Peguei esta tela de Cacilda Mariano para ilustrar estas memórias.
Lembro-me bem daquele tempo em que a vida cabia inteira numa rua. Eu tinha meus dez anos. Éramos vizinhos. Ataliba Guaritá Neto, o Netinho, morava na Rua Segismundo Mendes com a esposa Cornélia e os filhos, Luiz Neto e Dulce Helena. Na esquina, quase como uma presença que completava a harmonia do lugar, vivia Dona Niza, sua mãe, sempre elegante, dessas mulheres que marcavam o ambiente apenas pelo porte, pelo olhar e pela palavra bem medida.
Às vezes, eu a via no parapeito do alpendre, observando o movimento das ruas Alaor Prata e Segismundo Mendes. Outras tantas, via Netinho trocando acenos: um gesto carinhoso para a mãe, um tchau apressado ou um beijo à distância. Cenas simples, cheias de afeto. Sempre apaixonado pelos filhos e profundamente respeitoso com a mãe.
Nós, meninos da rua, todos vizinhos, andávamos de patinete de rolimã, descendo e subindo a calçada cheios de pressa e alegria. Quando não estávamos no patinete, jogávamos bola ou soltávamos pipa. Éramos uma turma formada pela proximidade das casas e pela convivência diária. Dona Niza, atenta do alto do alpendre, chamava nossa atenção com doçura. Pedia que passássemos devagar pela calçada, com cuidado, para não nos machucarmos. Não era bronca, era zelo. Um conselho dito com carinho, desses que a gente guarda para sempre.
Luiz Neto jogava bola no pátio da Igreja São Domingos. Netinho subia a rua para assistir. Ficava do lado de fora da grade ou, quando podia, entrava. Torcia como poucos. Quando o filho fazia um gol, vibrava sem disfarçar. E Luiz Neto era bom jogador. Dona Niza foi professora de francês.
Essa formação transparecia naturalmente em tudo: na postura, na delicadeza dos gestos, no modo correto de falar. Usava quase sempre um colar de pérolas; os cabelos grisalhos, num tom de cinza claro. Sempre bem vestida, era símbolo de uma elegância clássica, discreta e permanente, que o tempo não conseguiu apagar.
A família tinha um cachorro da raça pequinês chamado Parafuso, pequeno no tamanho, mas inquieto como poucos. Parafuso parecia não compreender muito bem os limites do quintal. Volta e meia fugia, atraído pela rua e pela curiosidade. Nessas horas, Netinho me procurava pedindo ajuda. Já sabíamos onde encontrá-lo: ou no gramado da Igreja São Domingos, ou passeando pela "Praça Santa Rita". Quando o encontrávamos, eu o levava de volta. Netinho nos recompensava com sorvetes, e corríamos todos até a sorveteria do "Seu Joaquim", na esquina da "Praça do Grupo Brasil". Netinho ficava feliz. O Parafuso, nem tanto. A liberdade sempre lhe pareceu melhor destino.
Ataliba Guaritá Neto nasceu em 27 de junho de 1924 e faleceu em setembro de 2000, aos 76 anos. Foi vereador entre 1951 e 1955, mas foi na comunicação que construiu seu legado mais duradouro. Como jornalista, tornou-se amplamente conhecido pelo pseudônimo Galileu, com o qual assinou, por 45 anos, a coluna Observatório de Galileu, no jornal Lavoura e Comércio, acompanhando atentamente a vida política, social e cultural de Uberaba.
Pioneiro na televisão regional, foi o primeiro a apresentar um programa ao vivo na TV Triângulo, atual TV Integração, e também na TV Uberaba. Criou o programa Bigorna. No rádio, destacou-se como comentarista esportivo e participou das transmissões da Copa do Mundo da Argentina, em 1978. Mas foi ao meio-dia que Galileu se tornou definitivamente parte da rotina da cidade. Ao som de Vera em Veneza, executada pela orquestra de Mantovani, apresentou por mais de quarenta anos, na Rádio Sociedade do Triângulo Mineiro, a inesquecível Crônica ao Meio-Dia, sempre ao encontro dos ponteiros, no instante exato em que o relógio parecia parar para ouvi-lo.
No final da década de 1970, sua voz já estava incorporada ao cotidiano de Uberaba. Era mais do que informação: era provocação inteligente, reflexão diária, conversa direta com o ouvinte, batendo na cachola e atiçando consciências, despertando pensamentos e convidando a cidade a olhar para si mesma.
Além do rádio, do jornal e da televisão, Netinho foi também um grande animador da vida social e cultural de Uberaba. Criou e promoveu concursos que marcaram época. Ao longo do ano, observava jovens mulheres que se destacavam pelo porte, pela presença e pela elegância. Ao final desse período, eram escolhidas As 10 Brotos do Ano. A escolha acontecia durante a tradicional Festa Brotos do Ano, realizada no Jóquei Clube. Eram eventos aguardados com grande expectativa, retratos vivos dos costumes, da juventude e do espírito daquele tempo.
Foi ainda promotor do concurso Miss Minas Gerais, atuando como coordenador e um dos principais organizadores das etapas locais e regionais que levavam à escolha da representante mineira para o Miss Brasil. Em 1971, apresentou o concurso Miss Minas Gerais, confirmando sua versatilidade e carisma como comunicador e mestre de cerimônias.
O improviso era sua maior virtude. Um talento raro, ainda não repetido. Galileu falava de Uberaba com intimidade, crítica e carinho, como quem conversa com um velho amigo. Amava a cidade e estendia esse amor a tudo o que fazia. E assim como o Parafuso gostava de escapar para as praças, Galileu passeava livremente pela alma de Uberaba, provocando, inquietando e permanecendo vivo na memória de quem soube ouvi-lo, ao encontro dos ponteiros, exatamente ao meio-dia.
Antônio Carlos Prata
