segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

TUM, TUM, TUM, O CORSO QUE SAIU DOS TRILHOS NO CARNAVAL DE UBERABA

Não vou ser breve. Há memórias que precisam ser contadas do jeito que foram vividas. Quem esteve lá vai reconhecer cada cena. Quem não esteve vai entender por que aquele carnaval ficou marcado na história de Uberaba.

Cena do carnaval de rua em Uberaba, início dos anos 1980: foliões sobre carro alegórico improvisado, símbolo de irreverência e liberdade. Foto: Renato Peixoto.

Eram quatro amigos. No começo dos anos 1980, decidiram que aquele carnaval não seria apenas mais um. Compraram um Ford Galaxie, ano 1970, levaram direto para a oficina e mandaram cortar toda a parte de cima. O carro virou conversível, ousadia pura para a época.

Arranjaram patrocinadores e mandaram pixar o carro para desfilar por toda Uberaba: Mudanças Kardek, Elétrica Durval, Açougue do Chibil, Motel Rio Grande. Tudo registrado. Tudo verdadeiro. Foto de Renato Peixoto, 1981.

Vestiram-se de mulheres: vestidos longos, minissaias, batom carregado, lenço na cabeça, óculos escuros. Fantasia no corpo e alegria sem freio. Subiram no Galaxie e ainda arrumaram mais amigos. O carro virou símbolo de irreverência no carnaval uberabense. Não era só um veículo: era personagem. Rodava ruas, espalhava riso, puxava gente.

Naqueles tempos, o corso saiu dos trilhos, e ainda bem. Das ruas aos clubes, o carnaval tomava conta da cidade. Rua Olegário Maciel, Praça Rui Barbosa, Rua do Comércio, Rua Major Eustáquio, Avenida Fidélis Reis, Rua Vigário Silva, Avenida Leopoldino de Oliveira. Vários carros formavam o corso, rodando pelas principais vias. Quem estava na calçada parava para admirar.

Quem estava no carro jogava água nas pessoas. A molecada, a pé, revidava: bastava um vidro aberto para o ocupante levar um banho de bisnaga. O mesmo acontecia com os passageiros do ônibus coletivo da Líder, janela aberta era convite certo para a molhação. Alguns extrapolavam: ovos, bisnagas com tinta e até urina. Excesso, irreverência e improviso que marcavam aquele tempo.

Os motoristas retiravam o cano de escape dos carros e o barulho era ensurdecedor. No centro, dezenas de foliões, muitos Pierrôs sem Colombinas, mas ninguém sozinho. À noite, os bailes lotavam os clubes.

Havia lojas por toda parte vendendo confetes, serpentinas e fantasias. Quase todo mundo passava pelo Salão Rex, do "Seu Arthur Riccioppo", onde se compravam confetes, serpentinas, apitos, cornetas e bisnagas que depois molhavam as pessoas. Os bares viviam cheios. Era tudo simples, direto, uma beleza rústica, uma cumplicidade que mantinha a festa de pé.

Depois das oito da noite vinham os desfiles: escolas de samba, clubes carnavalescos, Bloco dos Palhaços, Bambas do Fabrício, Escola de Samba Grêmio Recreativo Cultural. Mas o melhor de tudo era o povo. O arrocho de foliões na Praça Rui Barbosa, ao despontar pela Rua Olegário Maciel, arrastava centenas de pessoas pulando ao som das marchinhas e do samba.

De longe, ouvíamos a batida da Banda da Maria Giriza, em uma nota só: Tum, tum, tum, tum, tum. À medida que se aproximava, todo mundo entrava no espírito da brincadeira. Era a parte mais esperada do carnaval, reunindo milhares de foliões no mesmo ritmo.

Terminava o carnaval de rua e cada um procurava seu clube para varar a madrugada. Alguns, pra lá de 'Bagdá", já bêbados, dormiam em praças ou marquises; voltavam a pé para casa, atravessando a cidade inteira. Outros iam de táxi. A carona de carnaval também surgiu. Nasceram vários amores. Houve namoro. Houve até casamento. Vi e vivi isso.

Antônio Carlos Prata