre “durango”, sem lenço e sem documento, mas nunca sem companhia.

Totinho tinha o dom raro de transformar conversa em convite, e convite em rodada paga.

E foi assim que, numa noite no Bar da Viúva, se aproximou de um viajante solitário. Em poucos minutos, já dividiam pizza, cerveja e confiança. Quando o turista comentou que precisava economizar com hospedagem, Totinho não pensou duas vezes:

"Relaxa… tô no Grande Hotel. Tem cama sobrando."

Saíram caminhando pelo centro. Ao chegar em frente ao hotel, Totinho pediu que o homem aguardasse na calçada. Minutos depois, apareceu acenando da varanda do Bar Galo de Ouro, como se fosse hóspede antigo confirmando a entrada.

Na verdade, apenas subira, usara o banheiro e saíra discretamente.

A noite seguiu animada no Restaurante Bar Tip-Top, ali embaixo da ACIU, entre risadas, conversa solta e copos cheios… até que, na hora de acertar a conta, Totinho simplesmente desapareceu.

O viajante seguiu então para o Grande Hotel, confiante na tal “cama sobrando”. Ao chegar, percebeu que havia sido personagem de um dos causos mais engenhosos da cidade.

Mesmo assim, pagou a despesa e, curiosamente, saiu satisfeito, levando na bagagem uma história que valia mais que o dinheiro.

Porque Totinho era isso: malandragem leve, simpatia e uma figura inesquecível da Uberaba boêmia.

Infelizmente, teve um fim precoce. Vítima do alcoolismo, em tratamento no interior de São Paulo, saiu desorientado e acabou sendo atacado por abelhas.

Uma história hilária, com um desfecho triste,  como tantas da vida real.

Imagem gerada por IA para fins de ilustração.


Antônio Carlos Prata

UBERABA SE DESPEDE DAS LENTES DE RICARDO PRIETO

Ricardo Prieto Ribeiro. Foto acervo de Uberaba em Fotos.

Há pessoas que passam pela vida apenas vivendo. Outras, porém, deixam marcas tão profundas que acabam se confundindo com a própria história da cidade. Assim foi Ricardo Prieto, o querido Prieto, homem de olhar atento, sensível e paciente, que transformou a fotografia em memória viva de Uberaba.

Durante décadas, suas lentes acompanharam a vida uberabense como quem escreve silenciosamente um grande livro de recordações. Quantos carnavais coloridos ficaram eternizados em seus negativos. Quantos casamentos emocionados, batizados, festas, encontros familiares e momentos simples da vida cotidiana ganharam eternidade através de sua câmera. Prieto não fotografava apenas pessoas; registrava sentimentos, costumes e o tempo passando devagar pelas ruas da cidade.

Formado em advocacia, também dedicou parte de sua vida à vida pública, exercendo o cargo de vereador entre 1989 e 1993. Mas, mesmo nos espaços da política, nunca deixou de carregar consigo o olhar humano e observador de quem aprendeu a enxergar além das aparências.

A história fotográfica de Uberaba deve muito a ele. Seu trabalho preservou rostos, cenários, tradições e pedaços de uma cidade em constante transformação. Graças ao seu olhar, muitas lembranças continuam vivas, permitindo que gerações revisitem tempos que talvez já tivessem se perdido na poeira da saudade.

Atualmente residindo em Taubaté, Prieto levava consigo não apenas décadas de experiência, mas também o carinho de amigos, colegas e admiradores que aprenderam a respeitar sua simplicidade, generosidade e profissionalismo. Era daqueles homens discretos que não precisavam elevar a voz para serem lembrados. Sua presença se fazia notar pelo respeito que conquistou ao longo da vida.

Apaixonado pelo futebol, carregava também no coração seu amor pelo Sociedade Esportiva Palmeiras, sendo um torcedor palmeirense daqueles fiéis, que acompanhavam o clube com entusiasmo e orgulho, como quem cultiva uma paixão para toda a vida.

Agora, parte para reencontrar sua querida esposa Ilka, que se foi em 2013. E fica a impressão de que, em algum lugar do infinito, os dois talvez estejam revendo juntos as antigas fotografias da vida, aquelas que o tempo jamais conseguirá apagar.

Sua partida deixa silêncio e saudade, mas também deixa um legado precioso: o de alguém que soube compreender a importância da memória e eternizar instantes que hoje pertencem à alma de Uberaba.

Manifestamos nossos mais sinceros sentimentos aos filhos, netos, familiares e amigos, desejando força e serenidade neste momento de despedida.

Prieto presente. Hoje, amanhã e sempre na memória e na história de Uberaba.

O velório de Ricardo Prieto será realizado neste dia 10 de maio de 2026, a partir das 11h, na Funerária Memória Família, na cidade de Taubaté.

O horário da cerimônia de cremação ainda não foi definido pela família.

Antônio Carlos Prata

OS LEITEIROS DA COPERVALE, OS LATICÍNIOS E A UBERABA QUE O TEMPO GUARDOU

Foto gerada por inteligência artificial para ilustrar o texto sobre os antigos leiteiros da Copervale e a paisagem urbana de Uberaba nas décadas de 1960 e 1970.

Cooperativa Regional dos Produtores de Leite do Vale do Rio Grande - Copervale, instalada na antiga Praça Manoel Terra, onde hoje funciona um posto de combustível,  foi, durante as décadas de 1960 e 1970, um dos símbolos mais vivos da paisagem humana de Uberaba. Este casarão foi a sede da Copervale, onde funcionou por décadas, tornando-se um dos pontos mais conhecidos e tradicionais daquela região da cidade.

Naquele tempo, o Córrego Olhos d’Água ainda corria aberto. Vizinha ao Mercado Municipal, a Copervale acompanhava o curso do córrego, margeado por balaustradas até as proximidades do antigo Cine Uberaba Palace. A avenida era iluminada e arborizada dos dois lados, compondo um dos cenários mais marcantes da Uberaba antiga.

O Córrego Olhos d’Água encontrava-se com o córrego da Avenida Guilherme Ferreira, conhecido como Córrego Barro Preto. A partir dessa junção, recebia o nome de Córrego das Lajes, fazendo parte importante da geografia urbana e afetiva da cidade.

Naqueles tempos, os leiteiros percorriam ruas, avenidas e bairros de Uberaba em suas tradicionais carroças-baú totalmente brancas, puxadas por cavalos, levando leite fresco de porta em porta. Vestiam-se de maneira simples: o latão de bico numa das mãos, o caneco medidor na outra e a carroça carregada de grandes latões de leite.

Com o passar dos anos, o leite também passou a ser vendido em garrafas de tampa prateada e, depois, nos conhecidos saquinhos plásticos. Os produtos traziam estampada a tradicional logomarca em forma do Triângulo Mineiro, além das marcas Trianon e Produtos Centenário, muito conhecidas pelos uberabenses da época.

Antes mesmo de dobrar a esquina, o leiteiro já era reconhecido pelo som característico da pequena campana de freio de automóvel presa à lateral do banco do carroceiro. Com um pedaço de ferro, ele batia naquele aro metálico improvisado, produzindo um som inconfundível pelas ruas ainda tranquilas da cidade. Em seguida vinha o grito comprido e inesquecível:

“Olha o leiteiroooooo!”

As donas de casa saíam apressadas com suas vasilhas leiteiras nas mãos, enquanto as crianças observavam fascinadas aquele ritual diário. O leite era retirado diretamente dos grandes latões transportados na carroça.

 Muitos desses recipientes possuíam uma pequena torneira para facilitar a retirada do leite. Quando não havia torneira, o próprio leiteiro utilizava uma caneca metálica padronizada e dosada, medindo cuidadosamente a quantidade deixada para cada freguês.

Uberaba possuía então uma coleção de figuras populares que davam alma às ruas. Havia os verdureiros, os compradores de garrafas, o homem do algodão-doce, o vendedor de picolé, o do pirulito, cada qual com seu pregão característico. E havia também o inesquecível “Seu” Roque Manuel da Silva, o lendário “Roque do Biju”, cujo triângulo metálico fazia a meninada correr para dentro de casa atrás de algumas moedas.

No meu tempo de criança, lembro exatamente dessas cenas que hoje compartilho com vocês. Eram momentos simples, profundamente marcantes, guardados na memória afetiva de toda uma geração.

Esses personagens ajudaram a construir a identidade popular de Uberaba. Eram sons, vozes e costumes que hoje pertencem à história sentimental da cidade, uma época em que o leiteiro da carroça branca não vendia apenas leite fresco, mas também convivência, proximidade e humanidade.

Antônio Carlos Prata

FUMANCHU, ENTRE O APITO, O MEGAFONE E A VIDA

José Estanislau da Silva, José Estanislau da Silva.
          Imagem gerada por inteligência artificial para ilustrar o texto.

Quem viveu Uberaba entre os anos 1970 e 1998 certamente se lembra. Era fim de tarde, o comércio cheio, e lá vinha ele, passo miúdo, bigode marcante, megafone de latão na mão, sempre acompanhado de um fiel cachorro.

José Estanislau da Silva. Mas ninguém o chamava assim. Para todos, era apenas Fumanchu.

Morou por um tempo na Rua Pedro Floro, no bairro Estados Unidos, nos fundos de um terreno cedido por Ovídio De Vito. O acesso era por um corredor estreito de terra batida, cercado de arbustos,  caminho simples, como a própria vida que levava. Ao longo dos anos, passou por outros cantos da cidade, até terminar seus dias em um espaço modesto nos fundos da Biblioteca Municipal.

Figura solitária em tempos de muito preconceito, Fumanchu encontrou, à sua maneira, um jeito de existir,  e de ser querido. Era amigo da criançada, sempre com um sorriso fácil, mesmo carregando o peso do álcool e do cigarro.

Mas era no som do seu megafone que ele se tornava inesquecível. Pelas ruas e avenidas, sua voz ecoava firme:  “Atenção, desportistas! Hoje no Uberabão… Uberaba Sport Club e Nacional Futebol Clube!”

O anúncio cortava quarteirões, atravessava o córrego ainda aberto da Avenida Leopoldino de Oliveira, misturando futebol e cotidiano, como se fosse a própria voz da cidade.

E nos clássicos contra o Uberlândia Esporte Clube, vinha a frase que virava tradição:  “Hoje é dia da onça beber água!”

Em um momento de virada, buscou ajuda no CEREA — Centro de Recuperação de Alcoólatras,  com o apoio do Dr. Antônio José de Barros e de Jesus Mazano. Ali, entre relatos de vida e pequenas vitórias, encontrou forças para recomeçar e chegou a ser exemplo para outros.

Tentou reconstruir sua vida. Montou uma pequena oficina de sapatos na Rua Coronel Manoel Borges, em frente à antiga Sociedade Rural. Trabalhou por anos, conversando, rindo, vivendo com dignidade. Mas a vida cobrou seu preço: vendeu o ponto, e o dinheiro o levou de volta ao vício.

Ainda assim, Fumanchu nunca deixou de ser lembrado com carinho. Porque há pessoas que não pertencem apenas ao seu tempo,  pertencem à memória afetiva de uma cidade.

Fumanchu partiu em 18 de janeiro de 1998.

Mas há vozes que o tempo não apaga.

Basta fechar os olhos, e lá vem ele outra vez, atravessando as ruas e a lembrança de Uberaba:

 “Atenção, desportistas! Hoje no Uberabão…”

Como se a vida fosse, para sempre, uma eterna tarde de domingo.

Antônio Carlos Prata

segunda-feira, 1 de junho de 2026

TRAJETÓRIA DE UMA BRILHANTE EDUCADORA UBERABENSE

 

             Maria Abadia Prata Barsam.                 Foto/Divulgação.


Maria Abadia Prata Barsam, iniciou suas atividades na educação como professora regente de classe do ensino fundamental na "Escola Estadual Frei Leopoldo de Castelnuovo", em Uberaba, na época em que a escola funcionava em simples residência no bairro Mercês.

Transferindo-se tempos depois para o prédio próprio, na então Vila Santa Marta, hoje Bairro Santa Marta.

Em 1971, Maria Abadia assumiu a direção da "Escola Estadual Frei Leopoldo de Castelnuovo". Movida por seu espírito empreendedor, em uníssono com lideranças de pessoas ali residentes, criou a dinâmica e eficiente "Associação da Escola Comunidade do Bairro Santa Marta", tendo sido uma de suas primeiras conquistas, a liberação das escrituras das casas populares ali existentes.

Paralelamente ao crescimento do bairro, empenhou-se avidamente na promoção de melhorias para a Escola, visando a educação integral dos alunos com assistência psicopedagógica, atendimento dentário, com funcionamento permanente desse gabinete na escola e oferta de almoço escolar aos alunos menos favorecidos.

Desenvolveu com grande êxito o arrojado “Projeto Alfa” proposto pela Secretaria de Estado da Educação, destinado aos alunos defasados em idade/série, objetivando sua recuperação através de programas especiais, recuperação paralela com hora extra diaria e com aceleração de séries.

Na área pedagógica, estendeu de forma paulatina as classes da quinta série ao oitavo ano, completando o ensino de primeiro grau, hoje equivalente ao ensino fundamental II.

Com ampliação e construção da nova ala do prédio escolar, como resultante, hoje a escola ministra o segundo grau em Magistério e secretariado.

Com a participação incisiva dos professores, funcionários e da comunidade, construiu a quadra de esportes, “Sinhá Barbosa” em terreno anexo à Escola doado para esse fim.

Em 1987, foi designada Diretora da 25ª Superintendência Regional de Ensino. Sob sua gestão, lutou arduamente na manutenção da APAE e das classes de ensino especial nas escolas e contra o encerramento de unidades de ensino.

Realizou no Grande Hotel de Araxá o Encontro Geral de Diretores e Inspetores com presença de palestrantes da Secretaria de Estado da Educação, vertebrando suas ações junto às escolas.

Posteriormente exerceu também as funções de Inspetora Escolar na Superintendência Regional de Ensino em Uberaba, vindo a se aposentar.

Como empresária foi ativa empreendedora na Tradicional e familiar "Casa Gloria" junto de sua cunhada Hilda Barsam e de Maria Barbara Barsam. Sua atuação na educação uberabense é marcada pelo seu amor à profissão, exercida com humanismo dedicação e competência.

Maria Abadia foi esposa do médico Nelson Barsam e deixa uma filha Ana Luiza Prata Barsam.

Célia Ferreira Peixoto 

domingo, 10 de maio de 2026

UBERABA SE DESPEDE DAS LENTES DE RICARDO PRIETO

 

     Ricardo Prieto/ Foto autoria desconhecida 

Há pessoas que passam pela vida apenas vivendo. Outras, porém, deixam marcas tão profundas que acabam se confundindo com a própria história da cidade. Assim foi Ricardo Prieto, o querido Prieto, homem de olhar atento, sensível e paciente, que transformou a fotografia em memória viva de Uberaba.

Durante décadas, suas lentes acompanharam a vida uberabense como quem escreve silenciosamente um grande livro de recordações. Quantos carnavais coloridos ficaram eternizados em seus negativos. Quantos casamentos emocionados, batizados, festas, encontros familiares e momentos simples da vida cotidiana ganharam eternidade através de sua câmera. Prieto não fotografava apenas pessoas; registrava sentimentos, costumes e o tempo passando devagar pelas ruas da cidade.

Formado em advocacia, também dedicou parte de sua vida à vida pública, exercendo o cargo de vereador entre 1989 e 1993. Mas, mesmo nos espaços da política, nunca deixou de carregar consigo o olhar humano e observador de quem aprendeu a enxergar além das aparências.

A história fotográfica de Uberaba deve muito a ele. Seu trabalho preservou rostos, cenários, tradições e pedaços de uma cidade em constante transformação. Graças ao seu olhar, muitas lembranças continuam vivas, permitindo que gerações revisitem tempos que talvez já tivessem se perdido na poeira da saudade.

Atualmente residindo em Taubaté, Prieto levava consigo não apenas décadas de experiência, mas também o carinho de amigos, colegas e admiradores que aprenderam a respeitar sua simplicidade, generosidade e profissionalismo. Era daqueles homens discretos que não precisavam elevar a voz para serem lembrados. Sua presença se fazia notar pelo respeito que conquistou ao longo da vida.

Apaixonado pelo futebol, carregava também no coração seu amor pelo Sociedade Esportiva Palmeiras, sendo um torcedor palmeirense daqueles fiéis, que acompanhavam o clube com entusiasmo e orgulho, como quem cultiva uma paixão para toda a vida.

Agora, parte para reencontrar sua querida esposa Ilka, que se foi em 2013. E fica a impressão de que, em algum lugar do infinito, os dois talvez estejam revendo juntos as antigas fotografias da vida, aquelas que o tempo jamais conseguirá apagar.

Sua partida deixa silêncio e saudade, mas também deixa um legado precioso: o de alguém que soube compreender a importância da memória e eternizar instantes que hoje pertencem à alma de Uberaba.

Manifestamos nossos mais sinceros sentimentos aos filhos, netos, familiares e amigos, desejando força e serenidade neste momento de despedida.

Prieto presente. Hoje, amanhã e sempre na memória e na história de Uberaba.

O velório de Ricardo Prieto será realizado neste dia 10 de maio de 2026, a partir das 11h, na Funerária Memória Família, na cidade de Taubaté.

O horário da cerimônia de cremação ainda não foi definido pela família.

Antônio Carlos Prata

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

TUM, TUM, TUM, O CORSO QUE SAIU DOS TRILHOS NO CARNAVAL DE UBERABA

Não vou ser breve. Há memórias que precisam ser contadas do jeito que foram vividas. Quem esteve lá vai reconhecer cada cena. Quem não esteve vai entender por que aquele carnaval ficou marcado na história de Uberaba.

Cena do carnaval de rua em Uberaba, início dos anos 1980: foliões sobre carro alegórico improvisado, símbolo de irreverência e liberdade. Foto: Renato Peixoto.

Eram quatro amigos. No começo dos anos 1980, decidiram que aquele carnaval não seria apenas mais um. Compraram um Ford Galaxie, ano 1970, levaram direto para a oficina e mandaram cortar toda a parte de cima. O carro virou conversível, ousadia pura para a época.

Arranjaram patrocinadores e mandaram pixar o carro para desfilar por toda Uberaba: Mudanças Kardek, Elétrica Durval, Açougue do Chibil, Motel Rio Grande. Tudo registrado. Tudo verdadeiro. Foto de Renato Peixoto, 1981.

Vestiram-se de mulheres: vestidos longos, minissaias, batom carregado, lenço na cabeça, óculos escuros. Fantasia no corpo e alegria sem freio. Subiram no Galaxie e ainda arrumaram mais amigos. O carro virou símbolo de irreverência no carnaval uberabense. Não era só um veículo: era personagem. Rodava ruas, espalhava riso, puxava gente.

Naqueles tempos, o corso saiu dos trilhos, e ainda bem. Das ruas aos clubes, o carnaval tomava conta da cidade. Rua Olegário Maciel, Praça Rui Barbosa, Rua do Comércio, Rua Major Eustáquio, Avenida Fidélis Reis, Rua Vigário Silva, Avenida Leopoldino de Oliveira. Vários carros formavam o corso, rodando pelas principais vias. Quem estava na calçada parava para admirar.

Quem estava no carro jogava água nas pessoas. A molecada, a pé, revidava: bastava um vidro aberto para o ocupante levar um banho de bisnaga. O mesmo acontecia com os passageiros do ônibus coletivo da Líder, janela aberta era convite certo para a molhação. Alguns extrapolavam: ovos, bisnagas com tinta e até urina. Excesso, irreverência e improviso que marcavam aquele tempo.

Os motoristas retiravam o cano de escape dos carros e o barulho era ensurdecedor. No centro, dezenas de foliões, muitos Pierrôs sem Colombinas, mas ninguém sozinho. À noite, os bailes lotavam os clubes.

Havia lojas por toda parte vendendo confetes, serpentinas e fantasias. Quase todo mundo passava pelo Salão Rex, do "Seu Arthur Riccioppo", onde se compravam confetes, serpentinas, apitos, cornetas e bisnagas que depois molhavam as pessoas. Os bares viviam cheios. Era tudo simples, direto, uma beleza rústica, uma cumplicidade que mantinha a festa de pé.

Depois das oito da noite vinham os desfiles: escolas de samba, clubes carnavalescos, Bloco dos Palhaços, Bambas do Fabrício, Escola de Samba Grêmio Recreativo Cultural. Mas o melhor de tudo era o povo. O arrocho de foliões na Praça Rui Barbosa, ao despontar pela Rua Olegário Maciel, arrastava centenas de pessoas pulando ao som das marchinhas e do samba.

De longe, ouvíamos a batida da Banda da Maria Giriza, em uma nota só: Tum, tum, tum, tum, tum. À medida que se aproximava, todo mundo entrava no espírito da brincadeira. Era a parte mais esperada do carnaval, reunindo milhares de foliões no mesmo ritmo.

Terminava o carnaval de rua e cada um procurava seu clube para varar a madrugada. Alguns, pra lá de 'Bagdá", já bêbados, dormiam em praças ou marquises; voltavam a pé para casa, atravessando a cidade inteira. Outros iam de táxi. A carona de carnaval também surgiu. Nasceram vários amores. Houve namoro. Houve até casamento. Vi e vivi isso.

Antônio Carlos Prata

domingo, 1 de fevereiro de 2026

GALILEU, O CRONISTA NETINHO

Peguei esta tela de Cacilda Mariano para ilustrar estas memórias.

Tela pintada por Cacilda Mariano, retratando Ataliba Guaritá Neto.

Lembro-me bem daquele tempo em que a vida cabia inteira numa rua. Eu tinha meus dez anos. Éramos vizinhos. Ataliba Guaritá Neto, o Netinho, morava na Rua Segismundo Mendes com a esposa Cornélia e os filhos, Luiz Neto e Dulce Helena. Na esquina, quase como uma presença que completava a harmonia do lugar, vivia Dona Niza, sua mãe, sempre elegante,  dessas mulheres que marcavam o ambiente apenas pelo porte, pelo olhar e pela palavra bem medida.

Às vezes, eu a via no parapeito do alpendre, observando o movimento das ruas Alaor Prata e Segismundo Mendes. Outras tantas, via Netinho trocando acenos: um gesto carinhoso para a mãe, um tchau apressado ou um beijo à distância. Cenas simples, cheias de afeto. Sempre apaixonado pelos filhos e profundamente respeitoso com a mãe.

Nós, meninos da rua, todos vizinhos, andávamos de patinete de rolimã, descendo e subindo a calçada cheios de pressa e alegria. Quando não estávamos no patinete, jogávamos bola ou soltávamos pipa. Éramos uma turma formada pela proximidade das casas e pela convivência diária. Dona Niza, atenta do alto do alpendre, chamava nossa atenção com doçura. Pedia que passássemos devagar pela calçada, com cuidado, para não nos machucarmos. Não era bronca, era zelo. Um conselho dito com carinho, desses que a gente guarda para sempre.

Luiz Neto jogava bola no pátio da Igreja São Domingos. Netinho subia a rua para assistir. Ficava do lado de fora da grade ou, quando podia, entrava. Torcia como poucos. Quando o filho fazia um gol, vibrava sem disfarçar. E Luiz Neto era bom jogador. Dona Niza foi professora de francês.

 Essa formação transparecia naturalmente em tudo: na postura, na delicadeza dos gestos, no modo correto de falar. Usava quase sempre um colar de pérolas; os cabelos grisalhos, num tom de cinza claro. Sempre bem vestida, era símbolo de uma elegância clássica, discreta e permanente, que o tempo não conseguiu apagar.

A família tinha um cachorro da raça pequinês chamado Parafuso,  pequeno no tamanho, mas inquieto como poucos. Parafuso parecia não compreender muito bem os limites do quintal. Volta e meia fugia, atraído pela rua e pela curiosidade. Nessas horas, Netinho me procurava pedindo ajuda. Já sabíamos onde encontrá-lo: ou no gramado da Igreja São Domingos, ou passeando pela "Praça Santa Rita". Quando o encontrávamos, eu o levava de volta. Netinho nos recompensava com sorvetes, e corríamos todos até a sorveteria do "Seu Joaquim", na esquina da "Praça do Grupo Brasil". Netinho ficava feliz. O Parafuso, nem tanto. A liberdade sempre lhe pareceu melhor destino.

Ataliba Guaritá Neto nasceu em 27 de junho de 1924 e faleceu em setembro de 2000, aos 76 anos. Foi vereador entre 1951 e 1955, mas foi na comunicação que construiu seu legado mais duradouro. Como jornalista, tornou-se amplamente conhecido pelo pseudônimo Galileu, com o qual assinou, por 45 anos, a coluna Observatório de Galileu, no jornal Lavoura e Comércio, acompanhando atentamente a vida política, social e cultural de Uberaba.

Pioneiro na televisão regional, foi o primeiro a apresentar um programa ao vivo na TV Triângulo, atual TV Integração, e também na TV Uberaba. Criou o programa Bigorna. No rádio, destacou-se como comentarista esportivo e participou das transmissões da Copa do Mundo da Argentina, em 1978. Mas foi ao meio-dia que Galileu se tornou definitivamente parte da rotina da cidade. Ao som de Vera em Veneza, executada pela orquestra de Mantovani, apresentou por mais de quarenta anos, na Rádio Sociedade do Triângulo Mineiro, a inesquecível Crônica ao Meio-Dia, sempre ao encontro dos ponteiros, no instante exato em que o relógio parecia parar para ouvi-lo.

No final da década de 1970, sua voz já estava incorporada ao cotidiano de Uberaba. Era mais do que informação: era provocação inteligente, reflexão diária, conversa direta com o ouvinte, batendo na cachola e atiçando consciências, despertando pensamentos e convidando a cidade a olhar para si mesma.

Além do rádio, do jornal e da televisão, Netinho foi também um grande animador da vida social e cultural de Uberaba. Criou e promoveu concursos que marcaram época. Ao longo do ano, observava jovens mulheres que se destacavam pelo porte, pela presença e pela elegância. Ao final desse período, eram escolhidas As 10 Brotos do Ano. A escolha acontecia durante a tradicional Festa Brotos do Ano, realizada no Jóquei Clube. Eram eventos aguardados com grande expectativa, retratos vivos dos costumes, da juventude e do espírito daquele tempo.

Foi ainda promotor do concurso Miss Minas Gerais, atuando como coordenador e um dos principais organizadores das etapas locais e regionais que levavam à escolha da representante mineira para o Miss Brasil. Em 1971, apresentou o concurso Miss Minas Gerais, confirmando sua versatilidade e carisma como comunicador e mestre de cerimônias.

O improviso era sua maior virtude. Um talento raro, ainda não repetido. Galileu falava de Uberaba com intimidade, crítica e carinho, como quem conversa com um velho amigo. Amava a cidade e estendia esse amor a tudo o que fazia. E assim como o Parafuso gostava de escapar para as praças, Galileu passeava livremente pela alma de Uberaba,  provocando, inquietando e permanecendo vivo na memória de quem soube ouvi-lo, ao encontro dos ponteiros, exatamente ao meio-dia.

Antônio Carlos Prata

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

CATETINHO DE UBERABA, O RESTAURANTE QUE VIROU MEMÓRIA NA BR-050

Matando uma saudade, divido com vocês.

Restaurante Catetinho. Foto autoria desconhecida. Acervo de Uberaba em Fatos.

Muita gente que passa hoje pela BR-050 nem imagina a história que aquele pedaço de estrada já guardou. O Restaurante Catetinho, no Km 186, foi por muito tempo um dos pontos mais tradicionais e movimentados da rodovia. Quando foi inaugurado, a BR-050 ainda não era duplicada, e viajar por ela já era um passeio. Nos anos 1970, era comum: quem ia ao Country Clube, à AABB de Delta ou aos ranchos na beira do Rio Grande, na volta parava no Catetinho para comer bem.

O lugar chamava atenção de longe: grande, bonito, e com o pátio sempre cheio de turistas. Além da comida, tinha 23 apartamentos, alguns considerados de primeira classe para a época. Muitos viajantes pernoitavam ali, e quem era da cidade gostava de ver aquele movimento de carros, ônibus, famílias e gente do Brasil inteiro passando por Uberaba.

E tinha um charme que ninguém esquece. Para amenizar o calor, instalaram um sistema no telhado de barro que deixava a água escorrer, formando um véu de noiva na fachada. Quando o sol batia, aquilo refrescava o ambiente e virava assunto nas mesas. Sábados e domingos eram lotados: risadas, conversa alta, cheiro de comida, crianças correndo, pátio cheio. Até uma piscina pequena existia para a meninada brincar enquanto os adultos conversavam. Muitas samambaias penduradas decoravam o salão, e o pátio, todo em brita, fazia o lugar parecer uma fazenda animada no meio da estrada.

O nome do restaurante também tinha história. Seus proprietários, Astolpho Sabino de Freitas e seu filho, Astolpho Sabino de Freitas Júnior, se inspiraram no antigo Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, que por décadas foi sede da presidência da República. Quando Brasília começou a ser construída, ergueram uma residência provisória para Juscelino Kubitschek acompanhar as obras: um prédio simples, feito às pressas, que ficou conhecido como Catetinho, o “pequeno Catete”. Admirando esse símbolo de progresso e movimento pelo país, pai e filho decidiram batizar o restaurante com o mesmo nome, trazendo para a rodovia BR-050 um pedaço dessa história.

Lembro bem de tudo isso, quase entrando na adolescência: o véu d’água no telhado de barro, o barulho das risadas, o entra e sai de turistas, famílias contentes, caminhões e ônibus parando. O Catetinho faz parte da memória de Uberaba e de quem viveu aquele tempo.

O restaurante fechou em meados dos anos 80. Depois disso, vários comércios passaram por ali, mas nenhum com o mesmo brilho e tradição. Hoje, onde já funcionou o hotel, existe um alojamento para funcionários que trabalham nas obras da rodovia. Mas, para quem conheceu o verdadeiro Catetinho, aquele pedaço de estrada nunca foi apenas estrada, foi encontro, comida boa, movimento e história. 
(Antônio Carlos Prata).

domingo, 2 de novembro de 2025

O DIA QUE O PRATINHA “ESPANTOU URUBU” NA CAIXA

Aconteceu com José Wilson Prata, o querido Pratinha, esse causo que ninguém esquece.

Pratinha - Foto de acervo pessoal de Dauro Prata.

Falar em aposentadoria, pra ele, era o mesmo que chamá-lo pra morte. Homem trabalhador, fazia de tudo na roça: tirava leite, mochava gado, capava porco, arava terra.

O Pratinha era de rotina simples e coração grande. Acordava cedo, tomava seu café coado no coador de pano e cuidava do sítio São José. Filho da Santina Próspero Prata, aquela italiana alegre, faladeira e querida por todo mundo, herdou dela o bom humor e a mania de prosear: onde passava, parava pra conversar com alguém. Era impossível andar com ele pela rua sem ouvir um “Ô Pratinha, cê tá bão?” de algum conhecido.

Mas lá pelos meados dos anos 1990, o sítio São José enfrentou dias difíceis. Veio a crise do leite em Minas, e olha que o leite vive em crise, mas aquela foi das brabas. Os fazendeiros penando pra pagar funcionário, comprar ração, remédio, vacina, energia... Nem tempo sobrava pra cuidar da própria saúde, quanto mais dos dentes.

Foi nessa época que os sobrinhos, amigos,  doutor Randolfo Borges Júnior e Wagner Nascimento (que era prefeito)  reuniram-se com a Dona Santina pedindo para ela falar com o Pratinha sobre a transferência da aposentadoria dela para ele após seu falecimento.

Ele ficou muito bravo e não aceitou a ideia que eles tinham planejado para ele.

Convencer o homem a aceitar não era tarefa fácil! Quando o assunto era aposentadoria, o Pratinha empinava a carroça mesmo! Ficava bravo, discutia, dizia que era forte, que não tinha doença nem deficiência, e que “esse negócio de aposentar era pra quem não aguentava mais o tranco”.

Um dia, juntaram todo mundo,  amigos, parentes e conhecidos, pra conversar com ele, tentar convencer o teimoso. Explicaram, argumentaram... e nada! O Pratinha bufava, cruzava os braços e encerrava o assunto: o homem estava brabo que nem onça chegando.

— Eu não preciso de aposentadoria coisa nenhuma! Eu trabalho, uai! — dizia.

Não aceitava de jeito nenhum.

Foi então que os amigos e familiares armaram tudo por conta própria.

Resolveram o processo, assinaram papel, juntaram documento, e, quando ele viu, a aposentadoria da mãe já estava passada pro nome dele, sem que soubesse de nada.

Até o dia em que… recebeu.

O sobrinho Dauro Prata Loes, o Daurinho, chegou e chamou:

— Tio, bora comigo na Caixa Econômica!

— Uai, pra quê? — perguntou o Pratinha.

— Cê vai ver!

Chegando lá, a funcionária olhou pra ele e disse:

— Uai, não me lembro do senhor aqui, não... O senhor fazia o quê na Prefeitura?

E ele, com aquele humor que era só dele, respondeu:

— Eu trabalhava no matadouro… espantava urubu!

A moça caiu na risada, conferiu os papéis e, quando viu, era um pacotão de dinheiro.

Pratinha arregalou os olhos, enfiou o dedo no bolo e separou três dedos de dinheiro pro Daurinho:

— Toma, menino, pra você gastar!

Daurinho quase pulou de alegria.

Saíram da Caixa de moto, o tio na garupa, e o Pratinha, feliz da vida, começou a bater as pernas como se tivesse montado num cavalo, gritando:

— Êêê boi! Vam’bora, São José!

E lá se foram, rindo, como se a vida tivesse virado pasto de novo.

Na saída, ainda soltou, com aquele sorriso maroto:

— Agora tô bonito no pedaço!

E era mesmo.

Depois daquele dia, nunca mais reclamou de aposentadoria.

Afinal, Pratinha não tinha doença, não tinha deficiência... Só esquecia de um detalhe:

o corpo era de adulto, mas o tamanho... era de menino!

Causo contado pelo sobrinho Dauro Prata Loes (Daurinho).

Texto: Antônio Carlos Prata


Pratinha faleceu em 11 de junho de 2005, mas segue vivo na lembrança dos uberabenses.

UBERABA E A FAMÍLIA BATISTUTA: DO ARMAZÉM À LOJA LA BATISTUTA


Na foto, da esquerda para a direita: Humberto Batistuta, Adail Batistuta, Luiz Batistuta e Leonardo Batistuta, diante da fachada da tradicional Loja La Batista, na Rua São Benedito, símbolo de trabalho, união familiar e tradição em Uberaba. Foto:Antônio Carlos Prata.

Tudo começou em 1939, com o Armazém Batistuta, um pequeno comércio de secos e molhados instalado na Rua Monte Carmelo, esquina com a Rua Nova Ponte. À frente do balcão estava Francisco Batistuta, italiano de fala firme e coração generoso, que conhecia seus fregueses pelo nome e adivinhava o que precisavam antes mesmo de pedirem.

O armazém era ponto de encontro do bairro. Cheirava a café torrado, sabão em barra e querosene, que também era vendido ali, junto com gasolina e mantimentos. Com o tempo, os grandes sacos de grãos e tambores de combustível deram lugar a utilitários domésticos, acompanhando as mudanças que modernizavam as casas de Uberaba.

Quando Francisco se aposentou, dividiu o negócio entre os filhos, preservando o espírito familiar que sempre marcou a trajetória dos Batistuta. E assim, em 28 de dezembro de 1966, nascia uma nova fase: a Loja La Batista, herdeira do mesmo trabalho, da mesma honestidade e da mesma vocação para servir.

Após o falecimento do patriarca, em 1974, os filhos Luiz e Adail continuaram o legado, acompanhados de perto pelos netos Humberto Batistuta e Leonardo Batistuta, que cresceram observando o pai e o tio repetirem as lições do avô. Humberto costuma recordar que, nos tempos do velho armazém, o avô vendia “de tudo um pouco”, do feijão ao combustível. e que a confiança era o recibo mais valioso de uma compra.

Hoje, a tradicional Loja La Batista, instalada na Rua São Benedito, 588, esquina com a Avenida Alberto Martins Fontoura Borges, segue em plena atividade. Mantida pela família, continua a simbolizar o que Uberaba tem de mais genuíno: o trabalho honesto, a união entre gerações e o orgulho de fazer parte da história viva da cidade.

E assim, entre lembranças e novos dias, a história da família Batistuta segue pulsando nas ruas de Uberaba, como uma herança que não se apaga. Do velho armazém de secos e molhados à moderna loja de utilidades, permanece o mesmo coração: aquele que fez da dedicação uma tradição e da cidade, um lar que nunca deixa de acolher.

Ambos os comércios sempre no bairro São Benedito, servindo com carinho e constância a cidade de Uberaba.
 (Antônio Carlos Prata).

terça-feira, 21 de outubro de 2025

UBERABA, O CRESCIMENTO DE UMA ÉPOCA

Voltando e recordando...


Foto aérea sentido a Praça Henrique Krüger. 
Acervo Uberaba em Fotos 

Ao olhar esta foto de 1966, minha memória viaja no tempo.

Meados da década1960, eu ainda era bem criança.

E Uberaba começava a se transformar, crescendo aos poucos, mas com aquele ar de cidade viva, cheia de novidades.

No primeiro plano, vejo parte do casarão de esquina, nas ruas Coronel Manoel Borges e Major Eustáquio.

Ali funcionava a Concessionária Ford Derenusson, com a oficina nos fundos.

Lembro-me bem daquela fachada elegante, sempre com carros novos expostos, que chamavam a atenção de quem passava.

Logo acima, o sobrado da Rádio PRE-5, a Rádio Sociedade Triângulo Mineiro.

No andar de cima, o famoso Salão Grená, com seu auditório sempre lotado. Era a nossa primeira emissora, fundada em 1933.

Aquele prédio parecia ter alma: de dia, as vozes do rádio ecoavam pelas janelas abertas... e à noite, as luzes das salas davam um brilho especial à esquina.

Ali embaixo, a Ford Derenusson movimentava a rua.

E bem em frente, embora a foto não mostre, ficava a Churrascaria Itararé, com sua entrada descendo por uma rampa e um corrimão de cimento que imitava troncos.

Eu me lembro de descer por aquela rampa.

Em frente, havia um ponto de táxi, onde se alinhavam vários Simcas.


Era um pedacinho muito vivo da cidade.

Olhando com atenção, dá pra notar uma perua Kombi fazendo manobra sobre a passarela, que cruzava o córrego das Lajes, ainda a céu aberto naquele tempo.

Cena comum, mas que hoje soa quase inacreditável.

Mais à direita, surgia o Edifício Abadia Salomão.

Ao lado, as obras do Banco do Brasil, já bem adiantadas, o prédio seria inaugurado em 1969.

No centro da imagem, o esqueleto do prédio da Equitativa dos Estados Unidos do Brasil, hoje Edifício Everest.

A obra ficou parada por um bom tempo... e só seria concluida em 1971.


Em frente, a Praça Henrique Krüger.

Lembro-me do lago, onde nadavam cágados e até filhotes de jacarés, um encanto para as crianças que passavam por ali.

Mais adiante, ficavam os Correios, e outro ponto de táxi, sempre cheio de movimento.

Na esquina da Avenida Fidélis Reis, via-se as Casas da Constrig, e mais adiante, a famosa Boate Yucatán, nome que até hoje soa como símbolo de uma época.

E lá, imponente, o Edifício Pascoal Totti, de frente para as rádios Sete Colinas e Difusora.

Para meus olhos de menino, aquele era o arranha-céu da cidade.

Na praça, o ponto dos ônibus coletivos Líder, que cruzavam as avenidas com seu barulho característico.

Cada detalhe dessa foto me faz viajar.

É como se eu ouvisse novamente os sons de Uberaba, os passos apressados, as buzinas, o burburinho das calçadas, e sentisse o cheiro do paralelepípedo novo misturado com o vento.

Um tempo que ficou marcado...

vivo dentro de mim. (Antônio Carlos Prata).

O DIA EM QUE O PRATIINHA QUASE FOI PRESO NO CINE ROYAL

Quem conta é José Wilson Prata, o querido Pratinha.

José Wilson Prata- Foto: Peixoto.

Pois é… o Pratinha já era homem feito, devia ter uns 29 anos, mas era baixinho, do tamanho de uma criança. Se a história não fosse verdadeira, a gente até duvidava.

Foi lá pros anos 1950, quando ele resolveu ir ao Cine Royal, que ficava na Praça Comendador Quintino, também conhecida como Praça do Grupo Brasil, assistir a um filme que todo mundo comentava.

Chegou todo chique, bem penteado, cheiroso, de bota engraxada, parecendo artista de cinema. Comprou o ingresso, entregou na portaria e foi entrando, todo satisfeito, procurando um bom lugar pra sentar.

Lá dentro, o cinema já tava cheio. O projetor fazia aquele barulho bonito. tre tre tre tre, o cheiro de pipoca tomava conta do ar, e o povo cochichava animado, esperando o filme começar.

Mas o laterninha, que cuidava da sessão, olhou de longe e achou aquilo meio esquisito, o filme era pra maiores de 18 anos. Foi até ele e perguntou:

— Ei, menino, quantos anos cê tem?

Pratinha respondeu, sem pestanejar:

— Tenho 29, ué!

E seguiu, procurando o assento.

O laterninha ficou desconfiado e chamou o policial de plantão, que sempre ficava nas imediações dos cinemas naquela época. O guarda chegou, mediu o Pratinha de cima a baixo e perguntou:

— Que idade o senhor disse que tem?

Pratinha, tranquilo, tirou o documento do bolso e entregou. O policial olhou, virou de um lado pro outro, coçou a cabeça e perguntou de novo:

— Tem mesmo essa idade aqui?

Aí o Pratinha, com aquele jeito danado de engraçado, respondeu:

— Ué, se o senhor não sabe ler o documento, não sou eu que vou te ensinar, não!

Rapaz… o policial ficou vermelho, bufando, e ameaçou:

— Moleque, te jogo lá embaixo!

O povo que tava perto começou a rir, cochichando, e o barulho se espalhou pela sala. O lanterninha sem graça, o policial bravo, e o Pratinha com aquele sorriso de canto.

Logo o pessoal acalmou o guarda, o mal-entendido se resolveu, e o Pratinha ficou na sessão, assistiu o filme até o fim, rindo por dentro. Quando acabou, saiu satisfeito, dizendo pros amigos:

— Pois é, quase me prenderam, mas o filme valeu a pena!

Caso lembrado e contado por Edson Alano dos Santos Prata. Pratinha todo elegante, sentado e pronto para dar aquele tapa no visual no Salão Continental - foto enviada pelo sobrinho Dauro Prata Loes.

O querido José Wilson Prata, o Pratinha, nos deixou em 11 de junho de 2005, mas sua alegria, esperteza e bom humor continuam vivos nas histórias que marcaram Uberaba e sua gente. (Antônio Carlos Prata).




quarta-feira, 15 de outubro de 2025

UBERABA E OS MESTRES DO GRUPO BRASIL

A foto dos alunos que publico junto a este texto é uma homenagem simbólica a todos os que, 
com paciência e dedicação, ajudaram a construir o futuro de tantas gerações.

Parabéns aos professores,  verdadeiros heróis da educação!

No Dia do Professor, não poderia deixar de lembrar e agradecer a todos aqueles que fizeram parte da minha vida escolar, os mestres e mestras com quem tive o privilégio de conviver de perto.

Recordo-me bem de uma passagem, lá pelos meados da década de 1960 e início dos primeiros anos de 1970, no Grupo Escolar Brasil. Quando a professora dizia: “Vamos fazer uma redação”, parecia que o coração disparava. Milhares de estudantes uberabenses daquela época têm histórias parecidas para contar. Dava uma tremedeira, uma suadeira… e, quando era prova oral, então, o nervosismo aumentava.

Bastava ouvir o nome ser chamado, e lá íamos nós nos levantar, ao lado da carteira, tentando lembrar o que havíamos decorado. Na véspera, era difícil até dormir. Eu, particularmente, evitava até conversar com os colegas para não esquecer o que tinha estudado.

Quando a professora dizia que o tema da redação era livre, a cabeça começava a girar. Eu gostava de escrever sobre geografia, história e futebol, especialmente porque o Brasil vivia o auge do seu futebol, com as conquistas das Copas de 1958, 1962 e 1970.


Naquela época, eu era craque e colecionador de vários álbuns de figurinhas, sabia tudo sobre os jogadores, os clubes e as seleções. Trocar figurinhas na hora do recreio era uma verdadeira festa, e completar o álbum era motivo de orgulho.

Naquele tempo, as professoras dominavam todas as matérias,  ensinavam português, matemática, história, geografia e ciências,  e permaneciam com a mesma turma durante todo o ano letivo. Isso criava um laço forte entre professora e alunos, uma relação de respeito, carinho e confiança que deixava marcas para a vida toda.

Entre as matérias, história sempre foi uma das minhas preferidas, e guardo com carinho a lembrança da minha professora dessa disciplina no Grupo Brasil. Não vou citar nomes, pois todas foram excelentes,  verdadeiras mestras.

A sala tinha uns 25 alunos. Alguns, quando não sabiam responder, fingiam que estavam pensando, cruzando as mãos sobre a testa, mas na verdade tentavam dar uma olhadinha na prova do colega ao lado. E as professoras, atentas, caminhavam entre as carteiras, parando de vez em quando para flagrar algum “engraçadinho” tentando colar.

Naquele tempo, não havia greve, e os salários, comparados aos de hoje,  eram compensadores. Os alunos respeitavam os professores, os serventes e todos que faziam parte da escola. Havia um verdadeiro espírito de amizade, dedicação e valorização da educação.

Hoje, infelizmente, vemos notícias de alunos que desrespeitam e até ameaçam professores. algo impensável naquele tempo. Alguns abandonam os estudos, outros se envolvem com coisas erradas, muitas vezes por falta de orientação e exemplo em casa.

Neste Dia do Professor, fica aqui meu reconhecimento e gratidão a todos os educadores, os de ontem e os de hoje. Ser professor é exercer uma das profissões mais nobres e importantes do mundo.

Parabéns aos professores,  verdadeiros heróis da educação!

E, com carinho especial, lembramos também das diretoras Terezinha Peres e Norma Moisés, que marcaram época à frente do Grupo Escolar Brasil e que hoje não estão mais entre nós, mas permanecem vivas na memória e na gratidão de todos os que tiveram o privilégio de aprender sob sua direção.

 Uberaba agradece aos seus mestres e diretoras de ontem, de hoje e de sempre. (Antônio Carlos Prata).

segunda-feira, 6 de outubro de 2025

UBERABA, O TEMPO DOS BE RE RÊS

Nos fins da década de 1960 e nos primeiros anos de 1970, Uberaba ainda guardava um silêncio respeitoso diante da morte. E, quando esse silêncio se rompia, era por Eu era criança e lembro bem. Era um som constante, descendo a Rua Arthur Machado, a Avenida Leopoldino de Oliveira ou a Avenida Fidélis Reis. Fúnebre mesmo. Dava medo, do motorista, do carro e do caixão.

Assim soava a buzina dos carros fúnebres da Funerária Irmãos Pagliaro, que ficava na Avenida Fidélis Reis. O apelido “be-re-rê” nasceu dentro da própria família Pagliaro, numa brincadeira inspirada justamente nesse som metálico, rouco, que ecoava pelas ruas sempre que o carro virava uma esquina ou seguia no cortejo rumo ao cemitério.

O povo parava, tirava o chapéu, fazia o sinal da cruz. As crianças, entre curiosas e assustadas, cochichavam:

— Lá vai o “be-re-rê”..

Carros bererê da funerária Pagliaro - 
 Foto de acervo Uberaba em Fatos.

Esses carros eram verdadeiras obras de arte fúnebre. Tinham anjinhos com cornetas nas laterais, molduras douradas e cortinas de renda nos vidros. O carro branco, o mais comentado, era usado para crianças e moças virgens,  o famoso “carro dos anjinhos”. O preto e o roxo eram destinados aos adultos, e às vezes havia um rosado, reservado para pessoas importantes da sociedade.

Os “be-re-rês” ficavam guardados na garagem da funerária, nos fundos do prédio, cobertos com lonas brancas, como se descansassem à espera da próxima despedida. Quando algum funcionário levantava a lona ou ligava o motor, o som da buzina parecia ecoar pela memória da cidade.

E como tudo em Uberaba ganhava poesia ou humor, até a morte virou verso de rua. As crianças cantavam, entre risos e arrepios:

“Quando você morrer, seu corpo vai num be-re-rê, sua língua vai num FeNeMê...”

Era a praga dos tempos antigos, dita em tom de brincadeira, mas cheia de respeito disfarçado.

Com o passar dos anos, os “be-re-rês” foram tirados de circulação. Vieram os carros modernos, silenciosos, sem anjinhos e sem buzina. Mas quem viveu aquele tempo ainda escuta, lá no fundo da lembrança, o eco rouco e solene que marcava o último adeus de uma Uberaba que também já se foi: “be-be-be-rê-rê-rê-rê...” (Antônio Carlos Prata)

sexta-feira, 3 de outubro de 2025

JUSCELINO EM UBERABA, O FRANGO CAIPIRA COM QUIABO E A MOLECADA DA LEOPOLDINO

Na década de 1950, a Avenida Leopoldino de Oliveira, nº 3394, abrigava a residência de João Rodrigues da Cunha e sua esposa, Nazir Borges Cunha. Foi nesta casa que, em diversas vindas a Uberaba para a Exposição de Gado Zebu, o governador Juscelino Kubitschek se hospedava como hóspede de honra do casal.

Fachada da casa. Foto: Antônio Carlos Prata.

A casa, sempre cheia de meninos criados por dona Nazir, era um reduto alegre e barulhento. Certa ocasião, Juscelino chegou apressado: precisava se banhar e vestir-se às pressas para um jantar de gala.

Ao atravessar os cômodos, percebeu a movimentação no fundo: na copa, a molecada se esbaldava em um frango caipira com quiabo fumegante.

Curioso e bem-humorado, aproximou-se:

— O que vocês estão comendo aí?

Assim que ouviu a resposta, não resistiu: puxou uma cadeira, pediu um prato e sentou-se entre os meninos.

As empregadas e dona Nazir correram a advertir:

— Governador, deixe que arrumamos uma mesa mais elegante!

Ele riu e retrucou:

— Elegante é aqui! Cadê o prato?

E, enquanto saboreava a refeição simples e saborosa, comentou:

— Este é o prato mais gostoso que existe… é o meu predileto!

Foi uma festa. Os meninos jamais esqueceram da cena. Só depois, satisfeito e divertido, Juscelino seguiu para o jantar de gala, levando consigo mais uma história saborosa para contar.

História narrada por dona Nazir, quando ainda era viva.

De Uberaba para o mundo: foi nesta casa que Juscelino, sem frescura, puxou a cadeira, dividiu o frango caipira com a molecada e, de barriga cheia e alma leve, encarou o jantar de gala.

(Antônio Carlos Prata)

quinta-feira, 2 de outubro de 2025

O XERIFE DA RUA SETE DE ABRIL

Na década de 1970, poucos em Uberaba não conheciam Delcides, o Delcidão, chamado com respeito e carinho de Xerife da rua 7 de Abril. Pedreiro de ofício, homem de mãos calejadas, era presença constante no meio do quarteirão onde morava, numa casa simples de portalzinho de ferro e duas janelas sempre abertas para a rua.

  Delcides. Foto /Uberaba em Foto. 

Era um homem forte, com postura de autoridade, mas generoso no trato. Os vizinhos o tinham em alta conta, e bastava aparecer na porta com seu inseparável chapéu, ora um Panamá, ora uma boina, para que logo puxassem conversa.

Numa manhã qualquer, Delcides estava no bar do Seu João, na esquina com a Barão de Induberaba, em companhia do professor Paulo Rodrigues. O bar seguia sua rotina: fregueses tomando café, sinuqueiros batendo bola, cervejas geladas nas mesas e o burburinho típico do bairro.

Foi então que entrou um homem negro, trazendo uma mala gasta e o cansaço estampado no rosto. Usava uma boina simples, como se fosse parte dele. Pediu água, comentou que estava com fome e, em seguida, lançou a pergunta que gelou o ambiente:

— O senhor sabe me dizer se aqui mora alguém chamado Delcides?

As descrições que deu batiam em cheio com a vida de Delcidão. Ele respirou fundo, engoliu seco e, disfarçando, passou a investigar: perguntou o nome do pai, da mãe, detalhes da família. O homem respondeu tudo com precisão.

 Chamava-se Firmino. E contou que, ao longo da vida, soube que tinha um irmão em Uberaba, na rua Sete de Abril. Agora, já envelhecido, decidira procurá-lo.

Os olhares no bar se cruzaram. O professor Paulo já tinha desvendado a cena; "Seu João Serrano" também desconfiava. Os fregueses tentavam disfarçar a atenção, mas todos sabiam que algo grande estava acontecendo.

Delcides, mesmo acostumado ao peso das pedras e ao esforço do trabalho, sentia os olhos marejados. Perguntou:

— Você já tomou café da manhã?

— Ainda não. Primeiro precisava encontrar meu irmão, respondeu o recém-chegado.

Foi então que Delcides se levantou, pegou a mala e disse:

— Vamos pra minha casa. Lá você vai descansar, tomar café, ajeitar as coisas. É humilde, mas é minha.

E assim seguiram até a casa do portalzinho de ferro e das duas janelas. Antes de entrar, Delcides ajeitou o chapéu, olhou firme para o visitante e revelou:

— O irmão que você procura… sou eu.

O abraço foi imediato, desfeito em lágrimas. Dois homens já feitos, chorando como crianças no meio da rua. Dali em diante, tornou-se comum vê-los sentados na calçada: Delcides com seu chapéu Panamá ou boina, Firmino sempre de boina, conversando por horas, como se tentassem recuperar cada minuto do tempo perdido.

E os vizinhos, que tanto gostavam dos dois, se alegravam em vê-los juntos.

Os anos passaram. Primeiro partiu Firmino. Depois, Delcidão, o pedreiro forte e generoso, o Xerife da rua Sete de Abril, também partiu.

Mas quem presenciou aquele reencontro nos anos 1970 jamais esqueceu a força daquele abraço, simples e grandioso como a própria vida. 

(Antônio Carlos Prata).