quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Largo da Matriz e Jardim Público (atual Praça Rui Barbosa) da cidade de Uberaba, por volta de 1890.

Dos imóveis retratados, o sobradão do canto direito da foto é o único que permanece preservado. Conhecido como "Casarão Tobias Rosa", esse sobrado sediou as oficinas do jornal Gazeta de Uberaba e, anos mais tarde, as reuniões da Sociedade do Herd Book Zebu, embrião da atual ABCZ.

 Largo da Matriz e Jardim Público (atual Praça Rui Barbosa) da cidade de Uberaba, por volta de 1890. Acervo do Arquivo Público Mineiro. Restauração: André Borges Lopes.



Instagram: instagram.com/uberaba_em_fotos

Cidade de Uberaba

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

A VENDA DA TELEFÔNICA DE UBERABA

Oi, turma !


(Orgulho: É quando a gente é uma formiga e quer convencer os outros de que é um elefante...)

Uberaba já teve homens de brio, de grande valor. Políticos que se interessavam pela grandeza da cidade e não para encher os bolsos. Eméritos, destemidos, empreendedores, além de peritos inovadores, visando o crescimento da terrinha. A epopéia do zebu, foi um marco real . Nos negócios, relembro um pioneiro: Alexandre Campos. Dono de uma grande drogaria, moderna para a época, o cliente encontrava sempre o remédio procurado. Foi mais longe. Instalou a primeira empresa telefônica da região. Incipiente, dificuldades mil, mão de obra pouco qualificada, o máximo que a telefonia atingia fora de Uberaba, era Veríssimo ( 50 kms.). O tempo passando, Uberaba crescendo, Alexandre envelhecendo, esperando a morte chegar.

   Empresa Telefônica de Uberaba (ETUSA), na Rua Governador Valadares.

 Trecho entre a Avenida Doutor Fidélis Reis e Rua Artur Machado. Atual CTBC - Algar Telecom. Foto: J. Schroden. Década: 1940

Sylvio, José, Joaquim e Anita, os filhos, assumiram o comando das empresas. Pequenas, não suportava o sustento de todos eles. Joaquim, sempre doente. Sylvio, José e Anita, no comando. José e Anita, “bateram asas”, foram para São Paulo. Sylvio, ficou à frente do negócio. Educação esmerada, fino trato, cavalheiro, conduta séria e ilibada, doou-se, com amor, à empresa. Uberaba crescendo e com ela, aumentando as dificuldades. A telefonia, sem investimento, financiamento difícil, doenças na família, debilitaram o então forte Sylvio . José e Anita, juntaram-se novamente ao irmão em dificuldade. Numa reunião familiar, decidiram pela transferência da empresa. De preferência para um grupo empresarial da cidade.

                  ETUSA - Empresa Telefônica de Uberaba S/A.                 
Rua: Governador Valadares - Ano:1974
  
José, empatia mútua e o filho, Alexandre Neto, tornamo-nos bons amigos. A relação com Anita e Sylvio, leal e respeitosa. Encarregado por José, fiz contatos e visitas á diretores da Associação Comercial e Industrial de Uberaba. Disse aos uberabenses ricos, o desejo da família que o controle societário da empresa, ficasse com gente da terrinha. Ninguém se interessou. Um deles, que não declino o nome por respeito à família, foi lacônico:-“Jogar sal em carne podre, jamais !” . Relatei o fato a José. Foi a gota d’água. Autorizou-me o contato com Alexandrino Garcia, dono da CTBC, em Uberlândia.

Luiz Alberto, seu filho, meu colega de bancos escolares no Diocesano, gerente do grupo, levou a demanda ao pai. Alexandrino, adorava ser chamado de “Comendador”, comenda que havia recebido, não acreditou no que chegava aos seus ouvidos. Teria dito, segundo o filho, Luiz Alberto, “ não acredito que o José e a Anita, estão dispostos a desfazer da ETUSA (Empresa Telefônica de Uberaba)”. Em pouco tempo a transação estava consumada.

Empresários uberabenses, o “Lavoura e Comércio”, jornal porta-voz do município, ao tomarem conhecimento, “ caíram de pau”:- “Logo para Uberlândia ! É um absurdo vender um patrimônio desses! Já não basta o tanto que já levaram de Uberaba ? “. O “chororô” alvoroçou a cidade. Na rádio Difusora, onde trabalhava, não vacilei em contar toda a história. O pouco caso, a falta de interesse, o sarcasmo com que fui recebido, a essa altura de nada adiantavam os lamentos; a operação estava concluída. Não do jeito que a família pretendia...

Se tiver algum diretor da ACIU daquele tempo, vivo e que queira me contestar , estou às ordens e se precisar, invoco o testemunho do Dr. Luiz Alberto Garcia, “manager” da Algar- Telecom, vivo e são, em Uberlândia... Depois, alguns setores de Uberaba, ficam a lamentar o que perdemos... Amanhã, relembro mais conquistas importantes que tivemos. “ Marquez do Cassú”.


Instagram: instagram.com/uberaba_em_fotos


Cidade de Uberaba


sábado, 14 de setembro de 2019

CORNO BIOLÓGICO

Oi, turma !


(Cuidado com a casca de banana jogada na calçada. Alguém pode escorregar...)



Mário Prata, tem descendência uberabense. Filho do médico saudoso, Alberto Prata, sobrinho paterno do Padre Prata e do lado materno, de Maurilio Cunha Campos de Morais e Castro. Talento de todos os lados. Escreveu livros, novelas, contos e artigos. Dizia ter nascido em Lins (Lugar Incerto e Não Sabido), com convicção. Os filhos, Antônio e Maria, puxaram o pai; “cuspido e escarrado”, afirmava. Revendo meus “guardados” nos últimos 30 anos, deparei-me com uma crônica sua em que ele traduz, com a sua verve costumeira, a classificação em que define o “corno-biológico”. Ao final da crônica, é taxativo:- “quem não entender a lista, pode se considerar corno-burro. “ E arremata” você não deve se preocupar; esse negócio de corno é uma coisa que puseram ( ou colocaram ?) na sua cabeça”... Acompanhe a classificação:

*Corno – manso:- o que vê a mulher com outro e só balança a cabeça.

*Corno-banana- a mulher vai embora e lhe deixa uma penca de filhos.

*Corno-Xuxa- aquele que não larga a mulher por causa dos “baixinhos”.

*Corno-azulejo – baixo, quadrado e liso.

*Corno-galo – aquele que tem chifre até nos pés.

*Corno-prevenido- o que liga para a esposa antes de ir para casa.

*Corno-atleta- ele sai prá jogar futebol, aí o Ricardão chega para encher a bola.

*Corno-inflação- a cada dia que passa, mais o chifre aumenta.

*Corno-político- aquele que promete:”-vou matar esse cara “! Nunca cumpre !

*Corno-cético- quando vê a sua mulher com outro, não acredita.

Corno elétrico- quando lhe conta que sua mulher está com outro, responde:” tô ligadão”!

*Corno-salário- baixinho e só comparece uma vez por mês.

*Corno-cebola- quando vê a mulher com outro, começa a chorar.

*Corno 7 de setembro- aquele que a mulher só dá bandeira.

*Corno-geladeira- aquele que leva chifre e não se esquenta.

*Corno- yoyô- aquele vai embora de casa e sempre volta.

*Corno- justiceiro- aquele que se vinga da mulher, dando...

*Corno-jibóia- aquele que dorme entre as pernas da mulher.

*Corno-porco- aquele que só come o resto.

*Corno-socialista- aquele que não se importa em dividir a mulher com os “cumpanheros”.

“Corno-Brahma- aquele que pensa que é o “ número um”.

*Corno-Antártica- aquele que sabe que a mulher “ é paixão nacional”.

*Corno-granja- o que dá casa ,comida,dinheiro,roupa lavada e passada e os outros, comem.

*Corno 120- aquele que vê a mulher fazendo aquele número; vai no boteco e bebe uma “51”.

*Corno-toureiro- aquele que prefere segurar a vaca.

*Corno-desinformado- só ele é que não sabe...

*Corno-português- quando lhe perguntam sobre a “performance” da mulher, responde:”-Uns dizem que sim, outros dizem que não”...

Finalizo: Espero que não receba nova lista. Alguns “setores ”de Uberaba, é o que mais tem...
Desculpem o tamanho do texto. Foi ou não merecido? Abraços do “ Marquez do Cassú”.



Cidade de Uberaba


O SUSTO DO TOTINHA...

Oi, turma !


(Amigo é aquele que fica quando todo mundo se afasta...)


Núncio Cicci, pertenceu a uma tradicional família uberabense, onde irmãos e irmãs, ajudaram a construir a grandeza de Uberaba. Dono de um dos mais famosos e saudosos bares- restaurantes da terrinha, “seo”Núncio e o genro, Joaquim de Oliveira Maia, “Quinzinho”, o “Tip-Top”, fez e deixou história.

Políticos, empresários, casais, gente do povo, faziam “ponto” naquela casa, instalada no térreo do prédio da Associação Comercial e Industrial de Uberaba. Obrigatoriamente, gente da cidade, visitantes, não deixavam de ‘”aperitivar” naquele bar.

No trecho da Leopoldino de Oliveira, entre Artur Machado e Segismundo Mendes, os tipos populares se faziam presentes. “Foguinho”, não saia do ‘Guarani’, “Coisão”, no “Marabá”, “Zé Gigante” , no “Buraco da Onça” e o ‘Escurinho”, no “Tip-Top”. Mas, a lembrança da” velha guarda dos cervejeiros”, se volta para a singela figura do “Totinha”. Nascido José Antônio Costa, ninguém nunca soube a origem do apelido. 

Ligado aos meios de comunicação, seus amigos eram radialistas e jornalistas. Inclusive eu. Pequenino, mas, de “ tambor grande”. Era “bom de copo”. O que lhe oferecessem, ele “traçava”: cerveja, uísque, cachaça, vinho, rabo de galo, conhaque, vodca, ele não tinha preconceito de paladar...Mandava ver...

Certa noite, devidamente “calibrado”, bebia seus destilados no ‘Tip-Top”. Cansado, depois de um fim de tarde/noite movimentado, “Quinzinho”, fechou o bar e foi prá casa usufruir do merecido descanso. Não poderia jamais supor que o telefone iria tocar , às duas da madrugada ! Sonolento, atende. Do outro lado da linha, voz trêmula, alguém pergunta:

-“Quinzinho, aqui é o Totinha. A que horas ocê vai abrir o bar amanhã?” Puto, “Quinzinho”, despeja uma saraivada de palavrões e desliga. Cinco da manhã, novamente o tilintar do telefone: - “Quinzinho, ocê me desculpe, mas que hora mesmo vai abrir o bar ?” Nervoso, “Quinzinho” xinga a família do Totinha até a quinta geração e o clássico “ vai a p.q.p.” !

Sete da manhã, “Quinzinho”, banho tomado, barba feita, roupa trocada, prepara para o café. Eis que o telefone toca novamente. “Quinzinho”, perde a paciência:- “Outra vez, Totinha! Para de me amolar! “Cê bebe a noite inteira e vem me encher o saco “? Totinha, voz rouca, docemente, responde:- “ Não, Quinzinho, não é bebedeira não. É que eu dormi debaixo da mesa do bar; quando acordei, o bar já estava fechado.Tô preso aqui até agora. A` hora que ocê abrir, eu vou embora prá casa”...

Mais que depressa, o nosso simpático “Quinzinho”, correu ao “Tip-Top” e “soltou” o Totinha. Agora, o final triste da breve vida do meu personagem. Internado numa casa de recuperação de alcoólatras, em Baurú (SP), numa triste madrugada, tentou fugir. Ao pular a janela do quarto onde dormia, caiu no apiário, ao lado da janela. A cena, inimaginável ! Picado pelo enxame de abelhas, teve morte horrível . Dócil, comunicativo, pau para toda obra, educado e amigo, até hoje, é lembrado pelos seus verdadeiros amigos.

Volto , amanhã, com mais historinhas da sagrada Uberaba. Abraços do “ Marquez do Cassú”.


Fanpage: https://www.facebook.com/UberabaemFotos/


Cidade de Uberaba

CIDADE CONTRA CIDADE

Oi, turma!


(Jornalismo é saudade e muita verdade...)


Foi uma noite inesquecível ! Agosto de 1969 ! 50 anos são passados ! Parece que foi ontem ! Uberaba não dormiu naquela noite. O povo grudado na TV., assistia Silvio Santos, no “Cidade Contra Cidade”. Uberaba enfrentava São José do Rio Preto. O “homem do baú”, no Teatro Tupi, da avenida Brigadeiro Luiz Antônio ,realizava um programa em que as cidades que recebiam sinal da saudosa TV-Tupi, mostravam seus valores, personalidades, curiosidades, feitos fantásticos e tudo mais. Era o espetáculo televisivo coqueluche do Brasil. O convite para a terrinha partiu de José Pedro de Freitas, diretor da rádio Tupi e do repórter Saulo Gomes.

As provas mais variadas. Nomes singulares de uberabenses; personalidade ”fora de série”; quadro musical que expressasse o costume da cidade; um filho da terra de expressão nacional e internacional; arrecadação de livros que iriam abastecer escolas municipais que não possuíam bibliotecas; um jovem da terra que, numa redoma de vidro inviolável, acertasse nomes de musicas pelo fone de ouvido, as mais difíceis. Juntaram-se as forças da cidade. João Guido, prefeito, doou toda a logística: ônibus para a torcida e participantes, além das refeições. O 4º.Batalhão, responsável pelo recolhimento e transporte dos livros arrecadados, Raul Jardim, Netinho e Geraldo Barbosa, pela PRE-5, Jorge e Farah Zaidan e este veterano escriba, como apresentador responsável, pela “ 7 Colinas”, responsáveis pela programação.

Ainda com o tempo curto para ensaios, Luiz Rossetti, o melhor conjunto musical da época, encarregou-se do primeiro quadro. Título:- “Uai, o que uai , sô? Uai é uai, uai...” João Cid, como o “caipira”, deu “show”. Helvecinho ,na bateria, Gabriel e Barão, vozes, Urano, violão e Rosseti, no piano e a voz feminina de Ivete. Quadro seguinte: Fernando Braz, que ainda não era Vannucci, respondeu todos os nomes das músicas que lhe foram apresentadas. Depois, ”personalidade mundial ”.Dr.Álvaro Lopes Cançado (Nariz), médico introdutor da medicina esportiva no Brasil e jogador da seleção brasileira de 38, acompanhado da filha médica, psiquiatra, Wania Magon Lopes Cançado. O quadro, recebeu nota 10 dos jurados.

Nomes originais, novo sucesso. Pincal Pedro Nascimento, Atríbulo Quaresma e Deusvelindo Salvenil Cirineu, foram vencedores. Da metade do programa em diante, Silvio Santos, começou a chamar a atenção para o quadro “Fora de série”. Avisava que Chico Xavier, estava nos estúdios e representaria Uberaba ! Praquê! São Paulo ouriçou ! Em minutos, a Brigadeiro Luiz Antônio, foi recebendo gente querendo ver Chico Xavier ! Brasileiros de todos os cantos, chegando aos borbotões! A Policia Militar e Departamento de Trânsito, organizando o trecho . O trânsito, desviado. Gente chegando. De norte, sul, leste, centro, bairros e periferia, tomando conta da avenida. Cálculo da Policia Militar: aproximadamente 15 mil pessoas !

Apoteose! Delírio ! Palmas ! Gritos ! Chico Xavier, entra no palco. Silvio santos, começa a chorar. Eu também. A platéia, de pé, aplaudindo. Silvio e Saulo Gomes, iniciam as perguntas. e Paulo Moura, o maior clarinetista do Brasil, representando Rio Preto, não se conteve. Abraça Chico, demoradamente. Em silêncio, as perguntas. Chico, responde todas. Homossexualismo, disco voador, drogas, família, religião, seres extra-terrestres. Nenhuma sem resposta ! Três e meia da madrugada de 6ª.feira, termina o programa. O público não arreda pé, nem do auditório ,nem da avenida. A multidão, queria ver, de perto, o nosso Francisco Cândido Xavier! Uberaba venceu ! Aqui na terrinha, fogos espocavam por todos os cantos ! Uberaba fora mostrada para todo o Brasil ! No dia seguinte, a grande recepção ! Uberaba recebia seus ídolos e guerreiros que souberam honrar o nome da CIDADE !
A saudade mata a gente... Eram tempos de glória !Abraços do “ Marquez do Cassú “.

Fanpage: https://www.facebook.com/UberabaemFotos/

Instagram: instagram.com/uberaba_em_fotos

Cidade de Uberaba

Prata (cestinha do Tijuca) aponta os males do basquete.

Contagens elevadas afastam os torcedores

- Só sairia do Tijuca, caso fosse convidado, para ingressar num clube que excursionasse bastante e desse mais apoio ao basquete,- A revelação é de Prata, pivô da equipe principal do Tijuca. Calmo, como todo mineiro - é de Uberaba – ele vai desfolhando o livro:

- Gosto imensamente do basquete é só o pratico para conseguir novas amizades e viajar, pois sou doido para excursionar. Infelizmente, o Tijuca nunca saiu do Rio...
- É verdade que o Tijuca não dá apoio ao basquete, Prata?

- Até certo ponto, sim. Infelizmente, no meu clube, os diretores não se preocupam com o esporte de cesta e só aceitam e só aceitam o cargo para ajudá-lo. 

O Tijuca sente, na realidade, grande dificuldade em conseguir quem queira trabalhar. 

José Roberto Borges Prata, eis seu nome completo, nasceu num dia de trovoada, (21-11-39) sendo o terceiro de uma família relativamente pequena e que não é do esporte. Veio para Rio (60) a fim de estudar advocacia, conseguindo seu intento, pois formou-se no ano passado. Disse nos que pretende fazer uso da profissão – seu grande ideal – aguardando, apenas uma oportunidade.

Nós:

- Cite seu clube de coração?

-Sou vascaíno doente e seria o clube em que jogaria, na hipótese de deixar o Tijuca. Todavia, nunca fui convidado e, sinceramente, até agora não me interessei por “cantadas”.

Prata, em seguida, contou-nos como ingressou no Tijuca:

- Quando vim para o Rio fui morar com um tio em frente ao clube.

Como gosto imensamente do basquete, uma certa tarde fui ao ginásio e me apresentei ao técnico da época, Odínio. Dei uns treinos, fui incluído na equipe, principalmente, como reserva, e depois peguei o time de cima, na equipe, primeiramente, como reserva, e depois peguei o time de cima. 

- Dê sua opinião sobre Helinho.

- Meu ex-técnico, para mim, é um grande preparador. No Banco, porém, há superiores, como Kanela e Zé Carlos ex-treinador do Vasco, que vibravam mais e incentivam os jogadores. 

- Aponte o melhor jogador da Guanabara?

- Indubitavelmente, na atualidade é Sérgio, que dentro de algum tempo será um dos melhores jogadores do Brasil. O jogador do Botafogo possui todas as qualidades que se exige para um craque. 

- Qual a sua altura, Prata?

- Tenho 1m91 e estou muitíssimo satisfeito, pois sempre me ajudou. Aliás, altura só auxilia quando um time está bem treinado, tecnicamente.

Prata - (Foto - Acervo da família). Data - 24 de julho de 1965.


Prata e Aloísio Garcia Borges. (Foto - Acervo da família). Data - 01/07/55.

Prata pede-nos tempo para um esclarecimento:

- Não sou tão ceguinho assim como “alguns” dizem. Na realidade uso lentes de contato para jogar, mas nunca me atrapalharam. Elas são grandes e não há perigo de caírem. E note-se: sempre fui cestinha no quadro tijucano.

- É verdade que você esta contrariado de ser pivô?

Sorriu: 

- De fato, gostaria muito de jogar atrás. Infelizmente, meus técnicos me acostumaram tanto na posição que hoje não sei jogar em outro ponto da quadra.

- Revele o mal do basquete?

- A falta de promoção e de maior número de jogos. Jogador, no Rio fica restrito as atividades pequenas, pequenas, somente dos campeonatos. Além do mais. O certamente principal reúne equipes sem nenhuma capacidade. O ideal seria uma seleção rigorosa, para que as competições tivessem só a nata dos clubes propiciando belos espetáculos e não o que se vê hoje em dia. Os nossos dirigentes deveriam seguir o exemplo de São Paulo, onde as competições são em larga escala e o gabarito técnico é bem melhor.

Prata - (Foto - Acervo da família). Data - 24 de julho de 1965.


Seleção Carioca. Da esquerda para direita: (01) Márvio;...;....;....;....;....;....; (07) Marquinhos Abddala;...;...;...;(04) Ilha. (Foto - Acervo da família) Década:1960


Seleção Americana x Seleção Carioca. (Foto - Acervo da família)
 Década:1960


- Basquetebol é violento, Prata?
  
- Acredito que sim, tanto que num treino, casualmente meu companheiro Zézinho, numa disputa de bola, caiu em cima de minha perna esquerda e provocou rutura dos ligamentos. Em sequência, fiquei no “estaleiro” vários dias. E com é duro assistir do banco de reservas. 

- Você é violento?

- Dê maneira alguma. Creio, até, que sou um dos jogadores mais delicados já produzidos pelo esporte da cesta do Brasil. Vista só a bola. 

José Roberto Borges Prata - (Foto - Acervo da família). Data - 24 de julho de 1965.

Prata nos revelou que possui apenas o título de vice-campeão carioca (60) e alguns outros, porém como reserva, em sua cidade natal, quando jogou pelo Jóquei Clube de Uberaba, onde aliás iniciou sua carreira (55).

Prata termina falando de amor. E meio triste: 

- Nunca tive sorte com namorada e não sei mesmo a razão, pois não sou tão feio assim. Não acham? Tive uma decepção com uma linda garota de minha terrinha e agora não quero nem pensar em namorar. Se “Cupido” me acertar, garanto que terá que esperar muito, pois casamento só daqui há séculos. 

Fonte: REVISTA DO ESPORTE – Ano – VI – N 333 – 24 de julho de 1965 – Diretor: Anselmo Domingos – Redação: Adilson Povil , Waldemir Paiva, Nóli Coutinho, Tarlis Batista, Ademar de Almeida e Otto Correia * DEPARTAMENTO FOTOGRÁFICO – Jurandir Costa, Odete Moraes * DEPARTAMENTO ARTÍSTICO: Jorge Brandão.


Fanpage: https://www.facebook.com/UberabaemFotos/

Instagram: instagram.com/uberaba_em_fotos

Cidade de Uberaba

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Diálogos entre o deputado uberabense Fidélis Reis e o físico Albert Einstein através de cartas

Em 14 de março de 1930, o jornal uberabense Lavoura e Comércio anunciava o aniversário do célebre físico alemão Albert Einstein. Naquela ocasião, o jornal reproduziu a íntegra de uma carta do então deputado Federal Fidélis Reis enviada a Einstein anos antes. Em seguida, traz a carta de resposta do físico alemão ao deputado de Uberaba.

O aniversário de Albert Einstein. 

O deputado Fidélis Reis foi autor da “Lei Fidélis Reis” de 1927, que dava diretrizes ao Ensino Profissional no Brasil. Por meio desta lei foi edificado em Uberaba o Liceu de Artes e Ofícios, atual sede do Centro de Cultura José Maria Barra e entorno da Escola Profissional Fidélis Reis do Senai e a Fiemg.

História, ética e nacionalidade: a trajetória política do deputado federal Fidélis Reis na Primeira República.

É farta a produção historiográfica sobre a educação profissional, bem como estudos sobre pressupostos de nacionalidade que rodas de intelectuais e projetos políticos debatiam quanto à entrada de estrangeiros em solos brasileiros. Tais matizes abordam de forma secundária a trajetória política do deputado federal por Minas Gerais Fidélis Reis. Este artigo nasceu da percepção da importância que estes debates em evidência no cenário político e intelectual brasileiro nos finais da Primeira República, não foram profundamente estudados e carece de estudos futuros centrados na biografia do deputado Fidélis Reis, agente político preponderante no cerne destes assuntos em tal período.

Fidélis Reis - Foto: Superintendência Arquivo Publico de Uberaba.

Fidélis Reis nasceu em Uberaba/MG em 4 de janeiro de 1880 e faleceu e 29 de março de 1962 na mesma cidade aos 82 anos de idade. Formou-se em Agronomia, tendo se graduado na primeira e única turma do Instituto Zootécnico de Uberaba, em 1901. Prestou serviços à Diretoria-Geral de Povoamento, ligada ao Governo Federal em 1907, investigando secretamente na Argentina o serviço de colonização e imigração do governo argentino. A partir de então, sua experiência na Argentina por seis meses o despertou profundamente para o assunto da imigração que mais tarde como deputado federal iria defender. (SOARES, s/d. p. 103). Em seguida foi inspetor do Serviço de Povoamento Federal no Estado do Espírito Santo de 1907 a 1909. Em Belo Horizonte foi inspetor agrícola federal do 7° e 18° distritos nos anos de 1910 da Secretaria de Agricultura, Indústria, Terras, Viação e Obras Públicas. Na capital mineira foi eleito presidente da Sociedade Mineira de Agricultura e foi um dos fundadores da Escola de Engenharia de Belo Horizonte, nesta entidade lecionou ao longo de cinco anos e ganhou o título de professor honorário em 1961. (REIS, 1962 p. 123). 

Em 1912, Fidélis Reis foi a Europa para fazer novos estudos. Na França fez o curso de Ciências Físicas e Naturais na Sorbonne, seguindo posteriormente para Suíça e Itália. Na Itália esteve em Roma e prestou serviços ao governo brasileiro estudando planos para emigração de italianos ao Brasil. 

Dedicou-se à vida pública como Deputado Estadual e Federal entre os anos de 1919 e 1930. Foi um dos fundadores e primeiro presidente da Sociedade Rural do Triângulo Mineiro – SRTM, atual ABCZ – Associação Brasileira de Criadores de Zebu, entidade que congregou particularmente os pecuaristas uberabenses que se dedicavam à criação de gado indiano, conhecido como Zebu. Foi presidente da Associação Comercial e Industrial de Uberaba – ACIU, quando foi construída a sede da entidade, a Casa do Comércio e da Indústria. Participou da fundação e presidiu o Banco do Triângulo Mineiro. Também participou como co-responsável pela construção do Palácio do Departamento Regional dos Correios e Telégrafos de Uberaba. Reis escreveu os seguintes livros: País a Organizar; Política Econômica; Política da Gleba; Ensino Técnico Profissional; Homens e Problemas do Brasil e Problemas Imigratórios (REIS, 1962. p. 123). Manteve um intenso trabalho como articulista de vários jornais da época em que viveu.

Sua vida na política pública começou em 1919, sendo eleito para o cargo de Deputado Estadual do Estado de Minas Gerais e, no ano de 1921, para Deputado Federal por Minas Gerais, cargo para o qual foi reeleito até 1930 quando se deflagrou o processo da Revolução de 1930 e o seu mandato foi então extinto. Um de seus principais projetos na vida parlamentar foi a criação da lei que levou seu nome – Lei Fidélis Reis – instituindo o ensino profissionalizante de caráter obrigatório no país. Como parlamentar, esteve envolvido em projetos xenófobos e racistas na Câmara dos Deputados (FONTOURA, 2001 p. 145), contrários à imigração de japoneses e de negros afro-americanos vindos dos Estados Unidos para o Brasil. 

Segundo o historiador Manoel Jesus Araújo Soares, em 1926 vem à tona uma proposta estudada por Fernando Azevedo que previa que uma reforma educacional se fazia necessária à época no intuito de “prevenir as desordens sociais, formando nas classes dirigentes elites esclarecidas, competentes e responsáveis” (SOARES, 1995. p. 98). O propósito de tal proposta seria disciplinar uma “educação adequada as massas populares” como uma solução alternativa a uma possível ameaça que as população poderia oferecer as oligarquias dos anos de 1920. (SOARES, 1995. p. 98). Na contrapartida desta proposta, o deputado Fidélis Reis encaminhou em 1922 a Câmara Federal o projeto de lei que previa a obrigatoriedade do ensino profissional no Brasil, projeto que foi intensamente discutido entre os parlamentares e a imprensa da região do Triângulo Mineiro e nacional até sua aprovação em 1926. Na elaboração da proposta de lei, o deputado mineiro correspondeu com Albert Einstein e Henry Ford, homenageando o segundo num dos pavilhões do Liceu de Artes e Ofícios de Uberaba.

Como dissemos acima, a Lei sancionada não cumprida. Sobre este aspecto o deputado fez o seguinte comentário em livros de memórias:

(...) desde a sansão da lei foi sincero o Presidente da República em declarar-me que não poderia executá-la de pronto, mesmo dentro do crédito votado, que era o primeiro a reconhecer insuficientemente para uma obra de proporções tamanhas. O Tesouro não suportaria nenhum ônus além das despesas estritamente orçamentárias. Além de que, a execução integral da lei reclamaria quantia não inferior a 400 mil contos, dizia o Presidente”. (REIS, Fidélis. 1962, p. 186).

Paralelamente, em 1926, a Lei da Consolidação das Escolas de Aprendizes Artífices, determinava o curso profissional de quatro anos para o primário e dois anos para o complementar. Foi prevista na consolidação a possibilidade de nove seções de ofícios:

- seções de trabalhos de madeira

- seções de trabalhos de metal

- seção de arte decorativa

- seção de artes gráficas

- seção de artes têxteis

- seção de trabalhos em couro

- seção de fábricas de calçados

- seção de fabrico de vestuário

- seção de atividades comerciais

Uma grandiosa obra fomentada pelo deputado Fidélis Reis, a construção dos edifícios que iriam compor o Liceu de Artes e Ofícios de Uberaba projetado pelo arquiteto Ramos de Azevedo, contou com a contribuição financeira de inúmeros moradores do Triângulo Mineiro para sua construção, bem como recursos do governo federal e estadual, sendo inaugurado em 1928. O propósito de então deputado era que o Liceu de Artes e Ofícios de Uberaba servisse de modelo experimental ao seu projeto de lei aprovado recentemente. Todavia, o Liceu de Artes e Ofícios de Uberaba nunca chegou a funcionar de fato, pois inúmeros obstáculos insurgiram após sua inauguração, faltava apoio e recursos para o início dos trabalhos, e assim nos anos iniciais em suas dependências instalaram-se a Escola Normal de Uberaba, entendida como prioritária pelo governo federal, posteriormente nas mesmas edificações, funcionou o 4º Batalhão de Caçadores Mineiros. Apenas em 1942 que os sonhos do deputado Fidélis Reis esboçaram a possibilidade de se concretizarem, exatamente quando se criou o SENAI – Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial, entretanto, apenas no ano de 1948 o SENAI ocupou as dependências do idealizado Liceu de Artes e Ofícios de Uberaba com a presença na inauguração da Escola de Aprendizagem Fidélis Reis do então presidente da República, marechal Eurico Gaspar Dutra.

Um outro aspecto que Fidélis Reis discute quanto às propostas para ensino técnico-profissional no Brasil foi quanto à criação da Universidade do Trabalho. Este assunto foi pautado em intensas discussões em quase toda História da Educação no Brasil durante o século XX. De 1922 até o final do século dez iniciativas dessa natureza (PRONKO, 1997 p. 37). Contudo, o debate quanto ao assunto ganha bastante fôlego nos anos de 1940 a 1950. 

A primeira proposta sobre a Universidade do Trabalho nasce nos anos de 1920, em meio a um contexto conveniente em que pudesse contribuir para “obtenção da harmonia social, propiciar a racionalização do processo produtivo e formar mão-de-obra necessária ao crescimento industrial” (PRONKO, 1997 p. 39). Nesse sentido se questionavam o modelo de educação superior praticado no Brasil e o modelo voltado para a formação técnico-profissional. Contudo, poderíamos dizer que este assunto vai assumir a força necessária nos anos de 1930 a 1940, pois os objetos “educação e trabalho” recebem amplo apoio como política de Estado.

Dos projetos de criação de instituições desse modelo no Brasil, de 1930 a 1955, duas correntes tiveram bastante relevância no contexto, apesar da Universidade do Trabalho ter sido um projeto fracassado. A primeira proposta foi de autoria do belga Omer Buyse, de 1934, e a segunda de Humberto Grande, 20 anos depois. Omer Buyse tinha formação em engenharia na Bélgica e participou efetivamente na criação da Universidade do Trabalho de Charleroi (Bélgica) em 1902. Segundo Pronko, Fidélis Reis foi introdutor desta proposta no Brasil, e o próprio Fidélis Reis sugeriu ao governo contratar Buyse para realizar estudos sobre a possibilidade de instalação desta proposta no Brasil, com a finalidade de articular modalidades de ensino profissional. Mediante essa situação, surgiu a proposta de criação de três universidades do Trabalho no Brasil, que foi entregue ao governo brasileiro em 1934.

A proposta de Buyse em anteprojeto foi fundamentada num conjunto orgânico, cujo papel era centralizar nas instituições de ensino superior a relação com cursos das instituições de ensino técnico de nível médio. Foi previsto na estrutura acadêmica da criação destas instituições a formação em diversas áreas que abrangeria o campo do trabalho industrial e o apoio às atividades de extensão e à indústria. O projeto de Buyse foi enviado ao governo brasileiro em 1934; contudo não foi efetivado pelo então ministro da Educação Gustavo Capanema e assim, foi arquivado. Em outro momento, provavelmente nos anos de 1940, Fidélis Reis comentava sobre este assunto da seguinte maneira, 

O Brasil deve tomar a sério seu ensino, de modo geral, desde o primário-ginásio, de grau médio, universitário e técnico de grau superior. Seu futuro está intimamente ligado à eficiência desse ensino no qual já emprega enormes quantias. Impõe-se uma revisão na federalização das universidades estaduais para que sejam conservadas uma em cada Estado, dividindo à União os compromissos com eles, para que o ensino seja uma realidade e não simples ficção, distribuindo diplomas que nada significam. Há grandes necessidades de técnicos no Brasil, neles está profundamente interessada à indústria que, por iniciativa própria, nas organizações do SENAI, instrui com muito cuidado operários e mestres. Por que não conjugar esforços, de modo a levar mais alto essa colaboração como hoje se faz nos Estados Unidos e em outros países. (REIS Fidélis (In.) recortes Lavoura e Comércio Caderno do Liceu de Artes e Ofícios, sd. n/p.). 

É importante ponderar outras ações que o deputado Fidélis Reis tivera na Câmara dos Deputados, principalmente as que tolhiam a imigração de certos elementos considerados como “inferiores”. Entusiasta de ideais de branqueamento de raças em projetos xenófobos e racistas Fidélis Reis foi contrário à vinda de levas de imigrantes afro-americanos dos Estados Unidos para o Brasil, além de se colocar absolutamente contrário à imigração de japoneses para cá. Porém, era favorável a ações que estimulassem a imigração de europeus, a fim de justificar a tese de branqueamento dos brasileiros, baseado principalmente nas implicações racistas de Gobineau (FONTOURA, 2001 passim). 

Um bom exemplo da resistência que houve no Brasil contra a entrada de imigrantes entendidos como grupos de “indesejáveis” é o estudo feito por pelo historiador norte-americano Jeffrey Lesser (LESSER, 2001). No Brasil em 1891, foi proibida pelo governo a entrada de imigrantes nativos da África e da Ásia. Em 1907, foi criada uma legislação que revogou a entrada da imigração japonesa, havendo, entretanto forte resistência à entrada de árabes da África do Norte e de chineses. 

No ano de 1921, houve um vasto incentivo difundido na imprensa da época sobre a entrada de agricultores norte-americanos no Brasil, para isso foi prometido crédito de longo prazo, passagens e concessões de terras no Mato Grosso. Neste sentido foi criada a “Brasilian American Colonization Sindicate” – BACS, mas algo deu errado na negociação diplomática para vinda destes “esperados” imigrantes dos Estados Unidos da América, foi exatamente quando se descobriu que se tratava de negros norte-americanos, ou seja, mandar indesejados da América do Norte para a América do Sul que aqui também não seriam bem vindos, foi algo que criou um relativo mal estar entre as relações diplomáticas entre os dois países. A partir de então o Itamaraty negou vistos a todos os membros da Companhia, enviando mensagens confidencias a consulados dos Estados Unidos no Brasil, explanando qual era o tipo de imigrantes se pretendia introduzir no Brasil. Naquela época havia um tratado de imigração entre os dois países que foi questionado pelo governo norte-americano, haja vista que este tratado dava ao povo estadunidense o direito de se estabelecer livremente no Brasil, independente de raça, etnia ou religião. Questionado pelo governo dos EUA, sobre tal procedimento, o Itamaraty justificou que a política imigratória brasileira não poderia ser questionada sobre assuntos que envolveria a soberania nacional. Esse assunto também foi muito discutido por nossas autoridades políticas, entre estes podemos citar Fidelis Reis como um dos deputados que mais se dedicou ao assunto, sendo que este propôs em projeto no legislativo federal o impedimento da entrada dos negros norte-americanos. Em plenária em 1923 o deputado Fidélis Reis disse: 

Quando então pensamos na possibilidade próxima ou remota da imigração do preto americano para o Brasil é que chegamos a admitir a eventualidade da perturbação da paz no continente. ... O nosso preto africano, para aqui veio em condições muito diferentes, conosco pelejou os combates mais ásperos da formação da nacionalidade, trabalhou, sofreu e com sua dedicação ajudou-nos a criar o Brasil. ... O caso agora é iminentemente outro. E deve constituir para nós motivo de sérias apreensões, como um perigo iminente a pesar sobre nossos destinos. (disponível em: http://www.interney.net/blogs/lll/2008/07/16/os_defeitos_dos_negros_americanos_histor/. Acesso em 15 mar. 2008). 

Numa de suas falas na Câmara Federal o deputado discursa: “(...) Além das razões de ordem étnica, moral, política, social e talvez mesmo econômica, que nos levam a repelir in limine a entrada do povo preto e do amarelo”. Mais a frente faz referência à questão do branqueamento da seguinte maneira: “(...) que é o ponto de vista estético e a nossa concepção helênica da beleza jamais se harmonizaria com os tipos provindos de semelhante fusão racial.” (DIÁRIOS da Câmara). Num artigo do Jornal do Brasil, Fidélis Reis comenta sobre quanto considerava negativo o convívio de dois mil imigrantes japoneses à integração e desenvolvimento da comunidade de Conquista, no Triângulo Mineiro. 

Os japoneses vivem completamente separados dos brasileiros e dos demais estrangeiros que ali residem e não compra coisa alguma senão nas lojas e nas vendas de que são donos os seus patrícios. (...) A presença em conquista, portanto, de 2000 japoneses não chega a produzir um movimento comercial que produziram 100 imigrantes de qualquer outra nacionalidade. Há ainda um aspecto que não deixa de ser muito interessante e de grande valor para questão social: os japoneses, quer pelos seus nomes, muito difíceis para serem retidos pelos nossos homens, quer pela fisionomia, muitos parecidos uns como os outros, não podem ser distinguidos pelos brasileiros e pelos estrangeiros pertencentes as outras raças. Recentemente deu-se em Conquista um fato que vem em relevo os perigos resultantes desta falta de diferenciação: um japonês entrou em uma luta corporal com um caboclo e matou com uma facada. O assassinato foi testemunhado por várias pessoas que não lograram prender imediatamente o assassino ele misturado com os seus patrícios. Pois bem chegaram as autoridades policiais não pode o criminoso ser preso... Por não ser possível as testemunhas distinguir entre japoneses, qual o que tinha cometido o crime. E assim ficou impune o criminoso. (JORNAL DO BRASIL. s/d. s/p.). 

Avaliamos que estudos biográficos se tornam significativos em muitas linhas historiográficas da atualidade, esses aspectos evidenciam num plano mais amplo meios para encontrar argumentos que possam relacionar histórias de vida com a construção do cotidiano e do imaginário. Nesse sentido, é notável que muitos aspectos podem se revelar sobre o biografado. “O ser humano existe somente dentro de uma rede de relações” (BORGES, 2006 p. 222). Um estudo biográfico sobre Fidélis Reis profundo revelará avaliações sobre a história das idéias, “os condicionamentos sociais ao qual o mesmo estava submetido, grupo ou grupos em que atuava e todas as redes de relações pessoais que constituíam o seu dia-a-dia” (BORGES, 2006 p. 222). 

Bibliografia: 

BORGES, Vanvy Pacheco. Fontes biográficas: grandezas e misérias da biografia. IN: PINSKY, Carla Bassanezi. Fontes Históricas. São Paulo: Contexto, 2006. 

CUNHA, Luiz Antônio. Ensino Industrial manufatureiro no Brasil. São Paulo: Revista brasileira de educação, mai-ago, n°14. Associação Nacional de Pós-graduação e pesquisa em Educação. 

_____. O Ensino de Ofícios Artesanais e manufatureiros no Brasil Escravocrata. Ed. UNESP, São Paulo, 2000. 

FONTOURA, Sônia Maria. A invenção do inimigo: Racismo e Xenofobia em Uberaba 1890 a 1942. 2001. Dissertação. (Mestrado em História). Universidade Estadual Paulista "Julio de Mesquita Filho", Franca, 2001. 

PRONKO, Marcela Alejandra. (Dissertação de mestrado). A universidade que não aconteceu: uma análise das propostas de criação da Universidade do Trabalho no Brasil, nas décadas de 30 a 50. Niterói: UFF, 1997. p. 37. 

LESSER, Jeffrey. A Negociação da Identidade Nacional. São Paulo: Unesp, 2001. 

REIS, Fidélis. Homens e Problemas do Brasil: Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1962. 

_____. A Política Econômica. Rio de Janeiro: Revista dos Tribunais, 1921. 

____. A política da Gleba: falando, escrevendo e agindo (1909-1919). Rio de Janeiro: Casa Leuzinger, 1919. 

____. Dois discursos. Belo Horizonte : Sociedade Mineira de Agricultura, 1917. 

____. O século XX, tempo das dúvidas: do declínio das utopias às globalizações. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 2000. v.3 

_____. Paiz a organizar. Rio de Janeiro: A. Coelho Branco, 1931.
_____.O problema immigratório e seus aspectos éthnicos na Câmara e fora da Câmara. Rio de Janeiro,1924. SOARES, Manoel Jesus Uma Nova Ética do Trabalho nos Anos 20 – Projeto Fidélis Reis Série Documental/RelaRelatos de Pesquisa n. 33. Universidade Santa Úrsula, 1995.

SKIDMORE, Thomas. Preto no branco. Rio de Janeiro, Paz e Terra. 1976.


Thiago Riccioppo, especialista em História do tempo presente pela Universidade de Franca – UNIFRAN; professor na Universidade Presidente Antônio Carlos – UNIPAC/UBERABA; historiador do Conselho do Patrimônio Histórico e Artístico de Uberaba - CONPHAU de 2005 a 2009.



Cidade de Uberaba


Queimadas na Amazônia (*).

Um raciocínio para tentar entender as queimadas na Amazônia: antes o assunto era abordado num contexto normal como acontece nessa época do ano. Hoje só se fala em queimada, queimada, queimada! Tudo na Amazônia. Poderia ser piada se não fosse trágico.

Experimente parar na rua e fixamente olhar para o céu, de preferência apontando com o dedo indicador. Logo você será imitado por uma, mais uma...e.mais.uma.pessoa, todas.olhando.para.cima,.não...importando .qual. seja.a causa. Se alguém der um nome qualquer ao objeto que supostamente está no ar, a legião irreflexiva vai afirmar em coro: “Estou vendo o objeto”. Sem estar vendo nada. Fiz esta experiência dentro da piscina de um clube e o resultado foi.surpreendente!

     Mapa divulgado pelo Ministério da Defesa mostra alertas de focos de calor na Amazônia entre 25 e 26 de agosto de 2019 — Foto: Ministério da Defesa/Divulgação.

Assim são as queimadas na Amazônia. Atira-se no que viu para matar o que não viu. Notícias requentadas surgem a toda hora e os que as transmitem tentam a todo custo dar o tom de furo de reportagem. Aliás, toda...notícia...requentada...tem...sempre...um...destino...certo.

Minas Gerais, para não dizer de outros Estados, registra “n” focos de incêndios em áreas preservadas e não merecem citações destacadas na mídia. Por..quê? 

O foco não é o fogo, desculpando o trocadilho, e sim o que está embaixo. Enquanto debatem as queimadas na Amazônia, o subsolo nosso vai sendo destruído e as riquezas tiradas dele, a preço de banana, indo embora com o compromisso de voltarem. Voltam, mas a peso de ouro.

Não vai longe o tempo em que investido na função de perito da Justiça, inspecionei propriedades nas quais terceiros requeriam através de Plano de Pesquisa Mineral, o direito para explorar o subsolo. O dono da terra era o último a saber e não podia sustar a exploração do seu terreno. Conheci sujeito que carregava pacotes de memoriais descritivos de áreas rurais para negociá-las a terceiros sem que o dono soubesse. As áreas da Amazônia passaram por esse.processo? Não.sei.

Há dez anos ouvi de um creditado jornalista: “Temos 120 mil..ONGs..na..Amazônia”...Assustei... na... época...por não saber as causas. Hoje sabemos os porquês e interesses que envolvem o assunto. É tão delicado que a segurança nacional fica ameaçada. Que venham as chuvas para “encharcar” a Amazônia com boas notícias. E qual será o novo assunto?


(*) - João Sabino-Uberaba - MG - Brasil. 




Cidade de Uberaba

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

HENRIQUE DES GENETTES: UM AVENTUREIRO FRANCÊS NO SERTÃO DA FARINHA PODRE

Durante quase todo o século XIX, o “Sertão da Farinha Podre” e o sul da Província de Goiás compunham uma gigantesca terra de ninguém. Cenário único, misturava o pioneirismo violento das cidades do Velho Oeste americano – eternizadas nos filmes de bang-bang – com cenários selvagens e misteriosos das imensidões inexploradas da África. Poderia já ter rendido um sem número de romances, filmes e documentários. Tínhamos por aqui até mesmo alguns dos personagens mais curiosos desse tipo de narrativa: os aventureiros europeus que – sabe-se lá por quais motivos – deixavam o Velho Continente e vinham parar no que era, então, um legítimo fim-de-mundo.

Uberaba teve a sua cota de aventureiros. Um dos mais curiosos foi o francês Henrique Raimundo Des Genettes que, em sua longa existência pelos sertões, foi médico, cronista, explorador, mineralogista, geógrafo, líder político, administrador público, advogado, militar, jornalista, teatrólogo, educador e – finalmente – padre. Mas, ao contrário dos cowboys e desbravadores do cinema, esse herói sertanejo estava longe de ter o “physique du rôle” dos galãs de Hollywood. O memorialista Visconde de Taunay, a caminho da Guerra do Paraguai em 1865, o conheceu em Uberaba e foi impiedoso no relato: “apareceu-nos o Dr. Des Genettes a cavalo, carregando a sua fardinha esquisita de cirurgião da Guarda Nacional; feio, muito miudinho, muito magro, com os olhos esbugalhados sobre os quais havia uma enorme pala de boné (...) pronunciou um discurso engasgado, com pronunciado sotaque francês. Estava tão comovido que os joelhos lhe tremiam. (...) levou-me a tomar chá em sua casa, onde cantou ao violão ridículo dueto com a mulher. Conhecia alguma coisa de mineralogia e mostrou-me alguns cadernos destinados à imprensa”.

Talvez Taunay houvesse sido mais generoso se tivesse conhecimento da história prévia desse homenzinho, que tinha então 64 anos de idade e um nome de batismo imponente: François Henri Raimond Trigant Des Genettes. De sua vida na França sabe-se pouco. Nasceu em Pauillac, região de Bordeaux, em 1801. Seria descendente de Nicolas Dufriche, Barão Desgenettes, famoso médico das tropas de Napoleão, caído em desgraça após a derrota de Waterloo. Teria estudado Medicina na Universidade de Brest, mas não se sabe se concluiu o curso e os motivos que o trouxeram ao Brasil, onde chegou em 1835, como tripulante do navio francês MInerva – do qual foi expulso após matar, em duelo, um dos oficiais de bordo. Quatro anos depois, naturalizou-se brasileiro e foi morar em Ouro Preto, onde teve um breve casamento. Já viúvo, participou ativamente da Revolução Liberal de 1842, tendo ficado algum tempo preso junto com Teófilo Otoni, após a derrota do movimento.

Dois anos mais tarde, Des Genettes foi encarregado pelo governo imperial para explorar reservas salinas e nitreiras no Triângulo Mineiro. Na ocasião, visitou as cavernas de Sacramento e foi pioneiro em indicar as corredeiras de Jaguara como o melhor local para a construção de uma ponte sobre o Rio Grande – recomendação seguida quatro décadas depois pela Companhia Mogiana. Casou-se novamente em Araxá e tornou-se um dos primeiros moradores do garimpo de Bagagem (atual Estrela do Sul), de onde partia para pesquisar as reservas minerais do sul de Goiás e da Serra dos Cristais. Realizou também estudos sobre as possibilidades de navegação nos rios Pardo e Mogi Guaçu, em São Paulo, como alternativas de transporte rumo ao Triângulo.

Des Genettes - Foto: Arquivo Público Mineiro.

Des Genettes teria se mudado para Uberaba em 1854, onde estabeleceu-se como médico e boticário, em um sobrado na Rua Municipal (atual Manoel Borges). Tornou-se amigo do também farmacêutico e historiador português Antonio Borges Sampaio, com quem compartilhava a atração eclética pelas ciências humanas e naturais. Elegeu-se vereador, presidiu a Câmara Municipal e foi Agente Executivo (equivalente a prefeito) entre 1865 e 67. Fundou e lecionou em diversas escolas, apoiou a criação do Teatro São Luiz e escreveu peças para serem lá representadas. Esporadicamente, exerceu tarefas de defensor público e delegado de polícia. Organizou na região o recrutamento dos Batalhões Patrióticos que seguiram para a Guerra do Paraguai, ocasião em que conheceu Taunay. Foi um dos primeiros a propor a mudança do nome da região para "Triângulo Mineiro", e também a sua separação de Minas e incorporação à província de São Paulo.

Um dos seus maiores feitos foi a fundação de uma tipografia e do primeiro jornal uberabense: “O Paranaíba”, lançado em 1º de agosto de 1874 e logo renomeado “Echos do Sertão”. Dois anos mais tarde, após a morte da esposa, mudou-se para Goiás. Ordenou-se Padre em Pirenópolis, fundou e dirigiu escolas em Catalão* e Paracatu, onde elegeu-se deputado provincial. Em 1879, envolveu-se em uma confusão ao reprovar em seu colégio o filho de um delegado de polícia de Paracatu. Inconformado, o delegado queria expulsá-lo da cidade, onde só permaneceu graças ao apoio do Juiz de Direito da comarca, que lhe concedeu um "habeas corpus". Des Genettes faleceu dez anos depois, em 1889, no Distrito de Santo Antônio do Cavalheiro, nas imediações de Ipameri, do qual foi um dos fundadores.

(André Borges Lopes – artigo publicado originalmente na coluna "Binóculo Reverso" do Jornal de Uberaba, em 1ª/09/2019)

Fanpage:  https://www.facebook.com/UberabaemFotos/

Instagram: instagram.com/uberaba_em_fotos

Cidade de Uberaba

MULHERES IMPORTANTES PARA A CULTURA, EM UBERABA, MG

Maravilha! INSTITUTO CIENTÍFICO E CULTURAL LAMAR LAMOUNIER, agradece ao Jornalista e Escritor Reynaldo Domingos Ferreira por este importante artigo sobre o valor da Mulher na evolução cultural de Uberaba (MG).  (Gilberto Rezende - Casa do Folclore) 

(Artigo, solicitado, pelo Instituto Científico e Cultural Lamar Lamounier)Essa é, de fato, uma grande lacuna, que precisa ser, reparada, a da valoração do empenho feminino, pela evolução cultural da cidade de Uberaba ( MG ), onde só se reconhece, com algumas poucas exceções, o trabalho masculino, nos nem sempre criteriosos relatos históricos da cidade.

As mulheres, entretanto, marcaram presença, e efetiva atuação, em quase todos os setores da vida cultural uberabense - mesmo, em outros centros culturais do país, e do exterior -, destacando-se, entre eles, o da música, o do magistério, o da área jurídica, o da moda, o da medicina, o das artes plásticas, o de assistência social, o da política, o da locução radiofônica, o do teatro, o da pesquisa histórica e folclórica, o da literatura ( prosa e poesia), o do jornalismo, e o da pecuária, por tradição, dominado por homens.

O primeiro destaque é para Dinorah ( ou Dinorá ) de Carvalho, pianista e compositora, ( 1895-1980 ), que viveu pouco tempo, na cidade, pois, logo, sua família se mudou para São Paulo, como aconteceu também, com a do seu sobrinho, Joubert de Carvalho, que foi, primeiro, igualmente, para São Paulo e, depois, para o Rio de Janeiro.

Na Capital paulista, Dinorah matriculou-se, no Conservatório de Música, onde teve como colega, e amigo, Mário de Andrade, um dos organizadores da Semana da Arte Moderna, de 1922. Dinorah, ao se formar, em piano, com as melhores notas, no Conservatório, recebeu bolsa de estudos, na França, do governo de Minas Gerais.

Em Paris, Dinorah aperfeiçoou seus estudos, com Isidor Philipp. Ao retornar a São Paulo, foi apresentada, por Mario de Andrade, ao professor e maestro Lamberto Bardi, com quem aprimorou seus conhecimentos de composição e regência. Ela criou, na Capital paulista, uma escola de música, que levava o seu nome. Nos anos de 1960, o maestro Souza Lima, que conheci, organizou, no Teatro Municipal de São Paulo, um Festival Dinorah de Carvalho. Entre suas principais peças, que são quase quatrocentas, se destacam: " Missa De Profundis ", " Três Danças Brasileiras "," Serenata da Saudade ", " Arraial em Festa " e " Noite de São Paulo ", essa sobre um texto do poeta Guilherme de Almeida, de quem era também muito amiga.

Nair Carvalho Medeiros, também pianista, da mesma família de Joubert de Carvalho, e de Dinorah de Carvalho, teve, como seus ilustres parentes, carreira brilhante, como concertista, no país, e na França, onde se casou e, em Paris, permaneceu morando.

No campo da música, nas décadas de quarenta, e, parte da de cinquenta, a figura feminina mais expressiva, era a da professora Odete Camargos, embora se dedicasse mais ao magistério musical ( canto coral ), na Escola Normal Oficial, e, de piano, em casa, onde tinha muitas alunas e alunos, competindo, naturalmente, com o grande nome da música uberabense, Renato Frateschi, que deixou mais de 400 composições musicais. Em meu livro, de memórias, "As Raparigas da Rua de Baixo", assim, tento fazer a figuração de Dona Odete Camargos:

"A palavra " enérgica " era tida, na época, como a mais fluente e adequada para designar um bom mestre, um bom educador. Quando se dizia que alguém era " enérgico", já se entendia tratar-se de um bom profissional de ensino, ou seja, que sabia impor seus conhecimentos aos seus alunos. Tal era o caso, sem dúvida, de Dona Odete, que, de exemplar maneira, não só parecia trazer estampada a palavra " enérgica", na testa - emoldurada por uma cabeleira meio grisalha -, como envergar, bem ao seu estilo, uma postura rígida e austera."

Em 1949, Dona Odete, em sociedade, com a pianista Mirthes Bruno, criou o Instituto Músical Uberabense, quase ao mesmo tempo, em que o casal Alberto Frateschi e Alda Loes Frateschi fundaram o Conservatório Musical de Uberaba, atualmente, denominado Conservatório Musical " Renato Frateschi ". Por ambas instituições, formaram-se várias pianistas, que abrilhantaram, na ocasião, o panorama musical de Uberaba.

Maria Emília Osório, que, logo depois de se tornar a primeira formanda, pelo Conservatório Musical de Uberaba, mudou-se para Brasília, onde aprimorou seus estudos, com a pianista e compositora Neusa França, e com o professor Ney Salgado, além de fazer várias apresentações, na Capital da República. Maria Emília é neta do maestro Carlos Maria do Nascimento, um dos regentes da Banda União Uberabense, e filha de Sylvia Nascimento, a qual, como atriz, integrou, na década de trinta, o Grupo Arthur Azevedo, responsável por diversas montagens de textos teatrais, de autores brasileiros, no antigo Cine Royal, sob a direção de Renato Frateschi.

Valmira Cardoso, de apurada técnica pianística, dedicada as interpretações dos românticos, Chopin e Debussy, se apresentou, em diversos concertos, no Jockey Club de Uberaba, mas, frágil de saúde, cedo, desapareceu. O mesmo aconteceu, com Isa Lais Bernardes Ferreira, neta, como eu, do maestro Eloy Bernardes Ferreira, também regente da Banda União Uberabense, a qual se transferiu, logo, para Belo Horizonte, fez uma única apresentação, no Teatro Francisco Nunes, como solista, acompanhada pela Banda Musical, do Corpo de Bombeiros, da cidade, assumiu o magistério, no Conservatório Musical de BH, e morreu, prematuramente, três anos, depois de formada.

Outro nome de destaque, entre as pianistas de época, é o de Lélia Bruno Sabino, que, além de várias apresentações, na cidade, mais tarde, emprestou o seu talento, como escritora de crônicas, e diretora do Arquivo Público Municipal, criado, em 1985.

Atualmente, o grande nome da música, em Uberaba, é o da maestrina Olga Maria Frange de Oliveira, graduada, em piano, pelo Instituto Musical Uberabense e, como instrumentista, pela Faculdade de Artes, da Universidade Federal de Uberlândia. E pós-graduada, em Cultura e Arte Barroca, pela Universidade de Ouro Preto, além de bacharel, em Direito, pela Universidade de Uberaba - Uniube. Ex-Diretora Geral da Fundação Cultural de Uberaba, onde foi também conselheira da área de música e de dança, e diretora cultural. É professora de piano, percepção musical e canto coral. Escritora de crônicas para o " Jornal da Manha" e conferencista - no Brasil e, no exterior: na França ( Universidade da Sorbonne ), e, em Portugal, a convite do governo, tendo, no país, trabalho, publicado pela Fundação Coluste Gulbekian, sobre " A Modinha e o Lundu, no Período Colonial".

É também a maestrina Olga Maria Frange de Oliveira regente do Coral Artístico Uberabense, que inaugurou, recentemente, o Coro da Igreja de São Domingos. Pesquisadora emérita, ela prepara, atualmente, para ser lançado, em marco, do próximo ano, durante as comemorações do bicentenário da cidade, o livro " Os Pioneiros da História da Música, em Uberaba", abrangendo o início do século XIX ( 1815 ), com a criação da Banda dos Bernardes, primeira expressão artística da cidade, fundada por Silvério Bernardes Ferreira, meu antepassado, no Arraial da Capelinha e, depois, transferida para Uberaba. A pesquisa da maestrina se estende até a década de 1980 ( século XX ), com a morte dos últimos pioneiros.

Entre cantoras, destaca-se o nome de Honorina Barra, que, também, viveu pouco tempo, na cidade, pois, com apenas seis anos, mudou-se, com a família para Goiânia, onde, logo, começou a se destacar, como cantora lírica ( soprano ), sendo sempre convidada, pelo governador, Pedro Ludovico, a se apresentar, nas solenidades oficiais do Estado de Goiás. Mudando-se, depois, para o Rio de Janeiro, aprimorou seus estudos de canto, na Escola Nacional de Música, fazendo, depois, diversas apresentações, no Teatro Municipal e, na Radio do Ministério da Educação. Dos quinze concursos, dos quais participou, ganhou quase todos eles. Regressou, mais tarde, a Goiânia, onde assumiu a vaga de Professora de Canto, da Universidade Federal de Góias.

Entre outras cantoras líricas, de expressão, da cidade, podem ser citadas: Sylvia Riccioppo (soprano), Cordélia Borges, Arailda Gomes Alves ( soprano ligeiro ) - também escritora, cronista de muito fôlego, com vários livros publicados, entre eles, " A Voz Que Pensava Demais", " Poetas Del Mundo em Poesias " e "A Saga dos Frateschi" -, Dora Bellochio, Adelaide Novaes, que se apresentou, em diversos recitais, em Belo Horizonte, e Eleusa Fonseca ( sopranos ligeiros ). Essa ultima foi também, atuante agente cultural, criadora do Núcleo Artístico e Cultural da Juventude - NACJ -, entidade, que dominou as atividades artístico-culturais, na cidade, na década de cinquenta, do século passado.

Eleusa foi igualmente a criadora do " Presépio ao Vivo", encenando, com crianças, durante dois, ou três anos, consecutivos, as cenas do nascimento de Cristo, nas escadarias da Catedral, uma tradição, que deveria ter sido mantida. Como atriz, ela integrou o Departamento de Teatro do NACJ, participando das montagens de " Casa de Bonecas ", de Henrik Ibsen, sob minha direção, e de " Assim é, se lhe Parece", de Luigi Pirandello, sob a direção de Petrônio Borges. Outras atrizes, que, como Eleusa, se projetaram, na referida instituição, foram: Lígia Varanda, Irene Dias, Terezinha Teixeira e Venina Nunes.

Por não ter conseguido o apoio da Câmara Municipal - impulsionada, em sentido contrário, por Alda Loes Frateschi, e pelo vereador Dioclécio Campos - para a construção, na Praça de Santa Rita, do Teatro de Alumínio, projetado por Germano Gultzgolf, cuja construção tinha recursos, aprovados pela Assembleia Legislativa do Estado, decepcionada, Eleusa abandonou, de vez, suas atividades culturais e, infelizmente, anos mais tarde, por exercer a benemerência, a quem nao a merecia, teve morte, de forma trágica, violenta.

Na linha de cantoras populares, deve ser citada ainda Martha Mendonça, nome artístico de Irenice Mendonca Ferreira, nascida, na cidade, em 1940, que alcançou certo tipo de popularidade, em São Paulo, por ser casada, com o cantor capixaba Altemar Dutra, morto prematuramente.

Vale aqui ressaltar a importância, que Dona Quita Próspero deu ao desenvolvimento da cultura e das artes, em Uberaba, durante o mandato, de seu marido, Dr Antônio Próspero, como prefeito da cidade ( 1951 - 1955 ). De fato, nenhuma Primeira-dama, nem antes, nem depois dela, colaborou tão intensivamente, com o movimento cultural, na cidade, especialmente com o teatro - a arte, que mais amava -, pois, foi ela a incentivadora da criação do Teatro do Estudante, sob a minha direção, vinculado ah União Estudantil Uberabense.

Sob os auspícios, de Dona Quita, foi realizada a primeira, e única, Semana do Teatro, em Uberaba, que, além da encenação de vários autores brasileiros, até mesmo um do Triângulo Mineiro, contou, com a presença do embaixador Paschoal Carlos Magno , recebido por ela, no aeroporto da cidade, criador do Teatro do Estudante, do Rio de Janeiro, revelador de inúmeros talentos do teatro brasileiro, como Sérgio Cardoso, Cacilda Becker, Ítalo Rossi, Teresa Raquel, Sérgio Brito e outros. A Primeira-dama se entusiasmava tanto, com o desempenho dos atores do Teatro do Estudante, que nos acompanhou, por duas vezes, para apresentacoes, sempre muito concorridas, na cidade de Sacramento, localizada também, no Triângulo Mineiro.

No setor político-administrativo, da cidade, destaca-se também o nome de Helena de Brito, primeira mulher eleita, para a Câmara Municipal, graças ah popularidade, que ganhou, ao criar cursos de catequese, ministrados, principalmente, por frades Dominicanos, como o Juventude Estudantil Católica - JEC -, o Juventude Universitário Católica - JUC, o Juventude Operária Católica, além de outros mais, que tinham, por sede, um edifício, localizado, na Praça do Uberaba Tênis Clube, atrás da Faculdade de Medicina.

A primeira modista da cidade - especializada, porém, em trajes, e adornos ( bouquets e grinaldas), para noivas, pois, era também florista, com curso de formação, em São Paulo -, foi Dona Nair Ribeiro, criadora da loja " A Noiva ", localizada, na Rua Arthur Machado, no trecho, que fica, entre a Avenida Leopoldino de Oliveira, e a Praça Ruy Barbosa, a qual atraia clientes de todo o Triângulo Mineiro. Dona Nair, inspiradora de Marquito, estilista uberabense, de fama internacional, especializou-se também, na arte da ornamentação de igrejas, para as cerimônias religiosas de casamento. E, posteriormente, dedicou-se ainda a criar fantasias carnavalescas, para concorrer aos prêmios dos famosos bailes do Jockey Clube de Uberaba.

Numa época - década de cinquenta -, em que, antes das sessões cinematográficas, de oito da noite, aos domingos, no Cine Metrópole, acontecia um verdadeiro desfile de elegância das mulheres uberabenses, ao som da "Marcha Turca", de Mozart, outra modista famosa, especializada, em vestimenta sob medida, bem como trajes de noite, era Dona Santinha Roberto, que tinha seu ateliê de costura, montado, em sua ampla residência, cercada de um vasto, e arborizado quintal, situado, no bairro Estados Unidos. Dona Santinha também aderiu ah feitura de fantasias para concorrer aos prêmios dos bailes carnavalescos, do Jockey Clube de Uberaba.

Como os bordados estavam, em alta, tanto, nas fantasias carnavalescas, como, nos vestidos de noivas, e também, nos trajes de noite, o ateliê, liderado por Adélia Novaes Andrade, e suas duas filhas, Arailda e Romilda Novaes Andrade, localizado, na Avenida Presidente Vargas, era o mais solicitado, o qual recebia, igualmente, alunas, desejosas de se iniciarem, na profissão de bordadeira, uma das mais rendosas, de então.

No setor da pecuária, amplamente liderado por homens, como já disse, o nome de Dona Ibrantina de Oliveira Penna, viúva do criador José Jorge Penna, precisa ser lembrado, entre os introdutores do gado zebu, nos rebanhos do Triângulo Mineiro. Em 1920, a fazenda Cedro, origem do rebanho JJ, de propriedade do casal, importou, da Índia, dois bois, de raça apuradíssima, Africano e Lobishomem. Esse segundo conquistou, logo, o concurso da I Exposicao de Gado Zebu de Uberaba.

Após a morte do marido, Dona Ibrantina assumiu o comando da fazenda, tida então como matriz da raça Gir. Foi, nessa fase, que nasceu Turbante, filho de Lobishomem, que venceu o concurso Rei Zebu, promovido pela Exposição de Uberaba, considerado como o touro mais forte, produzido, no Triângulo Mineiro. Dona Ibrantina foi também magnânima assistente social, pois, enquanto a situação lhe foi favorável, promovia farta distribuição de cestas de alimentos para a população mais pobre de Uberaba, nas festas de finais de ano.

Nomes, que merecem ser reverenciados, no setor do magistério, são os de Irma Domitila Ribeiro Borges, o de Eunice Puhler, o de Leila Venceslau Rodrigues da Cunha, todas também escritoras, e o de Lourdes Fernandes Pontes, que se dedicaram, por longo tempo, ah profissão. A primeira, durante 36 anos; a segunda, criadora e diretora do Grupo Escolar Uberaba, e, durante 30 anos, do Colégio Dom Eduardo; a terceira, durante 27 anos, lecionou Português e Literatura, na Escola Agrotécnica; e, a quarta, que permaneceu 25 anos, em sala de aula. Todas elas demonstraram uma exemplar lição de amor ah profissão, que abraçaram, a de ensinar, o que não é muito comum, nos dias, que correm.

Igual merecimento se deve reconhecer, em relação à Dona Cecília Palmerio, que não só ajudou o marido, Mário Palmério, a criar, mas também a administrar, o Colégio do Triângulo Mineiro, pedra angular das Faculdades, que constituem, hoje a Universidade de Uberaba - Uniube, onde estudei. Dona Cecília da nome, hoje, a um centro cultural, vinculado à Uniube. Vale aqui lembrar, a propósito, que foi da Faculdade de Medicina, criada por Mario Palmério - mais tarde, federalizada por Juscelino Kubitschek -, que se graduou a primeira médica uberabense, Dra, Nilza Martinelli.

Mas outros nomes, da mesma têmpera, devem ser mencionados, como as irmãs, Corina e Olga de Oliveira. A primeira, foi, por longos anos, diretora do Grupo Escolar Brasil, e, a segunda, lecionou, também, por longo período, na Escola Normal de Uberaba, a língua, e a literatura francesas, pelas quais era apaixonada. Entre suas preferências literárias, figuravam Alfred de Musset e Chateaubriand.

Ainda, na Escola Normal, merecem citação: Laura Pinheiro, da cadeira de Ciências Naturais, Esperanca Ribeiro Borges - artista plástica, como Estela Chaves, que produzia, da areia, as tintas, por ela usadas, em suas pinturas, e, também como, Sonia Carolina Batista de Andrade, poeta, escritora, artista plástica e psicanalista, hoje, radicada, em Brasília, ilustradora dos próprios livros, como "Falando de Amor".

Outros nomes, que se dedicaram ao magistério, foram: Edith Novaes França e, sua sobrinha Adilia Novaes França; Hilda Martins; iaiá Pontes; Terezinha Macciotti, Marília de Oliveira Magalhães - coordenadora de pessoal, da área de ensino, abrangendo mais de 20 municípios, do Triângulo Mineiro -, Maria de Lourdes Melo Praes, igualmente escritora ( " Educaderno e Caderno de Cultura ", "Administração Colegiada da Escola Pública ", " Escola: Currículo e Ensino ", " Escola Cidadã ", e outros ), e Geni Chaves, que escreveu uma gramática funcional e, mais tarde, mudando-se, para Brasília, criou um curso de alfabetização.

Tanto, na área do magistério universitário, como, na da consultoria jurídica, ou, no setor da benemerência social, um nome, que se evidencia, na atualidade, é o da Dra. Mirto Fraga, detentora de um curriculum notável, que a credencia, sem dúvida, entre as mulheres importantes para a cultura de Uberaba. Ela estudou, no Colégio Cristo Rei, na Escola Normal Estadual, e na Faculdade de Direito, da Uniube. Exerceu o magistério universitário - Direito Constitucional, Direito Público e Constitucional, Teoria Geral do Estado, Introdução ah Ciência Política e Prática de Processo Civil -, na Faculdade, em que se formou ( 1966 ). Ainda, na cidade, lecionou - Instituições de Direito Público e Instituições de Direito Privado -, na Faculdade de Ciências Econômicas do Triângulo Mineiro. Na Universidade de Brasília - UnB -, em substituição ao Dr, José Francisco Rezek, designado para integrar a Corte de Haia, lecionou Direito Internacional Público.

A Dra Mirto Fraga exerceu a advocacia, em Minas Gerais, de 1962 a 1976. Foi consultora do Instituto de Pesquisas, Estudos e Assessoria, do Congresso Nacional, e integrou o Ministério Público, de 1977 a 1985. Foi Assessora, na Câmara do Deputados e, no Senado Federal, e Consultora da Advocacia-Geral da República. Integrou diversos Grupos de Trabalho e participou de várias missões, no exterior, como integrante, por exemplo, da Delegação Brasileira, nas negociações do Tratado de Extradição, com a França. Tem inúmeros trabalhos publicados, em jornais e revistas especializadas, como " A Dupla nacionalidade, no Direito Brasileiro", e muitos outros, principalmente, no campo do Direito Constituicional. Além disso, recebeu o troféu " Cecília Meireles ", no evento " Mulheres Notáveis", realizado, em Belo Horizonte, em 2004, o prêmio de " Maior Doação", na Corrida e Caminhada Contra o Câncer de Mama ( 2005 e 2006 ), e o prêmio " Solidariedade", pela efetiva colaboração, dada, para a construção do Hospital da Criança de Brasília "José de Alencar".

Aqui - a propósito da colaboração, dada pela Dra, Mirto Fraga, a várias iniciativas, em Brasília, de assistência social -, é preciso lembrar também o valoroso trabalho, em Uberaba, de Aparecida Conceição Ferreira ( Dona Aparecida ), que, sozinha, contando apenas, com doações, colhidas, por ela própria, nas ruas da cidade e, posteriormente, nas de São Paulo, construiu o Hospital do Pênfigo ( Fogo Selvagem ), em 1959. Nascida, em Igarapava, Dona Aparecida, quando chegou ah cidade, com marido e filhos, foi trabalhar, como enfermeira, no setor de isolamento, da Santa Casa de Uberaba, que, em certo momento, teve de suspender, por ser difícil e dispendioso, o tratamento dos portadores da doença. Inconformada, com o que via, Dona Aparecida levou todos os pacientes, para a sua casa, iniciando, assim, a sua luta, pela criação do Hospital. Foi, mais, ou menos, por essa época, que, de forma providencial, Chico Xavier apareceu, na cidade e, impressionado com a abnegação de Dona Aparecida aos doentes, passou a ajudá-la, em sua fervorosa batalha.

Muito antes desse grande feito de Dona Aparecida, entretanto, ou mais precisamente, na década de trinta, a senhora Maria Modesto Cravo ( Dona Modesta ), nascida, na cidade, em 1899 , que teve formação católica, inspirada nas palavras do médium espírita Eurípedes Barsanulfo, de Sacramento, após o surgimento nela dos primeiros fenômenos mediúnicos, criou, em 1934, o Sanatório Espírita de Uberaba, cujo projeto recebeu mediunicamente. Em 1938, o Sanatório foi inaugurado, pelo presidente do Centro Espírita de Uberaba, o sanitarista Dr. Henrique von Krugger, tendo como diretor clínico, o Dr. Inácio Ferreira. -, também de orientação espírita e, como psiquiatra, seguidor da linha de pensamento de Freud. Atualmente, o Sanatórios Espírita passa por grandes dificuldades para continuar, prestando assistência aos portadores de doenças mentais.

A História, infelizmente, não guardou os nomes das muitas enfermeiras, que, no século XIX, enfrentando inúmeras dificuldades, cuidaram dos soldados, doentes, feridos, participantes das forças militares, para a campanha de Mato Grosso, ao eclodir a Guerra do Paraguai, os quais chegaram ah cidade, em 18 de julho, de 1865, depois de uma viagem de quatro meses, vencendo distância de 93 léguas, desde Santos, no Estado de São Paulo. Essas enfermeiras merecem também, penso eu, terem, aqui, suas memórias reverenciadas.

É no setor do jornalismo e das letras, contudo, que as mulheres importantes para a cultura de Uberaba são mais numerosas, de acordo, com a " Coletânea Biográfica de Escritores Uberabenses", organizada por Sonia Maria Rezende Paolinelli, publicada pela Sociedade Amigos da Biblioteca Pública Municipal " Bernardo Guimarães". Destaca-se, nesse sentido, o nome de Ina de Sousa, que, com um irmão, Nicanor de Sousa Junior, criou a famosa revista " Graça e Beleza", impulsionadora da vida social da cidade, nas décadas de quarenta e cinquenta. Suas crônicas foram reunidas no livro " Fragmentos ", o único, que publicou, em vida.

Iná de Sousa, que foi também diretora da Biblioteca Municipal " Bernardo Guimarães", empenhou-se, ao lado de Eleusa Fonseca, na frustrada campanha para construção de Teatro de Alumínio, sucedendo-a, depois, na presidência do Núcleo Artístico e Cultural da Juventude - NACJ. Idealista, Ina - em companhia da vice-presidente da entidade, Mirthes Bruno, também grande artesã - nao se furtou, em me ajudar, na tarefa de adaptar um barracão da Prefeitura, localizado, na Rua 13 de Maio, cedido ao NACJ, sob a forma de comodato, pela primeira administração de Arthur de Mello Teixeira ( 1955-1959 ), num Teatro de Bolso, de 120 lugares, inaugurado, em maio, de 1958, com a montagem da peça " Cândida", de George Bernard Shaw, sob minha direção. A criação do Teatro de Bolso foi o tema escolhido por Luíza Ritz Bertocco, natural de São Paulo, para o seu excelente trabalho de graduação, em Letras, pela Universidade do Triângulo Mineiro, o qual, lamentavelmente, necessitando de patrocínio, permanece inédito!...

Ainda, no setor do jornalismo, as figuras femininas, que despontam, com base em informações colhidas, no livro " Periódicos Culturais de Uberaba ", de Guido Bilharinho, são: Maria Aparecida Manzan, criadora, no âmbito do Arquivo Público de Uberaba, da revista " Documento e História" ( 1989 ), do boletim informativo " Acervo Cultural" ( 1990 ), da revista " Memória Viva " ( 1990 ) e " Cadernos de Folclore" ( 1993 ), que surgiu, com uma edição especial, dedicada ahs Folias de Reis, a qual revelou outra pesquisadora, de mérito, Sonia Maria Fontoura; professora e escritora Vânia Maria Resende, responsável pela série, de sete livros, sob o título " Antologia Literária Infanto-juvenil Vinicius de Moraes ", com textos de crianças e jovens, do Estado de Minas Gerais, e pela editoria do jornal " Nova Dimensão", da Secretaria Municipal de Educação; Lenice Sivieri Varanda, editora da revista " Reflexos"; Marcia Maldonado, editora da revista " Voila ";

Devem ser citadas ainda: Ellen Gomes, editora da revista " Revista da Zito"; Marisa Borges de Brito, editora de " Ponto de Encontro"; Eva Reis, poeta, autora do livro " A Fiandeira", e editora do jornal " A Trova Na Trova"; Adriana Helena Soares, editora de " Cidade Atual " ; Mariana do Espírito Santo, editora do jornal literário " MUH!"; e Lídia Prata Ciabotti, presidente do Grupo JM, que edita há mais de 45 anos, o " Jornal da Manhã", cujo acervo, foi adquirido, recentemente, pelo Arquivo Público Municipal, o qual já havia adquirido o do " Lavoura e Comércio " ( 1899-2003 ). Ambas aquisições se deram na gestão de Marta Zednik de Casanova, também autora do livro " Biblioteca Pública Municipal " Bernardo Guimarães" - Evolução Histórica: 1909 - 2009 - Um Século de Cultura ", lançado, nas comemorações do centenário da Biblioteca.

Na " Coletânea Biográfica de Escritores Uberabenses ", organização de Sonia Maria Rezende Paolinelli, figuram ainda as seguintes escritoras, citadas aqui, com algumas de suas obras: Ana Maria Leocádio ( " Eu e a Paz", poesia ); as irmãs, gêmeas, Ani e Iná ( " Gêmeos, Semelhança Oculta", " Viagem Cósmica" ) ; Brunhrild Maria Fátima de Souza ( " Ovo de Gente" e " Engenharia, Arte de Construir Vidas " ); Consuelo Pereira Rezende do Nascimento ( " Mundo Esse ", " Em Tempo", " Narco-Íris ", poesias ); Déa Rodrigues da Cunha Campos Rocha ( " Os Comes e Bebes, nos Velórios das Gerais, e Outras Histórias " ); Delia Maria Prata Ferreira ( " Do Silva ao Prata" ); Dirce Miziara ( " São Paulo aos Coríntios, na Passagem do Século" ); Irmã Domitila Ribeiro Borges ( " Fonte Selada" , " Flor Intocada", " O Santo Que Me Encantou " ); Eliane Mendonça Márquez de Resende ( " Uberaba, Uma Trajetória Sócio-Econômica 1811-1940", " Arquivos Cartoriais " , " Guia Curricular de História" e " ABCZ: História e Histórias";. Eliete Rodrigues Pereira ( " O Poder do Sexo" ); Elza Hermínia Sabino Mendes ( " Retalhos de Vidas" , " Porto Alegre: Essa Doce Gaúcha" , " Tributo de uma Vênus " ).

São citadas ainda, na " Coletânea ": Eunice Puhler ( " Menino do Mar ", " Menino de Cristal ", " Menino do Cerrado" , " Menina Rosa ", " Menina dos Olhos de Deus ", " Coração do Cerrado ", " As Mil e Uma Ruas Por Onde Andou... Minha Infância ", e outros ) ; Eva Reis ( " Fiandeira " , " Cantares: Trovas de Outono "; Gina Mara Silva ( " Sementes de Amor " ); Leila Venceslau Rodrigues da Cunha ( " Improvisos " ) ; Lourdes Marques de Almeida ( " Cantando Vivências " , " Quando eu Crescer " ); Lusa Almeida Soares de Andrade ( " Barracão de Barro: Cerâmicas" ) ; Magda Vilas-Boas ( " Relaxamento Com Crianças", " Terceira Idade: Uma Experiência de Amor " , " Crianciranda: Terapia Corporal com Crianças", " Atraindo Realizações " e outros ) ; Márcia Queiroz Silva Baccelli ( " A Porta de Céu ", " Além do Arco-Iris ", " O Violinista ", " A Estrelinha Beatriz" , " Chico Xavier Para Sempre", " O Mineiro do Século " , e outros ); Maria Abadia Enes Lombardi ( " Mel, a Abelha " ); Maria Ângela Cusinato ( "Sentimentos Escritos nas Estrelas", " Recados de uma Luz" ) ;

Na referida " Coletânea ", destacam-se também: Irmã Maria Antonia de Alencar ( " Opúsculo Uma Alma Celeste", As Flores do Meu Jardim ", " No Claustro, Com Meus Amigos ", " Meu Canto Ao Por do Sol " , " Últimas Flores " , e outros, inclusive CDs de Poesia; Maria Antonieta Borges Lopes ( " ABCZ - 50 Anos de História e Historias ", " ABCZ : Historia e Historias ", " Dominicanas: Cem Anos de Missão no Brasil ", e outros ) ; Maria Regina Basílio Teodoro dos Santos ( "Uma Palavra para Você que está..." ); Mariane Bellocchio Fontoura Borges ( " Família: Amora Doce & Limão Galego" ) ; Selma Amuí ( " Professor: Profissão ou Sina?" ) ; Suely Braz Costa ( " Cada Pessoa é uma Empresa ", " O Ministério da Família ", " Educador", " Minha Viagem ah Índia ", " Marketing Pessoal: Teoria e Prática ", e outros ); Teresa Maria Machado Borges ( " Criança em Idade Pré-escolar Escolar, " Ensinando a Ler, sem Silabar: Alternativas Metodológicas " , " Alfabetização Matemática - Do Diagnóstico ah Intervenção" ); Teresinha Caubi de Oliveira ( " Sinfonia de Quintal ", " Boa Noite, Dona Lua ", " Fuga do Pantanal", " Monólogo da Natureza ", " Encontro das Aves", " Com a Palavra, os Mamíferos ", e outros ), e Terezinha Hueb de Menezes ( " Tempesfera ", " Temas do Cotidiano ", " Quantas Saudades do Colégio Vou Levar ", e " Murilo Pacheco de Menezes, o Homem, e seu Legado)

(Foto do acervo da Casa do Folclore).

A doçaria, que hoje floresce, na cidade, começou a se desenvolver, plenamente, ao final da década de 40, do século passado, quando duas doceiras, de escol, entre outras, exercendo suas atividades, no âmbito doméstico, simplesmente, se destacaram, por suas criações, tidas, então, como originais, mas muito apreciadas, pela sociedade uberabense.

A primeira delas, foi Dona Diva Lemos de Abreu - mãe de uma Miss Uberaba, Maria Josina -, que lançou, atendendo apenas a encomendas, em embalagens de metal ( alumínio ou latão ) , um doce de leite, inigualável, com textura bastante semelhante ah do mel, meio puxento, que se mantinha, no céu da boca, por algum tempo, e de um sabor extraordinário, lembrando, um pouco, ao de um refinado chocolate, como o, que é produzido, na França, na Bélgica, e, na Suíça. Lamentavelmente, o doce de leite, hoje, produzido, nos dias, que correm, em larga escala, na cidade, nada, ou quase nada, tem a ver com o de Dona Diva Lemos de Abreu. Era verdadeiramente sublime!...

A segunda, foi Dona Acelina Novaes Magalhães, que, entre outros tipos de doces, finíssimos, por ela produzidos, também por encomendas, para festas, recuperou a receita de um manjar, a Siricaia, de origem indiana, trazida ao Brasil, pelos portugueses, no período colonial ( 1638 ). A Siricaia é uma espécie de creme ( ou manjar ), feito ah base de leite, açúcar, ovos e raspas de casca de limão. Na Índia, acrescenta-se também fruta-de-conde.

As versões de receitas da Siricaia, que derivam, da original, têm sempre um ponto em comum: o leite é fervido, antes de serem acrescentados os demais ingredientes. A receita vai ao forno, em banho-maria. No Brasil, segundo Câmara Cascudo, existem duas versões, diferentes - a da Bahia, e a de Pelotas, no Rio Grande do Sul, que, segundo ele, é a mais autêntica. Mas, de uma forma geral, não se perpetuou, entre nós, o gosto pela Siricaia, como se perpetua, até hoje, em Portugal.

Na época, a Siricaia, de Dona Acelina Magalhães, era muito servida, e apreciada, por exemplo, nas tertúlias literárias, que estavam em alta, com apresentações, em residências familiares, de cantoras e de declamadoras. Foi nessas tertúlias, por sinal, que apareceu Altiva Fonseca, declamadora dos poemas de Olavo Bilac, e de outros poetas, em voga, na época, que, por ser possuidora de timbre de voz bastante semelhante ao da rádio-atriz, Ísis de Oliveira, da Rádio Nacional, do Rio de Janeiro - de muito sucesso, então, como intérprete da novela " O Direito de Nascer ", do cubano Felix Cañet -, logo, foi contratada, pela PRE-5, para ser a primeira locutora uberabense.

Altiva era irmã do polemico advogado Pelópidas Fonseca, e tia de Eleusa Fonseca, já mencionada acima. Outras locutoras, que se seguiram, para fazerem história, na emissora, da família Jardim, foram: Iara Lins, que prosseguiu, na carreira, em São Paulo, primeiro, atuando, como locutora, na Radio Tupi, depois, mais tarde, como atriz, nas novelas, transmitidas pela TV- Tupi; Marina Márquez e Lídia Varanda, que, como também foi dito acima, integrou o Departamento de Teatro, do Núcleo Artístico e Cultural da Juventude, inesquecível intérprete da senhora Frola, personagem central da peça" Assim é, se lhe Parece", de Luigi Pirandello.

O leitor deste simples relato, compreenderá, finalmente, como assim espero, que, nele, procurei demonstrar, que os conceitos de cultura, principalmente, em nosso país, são mutáveis, pois se tornam, através dos tempos, ultrapassados, antiquados, ou obsoletos, como, por exemplo, os casos lembrados aqui dos desfiles de elegância feminina, antes das sessões de cinema, das tertúlias literárias, dos bailes carnavalescos, do gosto pela Siricaia, etc. Tudo muda, com o tempo. Como voraz absorvedor de culturas de outros povos, o Brasil, facilmente, despreza as suas culturas próprias, tradicionais.

As pessoas, porém, que vivenciam ( ou as que vivenciaram ) a sua cultura própria, sob seus variáveis aspetos, permanecem. Eternizam-se. É esse o caso das mulheres importantes para a cultura de Uberaba, aqui lembradas, que, cada uma, ah sua maneira, ou especialidade, oferece ( ou ofereceu ) sua valorosa contribuição ao desenvolvimento de nossa cidade. Deve haver muitas outras, que a mim, involuntariamente, escaparam de serem citadas, perante as quais, agora, me penitencio. A todas, porém, fica registrada a minha reverencia, o meu reconhecimento, neste ligeiro esboço de documento histórico que, no futuro, merecerá, sem dúvida, não só ser revisto, como desenvolvido, e ampliado, até eternamente!...


(Reynaldo Dommingos Ferreira)


Hino de Uberaba - MG.

Interpretação por Cláudia Falconi, possui licenciatura plena em Canto pela Universidade Federal de Uberlândia e Pós Graduação em Educação Musical pelas Faculdades Integradas de Jacarepaguá do Rio de Janeiro. Gravação realizada no dia 05 de Setembro de 2012. Centro de Cultura José Maria Barra. Letra de Ari de Oliveira Música de Gabriel Toti Da jornada de fé, corajosa De bandeiras por todo o Brasil, Tu surgiste, Uberaba formosa, Na campina, sob um céu de anil. És Uberaba, o formoso E mais rico florão, Desde nosso sertão Valoroso. Oh! Grande terra gentil, Um torrão sem igual, No Planalto Central Do Brasil Não transiges com teu inimigo, Mas acolhes, gentil, em teu colo, Os que vêm ao trabalho, contigo, Procurando elevar o teu solo. És Uberaba, o formoso E mais rico florão, Desde nosso sertão valoroso. Oh! Grande terra gentil, Um torrão sem igual, No Planalto Central Do Brasil tuas matas, teus campos, teu montes, De riquezas sem par, peregrinas, Construíram, entre teus horizontes, A mais bela das jóias mais finas! És, Uberaba, o formoso E mais rico florão, Desde nosso sertão valoroso. Oh! Grande terra gentil, Um torrão sem igual, No Planalto Central do Brasil.
Extraído do Grupo Difusão - Gilberto de Andrade Rezende - (Casa do Folclore.)

Fanpage: https://www.facebook.com/UberabaemFotos/

Instagram: instagram.com/uberaba_em_fotos

Cidade de Uberaba