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domingo, 3 de janeiro de 2021

Fundadores de escolas

No século XIX, ainda na monarquia, uma das maiores dificuldades para a população do do Brasil era conseguir estudar. Fora das grandes cidades, contavam-se nos dedos os estabelecimentos de ensino disponíveis, na grande maioria iniciativas particulares ou religiosas. Tanto o governo imperial como os das províncias dedicavam pouquíssima atenção à oferta de educação pública. O resultado desse descaso apareceu de forma dramática no primeiro recenseamento nacional, realizado pelo Império em 1870: 77% dos homens livres e 87% das mulheres livres não sabiam ler e escrever. Entre a população escrava esse número superava os 99%. No conjunto da população do país, 4 em cada 5 brasileiros eram completamente analfabetos.

O problema era ainda mais grave quando se pensa na oferta de escolas de nível médio ou superior. Num país que era essencialmente rural, qualquer jovem que desejasse estudar além do nível básico tinha como única opção mudar-se para uma capital ou matricular-se em um colégio interno. Cursos superiores eram ainda mais raros. Os filhos da aristocracia frequentemente buscavam instrução em Portugal ou algum outro país da Europa.

Por isso, era sempre saudada com entusiasmo a fundação de escolas nas cidades do interior. Não foi diferente quando, em 1º de outubro de 1854, o engenheiro Fernando Vaz de Mello anunciou a abertura do primeiro “Collegio Uberabense” (outro, com o mesmo nome, seria aberto em 1903). A escola foi montada em um pequeno prédio nas imediações da atual Praça Dom Eduardo, onde, décadas depois, instalou-se o Colégio Marista. Oferecia “Instrução Primária de 2º Grau” e “Ensino Colegial” – o que seria algo equivalente aos atuais Ensino Fundamental II e Ensino Médio. Entre as disciplinas, Gramática, Latinidade, Francês, Geografia, Aritmética, Álgebra e Geometria. Havia ainda aulas de Catecismo Romano.

Em agosto do ano seguinte, o Colégio contava com mais de 100 alunos, dos quais 25 colegiais e 77 do ensino primário apresentaram-se para os exames de avaliação – realizados entre os dias 13 e 18. Um grupo de examinadores convidados reuniu-se no salão da Câmara Municipal para avaliar os estudantes. Compunham a banca, entre outros, o Cônego Hermógenes, o jornalista e historiador Borges Sampaio, o juiz de direito Manoel Pinto de Vasconcelos e o presidente da câmara Francisco Barcellos. Embora tenha havido algumas reprovações – na sua maioria de alunos matriculados há pouco tempo – relatos da época dizem que o resultado geral superou as expectativas.

Infelizmente, como era comum em Uberaba nessa época, a alegria durou pouco. Em 1856, Fernando Vaz de Mello envolveu-se na luta política local. Publicou um artigo no qual criticava a inoperância da Justiça e o número de assassinos e criminosos que circulavam impunemente pela província, muitos sob a proteção dos proprietários de terras e coronéis da região. O texto melindrou parte das famílias abastadas, que se sentiram ofendidas e passaram a dirigir ataques anônimos ao colégio e a seu diretor. Matrículas foram canceladas e, no ano seguinte, a escola fechou as portas, frustrando a população.

Fernando era um homem de posses e, por algum tempo, tentou permanecer na cidade. Entre 1857 e 1858, desenvolveu por conta própria um extenso levantamento dos rios Pardo e Mogi Guaçu, com o objetivo de implantar uma linha de navegação que oferecesse ao Triângulo Mineiro uma alternativa de transporte com os portos do Rio de Janeiro e Santos – na época feito em lombo de burro e carros de boi. O memorial foi publicado pela província de São Paulo em 1859, mas as sugestões de obras e melhorias nunca foram implantadas por falta de interesse e de verbas.

Não descobri a data exata em que Fernando Mello deixou o Triângulo. Aparentemente, mudou-se para a então capital mineira Ouro Preto, onde um de seus filhos, Cornélio Vaz de Mello (nascido em Uberaba em 10/01/1855) completou os estudos. Cornélio foi para o Rio de Janeiro, onde formou-se em Medicina em 1884. De volta a Minas Gerais, tornou-se professor de Anatomia e História Natural na Escola de Farmácia de Ouro Preto. Entrou para a política, filiando-se ao Partido Liberal e mudou-se para a nova capital, Belo Horizonte. Seguindo os passos do pai, fez parte do grupo de médicos que, em março de 1911, fundou a Faculdade de Medicina de Belo Horizonte, ocupando a primeira vice-diretoria. Durante o governo de Delfim Moreira (1914-1918), o uberabense Cornélio exerceu o cargo de prefeito da capital mineira.

André Borges Lopes

terça-feira, 8 de dezembro de 2020

Último cinema de rua

Em maio de 1926, a Câmara de Uberaba aprovou duas concessões que marcaram a história do cinema na cidade. Na primeira, a prefeitura transferiu para Orlando e Olavo Rodrigues da Cunha os direitos sobre o terreno na Praça da Matriz onde funcionava, desde 1864, o Theatro São Luiz. Concedeu ainda uma isenção de impostos para que a dupla erguesse e passasse a explorar no local um novo teatro. A segunda autorizava a concessão a um grupo de investidores de um terreno a ser escolhido, além de um auxílio em dinheiro, para a construção de um novo hotel. Chefiava o executivo na época um primo de Orlando, Geraldino Rodrigues da Cunha.

O resultado das duas concessões resultou na inauguração, em 1931, do novo Cine Teatro São Luís, luxuosa e moderna casa de espetáculos administrada pela empresa Orlando Rodrigues da Cunha & Cia, que tinha como sócios, além de Orlando, José Machado Borges e Alberto Fontoura Borges. A mesma firma, já renomeada “Empresa Cinematográfica São Luís” (e incorporando Joaquim Machado Borges), multiplicaria a aposta em 1941 ao inaugurar o Cine Metrópole e o Grande Hotel na Av. Leopoldino de Oliveira.

No intervalo desses 10 anos, Orlando monopolizara o negócio das salas de cinema em Uberaba. A empresa Damiani, Bossini & Cia, dona dos Cines Alhambra e Capitólio abriu falência meses após a abertura do São Luís. O Alhambra fechou definitivamente, o Capitólio seguiu alguns meses sob nova direção. Em 1932, foi comprado por Orlando e reaberto como Cine Royal. Dona de todas as salas da cidade, a São Luís inaugurou em 1948 mais um cinema: o Vera Cruz no bairro São Benedito.

A falta de concorrência era motivo de queixas em Uberaba. Como a São Luís era atendida por uma única distribuidora, muitos filmes famosos jamais chegavam à cidade. Havia reclamações também quanto ao preço dos ingressos, à qualidade da programação e a estado de conservação de algumas das salas. Em 1957, foi grande o entusiasmo com que os uberabenses saudaram o anúncio de que a Empresa Teatral Paulista – dona de mais de 20 salas de cinema no estado vizinho, em Goiás, em Araxá e em Uberlândia – iria abrir uma nova casa na cidade.

A promessa inicial falava em uma sala enorme – duas mil poltronas, tela larga CinemaScope e amplo palco – a ser erguida em um terreno na esquina da Av. Leopoldino com Rua Senador Pena, adquirido da empresa Derenusson. As obras começaram em janeiro de 1958 com um projeto moderno para a época, ainda que menos ambicioso. Em 18 de março de 1959 abriu as portas aquele que seria o último cinema de rua a ser inaugurado na cidade. Nomeado “Cine Uberaba Palace”, tinha projetores de última geração, poltronas confortáveis e foi o primeiro a oferecer ar-condicionado, um grande alívio nos meses de verão – lembrando que os cinemas da época exigiam da clientela traje social, aos homens, terno e gravata.

 Franck Pourcel, “Here, there and everywhere”.

O Uberaba Palace reativou a concorrência e aumentou a variedade de títulos, numa época em que os cinemas ainda não disputavam espaço com a TV e com sistemas de vídeo domésticos. Nunca foi um cinema muito diferente dos demais, mas deixou boas lembranças. Ao seu lado funcionou por anos a livraria “Ponto de Encontro”, de Deusedino Martins, frequentada pela intelectualidade local. Muitos se recordam com nostalgia da trilha sonora que embalava a sala nos anos 1970 e 80 antes dos filmes: músicas dos Beatles numa famosa versão instrumental de Franck Pourcel, abrindo sempre com “Here, there and everywhere”.

Vista aérea do cinema Uberaba Palace e córrego das Lajes.
 Foto: Nau Mendes.

A partir dos anos 1980, as mudanças no mercado cinematográfico selaram a decadência dos cinemas de rua, e o Palace não foi exceção. Trocou de dono algumas vezes antes de fechar as portas em 7 de março de 1993. Por algum tempo, chegou a sediar um Bar e Bingo, ligado ao Nacional Futebol Clube. Após a proibição dos bingos, o prédio foi ocupado por uma igreja evangélica.

André Borges Lopes

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

UMA FOTO RARA E UMA CADEIA QUE DESAPARECEU

No dia 27 janeiro de 2015, essa foto histórica apareceu pela primeira vez na página "Uberaba em Fotos". Ela havia sido enviada para nós por Maria Regina Vieira Teixeira, que informou que se tratava de uma foto feita por José Severino Soares, sem anotação de data. Trata-se do famoso fotógrafo “Juca Severino”, que teve um estúdio em Uberaba entre o final do século 19 e inicio do século 20. São de sua autoria alguns dos registros fotográficos mais antigos da nossa cidade. 



O local retratado é facilmente identificável: a foto foi feita da porta da Igreja de Santa Rita, em direção ao Colégio Nossa Senhora das Dores. O prédio original do colégio das Dominicanas (inaugurado em 1895) aparece ao fundo, bem no meio da imagem. O prédio da penitenciária, atual Faculdade de Medicina da UFTM e do Mercado Municipal ainda não estavam construídos. Esses trabalhadores que vemos no primeiro plano provavelmente estão consertando o gramado (ou a escadaria) que dá acesso à Santa Rita. Assim, é possível estimar a data aproximada do registro da foto como sendo por volta do ano 1900.

A publicação original, de janeiro de 2015.


Trata-se de uma imagem era muito rara e, na ocasião, inédita. Fez bastante sucesso na página: teve mais de 300 curtidas, 160 compartilhamentos e cerca de 20 comentários. Por conta dos algoritmos automáticos do Facebook, a foto voltou a aparecer na página duas outras vezes naquele mesmo ano: em maio e em dezembro. Nessa última aparição, eu incluí junto aos comentários uma versão com algumas legendas, mostrando o que eram cada um dos prédios retratados e levantando uma dúvida: o que seria esse grande sobrado que aparece com destaque do lado direito da imagem, mais ou menos no local onde (em 1924) foi inaugurado o Mercado Municipal?

A foto com legendas, incluída nos comentários em 2015.


Comparação dos dois prédios. Notem a posição, o número e o formato das portas e janelas, além da guarita na lateral.

Foram quase seis anos para solucionar o mistério. Vários pesquisadores foram consultados na época e ninguém soube afirmar com certeza o que seria esse sobrado que, por volta de 1900, certamente estava entre os mais imponentes da cidade. Tampouco havia informação clara a respeito dele nos dois livros clássicos que norteiam a pesquisa histórica desse período em Uberaba (escritos pelos memorialistas Borges Sampaio e Hidelbrando Pontes). Várias hipóteses foram levantadas e descartadas. Estranhamente, o prédio havia desaparecido não apenas da história oficial, mas também da memória coletiva da comunidade. Foi preciso garimpar pequenos fragmentos de informação em jornais antigos, diários oficiais e atas da Câmara Municipal de Uberaba para enfim chegarmos a uma conclusão.


CADEIA E TRIBUNAL

Hoje, podemos afirmar com razoável certeza que esse prédio foi construído entre março de 1886 e dezembro de 1887, e teve as obras encomendadas e pagas pelo governo da então Província de Minas Gerais, para funcionar como a nova Cadeia Pública de Uberaba. Provavelmente, foi inaugurado no primeiro semestre de 1888. Também sabemos que, no seu piso superior, funcionou por longo tempo o Tribunal do Júri da comarca. Com a inauguração dessa “cadeia nova”, desativou-se a “cadeia velha” que funcionava até então no piso térreo do prédio da Câmara Municipal, na esquina do Largo da Matriz (atual Praça Rui Barbosa) com a Rua Municipal (atual Manoel Borges). O memorialista Borges Sampaio, que morava defronte a essa cadeia velha (no casarão onde depois foi a loja Notre Dame de Paris) foi um dos que batalhou, desde o final dos anos 1870, para que a cadeia fosse transferida da praça central da cidade para um prédio mais adequado. No antigo sobrado da Câmara não havia fornecimento de água e nem sistema de esgoto. Todos os dias, um preso saia do prédio sob escolta, com os pés acorrentados, levando um tonel cheio de excrementos dos detentos e dos carcereiros até a ponte da Rua do Comércio (atual Artur Machado), onde eram atirados no Córrego das Lages. Pelo caminho, os presos e sua carga passavam defronte aos palacetes que ladeavam o primeiro quarteirão da que era então a mais sofisticada das ruas de Uberaba.

No prédio da Cadeia Nova, que foi construído onde hoje é o Mercado Municipal, havia água corrente, trazida por um rego d’água que descia do alto da Santa Casa. E tinha logo ao fundo o córrego, para onde escoavam seus esgotos. Temos notícia de que, em 1896, foram construídos o pátio murado e as pequenas guaritas laterais do lado de fora do prédio, que podem ser vistos nessa foto. A cadeia e o tribunal funcionaram nesse sobrado por quase três décadas e, por isso, a atual praça Manoel Terra passou a ser conhecida por “Largo da Cadeia Nova”, desde muito antes da inauguração do prédio da Penitenciária (atual Faculdade de Medicina). 

Os presos foram transferidos da cadeia velha e, em 1889, a Câmara contratou uma grande reforma no prédio do Paço Municipal. As obras se estenderam até 1903, mas temos notícia de que em 1894 os Correios foram autorizados a usar o piso térreo do prédio. Há uma foto bem conhecida desse novo Paço Municipal (datada de 1900) que recebeu decoração do arquiteto italiano Luis Dorça (Luigi d’Orsa, na grafia original). Em 1921 esse prédio antigo foi demolido e a Câmara abriu uma concorrência para o projeto e as obras de um novo prédio, que foi vencida pelo construtor Santos Guido. O novo Paço Municipal, erguido em concreto armado, foi inaugurado em 1922 e é o mesmo que segue sendo usado até hoje.

DEMOLIÇÃO E NOVA PENITENCIÁRIA

No final da primeira década do século passado (1901-1910), o prédio da “Cadeia Nova” já estava velho e em precário estado de conservação. As condições de higiene eram péssimas e as fugas de presos muito frequentes. Após muita pressão local, o governo de Minas Gerais ordenou a demolição do prédio para que se construísse uma nova cadeia – mais moderna e mais segura – no mesmo local da antiga. Aparentemente, os presos foram provisoriamente alojados, em algumas salas emprestadas, no antigo prédio da Santa Casa. As obras da nova cadeia ficaram a cargo do construtor Jesuíno Felicíssimo, que iniciou a demolição do prédio antigo em abril de 1909. Mas, no mês seguinte, as obras foram suspensas. O governo de Minas havia decidido que não iria mais reconstruir uma cadeia no mesmo lugar da antiga. Iria erguer em Uberaba uma nova “Penitenciária Modelo”, nos moldes das que então se construíam nas principais cidades do Brasil.

O prédio da Penitenciária, inaugurado em agosto de 1912.


As datas de conclusão das obras e do início da demolição, em recortes dos jornais da época.


O engenheiro Nicodemos de Macedo, funcionário do governo estadual, veio a Uberaba preparar o projeto. Chegou a ser cogitada a construção dessa nova Penitenciária no bairro do Fabrício, mas a ideia foi abandonada em função das dificuldades para o abastecimento de água. Decidiu-se, por fim, construir a nova Penitenciária no mesmo largo da cadeia antiga, porém num terreno mais acima, cedido pela Prefeitura, ao lado do colégio das Dominicanas. A obra, orçada em 73 contos de reis, teve o início autorizado em agosto de 1909. Ficou a cargo dos italianos Luis Dorça e Miguel Laterza, e só foi inaugurada em agosto de 1912.

O antigo prédio do Paço Municipal em foto de 1900,
após a saída da cadeia e a longa reforma, que seria concluída em 1903




O prédio do Fórum, construído na Rua Lauro Borges e inaugurado em 1916.


Eu ainda não encontrei a data em que a demolição da antiga cadeia foi retomada e concluída. Aparentemente, o município recebeu o terreno onde ficava cadeia velha em troca daquele que cedeu para a Penitenciária. Dez anos mais tarde, a prefeitura usou esse terreno para erguer o Mercado Municipal (construído entre 1922 e 1924 pela firma paulista Salles Oliveira & Valle). O antigo mercado da cidade ficava na Ladeira do Mercado (atual Rua Lauro Borges) e seu terreno foi cedido ao governo do estado para a construção de um novo Fórum (inaugurado em 1916), já que o Tribunal do Júri também havia ficado sem sede após a demolição da cadeia.

CÂMARA OU CADEIA?

Por fim, uma surpresa. Existe no Arquivo Público Municipal de Uberaba uma foto bem conhecida de um prédio de dois pavimentos, com uma cadeia no piso inferior. Há anos, essa imagem é identificada como sendo do prédio original do Paço Municipal (aquele que, até 1888, abrigou no térreo a cadeia da cidade). É assim que essa foto aparece em inúmeras publicações. Mas ao fazermos uma comparação entre o estilo desse prédio e o da cadeia que vemos na foto do Juca Severino, surgem fortes indícios de que essa identificação está equivocada. A foto divulgada como sendo da Câmara seria, na realidade, dessa Cadeia Nova inaugurada em 1888. Fotografada pelo lado oposto, com o fotógrafo posicionado nas proximidades da esquina onde há hoje o Bar do Mil Reis. Reforça essa conclusão o número, a disposição e o formato – exatamente iguais – das portas e janelas nas duas imagens. Além disso, constata-se a presença nas duas fotografias da pequena guarita posicionada a pequena distância, na lateral externa. E há ainda a questão da declividade do terreno, mais semelhante à da Praça Manoel Terra do que à da esquina da Praça Rui Barbosa com Rua Manoel Borges. Caso seja confirmada essa hipótese, a identificação dessa imagem terá de ser retificada.

O novo Paço Municipal, inaugurado em 1922.


Infelizmente, ainda não temos uma cópia física em papel dessa fotografia original feita por Juca Severino. Segundo nos informou a advogada Maria Regina Ferreira Teixeira – a quem registramos nosso agradecimento pela ajuda – essa foto pertenceu a um professor residente em Campinas, que lhe mostrou a ampliação há mais de dez anos. Na ocasião, ela fez uma cópia digital e devolveu o original ao professor, com quem não tem contato já há algum tempo. Foi esse arquivo digital que ela nos enviou em 2015 que serviu de base para a produção dessa imagem restaurada, e também para todo o trabalho de pesquisa. É possível que haja outras cópias de época dessa fotografia guardadas em coleções particulares, porém o Arquivo Público de Uberaba não a possui. Se algum dos leitores da página souber da existência de uma cópia física, pedimos a gentileza de nos informar.

André Borges Lopes


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quarta-feira, 3 de junho de 2020

UBERABA SOB OLHAR CARIOCA

COMO disse ontem no Tapete Voador, o pesquisador André Borges Lopes está se aventurando, com resultados excelentes, pelas histórias do cinema em Uberaba. Já encontrou documentos raros, desde 1907, ano mais remoto a que chegou. Enquanto vasculha os primórdios, não dá trégua ao tempo presente. Entre lá e cá, entre preciosidades de todos os tipos, uma delas, que não se limita ao cinema, merece nosso desfrute. Trata-se de reportagem feita pela revista Cinelândia, do Rio de Janeiro, na edição de 29 de maio de 1949, assinada por certo Pedro Lima. De sabor inigualável, a matéria, de nome Snapshot de Uberaba, nos eleva ao patamar top do país. O texto é também uma crônica da cidade daquela época e vem completo somente na edição online.

A pandemia nos permite retroagir ao passado, em larga escala.

• “Uberaba é uma cidade de Minas Gerais, conhecida no mundo, tanto quanto o Rio de Janeiro ou São Paulo. Possui uma população de cerca de 70 mil almas, sem contar os zebus. A religião predominante é o ‘zebuísta’, dividida em quatro cismas: a Nelore, a Gir a Guzerá e a Indubrasil.
Não se fala outra língua que não a do ‘plantel de animais’. Possui um clima ameno e é uma terra de mulheres belas, de porte esbelto e de sorriso mais bonito que os lábios deixam ver através de dentes alvos e uniformes.”

• “São quatro os cinemas de Uberaba. Dois deles, o Metrópole e o Vera Cruz, estariam melhor na Cinelândia carioca. São casas amplas, bonitas e as preferidas de todos do lugar e forasteiros. Pertencem à Empresa São Luís, que, apenas do nome, não tem nada com o trust que domina a maioria dos cinemas do país.”

• “O cinema Metrópole talvez seja o único do Brasil que oferece matinées dançantes aos domingos e feriados. As moças chegam uma hora mais cedo e, antes do início da sessão, uma orquestra na sala de espera embala os pares ao som das músicas mais modernas. De quando em vez, um cantor faz ouvir sua voz ao microfone e, por tudo isso, muita gente desejaria que as exibições começassem atrasadas...”

• “Outro costume interessante: todas as moças nas sessões em que não se dança entram com a revista O Cruzeiro na mão; é chic, na sala de espera, folhear a revista, até que a sineta marque que a sessão vai principiar. Depois do programa, que consta de uma única função, meia hora de footing na calçada do cinema, onde, no mesmo prédio, funciona o Grande Hotel, e a cidade volta ao sossego, exceto para os grupinhos que fazem roda separadamente, não para falar da vida alheia e de política, mas do zebu.”

• “Vendo-se as moças de Uberaba, conhecendo-se as fazendas, pelas suas belezas naturais e pelos ricos plantéis de gado, fica-se admirado porque nossos produtores ainda não se lembraram de fazer filmes com um material tão nosso e tão rico, ao invés de fitinhas com cheiro de suor, sambinhas e sambistas, piadas de Otelo e de Oscarito, para só se falar no que temos de melhor.”

• “Vimos alguns filmes projetados nas telas dos grandes cinemas locais. Os da Warner, então, estão em péssimo estado. Faltam cenas, estão arranhados, deixam muito a desejar. Vimos, lá, Os Últimos Dias de Pompéia, da RKO Rádio. Parece um filme salvo do terremoto de Pompeia, depois do Vesúvio.”

• “E o que falar, então, dos shorts nacionais. Até pura propaganda é exibida dentro da obrigatoriedade. Alguns filmezinhos ‘novos’ apresentam o presidente Getúlio sob o regime Dipearo (relativo ao DIP, Departamento de Imprensa e Propaganda do governo Vargas).”

• “Uberaba, afinal de contas, é uma cidade que não pertence a Minas, porque é um dos orgulhos da pecuária nacional que atrai os estrangeiros para o Brasil, com seus plantéis de zebu que fizeram cair o queixo dos ganadeiros e do ministro da Venezuela.”


Jorge Alberto Nabut
Escritor e colunista/Uma primeira versão desse texto foi publicada no da Jornal da Manhã em 03/06/2020)


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Cidade de Uberaba

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

A Uberaba de Doca Ferreira em 40 fotos

Nascido em 1887, Orlando "DOCA" Ferreira, era filho do comerciante Bento José Ferreira. Seminarista na juventude, tornou-se jornalista, escritor e um opositor ferrenho da Igreja Católica. Criticava acidamente os políticos locais, boa parte das famílias tradicionais da cidade e a Empresa Força e Luz local – identificados por ele como responsáveis pelo precário desenvolvimento do município.

Capa do livro "Terra Madrastra: um povo infeliz", publicado pelo próprio autor e lançado em 1928.



Folha de Rosto e Dedicatória de "Terra Madrasta", 1928

Rua São Sebastião, provavelmente no trecho entre a rua Irmão Afonso e Praça Dom Eduardo Uberaba, MG – circa 1925

Rua do Comércio, atual Artur Machado. Ao fundo, a Catedral. Uberaba, MG – circa 1925


Rua do Comércio, atual Rua Artur Machado. Uberaba, MG – circa 1925


Praça Comendador Quintino; ao fundo o prédio do antigo Grupo Brasil e, no canto direito, as torres da Igreja de São Domingos. Uberaba, MG – circa 1925


Rua Vigário Silva, trecho não identificado. Uberaba, MG – circa 1925


Rua São Miguel, atual Dr. Paulo Pontes, antiga zona de prostituição da cidade. Ao fundo o Largo da Misericórdia, atual Praça Manoel Terra. Uberaba, MG – circa 1925




Local aproximado, em foto de 2013 do Google Street View





Rua da Constituição, trecho não identificado, Uberaba, MG – circa 1925


Rua do Cotovelo, atual Padre Jerônimo. Ao fundo o Mercado Municipal (esq.) e a antiga Penitenciária (dir.). atual Faculdade de Medicina. Uberaba, MG – circa 1925



Local aproximado, em foto de 2017 do Google Street View.

Praça Cel Aristides Borges, atual Praça Santa Terezinha. Na casa do meio da foto funciona hoje a Padaria Beliske. Uberaba, MG – circa 1925



A casa como está hoje, em foto de 2017 do Google Street View.

Rua Dr. José Felício dos Santos, no alto das Mercês, na época periferia da cidade. Uberaba, MG – circa 1925



Local aproximado, em foto de 2011 no Google Street View.

Rua 15 de Junho (atuais Jaime Bilharinho e Hidelbrando Pontes), no alto das Mercês, na época periferia da cidade. Uberaba, MG – circa 1925


Não consegui descobrir qual seria essa rua na época denominada "Paschoal Totti" Uberaba, MG – circa 1925


Essa antiga Rua Godofredo Rodrigues da Cunha é a atual Rua Cel. Carlos Rodrigues da Cunha (há outra rua no alto do São Benedito que ganhou o nome de Godofredo, provavelmente nos anos 1930).
Esse trecho de subida acentuada pode ser logo acima do cruzamento com a Rua Santo Antônio ou do outro lado da Av. Guilherme Ferreira, entre a Rua do Carmo e a Praça Tomaz Ulhoa. Uberaba, MG – circa 1925



Rua Major Eustáquio, no trecho entre as Rua Manoel Borges e São Sebastião. Uberaba, MG – circa 1925




Trecho aproximado, em foto de 2017 no Google Maps.


Mercado Municipal e, ao fundo, a antiga Penitenciária (atual Faculdade de Medicina da UFTM). Uberaba, MG – circa 1925


Rua Santo Antônio, entre as ruas Paulo Pontes e Carlos Rodrigues. Uberaba, MG – circa 1925





Trecho aproximado, em foto de 2017 no Google Street View.

Praça Dom Eduardo, vendo ao fundo a atual Rua Hidelbrando Pontes. A casa maior, da família Miziara, ainda existe. Uberaba, MG – circa 1925



A casa, em foto de 2017 do Google Street View
Praça Frei Eugênio que, nessa época, ocupava todo o quarteirão do antigo Cemitério São Miguel. Poucos anos mais tarde, foram erguido nesse local o Liceu de Artes e Ofícios (Sesi/Senai) e a Escola Estadual Minas Gerais. Uberaba, MG – circa 1925




Largo da Misericórdia, atual Praça Dr. Tomáz Ulhoa, vendo-se ao fundo o antigo prédio do Colégio Nossa Sra. das Dores. Na década de 1940, foi erguido no local o Uberaba Tênis Clube.Uberaba, MG – circa 1925





Rua do Comércio, atual Artur Machado, vista no sentido do Bairro. Uberaba, MG – circa 1925



Antiga Rua 24 de Fevereiro, atual Rua Olegário Maciel, pouco acima da Praça Rui Barbosa, em direção à Praça Frei Eugênio. Uberaba, MG – circa 1925





Local aproximado, em foto de 2017 do Google Street View.


Antiga Ladeira do Rosário, atual Av. Presidente Vargas, subida para a praça Comendador Quintino. Uberaba, MG – circa 1925




Local aproximado, em foto de 2017 do Google Street View.


Ladeira do Rosário, atual Av. Presidente Vargas. A casa da esquerda ainda resiste. Uberaba, MG – circa 1925

O mesmo local em foto de 2017 do Google Street View.


Rua Frei Paulino, alto da Abadia, nas imediações do atual Hospital de Clinicas da UFTM. Uberaba, MG – circa 1925


O primeiro prédio da Santa Casa de Miséricordia – construído por Frei Eugênio Maria de Gênova na décadas de 1860 a 1880 – foi destruído em um incêndio em fevereiro de 1921.
Antes mesmo do incêndio, em função da decadência do prédio, a instituição já havia sido transferida "provisoriamente" para a Casa de Frei Eugênio, que se vê nessa foto, de onde só saiu em 1935 – quando foi inaugurado o prédio novo na Praça Thomaz Ulhoa. Essa Casa de Frei Eugênio ocupava o terreno de esquina onde hoje se encontra a Reitoria da UFTM.


Uberaba, MG – circa 1925

Seu livro "TERRA MADRASTA: um povo infeliz", lançado em 1928, é especialmente incisivo contra o grupo político "bernardista" (apoiadores de Artur Bernardes, ex-Presidente da República e líder do Partido Republicano Mineiro) a quem Doca culpa pelo atraso do Estado de Minas Gerais em comparação com a relativa pujança de São Paulo – que nessa ocasião já alcançava Minas em número de habitantes. Doca defendia a anexação do Triângulo Mineiro ao estado vizinho.


Rua Vigário Silva, trecho não identificado. Uberaba, MG – circa 1925


Escadaria da antiga Igreja do Rosário (demolida no final dos anos 1920) que ficava na esquina da Rua do Comércio (atual Artur Machado) com a Ladeira do Rosário (atual Av. Presidente Vargas). A casa ao fundo ainda resiste. Uberaba, MG – circa 1925


Antiga Rua Godofredo Rodrigues da Cunha (atual Carlos Rodrigues da Cunha). As duas casas da esquerda estão onde hoje fica o Hotel Tamareiras. Uberaba, MG – circa 1925

Rua Manoel Borges, no cruzamento sobre o Córrego da Manteiga, hoje canalizado sob a avenida Santos Dumont. Uberaba, MG – circa 1925



Praça Comendador Quintino, provavelmente vista da frente do antigo Grupo Brasil. Uberaba, MG – circa 1925


Rua São Sebastião, esquina não identificada. Uberaba, MG – circa 1925

Rua da Constituição, provavelmente no cruzamento do vale do Córrego do Capão da Igreja (canalizado sob a atual Av. Guilherme Ferreira) em direção ao alto da Abadia. Uberaba, MG – circa 1925

Antiga Escola Normal de Pirassununga, SP – inaugurada em 1921.


Mapa do "futuro Estado de São Paulo", anexando o Triângulo Mineiro e algumas cidades do Sul de Minas.



Os algozes de Uberaba nos anos 1920, segundo Doca Ferreira: a Administração, a Política, o Clero e a Empresa Força e Luz.



Antigo prédio do Fórum de Uberaba, situado na subida da Rua Lauro Borges, demolido nos anos 1960. Uberaba, MG – circa 1925




O mesmo local em foto de 2017 do Google Street View.




Rua São Sebastião, esquina não identificada. Uberaba, MG – circa 1925





No dia-a-dia, acusava os gestores municipais de desviar os impostos arrecadados, que não eram devidamente empregados em melhorias urbanas e serviços públicos de qualidade. E criticava os moradores ricos e poderosos por seu descaso com o aspecto da suas moradias e por não se preocuparem com a aparência das ruas da cidade.

Denuncia, ainda, que em Uberaba havia corrupção, assassinatos, espancamentos, compra de votos, suborno e registros em atas falsas, nos pleitos eleitorais.

Há no livro cerca de 40 fotos e ilustrações que mostram uma Uberaba que não aparecia nos cartões postais de então. Feitas durante a década de 1920, as imagens mostram ruas e praças de uma cidade feia, pobre e decadente – incompatível com a alegada "fortuna" que havia sido amealhada pelos criadores de gado Zebu e com o pretensioso título de "Princesinha do Sertão". As legendas são originais do autor.

Doca ainda publicou "Forja de Anões" (1940) e "Pântano Sagrado" (1948). Esse último foi recolhido e queimado em praça pública como resultado de um processo movido pelo bispo Dom Alexandre Amaral. //

(André Borges Lopes, baseado em informações recolhidas por Marise Soares Diniz)


Cidade de Uberaba