sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

CAVALO TARADO...

De formação eminentemente rural, a história de Uberaba se passa, em grande parte, nas cercanias da santa terrinha. As fazendas, sítios e povoados, se tornaram repositório de um cem número de “causos”, magníficas histórias vividas que fazem parte do folclore da nossa centenária cidade. As famílias tradicionais, o gdo zebu, os canaviais, arrozais de antigamente, hoje, a cultura da soja, milho, sorgo e trigo, dominam a paisagem do campo. 

Isso aconteceu no advento do projeto de “ parceria e arrendamento de terras”, inspirado na ação de um uberabense ilustre, bancário aposentado, José Humberto Guimarães. Funcionário do Banco do Brasil, adido à carteira agrícola, movimentou o governo Wagner Nascimento e mercê estupendo trabalho, trouxe para Uberaba, um contingente enorme de trabalhadores paulistas, paranaense, catarinenses e gaúchos, para lavrar os nossos improdutivos cerrados. O projeto foi um sucesso. 

Na roça, os “forasteiros” se deram magnificamente bem. Valentes, sem preguiça, disposto ao trabalho, mal saía o sol, lá estavam eles com suas famílias, arando a terra. De onde vieram, condições nem sempre favoráveis, encontraram em Uberaba, a “Meca” para concretizar seus sonhos. A terrinha que sempre acolheu, de braços abertos, todos que a procuram, se alegrou ! Financiamentos, modernas máquinas agrícolas e uma vontade indômita para o trabalho, mudaram o panorama agro pastoril da região. Das barrancas do rio Grande, passando por Água Comprida e Conceição das Alagoas, ganharam também o cerrado rumo a Uberlândia . Colocaram fim naquela vegetação rasteira, de capoeira, onde habitavam cobras e calangos.

Afeitos à terra, poucos se aventuraram à pecuária. Os que optaram, se deram bem. Os filhos crescendo, famílias adaptadas aos nossos costumes, vieram os primeiros casamentos e a conseqüente mistura de sangue. A “interação famíliar” estava consolidada. Um fazendeiro novato na profissão, adorava cavalos. Sonho maior, ter um produtivo haras. Pacientemente, foi adquirindo exemplares. Desde os da lida diária, aos de exposição e reprodução. Daú....

A história que lhes conto: Apaixonado pela raça “mangalarga marchador”, comprou do Quinzinho Cruvinel Borges, na “Casa Azul”, dois bonitos animais. Um, preto. O mais novo, “rajado”. “Peão” da fazenda, acostumado a lidar com tropas, logo notou algo estranho. A todo instante, o preto “subia” no “rajado”, tendo “cobrir” o parceiro. Certa tarde, não viu os dois no curral. Temendo o pior, saiu à procura. Surpreso, encontrou os dois mortos. A tristeza invadiu coração do novato fazendeiro paranaense. Quís saber o que tinha acontecido com eles.
Veio, então, a “explicação” do “peão”:-“Sabe,patrão, quando um animal, “invoca” com outro do mesmo sexo,é um perigo. Eu explico, quando o preto, vendo o “rajado” distraído, bebendo água no “melancia”, pulou em cima dele e começou a” cobrir”. O “rajado”, no susto,”trancou a entrada”. Com muita dor, o preto, pensava:- se ele afrouxar, eu tiro. “.O “rajado”, segurando a dor da penetração, pensava:- se relaxar, ele põe tudo “...”Por isso, patrão, os dois morreram... Embora decepcionado com o acontecido, o fazendo concordou com o que lhe foi contado...

A história, nada tem nada a ver com o “namoro” Prefeitura x Codau , um cedendo ao outro, encargos e obrigações que lhe cabe. Qualquer semelhança, é mera coincidência.....Abraço afetuoso do “Marquez do Cassú"



Luiz Gonzaga de Oliveira





Cidade de Uberaba

BARRAGEM DE MINERADORA SE ROMPE EM BRUMADINHO/MG.

Mais um espetáculo deprimente o Brasil assiste com o rompimento de Barragem da empresa Vale do Rio Doce.

Até quando permanecerá esse estado de coisas? 

Tudo se resume num só item: autoridades do setor se submetem ao jogo pesado das empresas responsáveis pelo desmonte das nossas jazidas que depois são vendidas a preço de bananas.

Não por acaso o uberabense Murilo Ferreira se demitiu da Vale. Terá ele visto o futuro da extração de minérios no Brasil? Murilo anteviu as desgraças que as mineradoras estavam por proporcionar ao Brasil e especialmente ao estado de Minas Gerais?

Agora os intocáveis senhores representantes dos órgãos oficiais enchem o peito e ditam regras cheias de isso e aquilo. E os seus gordos salários são depositados em suas contas sem atraso.

Jornal da Gazeta

E agora Ministério Público? Onde estão os culpados pelo rompimento da Barragem de Mariana? 
Desgraça pouca é bobagem: esse é o caso da Barragem de Brumadinho rompida, cujas consequências vão além da nossa imaginação. 

E Minas Gerais,vai continuar sendo palco dessas catástrofes? Outras barragens estão na lista para romper. Cidades poderão ser soterradas e vidas impagáveis serão ceifadas. Resta a pergunta: quando? 
Que essa Barragem rompida nos sirva de alerta e exemplo para colocarmos um basta nessa vergonhosa situação que se estende ao longo de séculos. O nome “Minas Gerais” subentende jazida de minérios no subsolo. 

Vamos soterrar essa cultura de que, por ser mineradora pode ela fazer o que bem entende com o povo brasileiro! Inclusive roubar o subsolo juntamente com
o sonho de pessoas indefesas. 


João Eurípedes Sabino. 
Uberaba/Minas Gerais/ Brasil.


Cidade de Uberaba

UBERABA (QUASE) ANTIGA...

Velho tem a mania de lembrar coisas e fatos antigos, principalmente apelidos. Ainda bem que o “ Alemão-Alzheimer”, passou longe... algumas denominações de logradouros de Uberaba, voaram com as cinzas do tempo. A vila Maria Helena, por exemplo, onde passei parte da minha infância e a inteira juventude, tinha locais que, se falasse o nome, difícil saber onde era... O “beco dos Braga?”, conhece ? E o “ beco do Mathias ?’, são ruelas transversais à rua Visconde do Rio Branco. Qualquer moleque da minha época, sabia pelo apelido. Nome? Não.

E a atual “vila Kathalian”, entre a Exposição e o Parque das Américas? Era o famoso “Sunga- Saia”, por razões óbvias...E nos fundos do atual Terminal Rodoviário, antiga estação da “ Oeste”, ruas Ituiutaba, Conceição as alagoas, Conquista e adjacências, era conhecida com a região das “ Bicas”...A atual, moderna e progressista Santa Marta, era o “Ovo Choco”. Alí pertinho,” Recanto das Torres” e bairro”Olinda”, era o “campo de aviação do Torres Homem (Rodrigues da Cunha), filho de dona Olinda Arantes Cunha...Um dos bairros “classe média/alta”, no Fabricio, a “Vila Olímpica”, não passava do “ pasto do Pereira”...

Trecho da rua Tiradentes, depois da Padre Zeferino, funcionava um conhecido puteiro, jocosamente conhecido como “Curral das Éguas”... Inicio da Padre Francisco Rocha, fundos do antigo armazém do Augusto Araújo, o tradicional “Puxa-Faca”, pelas brigas constantes à porta do bordel da “Aurora”. Os sopapos eram acompanhados de facas bem afiadas ...


No alto d’Abadia, sem a quantidade de conjuntos habitacionais existentes, atualmente, dentro do bairro, eram conhecidos o tradicional “Barro preto”, no final das ruas do Carmo e Capitão Domingos e no lado contrário, seguindo a Barão da Ponte Alta, se concentrava a simpática região dos “Olhos d’água”. Atrás da igreja de Nossa Senhora d’Abadia, padroeira da terrinha, pontificava as “Amoras”, “Coreia” e “Coreinha” e vila do “Ângelo”...

Quase ao final da avenida Leopoldino, onde, hoje, reside a “nata” da sociedade uberabense,era a grande “fazenda do Rezendão”. O “castelinho” da família, continua lá. No alto da “Boa Vista”, perto da avenida das “Torres”, existe um marco de pedra e madeira, que, segundo os historiadores, é uma referência ao inicio da civilização local, por todos chamado “Cachimbo”, e o povo adotou o “Boa Vista”, como alto do “cachimbo”...

Nas Mercês, a avenida Alexandre Barbosa, era a “ rua Cassú”, pois, começava ali, a estrada que demandava ao lugarejo do “Cassú”, onde estava instalada a primeira fábrica de tecidos da região. O caminho ganhava a “chácara do Tutuna”, atravessava o rio Uberaba, passava na porta do casarão da fazenda do Tonico dos Santos, até alcançar o povoado. A rua “Cassú” por ter muitas minas d’água, era conhecida como “brejinho”. Quando construíram o atual cemitério, antes de chamar-se “São João Batista”, era o ‘cemitério do brejinho”...

No inicio da Vila Santa Maria, do lado direito de quem sobe rumo ao aeroporto,a avenida Pedro Salomão”, era a “chácara da Manteiga” e, do outro lado, na Santa Beatriz, “chácara do Mané Balaio”... No “pasto do Lalau”, está erguida a Igreja da “Medalha Milagrosa” , enquanto a “chácara dos Maristas”, edifica-se a “morada das Fontes”... Tem muita coisa pra contar...Uberaba, santa terrinha, cresceu muito ...O “corguinho”, primeiro a ser canalizado, na avenida Santos Dumont, todos conheciam com o “ córrego das bostas”... Será porquê ???...“ Marques do Cassú”.




Luiz Gonzaga de Oliveira







Cidade de Uberaba

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Um pouco Pedro Fu Manchuda lenda

Um pouco da lenda Pedro Fu Manchu. Ele ganhou esse apelido devido ao seriado “Tambores de Fu Manchu”, que passava no Cine Royal, ali na praça do Grupo Brasil. Na verdade, Fu Manchu era um chinês de barbicha e bigode longos.

 Fu Manchu

Na minha adolescência, participei junto com outros amigos da vida do Pedro, na época, na Vila Frei Eugênio, onde morou em uma casinha de taipa feita por ele, que ficava encostada no muro da residência dos De Vitos. Foi vizinho de muita gente importante, como a família Nascimento (Pepinho), dona Filinha, Policarpo Capim e do antigo jogador do USC, Gabardo, que tinha uma oficina de ferreiro. Pedro Fu Manchu foi o melhor anunciante de eventos da cidade. Com seu famoso megafone, ele anunciava os jogos do USC.


Carlos Ticha



Cidade de Uberaba

domingo, 20 de janeiro de 2019

Ponte que divide os estados de Minas Gerais e São Paulo, em Delta, no Triângulo Mineiro.

Outra vista da velha ponte do Rio Grande, publicada em julho de 1968 pela finada Revista Manchete, em matéria especial sobre o Triângulo Mineiro. Do lado esquerdo (São Paulo) vemos ao fundo as chaminés da Usina Junqueira. Do lado direito (Minas Gerais) o Uberaba Country Clube e a sede campestre da Associação Atlética Banco do Brasil.

Ponte São Paulo, em Delta, no Triângulo Mineiro. Foto de Mituo Shiguihara /Revista Manchete. 

Ainda não havia as represas de Volta Grande (1974) e Igarapava (1998) e nem a nova ponte ligando a BR-050 com a Via Anhanguera (2001). O rio tinha um longo trecho navegável para barcos de pesca e lanchas de recreio. 

A foto foi publicada invertida na revista, aqui está na posição correta). 

1968_Dupla de locomotivas General Motors Diesel G-12 da Cia Mogiana puxando uma composição de cargas para Minas Gerais sobre a ponte Igarapava-Delta no Rio Grande. 

Dupla de locomotivas sobre a ponte Igarapava-Delta no Rio Grande. Foto de Mituo Shiguihara /Revista Manchete. 

Por décadas os trens dividiram o tráfego por essa ponte com carros, carroças, caminhões, boiadas e pedestres desde a sua inauguração em 1915 até o início de 1979 – quando foi aberta ao tráfego a variante Entroncamento-Amoroso Costa, que passou atravessar o rio em uma nova ponte ferroviária, construída cerca de 10 km abaixo desse local e ainda em operação. 

A rodovia BR-050 só ganhou uma ponte nova em 2001.




Cidade de Uberaba


quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Ponte sobre o Rio Uberaba

Ponte sobre o Rio Uberaba na estrada ligando Uberaba ao distrito de Nossa Senhora das Dores do Campo Formoso (atual município de Campo Florido). Construída em madeira no início do século XX, essa ponte foi reformada em 1933-34.

Ponte sobre o Rio Uberaba - Recorte de jornal Lavoura e Comércio, edição de 6 de julho de 1934

Fonte: jornal Lavoura e Comércio, edição de 6 de julho de 1934.




Cidade de Uberaba

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

CORRIDA DE TOUROS NA RUA DO COMÉRCIO

Já nos referimos à importância que teve para Uberaba a chegada da ferrovia em 1889. A linha pioneira da Companhia Mogiana deu à região uma opção de ligação com as grandes capitais do País muito mais rápida, segura e confortável do que havia até então. Mas nem tudo eram flores na relação dos uberabenses com o trem de ferro.

A Cia Mogiana era a mais problemática das empresas ferroviárias paulistas do século XIX . Embora sua rede de estradas fosse ampla, atendendo a uma das regiões cafeeiras mais ricas do estado vizinho, a empresa frequentemente dava prejuízos e os novos investimentos eram feitos a passo de tartaruga. Duas décadas depois de inaugurar a estação em Uberaba, a linha já chegava até Araguari, mas a qualidade do serviço estava longe de ser satisfatória.

Em 1909, a Cia Paulista de Estradas de Ferro – na época uma das melhores empresas do país – levou sua linha até a cidade de Barretos, e as comparações foram inevitáveis. Os mineiros queixavam-se que o custo dos fretes da Mogiana era muito mais alto que o da concorrente, e o serviço pior. Muitas locomotivas eram velhas e pouco confiáveis, havia falta de vagões para atender as encomendas, os trens de passageiros atrasavam com muita frequência.

Para piorar, a ligação de Uberaba com o ramal da ferrovia Oeste de Minas em Ibiá, prometida há décadas, não saia do papel. O que, na prática, dava à Mogiana o monopólio do transporte na região. O problema só seria amenizado em 1915, quando a Mogiana abriu a nova linha de Igarapava, e em 1926, quando foi entregue a ligação da Oeste de Minas.

Um dos grupos que mais queixas tinha em relação aos serviços da Mogiana era o dos criadores de gado. Na virada do século, os pecuaristas dependiam do trens para transportar para o Triângulo Mineiro seus preciosos reprodutores Zebu, trazidos de navio diretamente da Índia ou comprados de criadores no norte do estado do Rio de Janeiro, onde há décadas já fazia fama o gado indiano. Também usavam os trens para levar e trazer de volta o gado de alta qualidade que mandavam para exposições agropecuárias no Rio e em Belo Horizonte.


Cartaz da festa de San Fermin em Pamplona, Espanha, em 1909

O transporte para essas cidades era uma epopéia: o gado saia de Uberaba pela Mogiana, que ia somente até Campinas. A mudança de bitola na linha obrigava que as reses trocassem de vagão para seguir até a capital de São Paulo, onde eram novamente transferidos para a Central do Brasil, que os levava até o Rio. Se o destino fosse Belo Horizonte, era preciso fazer uma nova baldeação no meio do caminho, em Barra do Pirai. Somando tudo, o transporte levava de quatro a seis dias, nos quais o gado seguia balançando em vagões apertados, acompanhado por vaqueiros que lhes fornecia água e comida no trajeto. Um enorme estresse, mesmo para o rústico e resistente gado Zebu.

Nem sempre as coisas corriam bem. Em 1907, o capitão Joaquim Machado Borges foi visitar as fazendas de Cantagalo e Porto Novo do Cunha, no norte do Rio, com o objetivo de comprar reprodutores puro sangue para sua própria fazenda e para a do coronel José Caetano Borges. Entusiastas do Zebu, um ano antes, os dois tinham sido responsáveis pela promoção da primeira exposição de gado indiano em Uberaba, na Fazenda do Cassu, de Zeca Caetano. Despachado de trem, o gado deveria chegar na tarde de uma quinta-feira, dia 20 de junho.


Rua do Comércio (atual Artur Machado) em Uberaba, em 1904. Postal de Marcelino Guimarães.

O trem atrasou e chegou na cidade quando o sol já havia sumido no horizonte. A velha estação da Mogiana ficava no final da Rua do Comércio (atual Artur Machado). Prudente, o capitão Joaquim preferia não correr o risco de fazer o desembarque e atravessar a cidade com seu precioso gado durante a noite. Mas os funcionários da Mogiana foram irredutíveis, e não permitiram que a carga ficasse nos vagões até o amanhecer.

O resultado foi trágico. O zebus, estressados pela longa viagem, pularam dos vagões tão logo as portas foram abertas, sem que os vaqueiros pudessem contê-los. Duas reses morreram na queda e outras duas ficaram feridas. O restante da manada desceu a Rua do Comércio numa disparada rumo à Praça Rui Barbosa, colocando para correr em pânico e desespero os pedestres que estavam nas ruas da cidade. Alguns touros invadiram as casas comerciais que ainda estavam abertas e um deles só a custo foi retirado de dentro de uma barbearia, depois de causar ferimentos em alguns clientes. Ainda que sem querer, Uberaba teve seu dia de “Corrida de Toros”, como as da cidade espanhola de Pamplona.


(André Borges Lopes)









Cidade de Uberaba

JUNTOS POR UBERABA

As redes sociais vieram para ficar. Os tradicionais veículos de comunicação estão perdendo prestigio. Não são mais os “ grandes condutores da opinião pública”. Deixaram-se “ vender” para os poderes públicos. Estão perdendo, vertiginosamente, audiência de outrora. O povo não mais se deixa levar pelas aleivosias cometidas, propositada e covardemente, por eles . No caso do “ estacionamento pago” em Uberaba, o exemplo é gritante. Mais de 3.000 uberabenses se manifestaram sobre a antipática medida. 99% disseram NÃO! Vejam exemplos:

Marta Silva”:-“A praça Rui Barbosa ficou uma merda. Haja amortecedores para passar por ali”.Fátima Mafioli:-“É um grupo apartidário, ou novo?”, pergunta.Mário Afonso Guido Cunha, lembra “Foi o tempo em que Uberaba era o paraiso para se morar. Verdade é que muitos profissionais vinham prestar serviço, por aqui ficaram , casaram, criaram os filhos. Vamos lutar para voltar aos bons tempos, cidade limpa, ordeira e progressista. Esses últimos governos municipais, os prefeitos não eram nativos daqui. Vamos valorizar os uberabenses de verdade”.

Tem mais depoimentos .Sandra de Deus Cherim, “vamos sim, lutar por uma Uberaba melhor. Esses governantes que estão ai, estão acabando com a cidade. É aumento de água, essa de ter que pagar estacionamento, é um absurdo. Acorda, povo de Uberaba. Vamos lutar pelos nossos direitos.” Benigno Bebiano Jr.,exalta:-“ Temos o pior Prefeito de todos os tempos. Este senhor acabou com Uberaba”. Josy Veloso, sem medo:-“Sou funcionária pública; nem por isso, vou me calar”. Ataide Camargo, diz:-“ Governo fajuto. Culpado os eleitores que elegeram essa tartaruga. Temos que eleger gente competente e que traga empregos para a cidade. Acorda, Uberaba! Ano que vem, temos que limpar essa corja de burros”.

Continuam as “ broncas”. Milo Bazaga, pergunta “ É ganância do prefeito em aumentar o roubo no povo uberabense. Porque a zona azul de Uberaba, idoso tem que pagar ? “ Miguel Luiz, faz ironia:-“ Prudente de Morais, acabaram com o movimento dela. Coitados dos comerciantes. Parabéns, Sr. Paulo Piau, nosso prefeito querido...”Luiz Hozumi Nojivi, com tristeza, fala:-“Uberaba, realmente, parou no tempo!”. Gustavo Menezes, desabafa:- “O centro está parecendo dia de sábado. Quase nenhum carro parado nuas suas vias onde está cobrando estacionamento. Realmente a população não aprovou isso”. Evaldo Firmino, prega:-“Ninguém pode ser escravo de sua identidade. Quando surge uma oportunidade de mudança, é preciso mudar “. E as queixas nas redes sociais, vão se avolumando. Acompanhem :

Gina Idaló, grita:-“Esse Piau tá querendo mais “dim-dim”. Nossa! Já nos tirou tanto! Quer mais ainda ?”. Geraldo Jr.”É muito estranho. Queria saber o nome do dono dessa empresa. As máquinas não funcionam e os “ flanelinhas verdes”, querem vender o cartão de 20 reais”...Já Wesley Ferreira, é pura ironia:-“Tirando o trabalho do jovem aprendiz e suas oportunidades... parabéns,prefeito, parabéns, vereadores , estão cada vez mais, acabando com a nossa cidade”. Mário Cortez, é um gosador:-“Bom demais. Agora vamos poder andar a cavalo a vontade no centro. E em dia de chuva, vamos pescar uns peixes com o barco. Ei, Uberaba, véia de guerra! Leonardo Silva, nada contente, afirma “Parabéns por fazer o que sempre queriam: ganhar muito dinheiro pro bolso, destruir nosso comércio e a nossa cidade. Parabéns, vocês são “feras”uma máquina de destruição”. Paro por hoje. Uberaba, começa ficar acordada ! Isso é um alerta para os que se acham” donos da cocada preta”...
Volto na segunda. Bom fim de semana. Abraços do “ Marquez do Cassú”.



Luiz Gonzaga de Oliveira


Cidade de Uberaba

A PRAÇA ( E A RUA ) É DO POVO!

Estou a acompanhar essa celeuma do “ estacionamento pago” em ruas, praças e avenidas na terrinha do “Doca”. Então, veio à lembrança um episódio que tomou conta de Uberaba, em 1972/73 . Antes de deixar a Prefeitura, o prefeito Arnaldo Rosa Prata, embora com alguns senões, fizera uma louvável administração. A começar pela surpreendente vitória nas urnas, sobre imortal” Mário Palmério, com quem disputou a Prefeitura naquele “mandato tampão” . Arnaldo, inaugurou o , até hoje, inacabado “Uberabão”, construiu o novo terminal rodoviário, “cobriu” parte dos córregos centrais da terrinha, além de asfaltar ruas no centro e bairros da cidade.

Nas eleições municipais de 72, prestigio em alta, rádio,jornal e TV, recém inaugurada, às mãos, lançou, com a sua turma da Arena 1, o tabelião Fúlvio Fontoura, como candidato à sua sucessão. Pelas obras realizadas, o apoio recebido, a eleição do “pupilo”, era ‘fava contada” . Do outro lado, Arena 2, meio desorganizada, precisando de votos na convenção da escolha de candidato, lançou Hugo Rodrigues da Cunha, perdedor de uma disputa à deputado federal e ex-Presidente da ACIU, também um dos lideres do movimento separatista do Triângulo, de Minas Gerais, chamado UDET (União de Desenvolvimento do Estado do Triângulo).

Hugo, contava com um frágil apoio de empresários do setor automobilístico e reflorestamento. Não mais. “Boa pinta”, a “bola da vez” era Fúlvio. A “mulherada” morria de amores por ele. Hugo, feioso, bigodudo, era o “azarão”. (Sem contar com o João Pedro de Souza, coitado, do esfacelado MDB...).Máquina administrativa na mão, vereadores ao seu lado, deputado federal, imprensa quase unânime,Fúlvio, podia mandar fazer o “ terno de posse”...

Mas, como em “boca de urna” e “cabeça de Juiz”, ninguém sabe o que sai, Hugo, “deu um banho de votos no seu opositor”. A vitória dos“ reflorestadores”, deixou uma parte dos “donos da cidade”, na rua da amargura. Nesse ínterim, veio o “troco”. O grande “Jumbo Eletroradiobraz”, pesquisa Uberaba para instalar uma das suas espetaculares lojas ! Euforia do “grupo” derrotado. A empresa paulista, precisava de uma grande área para a sua instalação. O que fez Arnaldo ? Com a anuência, quase total, só Mário Guimarães, eleito vice prefeito na chapa de Hugo, votou contra, a Prefeitura, doou a praça Jorge Frange, a “antiga praça da rodoviária”, à empresa paulista... Seria a “consagração” de Arnaldo e da Arena 1 e a “oposição” teria de aceitar...

Hugo, “empinou o arreio”! Gilberto Rezende, “cabeça pensante” do grupo vitorioso, gritou:-“Doar praça pública à particular ? Jamais! A praça é do povo !”.Ação popular impetrada, a medida foi sustada. Quando tomou posse, uma das primeiras medidas de Hugo, foi anular o “decreto de doação” da praça. O “Lavoura” “caiu de páu” no novo Prefeito. As rádios também .A TV, ficou neutra. “Sapo de fora não ronca”, disse dr.Renê Barsam, presidente da emissora.

Hugo, ofereceu ao grupo, outras áreas. Por “pirraça” e orientada pela “oposição”, a empresa paulista não aceitava nenhuma outra localização. Queria a praça e pronto ! Só que a “praça é do povo”, diziam os uberabenses. O “castigo veio à cavalo”. Em pouco tempo, a gigante “Jumbo-Eletrorádio Braz”, faliu ! A “oposição” ficou caladinha e Uberaba ficou livre daquele abacaxi.

Conto-lhes essa história da vida política de Uberaba e essas pretensões absurdas, quando falam em “ progresso de Uberaba’, “democratização de espaços”...Não sei se o meu fraterno amigo, Gilberto Rezende, toparia encampar um trabalho comunitário e dizer aos atuais “donos” da terrinha, para ir devagar “com o andor”, nesse famigerado “estacionamento pago”.

Desculpem-me pela extensão do texto. Abraço uberabense do “Marquez do Cassú”.



Luiz Gonzaga de Oliveira



Cidade de Uberaba

“DOCA” E UBERABA

Acordei, pensando em Você, minha doce e amada Uberaba ! Como estão judiando da nossa querida terrinha, meu Deus ! Logo me veio a mente, Orlando Ferreira, que conheci na minha infância na vila Maria Helena, onde éramos vizinhos. Lembrei do “Terra Madrasta”, o livro tão polêmico, proscrito pela Igreja Católica, objeto de estudos históricos até hoje. “Doca”, tinha acendrado amor por Você, Uberaba amada ! Ao elogiá-la, manifestou também o seu desagravo,com o que faziam com Você ! A classe política que dominava a terrinha e a chamavam de “ Princesa do Sertão”...

Hoje, Uberaba amada, colocaram na rua, as mazelas que apostavam em Você. No livro, segundo a sua dedicatória, “Doca” ,dizia” está podre, andrajosa e descalça”. Em outro trecho, terra querida, ele afirmava:- “ Estás infeliz, embora ofereça o meu trabalho, aprenda nele a odiar seus malfeitores”. “Doca”, Uberaba ,minha paixão, mais adiante no livro que chamou de “Terra Madrasta”, dá o seu testemunho a claríssima, deslumbrada e autêntica visão do futuro que te aguarda, Uberaba de todos nós. Foi assim que ele falou numa hora inspirada:

“Em ti, no teu solo estupendo, só existe a eterna beleza e ver-te é considerar-se acordado nas paragens dos sonhos. Por toda parte, poesia, encanto, paisagens maravilhosas, brilho, caridade, esplendor! Do teu solo ubérrimo, das suas árvores lindas, das tuas águas brilhantes, evola-se um murmúrio doce e harmonioso, apaixonado e indefinível, música sublime em concerto com o Sol que canta, nas alturas, a eterna canção da Luz e a Lua, as sonatas do amor! Tens tudo, Uberaba, mas, estás pobre, andrajosa e descalça. És honesta, mas estás amarrada, subjugada e assim seus malditos algozes ti prostituiram facilmente ! Estás em mesmo estado, sim ! Além disso, muito desprezada e injuriada”!. Contudo, te amo ! Apaixonadamente !”

Relembro, minha amada Uberaba, a lucidez e clarividência de Orlando Ferreira, o “Doca”, ao se referir a Você ! Ele descreve, com sabedoria invulgar, no livro que completou 90 anos, o quanto a amava, terra querida ! Enaltece , Você nem imagina, o que representa também áqueles que aqui aportaram , à busca de melhores dias...Uns,se sobressaíram com altivez e honra ! Outros, denegriram e denigrem a sua gloriosa imagem, Uberaba de todos nós...

“Doca”,é transparente quando afirma:- “As nossas maiores desgraças , devemo-las à maldita política uberabense. Politiqueiros sem escrúpulos , em ações descuidadas, se cercaram de maus elementos vindo de fora, aventureiros mortos de fome, que aqui aportaram com o fito único e exclusivo, ganhar a vida. Gente que não tem o menor amor a nossa amada terra, cujo principal desejo, é forrar o estômago. Assaltam, com facilidade e ganham posições de destaque, graças a imbecilidade dos nossos caricatos dirigentes. Uberaba amada, tem sido vítima desgraçada desses malditos aventureiros- todos mal intencionados -, desonestos, ladrões e muito ignorantes. Entretanto, nossa terra não se emenda, não se corrige”...

Amanhã, continuo com meus pensamentos voltados à memória de Orlando Ferreira, “Doca”, tão perseguido por dizer a verdade que, segundo o historiador, escritor e presidente da ALTM, João Euripedes Sabino, até o seu túmulo, não consta do cadastro do cemitério do “ brejinho” e muito menos nos arquivos públicos e historiadores da cidade. Uma outra história...
Grato pela atenção da leitura. Abraço fraterno do “ Marquez do Cassú”.



Luiz Gonzaga de Oliveira




Cidade de Uberaba

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Eterno referencial (*)

Meus amigos estão partindo / E eu na “sofrência” pensando / Qualquer dia estarei indo / Querendo ou não estarei viajando.

As palavras aí de cima enviei a alguns amigos ao cientificá-los da partida do amigo Jésus da Cunha Tormim no último dia 08/01/2019. Envolvido pela comoção de ver o grande combatente repousar quase que subitamente, não me restou outra alternativa senão a de escrever o que me pediu o coração. Não era para menos, posto que perdi três amigos e duas amigas em um mês. 

Recebi incontáveis respostas e dentre tantas, me permito transcrever algumas aqui, já que me valeram e poderão provocar extensas reflexões: “Deixe a barba de molho”. “Felizmente iremos conscientes do dever cumprido”. “Essa sua tristeza, ainda bem que extravasou na trova bastante realista”. “Esse é o final nosso e não tem jeito”. “Sua missão aqui ainda será longa...”. “E assim segue a vida”. “É a única certeza que temos”. “És jovem no modo que vives a vida”. “Verdade amigo. Deus tem o tempo certo para cada um de nós”. “Estamos no mesmo barco”. “A morte é apenas uma viagem”. “O dia da grande viagem é um botão on/off”. “Ainda vamos fazer muitas viagens juntos”. “Essa é a lei...”. “Terminada a missão aqui, começa a de lá”. “Não vamos pensar nisso não...”. 

E continuam outros amigos manifestando sobre o meu epitáfio: “Não pense, que é melhor”. “Sigamos com Deus rumo ao horizonte lá bem no infinito”. “Devemos viver o hoje como se fosse o último dia”. “Nós viajaremos querido amigo”. “Essa é a única certeza que temos, meu amigo”. “A fila anda e ninguém fura”. “Viver o hoje bem vivido, vale mais a pena”. “Enquanto tiver sonhos o corpo suporta muito bem”. “Estamos todos na fila”. “Precisamos de seus ensinamentos”. “Iremos todos...”. “Verdade. Tenho o mesmo sentimento”. “Compartilho o sentir”. “Amigos especiais são presentes de Deus”.

Os donos das frases mencionadas, aos quais sou imensamente grato, irão identifica-las, como o pai que reconhece a voz do filho estando ele entre mil crianças. Jamais imaginei que o falecimento do amigo Jésus da Cunha Tormim pudesse reverter a mim ensinamentos vindos de tantas pessoas em momento tão especial. Jésus era assim; tinha o poder de aglutinar pessoas. Usava frases diretas ou de efeito e, muitas vezes de “efeito retardado” para serem entendidas horas ou dias depois. Defendia sempre a verdade sem perder a ternura. Não sabia negar ajuda a ninguém. 

Amigo Jésus. Por onde você passou, o seu assento jamais terá um substituto e, na confraria Roda de Fogo, será nosso eterno referencial.



(*) - João Eurípedes Sabino-Uberaba /MG/ Brasil 








Cidade de Uberaba

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

André Borges Lopes

Há duas semanas, falei das uvas e vinhos do Padre Zeferino, destruídos pela repressão aos que apoiaram a Revolução Liberal mineira. Mas o movimento de 1842 também trouxe benefícios à região de Uberaba. Um dos mais duradouros foi a transferência do Colégio do Caraça que – para se afastar da agitação política – deixou às pressas as serras ao norte da antiga capital Ouro Preto e se instalou em uma fazenda em “Campo Belo da Farinha Podre”, atual cidade de Campina Verde.

Encravado nas montanhas da Serra do Espinhaço, o “Santuário do Caraça” é um ponto turístico histórico de Minas Gerais. Foi o primeiro grande empreendimento no Brasil da Congregação da Missão – ordem religiosa conhecida como ”lazaristas” ou “Irmão Vicentinos” – que, vinda de Portugal antes da independência, aqui chegou em 1818. Dois anos depois, receberam de Dom João VI as terras onde havia a “Ermida do Irmão Lourenço”, uma capela barroca e uma hospedaria para peregrinos que se aventuravam pela Serra do Caraça.

Em poucos anos, a ermida semiabandonada transformou-se num colégio interno e um seminário, inaugurados em 1921. Famoso pela seriedade e rigidez da disciplina, o Caraça tornou-se referência de ensino para a elite brasileira do século XIX. Ex-alunos fizeram carreira como governadores de estado, senadores, deputados, empresários e autoridades religiosas – entre eles dois presidentes da República: Afonso Pena e Artur Bernardes. Colégios particulares do Rio de Janeiro faziam anúncios destacando que seguiam o “método Caraça” de ensino científico, religioso e moral.

Nos anos após a independência, havia muita desconfiança política em relação a padres estrangeiros vinculados às ordens em que os superiores estavam na Europa. Mas não são claros os motivos que levaram à fuga dos lazaristas durante a Revolução que – por dois meses e dez dias – transformou Minas Gerais num campo de batalha entre liberais e conservadores do Império. Há versões que falam da adesão dos religiosos a um ou a outro lado do conflito, e do temor de retaliações. Fato é que, em 24 de agosto de 1842 – dias depois da derrota do rebelde Teófilo Otoni para forças comandadas pelo Duque de Caxias na batalha de Santa Luzia – o então diretor do colégio, Padre Antônio Viçoso (futuro Bispo de Mariana), transferiu-se para o Triângulo Mineiro carregando alunos, professores, escravos, livros e parte dos equipamentos. Uma viagem de 700 km em carroças e tropas de mulas, pelas estradas precárias da Província.

O colégio instalou-se em três grandes fazendas – Campo Belo, Fortaleza e Paraíso – na região de Campina Verde. Terras que haviam sido doadas aos Vicentinos em 1830 pelo fazendeiro João Batista de Sequeira e sua mulher Bárbara – descendente de índios Caiapós – que não tinham filhos nem herdeiros. Os doadores pediram em troca a construção de uma capela para celebração de missas aos domingos e dias santos, a construção de uma escola de “primeiras letras” e , quando houvesse condições, que fossem ministradas aulas de gramática latina e outros estudos “que o reverendíssimo superior julgar que se estabeleçam”.

A transferência do Caraça cumpriu por algum tempo as promessas. O “Colégio e Seminário de Campo Belo” foi pioneiro na difusão de cultura, educação e religião no Sertão da Farinha Podre – região esquecida do Império, de escassas escolas. Cumpriu também missões de catequese dos índios Caiapós, que ainda habitavam grandes áreas do Triângulo, e ofereceu uma alternativa de educação formal para os filhos dos donos de fazendas agrícolas e de criação de gado de Minas, Goiás e Mato Grosso. Relatos da época dizem que um terço dos alunos estudava gratuitamente, ou “pelo amor de Deus” nos termos de então.

O mais ilustre dos alunos dessa escola foi o escritor Bernardo Guimarães – autor dos romances “Escrava Isaura” e “O Seminarista” – que ambientou em Campo Belo um de seus contos: “Jupira”, história de amor e tragédia entre uma índia Caiapó e um português, publicada em 1872. Também foram alunos do colégio em Campina Verde o político Eduardo Montandom, futuro presidente da Província de Goiás, o advogado e compositor Antônio Cesário de Oliveira Filho (Major Cesário) e diversos intelectuais que fariam carreira como professores e profissionais liberais em Uberaba.

Em 1856, o Caraça retornou definitivamente à sede original, agora tendo à frente padres Vicentinos vindos da França. Foi o início de sua época de ouro como centro de formação da intelectualidade brasileira.



Cidade de Uberaba

O SAMBA UBERABENSE DE IBRAHIM SUED

No início dos anos 1950, despontou na imprensa carioca um novo colunista social, que iria fazer grande sucesso nas décadas seguintes. Descendente de árabes, de uma família pobre, Ibrahim Sued iniciou a carreira nos jornais como repórter fotográfico, ainda nos anos 1940. Nesse trabalho, revelou raro talento para infiltrar-se em locais restritos e obter boas informações, além da uma capacidade admirável de relacionamento com a fina flor da alta sociedade da então Capital Federal.

Trabalhou com grandes jornalistas, como Joel Silveira na revista “Diretrizes” e Carlos Lacerda na “Tribuna da Imprensa”, onde começou a escrever os primeiros textos. O sucesso viria a partir de 1954, quando foi contratado pelo jornal “O Globo” para assinar uma coluna social informal e inovadora para a época, com a qual fez fama e fortuna. Criou “bordões” que se tornaram célebres como “De leve”, “Sorry periferia”, “Ademã que eu vou em frente”, “Os cães ladram e a caravana passa”, dentre outros.

Curiosamente, Sued nunca foi escritor talentoso e – segundo seus detratores – tinha dificuldades com a gramática. Além disso, fazia amigos com a mesma velocidade com que colecionava desafetos. Causou surpresa quando, no início de 1956, revelou que estava dando início à carreira de letrista. Sua primeira música era o samba-canção romântico “Decepção”, composto em parceria com um músico também estreante, de família uberabense: Mário Jardim, neto de Quintiliano Jardim – jornalista e diretor do jornal “Lavoura e Comércio”. Mariozinho, como era conhecido, morava no Rio de Janeiro, onde trabalhava no Tribunal de Contas.

Em fevereiro daquele ano, a música foi lançada pela gravadora Sinter, interpretada por Neusa Maria, uma bela e jovem cantora que despontava nos programas de rádio da Capital. Em parte graças à curiosidade e à promoção dada por Ibrahim, o samba fez sucesso e foi incluído no primeiro LP da cantora, lançado meses depois. Uma busca no YouTube nos permite ouvir a gravação original: uma história triste de uma moça apaixonada, traída por falsas promessas de amor, bem ao gosto da época.

No mês de abril Ibrahim e Mário já anunciavam nova parceria no samba “Amor não é brinquedo”, quando uma revelação caiu como um bomba: a jornalista uberabense Iná de Souza reivindicava a autoria da letra e acusava o colunista de plágio. Não faltavam inimigos de Ibrahim na imprensa e a denúncia teve repercussão em diversos jornais e revistas. Iná foi entrevistada e contou sua história: a pedido de Mário, havia escrito a letra no inicio de 1954. O samba, gravado por uma cantora uberabense com arranjo do maestro Alberto Frateschi, teria feito sucesso no carnaval daquele ano. A letra supostamente escrita por Ibrahim tinha poucas palavras modificadas, a maior parte era rigorosamente igual, inclusive o título.

Desconhecida no Rio, Iná de Souza tinha certo prestígio em Uberaba. Filha de uma família de jornalistas que editava o jornal “O Triângulo”, Iná escrevia crônicas e poemas desde a década de 1940. Era também uma das responsáveis pela revista “Graça e Beleza”, de moda e comportamento. Durante a gestão de Antônio Próspero havia trabalhado por alguns anos na Prefeitura, como bibliotecária, diretora do serviço de estatística e chefe de gabinete do prefeito. Nos últimos anos, havia se licenciado do cargo e estava morando com uma irmã na capital de São Paulo – onde foi surpreendida ao ouvir na voz de Neusa Maria o samba que havia composto.

Questionado pela imprensa, a primeira explicação de Mario Jardim tinha cara de confissão de culpa: alegava que, na realidade, a letra era dele e Ibrahim Sued – que não sabia nem batucar em caixa de fósforo – havia composto a música. O próprio Ibrahim, então passando uma temporada na Europa, preferiu não se manifestar. Enquanto isso, Iná de Souza chegava ao Rio disposta a contratar um advogado para processar a dupla e garantir seus direitos. Dizia que tinha inúmeras provas e testemunhos do que afirmava. Mas que, infelizmente, a única gravação em acetato da música feita em 1954 havia sido subtraída de uma rádio uberabense pelo poderoso avô jornalista do coautor.

O que se seguiu nunca ficou muito claro. Aparentemente, a gravadora Sinter intermediou um acordo entre as partes. O fato é que assunto sumiu da imprensa, e ninguém tocou mais no assunto. Mário e Ibrahim continuaram a compor em parceria e Iná voltou a Uberaba, onde tornou-se uma conhecida agitadora cultural. Mas isso já é uma outra história.


(André Borges Lopes)



Cidade de Uberaba

CAPINÓPOLIS: UM MONSTRO E SEUS MISTÉRIOS

Em fevereiro de 1972, o norte do Triângulo Mineiro foi assombrado pelo medo. Assassinatos inexplicáveis em fazendas do entorno da cidade de Ituiutaba deixaram em pânico os moradores da zona rural. Cadáveres de homens e mulheres eram encontrados em fazendas, mortos por tiros de espingarda ou desfigurados por golpes de facão. Bezerros apareciam degolados nos pastos, sem que a polícia encontrasse qualquer pista dos autores dos crimes.

O pânico se espalhou pela região. Levantamentos da polícia davam indícios de uma trilha de mortes misteriosas, começando na região de Paracatu e descendo pelo vale do Rio Paranaíba até a cidade de Capinópolis, na época com cerca de 14 mil habitantes, a maioria na zona rural. Os pequenos destacamentos policiais eram impotentes para garantir a segurança da população e para encontrar os rastros dos assassinos.

O pânico logo se transformou em terror, com boatos correndo de boca em boca. Pessoas da região contavam ter avistado o “monstro” caminhando pelos campos e brejos: era descrito como um homem negro, alto e forte, de olhos vermelhos como o fogo. Sua habilidade de se esconder e fugir da polícia foi atribuída a poderes mágicos. O “monstro” teria um pacto com o diabo e se alimentaria do sangue dos bezerros. Disfarçava-se durante o dia na forma de um boi preto ou de um ninho de cupins. Podia virar fumaça e deslocar-se na velocidade do vento para cometer crimes que aconteciam no mesmo dia a dezenas de quilômetros de distância.

Notícias de mais de 12 mortes chamaram a atenção da grande imprensa, que enviou jornalistas. Jornais, rádio e televisão falavam sobre o “louco do Pantanal” ou “monstro de Capinópolis”, cobrando respostas. O governo de Minas Gerais montou uma operação de guerra, sob comando da Polícia Militar. Cerca de 200 homens do 4º Batalhão de Uberaba foram deslocados para a região sob comando do tenente-coronel Newton de Oliveira, que recebeu reforços de Uberlândia e Belo Horizonte. Caminhões com militares armados de fuzis e metralhadoras, acompanhados de cães rastreadores, cruzavam as estradas do Vale do Paranaíba, uma verdadeira caçada humana.

Nas pequenas cidades, o clima de suspense era ampliado pela chegada de moradores do campo, que fugiam em busca de segurança. Ninguém ousava dormir nas fazendas, as aulas foram suspensas nas escolas e as portas e janelas das casas passaram a ser trancadas a ferrolho e chave. Ruas ficavam desertas à noite mas, durante o dia, curiosos reuniam-se nas praças e bares para saber das novidades. Militares e policiais de passagem eram cercados por repórteres e moradores em busca de informações.

Em 3 de março, uma notícia na capa do jornal Correio Brasiliense contava que o “louco-assassino” havia escapado de um cerco formado por mais de 400 homens. Havia a suspeita de que se tratasse de um ou mais detentos, recentemente fugidos de uma penitenciária em Goiás. Cinco dias depois, o jornal contava que o “monstro” dera um drible nas forças policiais, dessa vez “conseguindo escapar de tiros de revolveres, metralhadoras e granadas de gás lacrimogênio”, reaparecendo logo depois em lugar muito distante.

Orlando Sabino Camargo.

Finalmente, em 10 de março, o maníaco acabou sendo encontrado e preso por 60 soldados da PM mineira, às margens do Rio Tijuco, em Ipiaçu. Identificado como Orlando Sabino Camargo, natural de Arapongas, no Paraná, foi levado ao centro de operações em Capinópolis, para ser apresentado a jornalistas e autoridades, que se amontoavam em torno da delegacia. Ao entrar na sala, causou enorme decepção. Orlando era um homem negro de idade indefinida, cabelos desgrenhados, magro e franzino, com pouco mais de 1,60 de altura. Descalço, vestia roupas surradas e tinha um ar assustado, que lembrava um adolescente com evidentes distúrbios mentais. Respondia com frases curtas às perguntas dos jornalistas e dos policiais. Segundo a polícia, havia assumindo a autoria de ao menos cinco dos crimes investigados. No interrogatório, era premiado com lascas de rapadura a cada resposta que dava. Levado ao Instituto de Medicina Legal de Uberaba, foi diagnosticado com oligofrenia, o que lhe rendeu mais de 38 anos de internação num manicômio judiciário. Libertado em 2011, viveu mais dois anos em uma casa de repouso, antes de morrer de infarto. 

Na época, pouca gente acreditou que um andarilho miserável com problemas mentais tivesse mesmo cometido todas aquelas atrocidades, mas a sua prisão encerrou a série de crimes. O Brasil vivia o período mais duro da ditadura militar de 1964. Órgãos de repressão do governo combatiam os grupos de oposição armada ao regime, entre eles os que tentavam montar um foco guerrilheiro na região do Rio Araguaia. Com a imprensa sob censura e a oposição mantida sob controle, questionar versões oficiais da polícia e de militares representava um sério risco, inclusive de vida. Só recentemente, a história oficial do “monstro de Capinópolis” passou a ser contestada. Falaremos disso na próxima semana.


(André Borges Lopes)




Cidade de Uberaba

ERAM OS UBERLANDENSES ASTRONAUTAS?

Uma das mais antigas frustrações dos brasileiros vem da falta de exuberância visual das descobertas arqueológicas nacionais. Nos países da América espanhola, sobram pirâmides, cidades e palácios de pedra, com histórias de salas cheias de ouro e prata. Aqui nos restaram pinturas rupestres, sambaquis de conchas e cacos de cerâmica de tribos extintas. Por vezes, mais antigas e tão importantes quanto palácios, mas nada que renda filmes de mistério e aventura ao estilo Indiana Jones.
Por isso, desde os tempos coloniais, sempre foram populares no Brasil as lendas arqueológicas. Histórias fantásticas de cidades perdidas nas serras do Planalto Central, montanhas cobertas de cristais brilhantes, o fantástico Eldorado na imensidão da selva amazônica. Um desses mitos ficou famoso: em 1839, o naturalista Manuel Lagos encontrou na Livraria Pública da Corte (atual Biblioteca Nacional) um manuscrito antigo e carcomido intitulado “Relação histórica de uma occulta, e grande povoação antiquíssima sem moradores”.

Tratava-se do relato de uma expedição de bandeirantes que, após vagar por anos pelos sertões da Bahia, chegara às ruínas de uma cidade abandonada, cheia de praças, palacetes e estátuas. Publicado na revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, o texto ganhou fumos de seriedade. Nas décadas seguintes, expedições buscaram sem sucesso essa “Cidade Perdida da Bahia”, vagamente localizada entre a Chapada Diamantina e as Serras do Sincorá.

Anos antes dos fósseis de dinossauro começarem a revelar nossos reais tesouros paleontológicos, o Triângulo Mineiro teve um breve momento de glória no terreno das fábulas de civilizações perdidas. Graças ao jornal “O Estado de São Paulo” que, na edição do dia 09 de dezembro de 1916, publicou uma carta enviada à redação por um uberabense de nome Marçal Ferri. Na carta, Ferri contava ter recebido do Dr. José Camin, engenheiro e vereador na vizinha Uberabinha (atual Uberlândia), o relato de uma descoberta fantástica.

O “raizeiro” José Gomes da Fonseca, apelidado “Zé Creca”, buscava raízes nas terras de uma fazenda a seis léguas do centro da cidade, quando topou com uma gruta escondida, cuja entrada estava obstruída por espinheiros e infestada de marimbondos. Com ajuda de seu irmão, espantou os insetos, abriram a entrada e, munidos de tochas, adentraram num túnel com cem braças (180 metros) de extensão. No final, encontraram uma habitação abandonada com 14 cômodos. Havia mobília variada, feita em aroeira e “pintada com gosto”, além de “pratos de barro claro trazendo pinturas esquisitas”. Pelo estilo, os objetos “demonstravam ser do período pré-histórico, talvez até do período anti-diluviano”(sic).

O relato não parava ai: das paredes “pendiam, imitadas em massa duríssima, cabeças humanas e felinas ricamente enfeitadas com ornamentações em ouro”. Por fim, a cereja do bolo: descobriram 17 “cadáveres mumificados muito bem conservados (…) que, pelo que se pode concluir da sua extraordinária estatura, pertencem a um tipo de índios até hoje desconhecido”. Dr. Camin concluía dizendo que, na sua opinião, “o presente achado constitui para nossos historiadores e arqueólogos um fato de grande importância” a merecer uma investigação por cientistas competentes.

A carta saiu sem qualquer destaque ou comentário no matutino paulista, mas não passou batida pelos demais órgãos da imprensa. Nos dias seguintes, jornais do Rio de Janeiro e de várias cidades do País deram espaço, por vezes até na capa, para a assombrosa descoberta do raizeiro Zé Creca, citando como fonte o respeitável Estadão. Logo, o jornal foi inundado por mensagens em busca de informações. A notícia se espalhou pelo Triângulo e muitos curiosos foram atrás do Dr. Camin, querendo conhecer a tal gruta.

Pressionado, o Estadão mandou um correspondente à região apurar melhor a história. No dia 15 de dezembro, teve de publicar um desmentido. Nas fazendas do entorno, ninguém ouvira falar da gruta. O raizeiro Zé Gomes (que não era Fonseca e nem tinha o apelido Zé Creca) de fato existia, mas não fazia idéia do que se tratava. O Dr. José Camin negou a autoria do relato e garantiu que jamais havia escrito a carta para o tal Marçal Ferri de Uberaba, do qual ninguém dava notícia. Em resumo, algum gaiato havia “trollado” o Estadão em grande estilo – e o estrago já estava feito.

(André Borges Lopes)



Cidade de Uberaba

domingo, 30 de dezembro de 2018

CAPINÓPOLIS: UM MONSTRO E SEUS MISTÉRIOS (II)

Há duas semanas, contei a história do “monstro de Capinópolis que assombrou o Triângulo Mineiro nos primeiros meses de 1972. Depois de um cerco policial que durou semanas e eletrizou a população do país – o caso chegou a ser relatado no Jornal Nacional e nas páginas de revista Veja – a polícia prendeu Orlando Sabino Camargo, um andarilho negro e franzino de 25 anos de idade com problemas mentais evidentes, que teria confessado a autoria de alguns dos crimes.

No final das contas, Orlando foi responsabilizado por um total de 25 assassinatos, sendo 13 em Minas Gerais e 12 em Goiás, além da morte de 19 bezerros. A maioria dos homicídios aconteceu na zona rural, sem presença de testemunhas, e nunca foi apresentada uma lista formal, com os nomes de todas as vítimas e as circunstâncias de cada morte. Examinado por uma junta médica, Orlando foi diagnosticado com oligofrenia e considerado inimputável. Acabou condenado pela Justiça a internação compulsória por tempo indeterminado em um manicômio judiciário na cidade de Barbacena, onde ficou detido por mais de 38 anos, até ser transferido para um lar de idosos, onde faleceu em 2013.

A prisão do “Monstro” colocou um fim nas mortes misteriosas no vale do Rio Paranaíba e deu resposta às cobranças da população. Mas muita gente não ficou convencida de que Orlando teria sido o responsável por todos os crimes. Interrogado pela polícia e por jornalistas, o suposto “assassino serial” limitava-se a confirmar a autoria das mortes com monossílabos e frases simples. Perguntado sobre sua motivação, dizia que “matava para comer”. Além disso, sua compleição física estava distante das fantasias criadas pela imprensa nos dias em que a região viveu a caçada humana: uma fera assustadora, com força e velocidade assombrosas, além de poderes fantásticos de dissimulação.
A morte dos bezerros e alguns dos homicídios se encaixam na narrativa de crimes praticados por alguém mentalmente perturbado. Mas houve casos de pessoas abatidas a tiros, em circunstâncias mal esclarecidas. Em ao menos um dos assassinatos, o do fazendeiro Oprínio do Nascimento, foi possível identificar o projétil responsável pela morte: uma bala .44, de uso exclusivo das forças de segurança, incompatível com a espingarda enferrujada que a polícia alegou ter apreendido com Orlando. Havia na sequência dos crimes a ele atribuídos alguns acontecidos com pouca diferença de tempo em lugares distantes, algo impossível para alguém que andava a pé vagando pelos campos, evitando estradas e já procurado pela polícia.

O Brasil vivia o período mais duro da ditadura de 1964, com a imprensa sob censura prévia, e ninguém ousava questionar versões oficiais. Mas um dos motivos da desconfiança era o tamanho do aparato mobilizado para capturar um criminoso tão singelo. O então governador mineiro Rondon Pacheco, natural de Uberlândia, envolveu-se diretamente na coordenação da buscas. No auge da perseguição, alguns relatos falam da participação de mais de mil agentes, entre soldados da Polícia Militar e investigadores da Civil, contando com o apoio do Exército, de aviões, helicópteros, cães rastreadores e de algumas dezenas de voluntários.

No final dos anos 1970, com a abertura política, alguns jornalistas começaram a questionar a história oficial. Em 1979, o uberabense Joaquim Borges divulgou a versão de que a perseguição a Orlando Sabino teria sido uma cortina de fumaça para encobrir as buscas por guerrilheiros de esquerda que estariam se escondendo na região do Pontal do Triângulo. Em 2011, Pedro Popó lançou o livro-reportagem “Monstro de Capinópolis” onde joga luz sobre a fragilidade das acusações. Em 2014, o jornalismo da rede de televisão SBT produziu uma reportagem sobre o caso, que pode ser encontrada no YouTube.

Orlando Sabino “ Monstro de Capinópolis”

Publicado em 2016 pela Editora da Universidade Federal de Uberlândia, o segundo tomo do “Relatório da Comissão da Verdade do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba” traz os resultados das investigações sobre o assunto, sem que tenham sido encontradas respostas definitivas. Alguns pesquisadores consideram que a sequência de assassinatos possa ter servido para ocultar ajustes de contas pessoais e crimes por outras motivações, que ao final foram atribuídos a Orlando Sabino – deixando os verdadeiros autores impunes.

A tese da perseguição a guerrilheiros nunca foi devidamente comprovada. Mas há ao menos um indício bastante curioso. No meio da caçada ao “Monstro de Capinópolis”, as autoridades relataram à imprensa a prisão de um cidadão paraguaio de nome Gerardo Martinez Herrera, que despertou suspeitas ao procurar trabalho numa fazenda da região. Investigado, descobriu-se que o homem teria curso superior e havia sido militar no país vizinho. Tão rápido como surgiu, o tal Herrera desapareceu dos noticiários. Até hoje, a sua prisão é um mistério absoluto.


André Borges Lopes








Cidade de Uberaba

OS MENINOS DE SAIOTE DO IÊ-IÊ-IÊ

No ano de 1968 – aquele “que não terminou” no livro do jornalista Zuenir Ventura – a ditadura militar fechava cada vez mais os espaços de manifestação política. Mas por outro lado, a cultura brasileira vivia um dos seus grandes momentos. A cena musical se agitava com a disputa entre os jovens irreverentes da Jovem Guarda e os engajados da MPB, que dividiam corações e mentes nos grandes festivais. No cinema, Roberto Carlos em ritmo de aventura alternava as salas com o francês A Bela da Tarde, estreado por Catherine Deneuve.

Uma das principais palcos da capital carioca era o Canecão, misto de restaurante e casa de shows no bairro de Botafogo. Em março de 1968, a sensação da casa era um show que misturava bandas de rock & roll com malabaristas e dançarinas. Uma das bandas fazia furor, com rapazes tocando de saia uma música de alta qualidade. O nome dessa banda era Mugstones, e sua origem a pacata cidade mineira de Uberaba.

A roupa não era exatamente uma saia, mas sim um “kilt”, saiote escocês em pano xadrez vermelho. Os sete jovens eram José Raul Parada (saxofone), Luiz Humberto “Luizinho” Silveira (guitarra), Luiz “Luizão” Motta (baixo), Laerte de Oliveira (piston), Eurípedes “Pardal” de Oliveira (bateria), Braz “Bazzani” Lamboglia Júnior (guitarra), Márcio Antônio Vieira “Marc Antonov” (guitarra). Todos então na faixa dos vinte e poucos anos, colegas de infância e adolescência vivida no Triângulo Mineiro,

O conjunto surgira como as bandas de garagem dos anos 1960: um grupo de amigos com talento que se reunia para tocar os sucessos da época: o rock & roll e músicas da Jovem Guarda que bombava nas rádios e nas TVs. Conhecido como “Os Poligonais”, se apresentava nas praças da cidade e no clube da Associação Comercial. Chegaram a gravar um primeiro disco compacto. Em pouco tempo, ficou claro que Uberaba era pequena para o talento da banda. No comecinho de 1967, fizeram um grande show de despedida na praça Rui Barbosa e se mandaram para São Paulo.

As emissoras de televisão das capitais brigavam pela audiência entre os jovens com programas musicais de auditório. Na capital paulista, os Poligonais encantaram o produtor musical Glauco Ferreira que gostou do embalo do grupo, mas achou o visual pouco arrojado. O nome também tinha problemas: era usado por um outro conjunto de bossa nova.

Foi quando surgiu o “Mugstones”. No ano anterior, um boneco de pano vestido de saiote escocês, tornou-se uma febre ao ser adotado como mascote por celebridades como Wilson Simonal e Chico Buarque. O simpático “MUG” e um alfaiate talentoso deram origem ao uniforme do grupo. Em fevereiro de 1967, já com os saiotes e o novo nome, a banda estreou no Rio de Janeiro em grande estilo: fizeram um dos shows de abertura do cantor francês Johnny Halliday no ginásio do Maracanãzinho, ao lado de astros nacionais como o cantor Ronnie Von

A ousadia de um bando de marmanjos usando saias deu ao grupo destaque na mídia. Em abril, participaram do programa humorístico “Riso 40 graus” da TV Tupi. A qualidade musical e o repertório – do samba ao iê-iê-iê, com algumas pitadas de jazz – animou a gravadora Polydor a incluí-los no elenco. Em maio, chegou às lojas um compacto simples da banda, com duas músicas: A grande parada e Sozinho eu seguirei. Meses depois, foram incluídos num LP da coleção “Os novos reis do Yê Yê Yê”. O sucesso dos discos convenceu dono da boate “Candelabre” de Copacabana a contratar os moços para uma temporada.

No final de 1967 foi lançado o primeiro LP dos Mugstones, com uma foto da banda na capa. Segundo o livro Jovem Guarda em ritmo de aventura, o disco destacava-se pela originalidade: trazia covers de sucessos e de músicas originais do grupo, além arranjos muito bonitos para canções como Upa negrinho (de Edu Lobo e Guarnieri) e o clássico O sole mio. No ano seguinte, estrelas do espetáculo no Canecão, apareceram em reportagens em jornais e revistas. Viajaram pelo Brasil apresentando-se em Salvador, Recife, Belém do Pará e Porto Alegre. Morando no Rio, os jovens compraram uma grande caminhonete, que os transportava para shows na cidades do interior – uma das poucas bandas nacionais a contar com esse recurso.

Em 1969, em paralelo aos shows, o grupo fez uma participação o especial num dos episódios do filme “Como vai, vai bem?” do cineasta Alberto Salvá, contracenando com os atores Flavio Migliacio e Paulo José. Pouco tempo depois, com o fim da febre do Iê-Iê-Iê , o grupo se separou e cada um foi para o seu lado. Pardal e Luizinho continuaram ligados à música: o primeiro faleceu em Uberaba em 2015. Luizinho vive em Goiânia, mas às vezes aparece na nossa cidade com seu acordeon.

(André Borges Lopes)




Cidade de Uberaba

OS AGRADINHOS DE DONA CHIQUINHA

Em 1º de abril de 1964, um golpe militar depôs o presidente João Goulart, dando início a uma ditadura de duas décadas. Mas nos primeiros meses que se seguiram ao golpe, os uberabenses tiveram algo mais com o que se preocupar além da conturbada política nacional. Enquanto nas capitais sucediam-se cassações de mandato e prisões de opositores, a polícia de Uberaba estava preocupada em desbaratar uma história pavorosa: o caso dos “agradinhos” envenenados de Dona Chiquinha, que supostamente haviam deixado um rastro de doze mortos no bairro da Abadia.

A história tinha começado em fevereiro, quando uma moradora do bairro procurou a polícia para contar uma história assustadora. Maria Eduarda Costa, de 46 anos, era vizinha de Francisca Coelho do Nascimento, uma conhecida benzedeira do alto da Abadia. Na sua casa na rua Campos Sales, Dona Chiquinha, de 52 anos, fazia rezas, magias e ritos aparentemente ligados à umbanda. Dava conselhos amorosos e encomendava trabalhos para reunir amantes e espantar rivais no amor e nos negócios. Maria Eduarda acusava a vizinha de acelerar os resultados das mandingas mandando guloseimas temperadas com veneno de rato às vítimas de seus trabalhos: os “agradinhos”. Nessa toada, seria autora de meia dúzia de assassinatos.

Os policiais custaram a acreditar na história de Mariinha, moça um tanto confusa e perturbada. Mas ela tanto insistiu que o delegado José Geraldo decidiu colocar investigadores para esclarecer o caso. Dona Chiquinha, trazida para depor, surpreendentemente confirmou parte das acusações. Havia envenenado cinco pessoas: um marido, um amante, uma sogra, uma cunhada e a filha de uma rival. Para piorar a história, devolvia acusações e dizia que o total de mortos chegava a doze. Os outros sete por conta de Mariinha e de duas outras mulheres: Francisca Ferreira e Maria Helena, que haviam requisitado seus serviços. Os crimes teriam começado em 1957, envolvendo pessoas humildes dos bairros populares da cidade.

A notícia caiu como uma bomba. Jornais e os radialistas não falavam de outra coisa. Todo mundo correndo atrás das histórias das vítimas e questionando as autoridades: como uma série tão longa de crimes não despertou suspeitas da polícia? As quatro mulheres tiveram a prisão preventiva decretada por um juiz local e foram isoladas numa cela da cadeia local. Presas, Dona Chiquinha e Mariinha não se negaram a dar entrevistas à imprensa, na qual trocavam acusações e alimentavam os noticiários com detalhes picantes das histórias, que envolviam violência doméstica, triângulos amorosos, ciúmes e intrigas familiares.

A confissão das acusadas não bastava para embasar o processo, e a polícia teve que ir em busca de provas. Foi quando ficou evidente a confusão e a falta de cuidado das autoridades com os casos de mortes entre a população mais pobre. Das doze mortes confessadas, a polícia só encontrou registro oficial de oito, das demais não se tinha notícia. Os atestados de óbito de sete das oito vítimas nada diziam quanto a suspeitas de envenenamento, apontando outras causas da morte. Em apenas um caso, uma moça de 20 anos morta em 1962, o médico legista Dr. Jorge Furtado (então prefeito da cidade) havia solicitado exame das vísceras em Belo Horizonte. Dois anos depois, ninguém havia se preocupado em pedir de volta o resultado dessa análise que, descobriu-se então, confirmava a presença de arsênico.

Para complicar, uma revista na casa de dona Chiquinha não encontrou amostras do veneno. As tentativas de exumar os cadáveres revelaram uma enorme confusão no cemitério local: dos oito mortos, só foi possível localizar com segurança os restos mortais de um e a análise de laboratório foi inconclusiva. Exames médicos em pessoas que teriam supostamente sobrevivido às tentativas de envenenamento não revelaram muita coisa. E uma análise psiquiátrica feita por médicos da Faculdade de Medicina comprovou transtornos mentais na delatora Mariinha. Com evidências tão frágeis, não foi difícil aos advogados de defesa conseguir revogar a prisão no Tribunal de Justiça. Liberadas, as mulheres acusadas – com exceção da delatora – mudaram-se da cidade.

Dois anos depois, o repórter José Hamilton Ribeiro fez na Revista Realidade uma matéria sobre o caso. Segundo ele, o processo ainda se arrastava na Justiça e a promotoria tinha dúvidas se conseguiria reunir provas para levar o caso a júri popular. Como de costume, a historia dos agradinhos já havia sumido do noticiário para dar lugar a crimes mais recentes.

(André Borges Lopes)






Cidade de Uberaba

PEDRAS QUE CAEM DO CÉU

No início da noite do dia 7 de maio desse ano, um clarão riscou os céus da nossa cidade e chamou a atenção dos uberabenses. Avistado e fotografado também em outras localidades do Triângulo Mineiro e do Noroeste Paulista, os técnicos estimam que o fenômeno tenha sido causado por uma pequena rocha espacial de menos de um quilo, que entrou na atmosfera terrestre a cerca de 100 mil km/h de velocidade nas imediações da cidade paulista de Jaborandi. Atravessou a divisa com Minas Gerais e cruzou o firmamento a grande altitude, queimando pelo atrito com o ar por mais de 120 km até desaparecer sobre a cidade de Campo Florido. Várias pessoas registraram esse evento em fotos e vídeos, que podem ser vistos na Internet.

Dezenas de milhares de objetos entram na atmosfera terrestre todos os anos causando esses fenômenos, conhecidos como “queda de meteoro” ou ainda “estrela cadente”. Desses, somente pouco mais de uma centena atingem a superfície do planeta e ganham a denominação de “meteorito”. O mais famoso meteorito brasileiro é o Bedengó, que ganhou fama nos últimos dias por ter resistido à tragédia que se abateu sobre o Museu Nacional no Rio de Janeiro. Rocha metálica formada por 5,3 toneladas de ferro e níquel, foi descoberto em 1784 no sertão da Bahia, e transportado um século depois – a duras penas – para a antiga capital do Império.

O Bedengó é ainda hoje um dos maiores meteorito em exposição no mundo. No Brasil, só foi superado em tamanho por um gigantesco objeto metálico encontrado em 1875 na região de São Francisco do Sul, estado de Santa Catarina. Rico em níquel, a pedra foi quebrada em pedaços e vendida como minério para a Inglaterra. Pesquisadores estimam seu tamanho entre 7 e 25 toneladas.

Bem mais modesto é o meteorito “Uberaba”, que também fazia parte da coleção do museu incendiado, e ainda não sabemos se sobreviveu ao incêndio. Formado por 40 kg de rocha, caiu no dia 29 de junho de 1903 próximo à sede de uma fazenda nas imediações de nossa cidade, assustando muita gente e destelhando algumas casas. Apavorado com o fenômeno, o proprietário vendeu a fazenda. Antes de ser recolhido por cientistas, foi cultuado como uma pedra mística: conta-se que muitas pessoas rezavam no local da queda e quebravam pedaços para fazer chás com supostos poderes medicinais.

Outro meteorito que causou comoção em nossa cidade foi “Santa Luzia”, que caiu em 1919 próximo à pequena cidade goiana de mesmo nome (atual Luziânia, DF). O objeto metálico de quase duas toneladas causou um pequeno terremoto ao bater no solo e abrir uma cratera, mas o local da queda só foi descoberto alguns anos depois. Conta-se que o dono das terras vendeu o meteorito a um interessado que, sem conseguir carregá-lo, começou a vendê-lo em pedaços. Um desses fragmentos foi enviado para análise na Escola de Minas de Ouro Preto, onde constatou-se que era um objeto espacial do tipo ferroso. Diante disso, o governador goiano decidiu doá-lo ao Museu Nacional.

O transporte também foi penoso, e enfrentou alguma resistência da população local, que tinha o costume de fazer amuletos com fragmentos da “pedra que caiu do céu”. No dia 30 de agosto de 1928, ele começou a ser retirado da cratera e para ser levado em carro de boi até a estação de trem de mais próxima, na cidade de Vianópolis – onde só chegou em 17 de outubro. Nos dias seguintes, foi colocado em um trem especial que rumou para São Paulo parando nas principais cidades do caminho. No dia 23 de outubro de 1928 a pedra passou por Uberaba e o povo fez fila junto a estação da Mogiana para ter uma chance de ver o estranho objeto sideral – que também resistiu ao incêndio no Museu carioca.

Mas o evento mais famoso aconteceu no dia 3 de junho de 1956. Eram 17:30 de uma tarde fria de outono quando um estrondo e um clarão repentino aterrorizaram a população de Uberaba. Um objeto luminoso atravessou o céu da cidade de leste para oeste, em altíssima velocidade até sumir no horizonte, deixando uma impressionante trilha de vapores e fumaça. Minutos depois, o fotógrafo Wagner Schroden Jr. registrou o rastro no céu, iluminado pela luz do por do sol. A foto ganhou destaque no jornal Lavoura e Comércio do dia seguinte e correu o mundo. A revista “A Cigarra” fez uma matéria de três páginas sobre o evento.

A rocha seguiu se despedaçando em explosões sucessivas sobre o Pontal do Triângulo, e seu maior fragmento, com cerca de 100 kg, caiu a cerca de 70 km a noroeste da cidade de Paranaíba, no atual Mato Grosso do Sul. O meteorito “Paranaíba” também foi recolhido ao Museu Nacional, mas antes o padre da cidade mandou erigir uma cruz, marcando o local da queda.


(André Borges Lopes)



Cidade de Uberaba

O TURISMO DE NEGÓCIOS DO ZEBU

Até as últimas décadas do século XIX, a criação de gado no Brasil dependia quase exclusivamente de bovinos do tipo europeu (“bos taurus”) introduzidos no país pelos portugueses na colonização. Era gado nativo das regiões temperadas do globo, variedades de raças europeias postas à prova nas duras condições climáticas e ambientais da América. Se adaptaram bem aos pastos dos estados do sul, assim como na Argentina e no Uruguai, onde a indústria da carne prosperou. Mas o gado europeu não tinha bom rendimento nas áreas quentes do cerrado e da caatinga: as reses eram atacadas por infestações de parasitas, não se davam bem com a alimentação disponível e sofriam ao percorrer caminhando as longas distâncias de um país imenso e sem meios de transporte modernos.

Na região do Triângulo Mineiro, segundo relatos dos pecuaristas da época, os criadores tinham que escolher entre quatro variedades: Crioula, Curraleira, Caracu e Mestiça. As três primeiras eram resultado de séculos de seleção natural e de cruzamentos pouco controlados entre raças de gado europeu, na busca de bovinos melhor adaptados. A última resultava da mestiçagem entre gado Caracu e Crioulo com alguns exemplares de bovinos do tipo conhecido como “Nilo” ou “China” – trazidos da África pelos portugueses. Era um tipo de boi diferente, mestiços do “bos indicus” nativo das regiões quentes da Índia e do Paquistão, raça que se espalhava lentamente pelo mundo e começava a despertar a atenção de alguns criadores.

Não há registros precisos da entrada desse gado “Nilo” no Brasil. Mas sabemos que, em meados do século XIX, alguns exemplares de gado indiano chegaram ao Rio de Janeiro. Inicialmente, esses bois diferentes, de proeminente cupim e barbela, eram tratados como bichos de zoológico. O “Zebu” era uma curiosidade do oriente, trazida ao país por importadores de animais exóticos como elefantes, zebras e avestruzes. Mas despertou a atenção de pecuaristas do interior do Rio, que experimentaram o seu cruzamento com o gado europeu, surpreendendo-se com os bons resultados. Pouco tempo depois, a novidade chegou ao Triângulo: alguns criadores locais compraram reprodutores no Rio e se encantaram com a rusticidade e resistência da nova raça. Começava a saga do zebu nas terras mineiras.

A medida em que prosperava na região a criação do gado indiano, ganhava corpo a ideia de não depender dos criadores fluminenses, buscando exemplares da raça diretamente na Índia. No início de 1983, Theophilo de Godoy deixou a cidade de Araguari rumo a Mumbai (Bombaim, na época) com a missão de trazer para diversos pecuaristas locais um lote de reprodutores puro-sangue. Theophilo era um personagem talhado para a tarefa: negociante, fazendeiro e então capitão da Guarda Nacional do Império, reunia a rusticidade de homem do sertão com uma incomum erudição. Embora nunca tivesse saído do Brasil, era dono de um texto elegante, colaborava com jornais de Araguari e de Uberaba, dominava razoavelmente o francês e o inglês, e conhecia o mundo pelos livros e revistas.

No dia 23 de janeiro, deixou para trás mulher, filhos e negócios e partiu para sua aventura. Viajou por terra até São João del Rey, de onde tomou um trem para o Rio. Em 24 de abril, partiu sozinho de navio para Bordéus, na França. Fez uma breve estada em Paris, onde conheceu os Zebus criados no Jardim da Aclimação. Atravessou Suíça e a Itália para tomar outro navio no porto de Gênova. A caminho da Índia, deixou o barco em Alexandria e visitou as pirâmides e museus do Cairo, retornando a bordo no porto de Suez, já no mar Vermelho. Chegou em Mumbai no dia 11 de julho, onde fez amizade com famílias abastadas da comunidade portuguesa local.

Suas aventuras de viagem e sua estada no Oriente ficaram registradas em uma série de artigos que publicou nos jornais de Araguari e Uberaba, posteriormente reunidos num livreto de 36 páginas: “Do Brasil à Índia”, disponível no acervo digital do Museu do Zebu. Mais que um documento de época, trata-se praticamente de um guia de turismo do século XIX, com descrições detalhadas das cidades, dos templos, dos costumes e da exótica vida cotidiana nas diversas cidades do sul e do norte da Índia que Theophilo visitou. Um país, na época, dividido entre o pujante Império Britânico e as decadentes possessões portuguesas.

Em 10 de janeiro de 1894, Theophilo de Godoy finalmente desembarcou de volta no Rio de Janeiro. Em outro barco, vindo de Marselha – o vapor “Aquitane” da Société Générale des Transports Maritimes – chegaram 13 touros e vacas zebus cuidadosamente escolhidos por ele nas fazendas da Índia, aos quais se somaram dois bezerros nascidos durante a viagem. Embarcados de trem para o Triângulo Mineiro, trouxeram sangue novo para aprimorar a raça que, em pouco tempo, iria dominar a pecuária da região.


Andre Borges Lopes






Cidade de Uberaba

O VINHO UBERABENSE DO PADRE ZEFERINO

Há duas semanas, falei das uvas e vinhos do Padre Zeferino, destruídos pela repressão aos que apoiaram a Revolução Liberal mineira. Mas o movimento de 1842 também trouxe benefícios à região de Uberaba. Um dos mais duradouros foi a transferência do Colégio do Caraça que – para se afastar da agitação política – deixou às pressas as serras ao norte da antiga capital Ouro Preto e se instalou em uma fazenda em “Campo Belo da Farinha Podre”, atual cidade de Campina Verde.

Encravado nas montanhas da Serra do Espinhaço, o “Santuário do Caraça” é um ponto turístico histórico de Minas Gerais. Foi o primeiro grande empreendimento no Brasil da Congregação da Missão – ordem religiosa conhecida como ”lazaristas” ou “Irmão Vicentinos” – que, vinda de Portugal antes da independência, aqui chegou em 1818. Dois anos depois, receberam de Dom João VI as terras onde havia a “Ermida do Irmão Lourenço”, uma capela barroca e uma hospedaria para peregrinos que se aventuravam pela Serra do Caraça.

Em poucos anos, a ermida semiabandonada transformou-se num colégio interno e um seminário, inaugurados em 1921. Famoso pela seriedade e rigidez da disciplina, o Caraça tornou-se referência de ensino para a elite brasileira do século XIX. Ex-alunos fizeram carreira como governadores de estado, senadores, deputados, empresários e autoridades religiosas – entre eles dois presidentes da República: Afonso Pena e Artur Bernardes. Colégios particulares do Rio de Janeiro faziam anúncios destacando que seguiam o “método Caraça” de ensino científico, religioso e moral.

Nos anos após a independência, havia muita desconfiança política em relação a padres estrangeiros vinculados às ordens em que os superiores estavam na Europa. Mas não são claros os motivos que levaram à fuga dos lazaristas durante a Revolução que – por dois meses e dez dias – transformou Minas Gerais num campo de batalha entre liberais e conservadores do Império. Há versões que falam da adesão dos religiosos a um ou a outro lado do conflito, e do temor de retaliações. Fato é que, em 24 de agosto de 1842 – dias depois da derrota do rebelde Teófilo Otoni para forças comandadas pelo Duque de Caxias na batalha de Santa Luzia – o então diretor do colégio, Padre Antônio Viçoso (futuro Bispo de Mariana), transferiu-se para o Triângulo Mineiro carregando alunos, professores, escravos, livros e parte dos equipamentos. Uma viagem de 700 km em carroças e tropas de mulas, pelas estradas precárias da Província.

O colégio instalou-se em três grandes fazendas – Campo Belo, Fortaleza e Paraíso – na região de Campina Verde. Terras que haviam sido doadas aos Vicentinos em 1830 pelo fazendeiro João Batista de Sequeira e sua mulher Bárbara – descendente de índios Caiapós – que não tinham filhos nem herdeiros. Os doadores pediram em troca a construção de uma capela para celebração de missas aos domingos e dias santos, a construção de uma escola de “primeiras letras” e , quando houvesse condições, que fossem ministradas aulas de gramática latina e outros estudos “que o reverendíssimo superior julgar que se estabeleçam”.

A transferência do Caraça cumpriu por algum tempo as promessas. O “Colégio e Seminário de Campo Belo” foi pioneiro na difusão de cultura, educação e religião no Sertão da Farinha Podre – região esquecida do Império, de escassas escolas. Cumpriu também missões de catequese dos índios Caiapós, que ainda habitavam grandes áreas do Triângulo, e ofereceu uma alternativa de educação formal para os filhos dos donos de fazendas agrícolas e de criação de gado de Minas, Goiás e Mato Grosso. Relatos da época dizem que um terço dos alunos estudava gratuitamente, ou “pelo amor de Deus” nos termos de então.

O mais ilustre dos alunos dessa escola foi o escritor Bernardo Guimarães – autor dos romances “Escrava Isaura” e “O Seminarista” – que ambientou em Campo Belo um de seus contos: “Jupira”, história de amor e tragédia entre uma índia Caiapó e um português, publicada em 1872. Também foram alunos do colégio em Campina Verde o político Eduardo Montandom, futuro presidente da Província de Goiás, o advogado e compositor Antônio Cesário de Oliveira Filho (Major Cesário) e diversos intelectuais que fariam carreira como professores e profissionais liberais em Uberaba.
Em 1856, o Caraça retornou definitivamente à sede original, agora tendo à frente padres Vicentinos vindos da França. Foi o início de sua época de ouro como centro de formação da intelectualidade brasileira. 



(André Borges Lopes)



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