domingo, 5 de setembro de 2021

HISTÓRIAS DE UBERABA

As cinco festas de aniversário. 

São muitas as datas que podem ser comemoradas em relação à Uberaba. A primeira seria, naturalmente, a data de seu nascimento, quando aqui fincou raízes, próximo ao córrego das Lages, o sargento-mor Antônio Eustáquio da Silva Oliveira. Todavia, não existem documentos apontando a data exata em que ocorreu este fato histórico. 

Relatam alguns historiadores, que a 1ª Bandeira organizada em Desemboque pelo sargento-mor Antônio Eustáquio para desbravar a região de Uberaba ocorreu em 1810. Dizem ainda que, por solicitação desta autoridade, em 1811, o povoado foi elevado à condição de Distrito dos Índios. 

Para o historiador Guido Bilharinho, não há documentos comprobatórios desta elevação. 

Mesmo assim, a Prefeitura Municipal, em 03 de maio de 1911, em parceria com as lideranças econômicas da região, promoveu a 1ª Exposição Agropecuária nas dependências do hipódromo do Jockey Clube, localizado no bairro de São Benedito e organizou, ainda, uma grande festa na cidade para comemorar a elevação de Uberaba da condição de povoado para a de Distrito. 

Coincidência ou não, desde a década de 1950, as aberturas das exposições da ABCZ são realizadas na data de 3 de maio. 

Curiosamente, em 1810 ou 1811 não pertencíamos ao estado de Minas Gerais e sim ao estado de Goiás. As disputas sangrentas entre os dois estados, que já duravam mais de cinquenta anos conforme relato do historiador Hidelbrando Pontes, tiveram fim em 1816.

Conta ainda este historiador que foi por um acontecimento fortuito é que pôs termo à velha questão de divisas entre os dois estados. Joaquim Inácio Silveira Mota, Ouvidor Geral da Comarca de Paracatu, indo a Araxá, ao conhecer Ana Jacinto de São José, mais conhecida como Dona Beija que passava a cavalo pela praça da Matriz com seu pajem, foi tomado de violeta paixão e mandou raptar a donzela.

Como foi processado pela família da vítima e seu caso seria julgado pelo governo de Goiás, seu desafeto. Para evitar esta situação, ele passou a interceder também junto a D. João VI, pela passagem dos julgados de Araxá e Desemboque para Minas, onde o seu julgamento seria, como efetivamente foi, coisa sem importância.

E assim, em 4 de abril de 1816, a região foi incorporada ao Estado de Minas Gerias. Deixamos de ser goianos e passamos a ser mineiros.  

Minas das Alterosas incorporou os cerrados e os chapadões dessa imensa mesopotâmia que se chamava Desemboque e que passou a se chamar Triângulo Mineiro. Interessante que, o primeiro jornal a ser criado em Uberaba já nasceu separatista, conforme relata Guido Bilharinho. 

Em 02 de março de 1820, por decreto assinado pelo imperador Dom João VI, Uberaba foi elevada à condição de “Freguesia”, ou seja, de “Distrito” passou à “Paróquia”. O objetivo deste decreto foi o de diminuir a distância de 60 léguas que separavam o novo povoado da “Freguesia de Desemboque”, facilitando, assim, o “socorro e pasto espiritual”.  

O poder estava dividido entre a Igreja e o Estado, que só vieram a se separar na Constituição de 1891, transformando o Brasil em um país laico. 

Em 22 de fevereiro de 1836, o Presidente da Província, Manuel Dias de Toledo, na cidade imperial de Ouro Preto, assinou o decreto aprovado pela Assembleia Legislativa Provincial, elevando Uberaba à condição de “Vila”. Foi o nascimento do município de Uberaba, que se desmembrou da Vila de Araxá, a qual estava vinculada desde 1831. Foi a criação da Câmara Municipal de Uberaba.

Em dezembro de 1836, tomou posse perante a Câmara Municipal de Araxá o vereador mais votado nas eleições de Uberaba, Capitão Domingos da Silva Oliveira. Em janeiro de 1837, o Capitão é empossado em Uberaba como o primeiro Presidente da Câmara Municipal e Agente Executivo (Prefeito). 

O prédio que ele construiu para servir de Câmara e Cadeia, foi, por longas décadas, sede da Prefeitura Municipal e depois, sede da Câmara Municipal e é hoje patrimônio histórico de destaque na Praça Rui Barbosa. 

Para comemorar o centenário da emancipação política de Uberaba em 22 de fevereiro de 1936, grandes festas foram realizadas na cidade. Bandas, passeatas, foguetórios, salvas de 21 tiros, discursos e direito a um grande baile oferecido pelo prefeito Paulo Andrade Costa. Foi inaugurado um marco comemorativo no Córrego do Lajeado, próximo ao bairro rural de Santa Rosa, onde teve início o povoamento da cidade. 

Em 1840, Uberaba passou a sediar uma Comarca para distribuir justiça, denominada Comarca do Rio Paraná, desmembrada da Comarca de Paracatu do Príncipe. Não há, porém, registro de comemorações no centenário desta conquista, no ano de 1940. 

Em 02 de maio de 1856, Uberaba foi elevada à condição de “Cidade” em reconhecimento do Rei e da Igreja, trazendo a emancipação em assuntos atinentes à ordem civil, militar e religiosa. 

Para comemorar o Centenário desta elevação de “Vila” para “Cidade”, Uberaba se vestiu de gala em 1956, no governo de Arthur de Mello Teixeira. Novas comemorações aconteceram em 2006, no governo de Anderson Adauto, quando Uberaba completou 150 anos. 

Nesta ocasião, a Fundação Cultural, então comandada por Luiz Gonzaga de Oliveira, homenageou em solenidade ocorrida no Cine Metrópole, 150 personalidades da cidade, escolhidas em comissão presidida por Gilberto Rezende.  

Foram festejados três centenários, 1911. 1936, 1956, um sesquicentenário, 2006 e um bicentenário, comemorado em 2020, no governo de Paulo Piau. 

Não encontramos referências sobre as comemorações do centenário da elevação de Uberaba à condição de “Freguesia”, ocorrido em 1920.   

Ao longo destes 200 ou 210 anos, a verdade é que passamos de um pequeno povoado à uma grande cidade, hoje com cerca de 350.000 habitantes. Todas estas datas são, realmente, motivo de júbilo para todos nós. Todas elas podem e devem ser comemoradas. 

Gilberto de Andrade Rezende – Membro da Academia de Letras do Triângulo Mineiro. 

Fontes – Arquivo Público – Historiador Guido Bilharinho

Hidelbrando Pontes – livro – “História de Uberaba e a Civilização no Brasil Central”.

 PS – Matéria publicada hoje, 05-09-2021, no Jornal da Manhã.

domingo, 22 de agosto de 2021

DIA DO FOLCLORE

Hoje, dia 22 de agosto de 2021, é dia de se comemorar o Folclore, conforme Lei promulgada em 1965 pelo Congresso Nacional. O Folclore, todavia, faz parte, diariamente, da vida de todo mundo. Lendas, superstições, hábitos, costumes, estórias, gestos, alimentações ou indumentárias, são tradições folclóricas como as manifestações populares de cantos e danças.

Diz Luiz da Câmara Cascudo, autor do “Dicionário do Folclore Brasileiro” editado em 1954, que “Onde estiver um homem, aí viverá uma fonte de criação e divulgação folclórica”.

As tradições de Catira, Folias com suas variações mais comuns como as de Reis, do Divino, de São Lázaro e de São Gonçalo, a Viola Caipira, as Congadas, Moçambique e Vilões, bem como outras manifestações da cultura afro, são centenárias em Uberaba. Outras manifestações foram gradativamente se inserindo no contexto folclórico, importadas de outras regiões como a Capoeira, na qual, o Berimbau tem um papel relevante.

Uberaba sempre foi centro de atenção na área do Folclore. Por mais de cem anos, grupos de catira como os do José Emídio, João Modesto, José Casimiro, Joaquim Prexedes, Zeca dos Anjos, Chico Carreiro e Valtercides, marcaram presença e fizeram história. 

O mais conhecido dos grupos de catira foi o dos Borges comandado, nos últimos 60 anos, por Vilmondes Cruvinel Borges e seu eterno parceiro das violas, Gabriel Borges de Morais, tendo como com grande palmeiro a figura de Orozimbo Fabiano, mas a estrela máxima deste grupo foi Romeu Borges, o maior sapateador de catira que o mundo conheceu e que teve o privilégio de dançar com a maior bailarina brasileira, Ana Botafogo do Teatro Municipal do Rio de Janeiro.

Não há como deixar de destacar o Catira dos Teles, sob o comando de Manoel Teles e seus filhos Negrinho e Vinicius, todos violeiros, cantadores e palmeiros. Manoel Teles, um patrimônio cultural pela sua dedicação ao Folclore, era também Capitão de Folia de Reis tendo em seu grupo, a dupla sertaneja Manoelzito e Doraí.

Recentemente Uberaba perdeu o Paulo José Cury, mais conhecido como Paulinho Leiteiro, compositor, cantador, violeiro, sapateador de Lundu que formou o grupo de Catira “Geração por Geração”, composto por seus filhos e netos. Foi um Capitão de Folia de Reis, “Folia Fonte do Amor” e que, por cinquenta anos, atendeu a todos os pedidos dos devotos de Reis. Toda uma família voltada para as tradições folclóricas.

Atualmente, o Catira “Raízes” sob o comando de André Medeiros e o do “Manoel Teles” ainda mantém a tradição. Destaca-se ainda o Catira “Tradição de Minas” criado pelo Wosley Torquato, (Cultura Manifestações) junto com sua família. Wosley vêm a anos mantendo uma escola para ensinar crianças, jovens e adultos os passos do catira. Ele é, hoje, um esteio na manutenção desta tradição.

A poesia é a alma da dança do catira e o sapateado, seu complemento e adorno. Centenas de poetas deixaram um legado de seu trabalho utilizado por diversos grupos de catireiros da região do Vale do Rio Grande. Alguns, como Manoel Rodrigues da Cunha de Jubai, autor de 300 poesias e que foi o mais destacado catireiro desta região. Outros como os poetas e catireiros, Vicente Caburé, Antônio Ananias, Antolino, João Emerenciano, Herculano, João Modesto, José Crioulo, Tertuliano Inácio, José Barbosa, Zé Ninguém, Agenor Teles, são ainda referências. Jair Gomes Seabra, compositor e palmeiro é testemunha viva destas manifestações. 


Uberaba é considerada a capital das Folias de Reis, manifestação folclórica que remonta aos tempos de sua origem. É uma manifestação tombada pelo Patrimônio Cultural Municipal, como bem imaterial. São mais de cem grupos que anualmente envolvem milhares de pessoas em seus rituais. Grandes capitães de Folias de Reis, ao passar para eternidade, deixaram a bandeira que, por dezenas de anos, carregaram em devoção aos Três Reis Magos, nas mãos de seus discípulos. Sebastião Mapuaba, Labibe, Geraldo Pires, Evaristo Torquato, Jorge Bernardes, Paulo Cury, Manoel Teles, são alguns dos destaques.

Na viola caipira, difundida através da Escola de Viola “Gaspar Correa”, da Fundação Cultural de Uberaba, centenas de violeiros marcaram com seu talento, os sucessos das músicas sertanejas. Dos que hoje são apenas saudades, não há como esquecer o primeiro professor da Escola de Viola, Claudionor da Silveira, mestre e compositor. Destacam-se também, entre outros, a dupla Nicanor e Palmeri, Silveira e Silveirinha, Serenata, Panamá, Suzanito, Junior, Gaspar Corrêa e Claudio Viola. 

Ainda está na memória de todos o falecimento precoce de José Nicodemos que por muitos anos dirigiu a Escola de Violas e criou a Orquestra Violas de Ouro. Comunicador, violeiro e professor, por muitos anos foi integrante da dupla “Odair e Nicodemos” com muitas gravações de sua bonita voz e seu talento na viola.

Os comunicadores sempre tiveram um importante papel na manutenção das tradições folclóricas. O maior destaque foi a dupla Toninho e Marieta. Toninho, violeiro, compositor e cantador com sua mulher, Marieta, foi quem criou, a cerca de 60 anos, o Festival de Folia de Reis, hoje chamado de “Encontro de Folias”. Criou também na década de 1950, seis grupos de catira nos bairros da cidade. 

Toninho, além de compositor, violeiro e cantador, era Capitão de Folias e gravou dezenas de LP de músicas de sua própria autoria, no gênero sertanejo e de Folia de Reis. Seu filho, Edson Quirino de Souza, mais conhecido como Edinho deu continuidade ao pioneirismo de seus pais. 

Nico Trovador foi uma revelação no comando de seu programa na Televisão, criando oportunidades para apresentações de Festivais de Viola, de Folias de Reis e de duplas sertanejas, de Uberaba e de todo o Brasil, em busca do sucesso.

Destaca-se também nesta área de apoio, o Jornal da Manhã que sempre teve suas portas abertas em apoio ao Folclore e um dos maiores divulgadores de nossa cultura popular, representado pela sua diretora Lídia Prata Ciabotti. 

São  integrantes do grupo de apoio ao nosso folclore os nomes de Marco Túlio Oliveira Reis que mantém o programa “Prosa Encantada”, Carlos Perez (Cacá Sankari), lutador pela manutenção do TEU, teatro onde sempre se apresentou grupos folclóricos, Beethoven Luis Teixeira, hoje residente em Peirópolis, Jorge Alberto Nabut, escritor;  Marcelo Taynara, compositor; Carlos Pedroso, escritor; Toninho da Viola, cantor, violeiro e professor de viola, Jose Maria Dos Reis e a Câmara Municipal de Uberaba em parceria com a Associação Casa do Folclore no lançamento do Programa “Coisa Nossa Uberaba” na TV Câmara. Destaca-se ainda o nome do "Patrão de Minas" poeta e responsável por grande parte das poesias de nossos intérpretes da música sertaneja.

Na área Política há que se registrar a criação da Fundação Cultural de Uberaba no governo de Silvério Cartafina Filho. Todavia, a implantação desta Entidade só aconteceu no governo de Wagner do Nascimento que criou condições para inúmeros Festivais de Viola, de Catira, de Folia de Reis bem como criou e estruturou o Circo do Povo para sediar manifestações folclóricas. 

Na gestão de Luiz Neto foram criados os Incentivos Fiscais para estimular projetos voltados para a cultura, disponibilizando maiores recursos para a Fundação Cultural manter todo o seu programa de apoio a todas manifestações culturais.

Foi a época de ouro dos projetos culturais. Foi a época em que as mulheres assumiram a direção da Fundação Cultural. Depois da passagem de Rosana Prata como presidente na gestão de Hugo Rodrigues da Cunha, chegou a vez de Lídia Prata, sucedida por Maria Antonieta Borges (1993/1996) que contou com a colaboração de Virginia Abdala. 

Marcos Montes deu continuidade aos trabalhos da Fundação Cultural através de seu presidente, José Tomas da Silva Sobrinho e sua vice, Olga Frange, destacando-se o apoio aos Festivais de Viola e apresentações de Folias de Reis.

No Governo de Anderson Adauto, o presidente da Fundação Cultural foi o saudoso Luiz Gonzaga, sempre participante dos movimentos culturais da cidade. 

Foi nesta gestão que ocorreram as comemorações dos Cinquenta Anos de Festivais de Folias de Reis, com o patrocínio da Petrobras, culminando com uma grande festa, lotando o Cine Teatro Municipal Vera Cruz com a distribuição de 100 violas e a presença de duplas sertanejas como a de Liu e Leo e a participação de Paulo Andrade. 

Também neste governo, atuou como Presidente da Fundação Cultural, Rodrigo Mateus, um dos mais ardorosos defensores da cultura. Foi em sua gestão que se realizou o primeiro Festival Nacional de Catira, patrocinado pela Petrobrás, na Casa do Folclore, no ano de 2010.

Foram destaques a presença de Alexandre Guti Saad, Marcelo Taynara e Dércio Marques. Foi nesta festividade que a Orquestra Acqua, dirigida pelo maestro Jeziel, com a participação do coral Cidade de Uberaba, sob a batuta de Marly Gonçalves, e da Companhia de Reis do capitão Jorge Bernardes, entoou cantos de Folias de Reis, em compasso de música clássica,  trazendo emoções ao público presente

Paulo Piau, em sua primeira gestão, deu todo apoio à então presidente da Fundação Cultural, Sumayra Oliveira, responsável pela realização de dois festivais de Violas e a criação do Centro de Cultura. Foi um período de grandes e marcantes realizações na área do Folclore, graças ao interesse e a vocação cultural da presidente. 

Foi sob sua administração que se realizou o II Festival Nacional do Catira, apresentado na Casa do Folclore, em 2013, sob o patrocínio da Petrobrás.

Foi nesta gestão também que se apresentou no Cine Vera Cruz, em 2014, doze grupos de catira de seis estados brasileiros, em projeto patrocinado pela Cia. Vale do Rio Doce onde foi apresentado a edição do livro – Catira 450 Anos de História – pesquisa e autoria de Lisete Resende.


Na segunda gestão Paulo Piau prestigiou o folclorista Antônio Carlos Marques, pesquisador, folclorista e professor que deu uma grande contribuição para manutenção e expansão dos grupos folclóricos de Uberaba. Ex-diretor da Fundação Cultural por longos anos, Antônio Carlos deixou saudades pela sua dedicação à cultura popular.

Louvem- se os Folcloristas, pessoas que se dedicam à cultura popular, principalmente nas áreas de cantos e danças, pelo seu empenho em colaborar para não se perder as raízes culturais de uma cidade ou de uma região.

Uberaba têm, em sua história, magníficos exemplos desta carinhosa dedicação de verdadeiros missionários da Cultura Popular. 

Edelweis Teixeira, criador do Instituto do Folclore Regional e Erwin Puhler, Professor por profissão e folclorista por vocação, dois intelectuais que dedicaram suas vidas em promover, colaborar, incentivar e manter todas as nossas manifestações folclóricas, tradições herdadas de nossos antepassados e que são nossas raízes culturais. 

Destaca-se também o papel de Lisete Resende, que além do livro “Catira 450 anos”, foi responsável pela elaboração e aprovação dos grandes projetos canalizados para dois Festivais de Catira, dos encontros dos grupos de catira no Cine Teatro Vera Cruz, do jubileu dos Encontros de Folias de Reis, patrocinado pela Petrobras e da ópera Bodas de Fígaro, patrocinado pela Cemig.

Sem falsa modéstia ressalto o papel nesse processo da Associação Cultural Casa do Folclore criada em 1972 sob o nome de Casa do Folclore, palco de centenas de apresentações artísticas nestes últimos 49 anos e que vem registrando, divulgando e contribuindo para a manutenção de uma das coisas mais bonitas de nossas vidas que são representadas pelos grupos de folclore de Uberaba e região. No Facebook mantém o programa a página “Grupo da Difusão da Cultura” onde todas as manifestações culturais são divulgadas. No YouTube mantém a página “Coisa Nossa Uberaba”, divulgando o que é nosso na área cultural.

Hoje é o dia dos folcloristas, dos pesquisadores, dos comunicadores, das entidades voltadas para o folclore, dos participantes dos grupos das manifestações de Catira, Folia de Reis, das Violas Caipiras, das Congadas, dos Moçambiques, entre outros, e de todos aqueles que tem amor pelas nossas tradições.

Viva o Folclore. Viva às nossas tradições. Viva a todos que contribuíram para realçar as manifestações de cultura popular de nossa gente.

Como símbolo do Folclore, pela sua reconhecida posição de apoio continuo ao Folclore, coloco a foto da sede da Associação Cultural Casa do Folclore.

Gilberto Rezende – Presidente da Associação Cultural Casa do Folclore.

Uberaba 22 de agosto de 2021.

domingo, 15 de agosto de 2021

VALLIM, REZENDE E GUIMARÃES - LAÇOS FAMILIARES

Interessante como uma foto de 3 amigos, com idades aproximadas, José Vallin de Mello (1887/1982), Manoel Gonçalves Rezende (1872/1966) e Osório Guimarães, (1878/1969) podem revelar histórias de famílias, tecidas pelo tempo.



Osório Guimarães era casado com Rufina Gonçalves e, José Vallin de Mello, com Delfina Gonçalves, ambas irmãs de Manoel Gonçalves Rezende, que, por sua vez, era casado com Idalina Augusta de Mello, irmã de José Vallin de Mello.

Manoel Gonçalves Rezende e seus dois cunhados, Osório Guimarães e José Vallin de Mello, todos oriundos do meio rural, geraram 46 filhos e jamais poderiam imaginar a quantidade de descendentes que iriam proporcionar em poucas décadas.

Seguidores fervorosos da religião católica, em cada fazenda dessas famílias existia um pequeno oratório no qual, aos domingos à noite, sob a luz de uma lamparina à querosene, os familiares faziam suas orações sempre conduzidas pela mãe. Esta prática religiosa exerceu grande influência nas famílias.

O tronco formado pela família de Manoel Gonçalves Rezende, gerou 13 filhos, sendo 12 homens e apenas 1 mulher. O de Osório Guimarães, gerou 21 filhos sendo 15 homens e 6 mulheres. Já o tronco de José Vallin de Mello, gerou 12 filhos, dos quais, 3 mulheres e 9 homens. Estes três troncos totalizaram 46 filhos.

Diversos foram os caminhos percorridos pelos filhos, segunda geração dos três troncos. Na área religiosa, formou-se um padre, João Maria Assis Vallim, responsável por construção de duas igrejas, Uberaba e Iturama. Na terceira geração, uma freira, Rosangela Valim, irmã dominicana, filha de Antônio Vallim e ainda, Dom Alberto Guimarães Rezende, futuro bispo de Catité, filho de Romeu Rezende e sua prima Guiomar Guimarães.

Na política, Mário de Assis Guimarães foi vereador e vice-prefeito. Randolfo de Melo Rezende, também eleito vereador, se destacou no associativismo ao assumir a presidência do Sindicato Rural de Uberaba.

Seis integrantes da 2ª. geração, preferiram o setor bancário, Raul, Mário, Gentil e Orlando da família Rezende e Bento e Ivan da família Vallin. Reynaldo Rezende optou pelo setor empresarial, fundando a Indústria Alimentícia Reyna.

Na área internacional de modas se destacou Marcos Vinícius, mais conhecido como “Markito”, costureiro de personalidades e artistas de vários países do mundo. Da terceira geração, ele era filho de Maria Rezende, única mulher da 2ª. geração do tronco dos Rezende.

Os demais filhos seguiram a vocação de seus pais, continuando na lida rural nos segmentos, de agricultura e pecuária.

Atualmente, dos 46 primos, Álvaro Rezende é o único sobrevivente e está se preparando para a festa dos 100 anos. Os demais são apenas saudades.

Na atualidade, já entrando na 7ª. geração, as famílias de Manoel Gonçalves Rezende e seus dois cunhados, Osório Guimarães e José Vallin de Mello, deixam seus nomes gravados eternamente nas recordações dos seus mais de 1.000 descendentes.

Gilberto de Andrade Rezende – Membro da Academia de Letras – 3ª. geração, filho de Raul de Melo Rezende.

terça-feira, 10 de agosto de 2021

SANTINO GOMES DE MATOS

Maquinaria ou Maquinário?. Duas palavras iguais, com o mesmo sentido. O dicionário Michaelis registra que uma é sinônimo de outra.  

Na década de 1960 dois grandes estudiosos da Língua Portuguesa, brilhantes e invejáveis intelectuais portadores de riquíssimos currículos com diplomas em PHD mantiveram, por um longo período, um embate por meio da imprensa por divergirem na interpretação deste vocábulo. 

Dom Alexandre Gonçalves do Amaral, então bispo metropolitano da Diocese de Uberaba, reconhecido como um dos expoentes da cultura brasileira, com formação eclesiástica e considerado como o maior orador do clero brasileiro, ao escrever a palavra maquinário em um de seus artigos publicados pelo Correio Católico, teve a contestação de Santino Gomes de Matos, um dos raros intelectuais que ainda poderia ser encontrado no interior do país. 

Com uma vasta formação acadêmica Professor Santino possuía profundos conhecimentos de Linguística, Filologia, Literatura e Português o que o transformavam em Mestre da Língua Portuguesa. 

Enquanto Don Alexandre se expressava pelo jornal que ele mesmo fundou, Santino Gomes de Matos fazia suas réplicas e tréplicas por meio das páginas do Jornal Lavoura e Comércio. 

Foram meses de embates, mas foram também aulas valiosíssimas proporcionada pelos dois gigantes da Língua Portuguesa para os leitores que, embora divididos em suas opiniões, acompanhavam extasiados o desenrolar da contenda literária.   

Não havia animosidade pessoal nesta diferença de interpretação. Afinal o Professor Santino Gomes de Matos, na época, lecionava na FISTA, faculdade que teve sua criação estimulada por Don Alexandre.  

E quem era este ‘ousado’ professor?  Santino Gomes de Matos, nascido em 1º de março de 1908 na cidade de Icó, Ceará, já demonstrava sua genialidade desde criança pois aos 4 anos de idade já conseguia ler corretamente. Aos 7 anos já era responsável por 3 alunos da escola de seu pai. 

Sua vocação para o magistério o fez professor em Crato, (CE) e Ribeirão Preto (SP).  

Chegou a Uberaba em 1935 a convite de amigos para ser redator-chefe do jornal “Gazeta de Uberaba”, cargo que ocupou até 1939, época em que foi contratado pelo Lavoura e Comércio ali permanecendo até 1948. 

Desta data em diante se dedicou exclusivamente ao magistério sem perder o vínculo com o Jornal Lavoura onde, semanalmente, publicava uma coluna sobre filologia e gramática e, posteriormente, uma coluna intitulada “Cupim, Barbela e Gavião” incentivando a vocação uberabense para o aprimoramento da raça zebuína. 

Era também correspondente do Jornal o “Estado de São Paulo” onde registrava os fatos importantes que ocorriam na região. 

Mas foi na área educacional que o Santino Gomes de Matos mais se destacou.  Professor de português, francês, inglês e latim, lecionava na Escola Normal, (hoje, Colégio Estadual Castelo Branco) e foi o primeiro diretor do Colégio Dr. José Ferreira. Foi um dos fundadores da Faculdade de Filosofia Santo Tomás de Aquino (FISTA) e professor da Língua Portuguesa e de Filologia Romântica. 

Para um erudito que traduzia até as línguas mortas, Grego e Latim e as neolatinas, Francês, Italiano e Espanhol, Santino Gomes de Matos foi um dos primeiros convidados a participar da fundação da Academia de Letras do Triângulo Mineiro, ocupando a Cadeira n. 2. 

Poeta e prosador surpreendeu a todos pela qualidade literária de sua obra – o conto “Flagrantes ao Sol do Norte” e os poemas “Procissão de Encontros”, “Céu Deposto” e “Oração dos Humildes”. Este último mereceu um artigo especial no jornal “Lavoura e Comércio” em março de 1940, data em que completava 32 anos de idade, ao relatar que é uma obra prima em duas áreas, Prosa e Poesia. 

No setor Filológico, a obra “O Inferno Divertido da Análise Sintática” foi editado pela imprensa oficial do Estado de Minas Gerais. O conjunto de sua primorosa obra o levou para a Academia Municipalista de Letras de Belo Horizonte. 

Para colocar um ponto final na polêmica mantida com Dom Alexandre, escreveu o livro “Porque Maquinaria e Nunca Maquinário.” 

Maria Isabel, a filha que deu continuidade aos estudos da Língua Portuguesa iniciados com seu pai, nos conta que vários dos poemas do Professor Santino fizeram, e continuam fazendo, “curso na admiração de leitores de Uberaba e de todo o Brasil, pois as edições de seus livros esgotaram-se rapidamente, solicitadas por livrarias de vários pontos do território nacional. Os seus livros de poemas ou de prosa são verdadeiras mensagens de um talento de escol, dirigidas a todos, especialmente aos que precisam de uma palavra de alento e de estimulo”.  

Diversos contos de sua autoria foram premiados em concursos promovidos em São Paulo, Belo Horizonte e Curitiba, destacando-se “Fome”, “As Calças do Defunto” e “Mr. Severaine”. 

Santino Gomes de Matos era funcionário público lotado no IBGE, chefe da Agência Modelo, cargo pelo qual aposentou. Chegou a ser promovido, mas com a condição de se mudar de Uberaba. A única forma de evitar sua transferência, mesmo com acenos de rendimentos muito maiores, foi a de se candidatar para uma cadeira na Câmara Municipal de Uberaba. Nas eleições de 1962 mostrou seu prestígio ao ser eleito como o vereador mais votado. Seu amor por Uberaba falou mais alto do que a majoração de seu salário. 

Santino Gomes de Matos faleceu em 14 de outubro de 1975 aos 67 anos de idade. Era casado com Ione Passaglia Gomes de Matos, professora e escritora e tiveram três filhos: Cleômenes, (falecido), Evandro (médico) e Maria Isabel, funcionária da ALMG e professora de Língua Portuguesa em Belo Horizonte. 

Fica na memória de todos a imagem de um homem íntegro, um intelectual que contribuiu sobremaneira com a imprensa e a educação em Uberaba, que está intrinsicamente ligado à cultura da cidade, e que deixou seu rastro de saudades em todas as entidades, imprensa, escolas e faculdades, por onde o grande Jornalista, Poeta, Prosador, Escritor e Mestre da Língua Portuguesa, passou.   

Gilberto Rezende – Membro da Academia de Letras do Triângulo Mineiro. 

Fontes – Maria Isabel Gomes de Matos 

Uberaba em Fotos.

quarta-feira, 4 de agosto de 2021

NICODEMOS

Adeus grande violeiro. Adeus companheiro. Vá com Deus, mas você deixa muitas saudades. Quantas encontros em que até as luzes dos terreiros brilhavam mais quando você entoava sua viola na Casa do Folclore. Foram incontáveis encontros em mais de trinta anos de admiração pelo seu talento.  

Às vezes você vinha acompanhado de seu parceiro Odair. Às vezes, sozinho, você solava, cantava e encantava com seus preciosos acordes e sua bonita e potente voz, interpretando Tião Carreiro e outros ídolos sertanejos. 

Você era violeiro, professor, amigo e conselheiro frente aos seus alunos da Escola de Viola que por mim foi criada na Fundação Cultural de Uberaba e que, por muitos e muitos anos você emprestou seu prestigiou para maior glória da Escola de Violas Gaspar Corrêa.

E o que dizer da Orquestra de Violas de Ouro, que você criou?  Você era o violeiro, era o maestro, era o cantador, era a alma do conjunto onde, sob sua batuta, alunos reproduziam com muito entusiasmo tudo aquilo que seu mestre ensinou. Foram mais de 300 apresentações em que o público vibrava com o requinte das vozes e o tanger das violas. Uberaba e toda região vão guardar na lembrança, com muito carinho e com muitas saudades, os repetidos e entusiasmados aplausos destas apresentações. 

 Não dá para esquecer que você, por longo tempo, foi também um grande comunicador que prestigiou, em seus programas de TV, duplas de violeiros de todos os rincões. Vinham para mostrar sua arte. Muitos vinham para aprender.

Que momentos memoráveis ao se lembrar do toque de sua viola para que sua filha Nathaly pudesse dançar balé em companhia do maior catireiro que o Brasil já conheceu, Romeu Borges.

Nicodemos, todos nós seus amigos e companheiros, admiradores, parceiros e familiares, custa a acreditar que você já não está mais entre nós. Certamente está entre os amigos que já partiram primeiro, preparando sua chegada para que a viola nunca possa parar de tinir, nem na terra e nem no Céu. 

Um dia, certamente, todos nós vamos nos reunir e aí voltaremos a bater palmas para o grande artista a quem todos chamavam de NICODEMOS.

Gilberto de Andrade Rezende – Ex-Presidente e Conselheiro da ACIU e do CIGRA – Membro da Academia de Letras do Triângulo Mineiro.

domingo, 25 de julho de 2021

ARLINDO DE CARVALHO

Uma tarde trágica. Um segundo fatal. A distração de um motorista, ou a imprudência de outro, provocou, no trevo da BR 262 com a BR 50, no fatídico dia 5 de novembro de 1970, uma colisão em que perderam a vida dois uberabenses gerando forte emoção na comunidade.

        Arlindo de Carvalho.  Foto/Divulgação 

Arlindo de Carvalho aos 67 anos e sua esposa, Leonor Borges de Carvalho aos 64 anos ao se dirigirem à sua fazenda, ele conduzindo um Volkswagen, este foi abalroado com impacto tão violento por um caminhão de Ribeirão Preto que o casal teve morte instantânea.

Arlindo era natural de Igarapava- SP, nascido aos 28 de novembro de 1903. Nas palavras de seu neto, Renato, a família veio para Uberaba no começo do século XX, motivada por um desentendimento numa questão de disputa por terras. “Abandonaram tudo para evitar retaliações à família. Chegaram muito pobres e Arlindo, então com 7 anos, único filho homem, aprendeu com o pai as 4 operações e, aos 10 anos, foi logo trabalhar. Não teve tempo e nem recursos para estudar, mas gostava muito de ler e de fazer contas. Aprendeu o básico da contabilidade e, de entregador numa farmácia passou a balconista, a encarregado, a gerente”.

Segundo Renato “ele não gostava de esbanjar, não era dado a festas e bajulações. A vida o conduziu ao pragmatismo. Nunca prejudicou ninguém e, segundo ele, a ética devia estar ligada ao crescimento econômico”

Anita, irmã, conta que Arlindo trabalhou, entre outros empregos, na Casa Lealdade e, posteriormente, na Casa Violeta, de Secundino Lóes e João Hermógenes, onde permaneceu até se casar com Leonor em 24 de junho de 1927. Juntos tiveram três filhos, Lincoln Ronaldo e Maria Aparecida.

Leonor recebeu por herança a fazenda Aroeiras situada na divisa do município de Conquista. Esse fato fez com que Arlindo se transformasse num administrador rural. Nesse período trabalhou com cafeicultura e rizicultura, mas devido a uma crise econômica do país naquela época terminou por arrendar a fazenda e passou a se dedicar ao comércio.

Não chegou a se afastar totalmente do campo mantendo sociedade na criação de gado com um grande fazendeiro e um dos políticos mais influentes da cidade, Ranulpho Borges do Nascimento. Essa parceria trouxe bons resultados comerciais inclusive no ramo imobiliário.

Como representante comercial, além de outros produtos agropecuários, se destacou na distribuição do açúcar produzido pela Usina Mendonça de Conquista.

Em 1932, ao ingressar como sócio da empresa Magiotti, conheceu aquele que seria seu maior amigo e parceiro, Mousinho Teixeira Leite, então contador da Drogaria Alexandre.

Dessa amizade nasceu a união comercial para a aquisição da “Casa Ceres” de Fernando Sabino de Freitas, localizada na rua 24 de fevereiro, esquina com a rua Dona Juliana, hoje rua Carlos Rodrigues da Cunha com Olegário Maciel.

A transação sugerida pelo contador da Casa Ceres, José Marinho Junior, provocou a constituição, em 1934, da empresa “Carvalho & Teixeira”.

Três anos depois novos sócios vieram participar da organização, novos mercados foram abertos trazendo novos horizontes para os negócios, nascendo aí a Casa Carvalho que se transformou, ao longo dos anos, numa das maiores organizações comerciais de toda a região do Triângulo Mineiro.

No setor imobiliário, em sociedade com seu cunhado Hermógenes Ferreira Borges na década de 1940 adquiriram, para fins de loteamento, uma grande área no final da Avenida Almirante Barroso, bairro do Fabrício, confiantes na expansão urbana.

De espírito associativista, Arlindo de Carvalho foi Vice-Presidente da ACIU na gestão de Paulo José Derenusson (1948/1949), tendo como companheiros de diretoria, entre outros, Fernando Sabino de Freitas e Bruno Martinelli.

Foi eleito presidente da Entidade para o período de 1949 a 1951, tendo como diretores, entre outros, João Guido, Reynaldo de Melo Rezende, Lívio da Costa Pereira e Rubens Dornfeld.

Durante sua gestão entre as várias conquistas obtidas destacam-se a luta pela liberação de recursos do Estado destinados à ampliação da Usina Pai Joaquim e a criação de uma agência da Mogiana no centro da cidade

O maior destaque desta diretoria, na verdade, foi a vitória na disputa com a cidade de Conquista pela instalação da sede da fábrica de cimento, proprietária de terra no município de Uberaba e no município de Conquista.

Conta José Mousinho Teixeira que “Confirmado todos as démarches para construção da fábrica o presidente da ACIU, à época Sr. Arlindo de Carvalho, não mediu esforços para dar todo o suporte de logística para viabilização das obras de construção”.

Inaugurada em 1954 trouxe uma nova vida para o bairro rural de Ponte Alta, oferecendo empregos para centenas de operários. Transferida para Arcos em 2004 a fábrica, por 60 anos, foi uma importante alavanca para o desenvolvimento econômico de Uberaba.

Em reconhecimento ao seu trabalho Arlindo de Carvalho, passou a integrar o quadro de diretores da Companhia de Cimento.

Leonor Borges de Carvalho, esposa de Arlindo, empresta seu nome a uma rua situada no bairro São Benedito.

Lincoln Borges de Carvalho, seu filho, dá nome à Avenida inaugurada em 2019, conhecida como Avenida Interbairros.

Uma pena que Arlindo Carvalho, o grande guerreiro que a cidade adotou e que tantos benefícios relevantes propiciou para o desenvolvimento de Uberaba, não teve ainda o seu reconhecimento para ser homenageado pelo Poder Público Municipal.

Gilberto de Andrade Rezende – Ex-Presidente e Conselheiro da ACIU e do CIGRA – Membro da Academia de Letras do Triângulo Mineiro.

Fontes –

Renato Muniz de Carvalho –

Anita Carvalho

José Mousinho Teixeira

ACIU – Associação Comercial e Industrial de Uberaba.

Jornal da Manhã.

quarta-feira, 21 de julho de 2021

DR. SÍLVIO PONTES PRATA.

Como é difícil me despedir de um amigo, cujas lágrimas pedem a palavra e falam por mim. 
Dr. Sílvio Pontes Prata que Uberaba, entristecida e de luto, vê partir hoje para a eternidade. 
Sua vida pontilhada de boas ações lhe fazia e faz merecedor do mais puro afeto e gratidão de todos os seus pacientes e familiares. E por extensão, os inúmeros amigos. 
 
Sílvio Prata Foto/Divulgação.

Minha família e eu lhe externamos a nossa gratidão pela sua amabilidade conosco nos momentos ultra difíceis, sobretudo quando a esperança estava em seu limite e ele, Dr. Sílvio, enviado por Deus, revertia situações aqui inenarráveis. 

Coração sensível, tratando corações enfermos, uma palavra sua dirigida com amor erguia os pacientes. Quantos eu sei, que tiveram sobrevidas e diziam em alto e bom som: “Foi graças ao Dr. Sílvio Pontes Prata”. Esse é o filho que Uberaba, tão bem descrita por seu avô Hildebrando Pontes, se despede pesarosa. 

Aliás, certa vez a trabalho entrei numa das salas de aula da então Faculdade de Medicina do Triângulo Mineiro e, na lousa, li a mensagem de despedida mais linda que conheci. Seu autor: Dr. Sílvio Pontes Prata que a escreveu ao se aposentar como professor. 

Citei-lhe no livro “Zote que eu vi” e, naquelas páginas, está o seu depoimento sobre um dos seus pacientes mais aguerridos - Zote. 

Referência para seus familiares, pacientes, amigos e colegas de profissão, Dr. Sílvio deixa sua indelével marca. Tenho certeza que D. Selma, os filhos; Dorinha, Silvana, Sérgio e Stael com os demais descendentes tudo farão para eterniza-lo. 

Aos familiares do querido amigo o nosso abraço de solidariedade. 
E um “até breve” Dr. Sílvio Pontes Prata.

João Eurípedes Sabino.
Uberaba/MG/Brasil.

sexta-feira, 25 de junho de 2021

Baile do Cowboy no Jockey

 E o Baile do cowboy já teve Reggae. Lembra? Sabia?

Como diretor social do Jockey na gestão do Delcides, trouxe um “tal” de Leandro & Leonardo para o Baile do Cowboy. Isso em 1992. O sertanejo, que nem tocava em rádio FM, prometia. Apostamos neles e foi um sucesso. Camarote nem existia. Inventei essa coisa e foi um tremendo sucesso. Qual festa grande no Brasil não tem camarote? “Viralizou”. Bom, o ano de 1993 chegou e eu virei presidente do Jockey. Por incrível que pareça, o sertanejo naquele ano deu uma caída. O Reggae estava tocando muito. Não tive dúvidas. Contratei o Jamaicano JIMMY CLIFF. O sucesso foi muito grande. 

Uma passagem que não me esqueço foi quando o Mário Sérgio Borges ( Marreco), uberabense que estava morando em Goiânia, me chamou num canto e me disse: Zé, vim de Goiânia para te prestigiar e conhecer essa dupla. Eu fui logo perguntando. Que dupla Marreco? Ele, com um humor invejável, foi logo respondendo: uê, o Jimmy e o Cliff. 

Choramos de rir. O Baile do Cowboy de lá pra cá nunca deixou de ser o palco dos sertanejos e uma das principais festas do Brasil.

José Renato Gomes

 Ex-diretor Social do Jockey Clube de Uberaba 










Bandido da Cartocheira.

LEMBRANÇAS DE COBERTURAS JORNALÍSTICAS: SERIAL KILLER


Ramiro Matildes Siqueira, Conhecido pela alcunha de Bandido da Cartucheira e também por Ramiro da Cartucheira, foi acusado de 54 crimes, incluindo pelo menos 15 assassinatos e 3 estupro, cometidos no final dos anos 70 e início dos anos 80.. As frequentes aparições na crônica policial, mandados de prisão em três estados. Minas, São Paulo e Goias,  e a crueldade de seus atos o tornaram personagem de lendas urbanas, principalmente no meio rural. 

Na imagem abaixo, o momento em que Ramiro foi preso, no interior de Goias, após meses de caçada. Eu, e o cinegrafista José Maria dos Reis o famoso Alemão, estivemos juntos na caçada já a 45 dias, cobrindo jornalisticamente pela Rede Tupi de Minas Gerais e TV Uberaba, Após Ramiro ser algemado, o primeiro jornalista a falar com ele após sua prisão, fomos nós, como mostra a imagem, isto no início dos anos 80.

(Jornalista Paulo Nogueira)


segunda-feira, 21 de junho de 2021

AURÉLIO LUIZ DA COSTA

“Olhe a sorte”. Esta era a abordagem dos empolgados diretores da ACIU, travestidos de vendedores de rifa junto aos transeuntes de Uberaba naqueles dias de dezembro, próximos do Natal de 1963. Mil bilhetes numerados estavam à venda sob a responsabilidade da diretoria de Aurélio Luiz da Costa.
As vendas corresponderam ao preço do prêmio, um carro zero km Aero-Willis. Apurado o resultado, a sorte finalmente sorriu para a Entidade, concedendo-lhe a premiação.

Este dinheiro era necessário para cobrir os custos finais de implantação da torre de transmissão da TV TUPI que, de Buritizal, SP, jogaria o sinal para Uberaba.

Era o remate de uma epopeia que se iniciou quando a TUPI, a pioneira da TV no Brasil, criada em 1950, passou a se expandir na década de 1960, para o interior de São Paulo.

As tratativas iniciais para trazer o sinal para Uberaba começaram na gestão de Mário Grande Pousa na ACIU (1961/1962), tendo como auxiliares diretos nesta empreitada, entre outros, os seus diretores José Sexto Batista de Andrade, Aurélio Luiz da Costa, Lincoln Borges de Carvalho, Gilberto Rezende e Mário Salvador.

Grande parte dos entusiastas deste processo firmaram compromissos de apoio mediante a promessa de pagamentos em parcelas para cobertura das despesas. Todavia, muitos não puderam resgatar seus compromissos.

A responsabilidade dos custos remanescentes recaiu sobre a gestão de Aurélio Luiz da Costa (1963). Desavenças que a poeira do tempo apagou, reduziu para oito o número de diretores da Entidade. Mesmo assim, novos personagens se juntaram nesta empreitada, entre outros, Benedito Jorge, Zito Sabino de Freitas, Jorge Dib Neto, Ronaldo Benedito Cunha Campos e José Leal do Alemão.

Não foi nada fácil para a diretoria da ACIU concretizar o compromisso assumido com a comunidade. Recursos e pessoal escasso, todavia, não foi capaz de aquebrantar o espírito de luta do presidente Aurélio. Dezenas de viagens a São Paulo, busca de apoio com o deputado estadual José Marcus Cherém em Belo Horizonte e por fim, o resultado de uma rifa, deu a ele e a sua diretoria, o troféu de “Vencedor”.

O pequeno e improvisado estúdio foi implantado no final da Rua Artur Machado. Os remates ficaram por conta da diretoria de Leo Derenusson (1964/1965) para que, finalmente, na gestão de Edson Simonetti, (1966/1967), a cidade contasse com a programação da TV Tupi.
 
Uma nova era foi inaugurada com a implantação da TV em Uberaba. Novos pilares econômicos foram se assentando. Lojas se abriram para o comércio de aparelhos de televisão e de antenas; novos profissionais para oficinas de reparos e novas profissões vinculadas às áreas artísticas e de comunicação. Um mundo novo e deslumbrante de fantasias se apresentou na cidade que só conhecia o rádio. A paixão pela novidade foi retumbante.

Apesar do tempo dedicado à missão TV, outras questões mereceram a atenção da ACIU na gestão do Aurélio. Foi neste período que a Entidade participou da elaboração do Código Tributário Municipal.
A UNASBA-União das Associações e Sindicatos de Uberaba, criada a cerca de uma década, tinha Aurélio na presidência neste período, contribuindo assim com a ACIU, na luta para o asfaltamento de Uberaba/Belo Horizonte (BR 262) e Uberaba/Uberlândia (BR 50) bem como para a campanha de canalização dos córregos.
Aurélio foi o maior acionista individual do Banco do Triângulo, criado por Fidélis Reis e que posteriormente foi encampado pelo Banco Nacional de Magalhães Pinto e que, por sua vez, foi encampado pelo Banco da Lavoura, virou Banco Real e hoje é Santander.

Uma de suas atividades era o comercio de madeiras, inicialmente na Praça Frei Eugênio com a empresa “Madeireira Triângulo”, posteriormente transferida para a Rua Capitão Manoel Prata.
Foi também diretor da empresa estatal FRIMISA - Frigorífico de Minas Gerais, localizada onde se encontra hoje as instalações do Frigorífico Boi Bravo.

Dotado de espírito comunitário, Aurélio fez diversas doações de terrenos para instituições de caridade e escolas municipais e estaduais, entre estas, a da Abadia e do Jardim Induberaba.
 
Sua morte prematura em 25 de dezembro de 1965, aos 34 anos de idade, deixou inconsolável sua esposa Ivani Amaral Costa e seus quatro filhos Marco Aurélio, Aurélio Jr., Márcia e Márcio (Budú)
Aurélio Luiz da Costa é hoje nome de uma Praça de Uberaba localizada no bairro de São Benedito. É também nome da Escola Estadual localizada no Jardim Induberaba. É saudade de seus amigos e familiares. É exemplo de luta extremada na defesa dos interesses de Uberaba. É história que jamais poderá ser esquecida.


Gilberto de Andrade Rezende.
Membro da Academia de Letras do Triângulo Mineiro, ex-presidente e Conselheiro da ACIU e do CIGRA.
Fontes;
ACIU –
Mário Salvador –
Marco Aurélio Luiz da Costa.

TURFA – UM ESTUDO DE SUA POTENCIALIDADE ENERGETICA

PUBLICADO EM 1982 PELA METAMIG, NÃO TEVE CONTINUIDADE.

O Acadêmico César Vanucci, uberabense radicado em Belo Horizonte, traz à tona em seu artigo que compartilhamos, a história da turfa, uma interessante fonte de energia localizada pela Metamig em Uberaba e outras regiões do Triângulo Mineiro.
E as jazidas de turfa do Triângulo?
Cesar Vanucci *

“Turfa, uma nova riqueza energética!”
(Anúncio do Governo, em 1982)
Volto a assunto focalizado há bom tempo neste espaço. Ressalvando a condição de leigo no trato da temática abordada, trago informações, que considero relevantes sobre a turfa. Falemos de suas propriedades como fonte alternativa de energia.

O geólogo João Alberto Pratini de Morais, por volta de 1982, diretor de operações da Metamig, conduziu um estudo ressaltando a importância e viabilidade do emprego da turfa como adicional tecnológico precioso. Assegurou tratar-se de matéria prima capaz de oferecer bons resultados, em termos regionais – ele se referia à região do Triângulo Mineiro –, no tocante à produção energética. Explicou que a turfa é massa formada da degeneração de plantas acumuladas ao longo de milhares de anos, em depressões de terrenos. Com o soterramento e compactação, a água e outros compostos voláteis foram lentamente expulsos dessa massa.

Daí resultou o surgimento de camadas de carvão. O material é de aplicação ampla. O aproveitamento da turfa decorre tanto de sua estrutura específica, quanto de suas características físico-químicas. A experiência mundial aponta que as principais aplicações ocorrem na agricultura, no condicionamento do solo, e na indústria, como combustível para gaseificação. Como insumo energético, a turfa contribui para a geração de eletricidade, vapor e aquecimento. A substituição de derivados do petróleo, a proteção ambiental, a alta eficiência de combustão, o controle de temperatura de combustão e a possibilidade de adaptação às caldeiras instaladas são indicados como outras vantagens do processo.

A utilização da turfa em grande escala, na Finlândia, Holanda, Suécia, Polônia, Inglaterra, Alemanha, Noruega, Rússia, Irlanda e Escócia, como fonte opcional de energia, são fatores que sugerem sua crescente importância na atualidade, traduzida na necessidade de identificação de outras matrizes de energia para acudir às exigências do conforto humano.


Há mais de três décadas, a produção de turfa na Rússia era da ordem 200 milhões de toneladas/ano, canalizadas principalmente para o setor elétrico. Na Irlanda, o volume atingia 6 milhões de toneladas/ano. O histórico brasileiro nessa modalidade não indicava índices dignos de nota. A Central do Brasil chegou a explorar turfeiras para alimentar locomotivas.


Em 1982, há quase 40 anos, na Federação das Indústrias de Minas Gerais, o secretário da Indústria José Romualdo Cançado Bahia, de saudosa memória, anunciou que a descoberta recente de volumosas jazidas turfeiras em Uberaba, Araxá, Sacramento e Perdizes, representava um marco histórico para o uso de uma riqueza adormecida no subsolo. A Metamig acabara de concluir, no território citado, o mais avançado estudo já feito sobre a apropriação da turfa. As reservas identificadas substituiriam o carvão mineral e a lenha, em largas faixas territoriais. As lavras eram de fácil extração e de beneficiamento simples e transformação em elemento energético, comparável ao carvão mineral.

O comunicado rendeu copioso noticiário. A “Vida Industrial”, publicação da Fiemg, conferiu ao assunto reportagem de capa, com realce para as declarações de Pratini de Morais. Foi Acentuado que o Ministério de Minas e Energia mostrava-se propenso a incentivar investimentos na exploração das jazidas e que essa exploração não exigia grande tecnologia, oferecendo retorno imediato. O então diretor técnico da Companhia de Recursos Minerais, Edson Suchinski, esclareceu que a turfa é mais viável economicamente do que o carvão.

Vou parando por aqui as anotações. Fica no ar, pertinente indagação. E, então: a possibilidade de exploração da turfa na região de Uberaba continua sendo economicamente viável, como enfatizado, em 1982?

DOM ALEXANDRE GONÇALVES DO AMARAL.

HOMENAGEM AOS 115 ANOS DE SEU NASCIMENTO - 12-06-1906
“Vou cancelar esta cerimônia”. Mal ele terminou estas palavras já avisamos a Dom Alexandre Gonçalves do Amaral que a noiva já estava se posicionando para o tradicional desfile, dando início ao casamento.

Havia sempre uma preocupação maior com a questão de horário quando se tratava de um casamento realizado pelo Arcebispo na década de 70, na Casa do Folclore.

Jamais recusou qualquer solicitação nossa. A sua presença era por nós considerada como uma demonstração de estima e de consideração já que a maioria dos padres e outros bispos, com exceção de Dom Alberto Guimarães, se recusava a realizar casamentos sob o argumento de que não havia ali uma capela.

Dom Alexandre, de uma educação esmerada e de afável trato era, todavia, rígido em disciplinas eclesiásticas e em horários, motivo de sua impaciência.

Em termos de disciplina, de defensor intransigente da fé, do rito e das determinações religiosas, basta o fato de usar fivelas em sapatos que lhe machucavam os pés, mas que compunha as indumentárias determinadas pelo Vaticano e que, para tira-las teve que receber autorização, após graves ferimentos provocados, conforme relata César Vanucci em seu livro “Um Certo Dom”.

A primeira vez que recebemos a visita de Dom Alexandre na Casa do Folclore foi em razão de um convite feito por meio do Professor Erwin Puhler, e sua esposa Eunice, amigos de longa data do Arcebispo. Acompanharam-no nesta visita também o Padre Hyron Fleury, João Francisco Naves Junqueira, seu médico particular e algumas religiosas.

Neste dia acontecia mais uma apresentação do Catira dos Borges. O Arcebispo gostava de manifestações culturais. Conheceu essa dança folclórica em Iturama.

Na época desta visita, década de 1970, não havia grandes construções no local e sim jardins, o que levou Dom Alexandre a dizer que o local se parecia com os jardins do Éden. Muito gentil, disse ainda que batizaria a Casa do Folclore como Academia Brasileira do Folclore.


Filho de Benjamim Gonçalves e Maria Cândida Gonçalves do Amaral, Alexandre nasceu em Carmo da Mata, Minas, aos 12 de junho de 1906.

Aos 23 anos, em 22 de setembro de 1929, foi ordenado padre. Dez anos após, ao ser eleito bispo, foi ungido em 29 de outubro de 1939 o mais jovem bispo em todo o mundo. Neste mesmo ano tomou posse em Uberaba em 8 de dezembro de 1939 exercendo a função episcopal até 1962 por indicação do Papa Pio XII. Foi o 4º bispo da cidade, após D. Luiz Maria de Sant’Anna.

Na década de 1940, dono de uma inconfundível voz, Dom Alexandre foi considerado o maior orador sacro do Brasil. Segundo Cesar Vanucci, apesar de conhecer bem a ortografia, se apegava em escrever seus artigos de próprio punho e utilizando a grafia antiga como “pharmácia” e não aceitava a revisão do jornal.

Em 14 de abril de 1962 o papa João XXIII elevou a Diocese de Uberaba a Arquidiocese e criou a Província Eclesiástica de Uberaba abrangendo as dioceses de Patos de Minas, Uberlândia e Paracatu. A Catedral obteve o título de Catedral Metropolitana e o Bispo Dom Alexandre foi elevado à categoria de Arcebispo, o 1º de Uberaba.

Manteve este título até maio de 1978, quando renunciou juntamente com seu Administrador Apostólico, Dom José Pedro Costa. Dom Alexandre Gonçalves do Amaral e Dom Pedro passaram à categoria eclesiástica de “Bispo Emérito”.

A atuação de Dom Alexandre como supremo dirigente da Igreja em Uberaba, iniciada em 1939, não ficou restrita a ser o pastor espiritual.

Diversos desafios ocorreram em sua longa trajetória episcopal. Assumindo suas funções eclesiásticas em plena 2ª guerra mundial (1939/1945), sua primeira intervenção se deu quando os padres dominicanos foram acusados de manter uma emissora clandestina para passar informações para os alemães. Buscas foram realizadas na Igreja São Domingos e nada foi encontrado. Quando os fiéis quiseram fazer o desagrava deste lamentável fato foram impedidos e o próprio Jornal Católico, censurado.

No governo de Juscelino Kubitschek (1951/1955) ocorreu em Uberaba graves manifestações contra os abusos cometidos por fiscais da Secretaria da Fazenda do Estado de Minas Gerais comandada por José Maria Alkimim, resultando em uma revolta dos contribuintes. Baderneiros aproveitaram para provocar atos de vandalismo destruindo arquivos da Receita Federal, que funcionava no prédio da Associação Comercial e Industrial de Uberaba, e os da Receita Estadual instalada na Rua Major Eustáquio com a Rua Manoel Borges.


Na época foram presos inúmeros uberabenses. Coube a Dom Alexandre partir para a defesa dos injustiçados em artigos virulentos contra o arbítrio, publicados no “Correio Católico”, conseguindo a vinda do então Secretario Estadual a Uberaba para apaziguar a situação.

Como o Governador Juscelino tinha interesse na eleição para Presidente da República, além de serenar os ânimos dos uberabenses atendeu as solicitações de Dom Alexandre e, pouco tempo depois, deu de presente, segundo relato de Frederico Frange, o prédio da antiga cadeia, situada na Praça do Mercado, acrescido de um bom numerário para que a Associação de Medicina de Uberaba implantasse uma Faculdade de Medicina particular que se transformou na UFTM, uma das grandes Universidades Federais do Brasil.

Dom Alexandre foi uma poderosa voz na revolução de 1964. Nas palavras de César Vanucci, não lhe faltava carisma, cultura, inteligência, sabedoria, vivência humanística e espiritual. Sobrava coragem para enfrentar desafios. Para corrigir abusos que estavam sendo cometidos em nome do governo foi pessoalmente a Belo Horizonte para um encontro marcado com o Governador Magalhães Pinto. Nessa oportunidade conseguiu a transferência do comandante do 4º Batalhão, que era o objeto de reclamações dos injustiçados.

O Governador designou, para seu lugar, o ajudando de Ordens do Gabinete Militar Ten.Cor.PM José Vicente Bracarense que depois de pacificar os relacionamentos entre o governo estadual e a Igreja, fincou raízes em Uberaba, ocupando por duas vezes secretarias nos governos municipais de Hugo Rodrigues da Cunha (1973/1976) e Silvério Cartafina (1977/1982).

A FISTA–Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Santo Tomás de Aquino- criada pela Congregação das Irmãs Dominicanas em Uberaba no ano de 1948, por iniciativa de Dom Alexandre, teve sua diretoria invadida, em abril de 1964, por elementos estranhos ao quadro da Instituição que assumiram o poder em nome do Governo. Repudiados pelo Bispo foi necessário manter contato com o Gal. Castelo Branco para terminar com esta situação. O Presidente determinou que onde houvesse Diocese a Igreja deveria ser ouvida antes de quaisquer atividades em entidades vinculadas.

Além dessas interferências, durante seu bispado teve que enfrentar tempos desagradáveis e polêmicos, entre os quais os desentendimentos com a classe médica em relação a cartas anônimas - pichações anônimas - tomada de posição em favor da implantação da Cemig e muitas outras registradas pela imprensa.

Dom Alexandre fazia sua defesa por meio do Correio Católico, jornal por ele criado e que inicialmente era mensal, passou para semanal e se tornou diário em 1954 na gestão de Dom José Pedro Costa. Segundo Cesar Vanucci em seu livro “Um Certo Dom”, foram escritos cerca de 6.000 artigos para o Jornal.

Em 1972 o Correio Católico foi vendido para um grupo de empresários do qual participava na diretoria Joaquim dos Santos Martins, Gilberto Rezende e Edson Prata. O nome foi mudado para “Jornal da Manhã”.

Como empreendedor Dom Alexandre construiu o Seminário São José (Praça Dom Eduardo) na década de 1980, hoje chamado Centro Pastoral João Paulo II, sede da Cúria Metropolitana. Durante seu bispado trouxe a Uberaba três mosteiros contemplativos – das Beneditinas, Carmelitas e Concepcionistas. Trouxe ainda as Carmelitas da Afonso Rato, os Capuchinhos, os Padres Sacramentinos, as Irmãs do Asilo São Vicente e Orfanato Santo Eduardo.

Pastor e evangelizador, pregador, conferencista, jornalista e escritor, foi também professor de Filosofia e Teologia. Um de seus alunos ilustres foi Mário Palmério a quem incentivou a criação das Faculdades.

Foi um dos fundadores da Academia de Letras do Triângulo Mineiro (ALTM), ocupando a cadeira 21, sendo sucedido por Maria Antonieta Borges Lopes. Escreveu três livros, entre eles “Os Católicos e a Polícia”, em 1946.

Dom Alexandre faleceu aos 05 de fevereiro de 2002 tendo vivido 96 anos, 73 como padre, 39 anos de governo episcopal e 23 anos como Bispo Emérito. Está sepultado na cripta dos bispos na Catedral onde, em 2006, foi celebrado o centenário de seu nascimento.

Sua vida bateu três recordes quase impossíveis de serem repetidos, pois foi ordenado padre aos 23 anos, nomeado bispo com apenas 33 anos e vivido 63 anos como bispo.

“Dom Alexandre Gonçalves do Amaral” é hoje nome de uma rua no residência Mário de Almeida Franco.

Gilberto de Andrade Rezende – Membro da Academia de Letras do Triângulo Mineiro, ex-presidente e conselheiro da ACIU e do CIGRA.
Fontes – Jornal da Manhã –
César Vanucci – livro “Um Certo Dom”.
Voz da Arquidiocese.

ANTÔNIO MARTINS FONTOURA BORGES

“O Presidente quer falar com o senhor” Após estas palavras, Caricio Borges, gerente do Banco Nacional do Comércio e Produção instalado na Rua Arthur Machado, determinou ao contador José Lóes que providenciasse a imediata antecipação de minhas férias. A audiência com o presidente Antônio Martins Fontoura Borges, mais conhecido por Toniquinho Martins, estava já marcada para a próxima semana na matriz, no Rio de Janeiro.

A curiosidade invadiu meus pensamentos pois entrara no banco em 1951, com a idade de 18 anos, para trabalhar no caixa. Porque a razão deste convite para um funcionário que não tinha ainda dois anos de serviço.

O Banco foi fundado em 1943 por Toniquínho Martins e seu primo Ronan Rodrigues Borges, com matriz no Rio e agências nas cidades de São Paulo, Uberaba e Conquista.

Já trabalhavam na agência de Uberaba, entre outros, os colegas José Virgílio, (procurador), Joel de Andrade Lóes, José Alberto Andrade e Albertino Rodrigues da Cunha.

Naquela época o tratamento do banco com seus clientes era personalizado. Cada grande correntista tinha sua caderneta onde eram anotados os depósitos e os juros. Esta operação era de alçada exclusiva do gerente que mantinha uma taxa diferenciada de juros para cada categoria de cliente, com direito a reclamação e ratificação.

Entre os mais assíduos destes clientes, poderiam ser destacados, entre outros, os nomes de Artur Machado Jr, Clemente Marzola, Ronan Marquez, Arthur de Castro Cunha, Jurandir Cordeiro, Orlando Rodrigues da Cunha e abastados comerciantes e fazendeiros da região.

No Rio de Janeiro a recepção foi calorosa. Para tornar a conversa mais amistosa, Toniquinho Martins, um homem de educação esmerada e de prosa agradável, me convidou para um lanche na famosa Confeitaria Colombo, prestigiada no carnaval daquele ano de 1952, com a música “Sassaricando”. O edifício do banco era ao lado da Confeitaria.

Me sentia muito honrado por ter a oportunidade de conversar diretamente com um administrador que gozava da justa fama de ser um dos mais agressivos empreendedores brasileiros. Todavia, quando ele me revelou a razão do convite, creio que o decepcionei pois não pude aceitar. Ele queria que eu assumisse a procuradoria da agência de Conquista que, naquela década tinha um grande movimento pela produção e comércio de café, açúcar, arroz de sequeiro e criação de gado de raça.

Sem dúvidas, era uma promoção e o reconhecimento do trabalho que fazia na agência. Todavia eu trabalhava em outro emprego, em outros horários, motivo que me levou a agradecer e declinar do convite.
Este encontro nunca saiu das minhas lembranças. Conhecer pessoalmente Toniquinho Martins, suas ideais, seus empreendimentos, sua preocupação com seus funcionários e sua vontade de criar novos investimentos em Conquista e Uberaba, deixou em mim a certeza de que ele era um exemplo de conduta a ser seguido para todos aqueles que tivessem a intenção de empreender – coragem, conhecimento e determinação. Uma vida que vale a pena conhecer.

Antônio Martins Fontoura Borges, nasceu em Uberaba em 23 de março de 1898. Atuou em todos os segmentos econômicos. No setor rural “Toniquínho Martins” foi um destaque pela sua criação de gado zebu de alta linhagem da raça indubrasil, plantio de café, mantendo a tradição da família em suas fazendas da Mandioca, São Sebastião e Coqueiros, localizadas no município de Conquista, MG, com área superior a 3.000 hectares. Em 1934 foi um dos fundadores da SRTM – Sociedade Rural do Triângulo Mineiro e que mais tarde se transformaria na ABCZ.

Uma de suas primeiras participações na área comercial foi em 1930, na fundação da empresa Orlando Rodrigues da Cunha & Cia. Ltda., tendo como sócios outros grandes empreendedores como seu irmão Alberto Martins Fontoura Borges, Orlando Rodrigues da Cunha e Agenor Fontoura Borges. Em 1931 esta empresa inaugurou o Cine São Luiz, na praça Rui Barbosa.

Com a admissão de Joaquim Machado Borges em 1939, a empresa construiu e inaugural em 1941, o Grande Hotel e o Cine Metrópole, na Avenida Leopoldino de Oliveira e arrendou o antigo cinema Capitólio transformando-o em Cine Royal (matinê aos domingos, 400 réis o ingresso).
 
Em 1947 a empresa admitiu como sócios os irmãos Hugo e Carlos Alberto, filhos de Orlando Rodrigues Cunha e passa a condição de S/A, com o nome de Cia. Cinematográfica São Luís. Em 1949 constrói e inaugura o Cine Vera Cruz, na confluência das ruas São Benedito com José de Alencar.

No setor farmacêutico implantou, com seu irmão Alberto e alguns companheiros, a Drogaria Triângulo, localizada na rua Manoel Borges, ao lado da Praça Rui Barbosa, cuja administração ficou a cargo de João de Carvalho.

Atuou fortemente na área industrial. Em 1924 junto com seu pai, Antônio Martins Borges e seu irmão Alberto Martins Fontoura Borges e José Ferreira de Mendonça, se associaram aos irmãos Heitor e José Baia Mascarenhas e fundaram, com 1.700 contos de capital, a Companhia Fabril do Triângulo Mineiro, na praça Dr. Adjuto, onde construíram uma grande fábrica de tecidos. Com a compra da fábrica de tecidos do Cassú que era de propriedade de Carlos Gabriel de Andrade, (Barão de Saramenha), unificaram as empresas em 1928, se constituindo na maior organização industrial até então existente em Uberaba e a única indústria têxtil de toda região do Triângulo Mineiro.
 
A fábrica fundada em 1882 pela família Araújo Borges, localizada às margens do ribeirão Caçu, bem perto da Casa do Folclore, chegou a ter uma vila com 100 residências, construídas pela própria empresa, “Fábrica de Tecidos Santo Antônio do Cassú” e cerca de 500 moradores.

No setor imobiliário Toniquínho loteou uma grande área da qual era proprietário, no bairro da Gávea, cidade do Rio de Janeiro. Residia em uma mansão situada na Lagoa Rodrigo de Freitas onde por diversas vezes foi assediado para vende-la ao governo americano para transforma-la em sua Embaixada.

Dotado de uma extraordinária argúcia comercial, percebeu que a Bolsa de Valores iria à bancarrota quando seu engraxate lhe comunicou, no início de 1971, que havia adquirido um lote de ações de algumas empresas. Com esta informação, sabendo que a dispersão das ações iria provocar um debacle, vendeu sua carteira de ações. Um dos poucos grandes investidores a se salvar da grande derrocada da Bolsa que abalou por muitos anos a economia brasileira.

Foram mais de sessenta anos de investimentos nos mais diversos setores econômicos. Seu vasto rebanho de gado selecionado o colocava na reconhecida posição de grande criador da pecuária nacional
No setor hoteleiro foi pioneiro na construção do primeiro grande estabelecimento do interior de Minas Gerais, tendo o Grande Hotel em sua história, o registro de hospedagem de grandes figuras da política brasileira e estrelas artísticas internacionais, como Tito Schipa, tenor italiano, que figura até hoje na galeria dos grandes interpretes de óperas.
 
Os cinemas faziam diversas sessões para comportar o público interessado nos grandes filmes que eram lançados. No final de semana, filas imensas se formavam frente ao Cine Metrópole, que se estendiam até a praça Rui Barbosa.

Nas palavras de Firmino Libório Leal da cidade de Conquista, Toniquínho Martins era um “Homem probo, integro, conciliador, de conduta ilibada. Com natural desprendimento, participou ativamente com largos haveres para a criação e construção da Santa Casa de Misericórdia de Conquista e da Escola Estadual de Conquista, atual Escola Estadual Dr. Lindolfo Bernardes dos Santos. Além disso, mantinha em suas propriedades dezenas de famílias, entre agregados e funcionários, onde, como patrão honesto e justo, tratava a todos com distinção, lhaneza, proteção e abrigo”.

No início da década de 1980, reconhecido como um dos mais brilhantes executivos brasileiros, Toniquinho, já chegando aos oitenta anos, resolveu que já estava passando da hora de começar a usufruir das benesses que lhe seriam propiciadas pelo grande império econômico que construiu em sua vida.
O destino, todavia, lhe reservou outro caminho. Ao chegar em sua casa na cidade de Conquista, de mudança definitiva de sua residência no Rio de Janeiro, foi acometido por uma grave doença que o impediu, de continuar sua vitoriosa jornada. Por algum tempo usava cadeira de rodas para sua locomoção para ver o seu gado nos currais de sua fazenda. Faleceu em 13 de maio de 1984, aos 86 anos de idade.

Sem o grande timoneiro e com as mudanças ocorridas em todos os setores da economia brasileira, as empresas de que Toniquínho Martins participava, passaram e algumas continuam passando por situações críticas.

O Banco Nacional do Comércio e Produção já havia sido incorporado pelo Banco da Lavoura que, por sua vez, foi incorporado pelo Banco Real e atualmente está sob o controle do Banco Santander.

Os cinemas, que já contaram com a administração, primeiramente dos sócios fundadores e mais tarde com a dos empresários Lúcio Ferreira Borges, Hugo Rodrigues da Cunha, Carlos Alberto Rodrigues da Cunha e Joaquim José, foram perdendo gradativamente sua clientela após a criação da Internet, obrigando-se ao fechamento de todas as salas de projeção.
 
O Grande Hotel, por não dispor de garagens, viu definhar o interesse de seus hóspedes. Com a possibilidade de o imóvel ir à leilão por impostos atrasados, Carlos Alberto Rodrigues da Cunha adquiriu a totalidade das ações e quitou com a Fazenda Nacional.
 
Por ser inventariado, Carlos Alberto elaborou um projeto de revitalização que foi aprovado pelo Conphau. Com seu falecimento, tudo voltou a estaca zero e não se sabe que destino irá ser dado ao hotel.

O Cine Teatro São Luiz foi leiloado para pagamento de débitos fiscais e trabalhistas. O Cine Vera Cruz foi adquirido pela Prefeitura Municipal de Uberaba, governo Anderson Adauto e é hoje Teatro Municipal.

Grande parte das fazendas mudaram de propriedade em decorrência de ações trabalhista em desfavor da viúva de Toniquínho.

A Indústria Têxtil, transferida da praça Dr. Adjuto para o DI, criado no governo de João Guido teve diversos administradores em sua longa existência. Em 1993 a empresa, sob o comando de Joaquim José e sua sócia e companheira, Sandra Magalhães, requereu sua própria falência, após 114 anos de atividade. Somente em 2020, 17 anos após a decretação da falência é que o imóvel foi arrematado por uma empresa chinesa.
 
Antônio Martins Fontoura Borges era casado com a senhora Cornélia de Oliveira Borges e tiveram um único filho, Joaquim José Martins Borges que faleceu em 18 de agosto de 2015, deixando uma filha do primeiro casamento e um filho, Antônio Martins Fontoura Borges Neto, fruto de seu segundo casamento com Sandra Gonçalves.

O pioneirismo de Antônio Martins Fontoura Borges e de seu irmão Alberto Martins Fontoura Borges, em conjunto com o grupo formado pela empresa de Orlando Rodrigues da Cunha, deu a Uberaba, por mais de cem anos, exemplos de arrojos em empreendedorismo. Todos os administradores da primeira e segunda geração, são hoje apenas saudades.

“Alberto Martins Fontoura Borges” é o nome da Avenida que passa em frente da antiga fábrica de tecidos, no bairro São Benedito.
 
“Orlando Rodrigues da Cunha” é nome de movimentada avenida no bairro da Abadia.
A comunidade de Uberaba fica devendo para o tributo da história as devidas homenagens à memória de Antônio Martins Fontoura Borges por tudo que este empreendedor visionário fez em benefício da cidade.

Gilberto de Andrade Rezende – Membro da Academia de Letras do Triângulo Mineiro. Ex-presidente e conselheiro da ACIU e CIGRA. Ex-funcionário do Banco Nacional do Comércio e Produção S/A.
Fontes:
Guido Bilharinho – Livro - Uberaba Dois Séculos De História – Volume II;
Firmino Libório Leal – Artigo - Antônio Martins Fontoura Borges “Toniquinho”. Uma página esquecida na história de Conquista;
Superintendência do Arquivo Público de Uberaba;
Jornal da Manhã;
Museu do Zebu – livreto - Fazendas de criação do Triângulo Mineiro;
Carla Mendes Bruno Brady e Randolfo Borges Filho – livro A epopeia dos Borges;
Claudia Marun Mascarenhas Martins – Tese - As empresas do grupo Mascarenhas e o desenvolvimento de sociedades anônimas.

REYNALDO DE MELO REZENDE.

Não foi possível dormir. A excitação era muito grande. Às quatro horas da madrugada eu já estava de pé. Que emoção. Pela primeira vez, aos 8 anos de idade, em 1941, ia ter a oportunidade de ser ajudante de candieiro.

A velha caseira Colodina acabava de fazer o café. No curral, o carreiro Benedito já com as quatro juntas de boi na canga, ultimava as providências para a viagem. Divaldo, filho do meio da Estorgilda e neto da Colodina, era o candieiro. As 40 sacas de fubá garantiam os gemidos dos mancais que iriam atravessar a madrugada.

Apesar de ponteiro, teria que ajudar da guia ao cabeçalho, mas na realidade, ficava em cima da carga ou enganchado nos fueiros já que a esteira de proteção me impedia de ficar escarrapachado no carro.
Não obstante a curta distância, oito quilômetros, a viagem demorava quase três horas, passando pelo córrego dos Carneiros e entrando pelo bairro da Abadia. Aliás, o tempo não tinha a menor importância. Ouvindo as toadas do carreiro, o cantar do carro e curtindo o raiar do dia, não poderia desejar felicidade maior.

Estas viagens eram uma rotina na fazenda São José de propriedade de meu avô Manoel Gonçalves de Rezende. Desde 1914, data da compra do moinho de meu bisavô Antônio Vallim de Mello, que a fazenda vinha produzindo fubá.

Sem concorrência no mercado, no decorrer dos anos foram instalados mais dois moinhos para garantir uma produção de 50 toneladas/ano.
Os córregos Quati, Três Córregos e Conquistinha abasteciam os moinhos. Contrariando o provérbio de que “águas passadas não tocam moinhos”, a mesma água que passava em um moinho, passava nos demais.

Os fregueses eram cativos. José Mateus, Tufy José Elias, Artur Amâncio, Manoel Alfredo Freire, Antônio Carrilho, José Rufino, José Benito Naves, Armazém Central, Casa Carvalho, Adalberto Pena e Irmãos Almeida se destacavam pela quantidade comprada.
As vendas já haviam sido efetuadas pelo meu tio Reynaldo Rezende, que a exemplo de seu pai, corria o comércio a cavalo. O pagamento era a prazo, 14 dias. O preço oscilava entre 12 e 16 mil réis o saco de 50 quilos de fubá, equivalente ao dobro do preço do saco de milho. O salário mínimo era de 3 mil réis/dia.

A lucratividade era pequena por isso a maioria da produção era de responsabilidade de alguns dos treze irmãos. Ajudava o fato de não haver impostos sobre o produto e nem ônus sobre a folha de pagamento.
No início, o plantio de 15 alqueires, era suficiente para a produção de 150 carros de milho de 5 jacás cada. Eram suficientes também para os 3 moinhos que levavam 24 horas para produzir 250 quilos de fubá.

O dia da viagem foi divertido. No retorno para a fazenda nada poderia ser melhor. Enquanto os bois descansavam na porta da venda do sr. Tufy, o carreiro comprava as encomendas. Deu tempo suficiente para comer um pão com salame e tomar um gole de capilé. Se houvesse chuva no retorno, teria direito a um dedal de pinga na fazenda para evitar resfriado, dosado pela minha avó Idalina.

Foi minha primeira e única viagem nesta experiência como candieiro. As férias escolares terminaram e o retorno para o colégio desmanchou meus sonhos de viver na fazenda.

Foi também uma das últimas viagens do carro de boi com carregamento de fubá. Doravante, a carga seria de milho em grãos.

Os moinhos de água pararam, mas durante 27 anos, de 1914 a 1941, eles transformaram a fazenda São José numa das pioneiras na Agroindústria.

A fazenda foi se esvaziando ano após ano pois os filhos, doze homens e uma mulher, Maria Rezende, foram se afastando. Vinham para a cidade para estudar e depois tomavam outros rumos. Alguns seguindo o exemplo do pai, como o Romeu, o Randolfo, o Antônio e o Raymundo, compraram fazendas. Outros como o Raul, (meu pai), o Mário, o Orlando e o Gentil, preferiram seguir a carreira bancária. O Manoel (Nequinha) faleceu prematuramente. Somente o avô Manoel Gonçalves e os filhos João e Álvaro de Melo Rezende permaneceram.
 
Já o Reynaldo Rezende, conhecendo a potencialidade do comércio de produtos do milho, tomou a iniciativa de construir uma fábrica de moagem e torra de milho para produção de produtos empacotados de fubá e farinha, no fim da década de 1940.
 
A indústria foi instalada em um terreno localizado entre as ruas Barão da Ponte Alta e Maestro José Maria, bairro da Abadia. Nessa época o município de Uberaba, incluindo diversos distritos ainda não emancipados e a zona rural, já se aproximava dos 60 mil habitantes.

Seu início foi muito difícil. Em plena 2ª. Guerra Mundial, havia dificuldade de energia. Não havia motores a diesel. O gasogênio era o combustível dos carros e também das indústrias. Só com a intermediação de Thomaz Bawden é que se conseguiu energia da usina “Pai Joaquim”.

A capacidade de produção foi multiplicada por vinte, graças a uma peneira inventada pelo primo Silvio, filho de Romeu Rezende, alçando a produção de fubá a 200 quilos/hora. As vendas passaram a ser feitas em pacotes de pesos variados.

Consolidada a fábrica de produtos derivados do milho, Reynaldo implantou também, no mesmo local, uma indústria de torrefação, moagem e empacotamento de café, batizando todos os seus produtos com a marca “REYNA” que por seis décadas tiveram a preferência do mercado.

Nessa mesma época adquiriu as cotas de capital de seus irmãos em uma máquina de beneficiamento de arroz, “Rezende & Cia Ltda”, implantada na rua São Benedito e a transferiu para um novo endereço, em sede própria, no bairro do Fabrício.
 
Foi nesta empresa que ele, na década de 1950, como pioneiro, lançou no mercado nacional o empacotamento de arroz de sequeiro, com pesos de 2 e 5 quilos com a marca “Rezende”, abarrotando por muitos anos os mercados do Rio de Janeiro e São Paulo o que motivou outras empesas brasileiras a seguir o exemplo. Na década de 1970, a máquina de arroz foi alienada para a empresa de José Miguel Árabe.

Em 1948, aos 15 anos eu já era funcionário de escritório das “Indústrias Alimentícias REYNA” Ltda., pioneira no Triângulo Mineiro. Uma das características do Reynaldo Rezende era dar oportunidades para seus familiares. Os irmãos Maria, Orlando, Gentil, Manoel (Nequinha) e Orlando Rezende, enquanto estudantes, trabalhavam na fábrica. Também os sobrinhos Paulo Rezende, Dário e Djalma Batista, deram sua contribuição por muitos anos. Já os cunhados, Honório (Dico), faleceu em serviço e José Batista de Carvalho, seu principal gerente, foi o primeiro a entrar e o último a sair.

As famílias italianas, Faina, Dellalíbera, Faquinelli e Arduini bem como os Arruda originários da fazenda São José, foram as que por mais tempo permaneceram na indústria.
 
O movimento era intenso no grande pátio da fábrica. Registrava-se a chegada de caminhões abarrotados de milho ou café em grão e a saída de peruas carregadas de café em pó e produtos derivados de milho, para distribuição no comércio de Uberaba e região.
 
Por lá passavam também os vendedores, compradores, funcionários, fiscais e visitantes. Era grande o burburinho. Transações gerando riquezas, criando e resguardando empregos e dando vida econômica e social ao bairro e à cidade.

Todas as tardes, horário de torra, levado pelas brisas, as casas do bairro eram inundadas pelo gostoso aroma do café. Os relógios eram acertados pelas sirenes da fábrica que marcavam os horários de entrada e saída dos grupos de trabalho.

As dificuldades eram parceiras constantes no desenrolar das atividades empresariais do Reynaldo e provavelmente de milhares de empresas brasileiras. Deposição do presidente Getúlio Vargas em 1945, as agruras do pós guerra onde o Brasil perde importantes mercados, o suicídio de Getúlio Vargas em 1954, o êxodo rural a partir de 1960, a renúncia de Jânio Quadros em 1961, as agitações políticas de 1963 no governo de Jango Goulart, a revolução militar de 1964, o AI5 de 1968, o plano Cruzado de José Sarney e os planos “Verão” dos ministros Bresser (1987) e Maílson da Nóbrega (1989), a rapinagem da poupança de Fernando Collor em 1990, o congelamento do dólar em 1997 no governo Fernando Henrique e outros atos, nem sempre republicanos, desses e outros governos, causaram grandes estragos na economia. Os bancos fechavam suas carteiras de créditos, os juros escorchantes e a inflação desenfreada faziam com que os empresários vislumbrassem, como a única forma de salvar sua empresa e o seu patrimônio, a adoção de medidas legais, chamadas atualmente de recuperação judicial como a que a Indústria “REYNA” teve que recorrer em um desses momentos.
 
Apesar dos destemperos e rebuliços, Reynaldo, dotado de espírito filantrópico, encontrava tempo de participar das confrarias dos asilos São Vicente e Santo Antônio e de outras instituições beneficentes, sempre participando com generosas contribuições financeiras ou com permanente fornecimento de alimentos de sua fábrica.
 
Também no associativismo, fazia questão de se reunir com seus companheiros empresários tendo participados por alguns anos da diretoria da ACIU na década de 1950. Em reconhecimento ao seu pioneirismo, por duas vezes foi “Industrial do Ano” em promoção do Estado de Minas Gerais.

Permaneci por 20 anos na empresa “REYNA” de 1948 a1967, mesmo tendo outros empregos e outros empreendimentos próprios para administrar. A partir de 1968 continuei como seu conselheiro por quase trinta anos, até que ele, já com a idade de 90 anos, transferiu o empreendimento para o seu filho mais novo, Reynaldo Luiz Oliveira Rezende, um renomado oftalmologista, residente em Ribeirão Preto.
 
A fábrica continuou funcionando até o ano de 2002, quando paralisou todas as suas atividades. Por 60 anos foi sustento de centenas de famílias, foi uma das bases da economia da cidade, foi um refúgio para os necessitados e foi símbolo de produtos de qualidade.
 
Em 09 de março de 2004, em uma fatalidade decorrente de um acidente caseiro, fecharam-se as cortinas do teatro da vida para o principal e único ator, Reynaldo de Melo Rezende. Numa peça escrita pelo destino, é contada a história de um ser humano extraordinário que, vindo de uma roça, se lança no mundo do empreendedorismo confiado apenas em seu próprio instinto, tendo por capital a sua coragem e que, depois de 80 anos de trabalho duro, sem direito a férias, o ato é encerrado. Deixa para a posteridade, em pleito de reconhecimento, a magnitude de seu exemplo, gravados na memória de todos os que o conheceram, com o direito a registro permanente de sua obra, escrita em belas letras douradas nas páginas da história do desenvolvimento econômico de Uberaba.

Reynaldo deixou viúva Nazareth de Oliveira Rezende (Tita) e cinco filhos – João Carlos, Maria Regina, Manoel Afonso, Reynaldo Luiz e Maria Angélica.

Não se ouve mais o apito das sirenes. Não se sente mais o odor das torras. O movimento que dava vida na rua, parou. Os prédios da fábrica e a casa de morada foram demolidos. A história ficou soterrada nos escombros. Resta um terreno vazio. Resta um vazio na alma. Resta uma grande lembrança e uma doída saudade.

 – Membro da Academia de Letras – Ex-presidente e Conselheiro da ACIU e do CIGRA. Ex-funcionário das “Indústrias Alimentícias REYNA Ltda.”