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quarta-feira, 17 de abril de 2019

...O novo me fascina.

Por fatalidade nasci precocemente envelhecido.

Tremendamente velho. Incapaz de fecundar.

Sinto-me enjaulado no sudário escuro de palavras gastas
e envelhecidas.

Esclerosadas. Algemadas à linha etimológica da origem.

Quero falar a língua virgem das palavras inexistentes,
mas as vestes macias e empoeiradas dos vocábulos desgastados efeminam minha força, castram minha masculinidade.

Sinto as dores do parto da noite que tenta dar à luz a
aurora e pare apenas uma candeia bruxuleante.

A fosforescência da palavra gasta dissolve em estilhaços
a força luminosa do relâmpago. Queria falar a língua do raio
e da borrasca e apenas balbucio a linguagem medrosa da brisa.

" Novo-velho, velho-novo", aspirando ao futuro mas algemado ao passado, garanhão castrado, viril efeminado, vivo a contradição e o absurdo.

Quero ser a verdade e dissolvo-me na mentira.

A austeridade é meu programa, mas o luxo me fascina.

Fiz da liberdade a minha deusa, mas a escravidão cômoda me alicia.

Quero assumir mas a responsabilidade me amedronta.

Quero viver perigosamente mas o risco me apavora.

Quero-me livre mas sinto-me algemado.

Sado-masoquista, quero perfurar e ser perfurado.
Sou eu, e não sou eu.

Sinto-me singular e múltiplo, uno e dividido, inteiro e fraturado.

Não me auto-identifico. Já sou, já não sou. Apenas existo.

Eu sou a ideia-contradição. A lógica. A irrealidade do real,
sou apenas o dever de pensar.

Sou o paradoxo - Sou o HOMEM.


( Poeminha do saudoso prof. Paulo Rodrigues, da antiga Fista, em plena crise existencialista, em 1979)


Cidade de Uberaba

Nasci

Sempre desejei nascer.

Antes de ser, já queria ser.

Apesar dos anticoncepcionais da auto-censura, nasci.

Sou um pensamento-neném, precocemente envelhecido.

Sinto-me umedecido pelo líquido amniótico que me envolvia
no ventre cefálico que me gerou.

Nasci mutilado, revoltado. Rebelde, contraditório.

Rebelde, cortei a linha que me amarrava ao útero materno,
na escuridão indecisa e morna de uma eterna e segura dependência, e rumei para a insegurança, para o mistério, para a dúvida.

Nasci. Mas tive vergonha de ser um pensamento nu.

Procurei vestir-me com a roupagem fosforescente da palavra.

Passei do mundo incolor da abstração ao mundo acariciante do som e da cor. Por fatalidade fui um mal nascido.

Nasci plebeu, sem genealogia histórica e sem linha.

Nasci rebelde.

Detesto linhas que prendem.

Odeio qualquer palavra que destile opressão e limite.

Há linhas que prendem, oprimem e escravizam.

Odeio a linha que prende o peixe livre das grandes águas.

A linha que amarra a pipa livre no vasto céu.

A linha fria de aço que segura o trem
e o submete a um destino marcado e sem opções.
A linha que amarra o navio ao cais
e lhe nega o perigo da viagem.

A linha gráfica que encurrala o espaço indefinido na dimensão
da figura. A linha mentirosamente azul
que fecha o horizonte, num círculo. A linha luminosamente reta
que prende a estrela a meus olhos e a torna meu objeto.

Odeio linhas moralísticas que cindem dogmaticamente o certo
e o errado.

As linhas friamente lógicas
que dividem a verdade e o erro. As linhas freneticamente
subjetivas que separam o belo e o feio.

Tenho nojo das linhas que escravizam o homem livre
aos padrões ideológicos ou sociais.

Detesto linhas. Odeio limites.

Adoro o infinito, o intangível, o inacessível, o inefável.

Nasci rebelde e iconoclasta. Meu prazer é quebrar ídolos.

Gosto de estuprar virgens tradicionais. Violentar certezas absolutas. Amo as defenestrações. Adoro engravidar formas novas.

O novo me fascina.

Por fatalidade nasci precocemente envelhecido.

Tremendamente velho. Incapaz de fecundar.

Sinto-me enjaulado no sudário escuro de palavras gastas e envelhecidas.

Esclerosadas. Algemadas à linha etimológica da origem.

Quero falar a língua virgem das palavras inexistentes,
mas as vestes macias e empoeiradas dos vocábulos desgastados efeminam minha força, castram minha masculinidade.

Sinto as dores do parto da noite que tenta dar à luz a aurora
e pare apenas uma candeia bruxuleante.

A fosforescência da palavra gasta dissolve em estilhaços a força luminosa do relâmpago. Queria falar a língua do raio e da borrasca e apenas balbucio a linguagem medrosa da brisa.

"Novo-velho, velho-novo", aspirando ao futuro mas algemado ao passado, garanhão castrado, viril efeminado, vivo a contradição e o absurdo.

Quero ser a verdade e dissolvo-me na mentira.

A austeridade é meu programa, mas o luxo me fascina.

Fiz da liberdade a minha deusa, mas a escravidão cômoda me alicia.

Quero assumir mas a responsabilidade me amedronta.

Quero viver perigosamente mas o risco me apavora.
Quero-me livre mas sinto-me algemado.

Sado-masoquista, quero perfurar e ser perfurado.

Sou eu, e não sou eu.

Sinto-me singular e múltiplo, uno e dividido, inteiro e fraturado.

Não me auto-identifico. Já sou, já não sou. Apenas existo.

Eu sou a ideia-contradição. A lógica. A irrealidade do real,
sou apenas o dever de pensar.

Sou o paradoxo - Sou o HOMEM.


( Poeminha do saudoso prof. Paulo Rodrigues, da antiga Fista, em plena crise existencialista, em 1979)


Cidade de Uberaba