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quinta-feira, 19 de novembro de 2020

MÁ ESCOLHA

Conversando domingo no zap com uma amiga, surgiu uma conversa sobre a escolha do nome do filho de outra amiga dela. A amiga estava indecisa entre Salomão e Joaquim.

Quando ela me perguntou o que eu achava, optei por Salomão e imediatamente me veio a lembrança de um fato acontecido com um “cambista” cego que se chamava Salomão.

Cambista é um vendedor ambulante de loterias e naquela época - década de 80 – sem a inclusão que existe hoje, as oportunidades para um cego trabalhar eram pouquíssimas e uma dessas atividades consistia justamente em ser vendedor ambulante de bilhetes ou “cambista”, como são chamados.

Grande parte dos cegos adultos internados no Instituto dos cegos de Uberaba trabalhavam como cambistas na nossa loteria, comprando os bilhetes com algum deságio e revendendo-os por um preço acima do estampado na face dos mesmos, auferindo assim um bom rendimento semanal.

Me recordo ainda de alguns deles, tais como o Inocêncio, jogador de truco, (isso mesmo; jogava com amigos no Bar do Lara com baralho em Braile) que vendeu o bilhete Nº 00389 premiado com o primeiro prêmio em um sorteio de fim de ano.

O Antônio Marcos que volta e meia era atropelado, o Darcy e o Zé Augusto que vendiam seus bilhetes nas cidades vizinhas do estado de São Paulo, e o Pula-pula, que não é cego, porem deficiente e que até hoje vende seus bilhetes na porta do Banco do Brasil.

Além desses, tinha um cambista do Abelzinho Toledo, cego também e que foi namorado de uma amiga da minha esposa. Consta que esse tal era muito paquerador e mesmo namorando, se engraçava com outras mulheres; porem dadas as dificuldades de esconder as escapadas em virtude de não saber se a namorada ou alguma amiga dela estivesse no barzinho do encontro com a “filial”, foi flagrado pela “matriz” em uma dessas escapadas furtivas, onde levou, além do fora das duas, uma descompostura monumental. Da matriz e da filial.

Voltando ao Salomão, ele era um dos bons vendedores de bilhetes, vendendo mais de cinquenta bilhetes inteiros por extração, porem às vezes não conseguia vende-los todos e quando isso acontecia era obrigado a concorrer com as sobras, que normalmente, seguindo a Lei de Murphy, raramente eram premiados.

Os bilhetes mais fáceis de vender eram os bichos chamados de “escolhidos”, tais como Cobra, Borboleta e Vaca, e os piores eram Avestruz, Veado, Peru, nessa ordem. As extrações, como é ainda hoje, aconteciam às Quartas-Feiras e Sábados e o grande prêmio era para quem comprasse a quina fechada (que consistia em cinco bilhetes com o mesmo número) e acertasse o numero correspondente ao primeiro prêmio.

Pois bem, em um sábado bem já de tardinha, perto da hora de correr a extração, o Salomão estava amargando um encalhe de duas quinas, ou seja, dez bilhetes, e para piorar, duas quinas do mesmo bicho, justamente o bicho que ninguém comprava. 

As duas quinas eram do bicho “Avestruz”; uma com o final 04 e a outra com o final 01 (a pior delas para vender).

Já desanimado, subindo a Rua Padre Zeferino, rumando para a pensão da Serginha e do Emílio, na Martim Francisco ao lado da “Farmácia do Babá”, onde morava também a Núbia de Oliveira, parou em frente ao consultório do meu amigo dentista Além Mar Paranhos, que era a sua última esperança de desencalhar pelo menos uma das quinas.

Do alpendre do consultório ele gritou o “Mazinho” (apelido do Alem Mar) que saiu na porta e depois de alguma negociação o Mazinho combinou que pagava na lista, isto é: depois que o Salomão levasse a lista com os resultados e conferissem. Era comum esse procedimento.
Fechada a negociação o Mazinho não quis ficar com as duas quinas e passou para a fase de escolher a quina com a qual concorreria.

Quando olhou as duas Avestruzes, o Alem Mar fez cara feia, mas como já tinha combinado, escolheu os bilhetes terminados em 04 e voltou para seus afazeres no consultório.

Meio aliviado por ter diminuído o prejuízo, o Salomão atravessou a rua batendo a bengala no meio fio e assim que subiu na calçada, uma caminhonete encostou ao seu lado e o motorista perguntou para o Salomão se ele ainda tinha bilhete para o sorteio da tarde.

Ele assentiu e o freguês perguntou:

-Tem Avestruz? Quero uma quina do Avestruz com o final 01!!!!

O Salomão pensou: meu Deus, é muita sorte!

Seguindo a lei de mercado, tendo procura, aumenta-se o preço e o Salomão vendeu a quina com um belo ágio, e foi feliz bebericar uma cerveja no “Cacique”, onde ficou até tarde da noite.

Chegando na pensão, o Emílio abre a porta para ele e diz que o Mazinho o esteve procurando e como ele não estava, resolveu deixar uns bilhetes para que o Emílio lhe entregasse.

A Serginha ao lado comentou que o Mazinho estava com cara de desolado e pediu ao entregar os bilhetes para que dessem os parabéns pra ele, que ele merecia.

- Deu o final, pensou o Salomão, sendo assim o bilhete havia sido premiado com o mesmo dinheiro que custou e a dívida estava quitada.


Mas parabéns por que? O Salomão ficou sem saber até no outro dia quando os dois se encontraram na missa da igreja São Domingos.


Explico: a quina terminada com o final 01 foi contemplado com o primeiro prêmio daquele sábado e o Mazinho achava que o Salomão não conseguira vender os bilhetes, tendo por consequência ganhado a bolada e ficado rico.

Foi isso que havia acontecido.
Rezaram e choraram bastante juntos.


Marcelo Caparelli

terça-feira, 3 de novembro de 2020

JOGO DO BICHO

Meus avós nasceram, cresceram e se casaram em uma pequena comunidade no sul da Itália, região da Calábria, por nome de Mongrassano.

Fugindo das dificuldades do pós guerra embarcaram em Nápoles e desembarcaram no porto de Santos no ano da semana de artes modernas de 1922 em um navio chamado Cesare Battisti.

Vieram nessa leva meu avô, minha avó que estava grávida do meu pai e a Tia Anita com dois anos.

Muitos anos depois, a “nona”, que era assim que nós a chamávamos, me contou que ao desembarcar em solo brasileiro, o “nono” tapou seus olhos para que a sua primeira visão de humanos no Brasil não fosse a de um negro e assim, por consequência, o bebê não nascesse negro, visto que eles jamais haviam contemplado um “niuro” (era assim que ela os chamava).

Eles vieram na esteira do Tio Eduardo que já havia imigrado anos antes e era irmão da nona.

Sendo um exímio alfaiate havia se estabelecido em Uberlândia e era pai do “Fabinho”, sobrinho e próspero (e põe próspero nisso) banqueiro do “jogo do Barão”, vulgo jogo do bicho.

Meu avô veio para Uberaba em 1939 seguindo os conselhos do Fabinho, para abrir aqui uma, digamos, filial do negócio dele em Uberlândia e montou a “casa lotérica “Estrela Aparecida” que ficava em uma das lojas do Hotel Modelo na Artur Machado.

Ali, além de fazer o jogo do bicho, vendia bilhetes e, conta meu tio Benito, tinha uma roleta nos fundos, onde, por ser um tanto quanto barrigudo, controlava a parada da bolinha apertando um botão estrategicamente posicionado, pressionando esse botão com a “pança”.

Mas isso já é folclore.

O certo é que com esse DNA a família toda gostava de qualquer tipo de jogo, inclusive eu, que com 15, 16 anos, já jogava baralho, sinuca, pebolim, além de apontar o jogo do bicho, tendo na família alguns dos meus melhores clientes.

Todos sabem (pelo menos os viciados) que a chave para ganhar no jogo é ter um sonho e decifrá-lo corretamente. Sabendo essa arte, é batata acertar um pulo, um grupo, ou até mesmo uma centena. Existem até livros que ensinam como desvendar todos os mistérios dos sonhos e transformá-los em palpites certeiros.

A tia Ilza, (Ilza Cussi – mãe da Rosa, da Ângela, da Alzirinha e da Sandra) era uma expert nessa arte e muitas vezes acertava os palpites.

Certa feita, ela me ligou e pediu para jogar dois cruzeiros no grupo do Leão na cabeça. Eu perguntei, querendo que ela apostasse um pouco mais, se ela não queria jogar mais dois cruzeiros de 1º ao 5º que era para salvar a aposta.

Ela não quis e disse enfaticamente:

Vai dar na cabeça, eu sonhei. Meu sonho não falha!

Anotei no talão, entreguei a cópia e no fim da tarde olha o Leão na cabeça!

A tia ganhou 36 cruzeiros que eu, no outro dia fui levar para ela.

Morrendo de curiosidade para saber o sonho da tia, já fui logo perguntando ao entregar o dinheiro:

- Mas que sonho certeiro foi esse, tia?

Ela não se fez de rogada e contou o sonho:

- Sonhei que era menina e estava catando jurubeba no mato com a Mariita.

- ?!?!?!???!?!?!?!?!??!?!?!?... Uai tia, o que tem a ver?

Com aquele jeito educado de ser ela responde:

- Você é burro? Olha em cima da mesa.

Olhei e tinha uma garrafa de vinho que era muito popular naquele tempo.

“Jurubeba, Leão do Norte”.

Saí sorrindo e pensando: - Vai decifrar sonhos assim no inferno!!!!

Marcelo Caparelli 

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

“COCOZINHO”

Uma outra passagem do meu falecido pai:

Já no seu leito de morte, minha mãe, dona Mariita (com dois “is” mesmo) se revezava com uma cuidadora nos cuidados do meu pai, que sendo acometido pela diabete, teve, além de um AVC, os rins e a visão comprometidos, ficando acamado permanentemente no último ano de sua vida, porém sem perder nunca a lucidez.

A cuidadora que atendia por Marlene, entrava às sete da manhã e ficava até às cinco da tarde e uma das tarefas que ela executava assim que chegava, consistia em trocar meu pai, já que ele foi obrigado a usar fraldas geriátricas, dada a sua total impossibilidade de locomoção.

A Marlene, assim como a maioria das cuidadoras e enfermeiras em geral, tinha a tendência de infantilizar o paciente, usando e abusando dos diminutivos com expressões do tipo: “a comidinha tá pronta”; “quer um leitinho?” “tá na hora do seu banhozinho” e assim por diante.

Meu pai não falava nada, mas acho que ele não gostava muito daquilo, até que um dia, a Marlene, chegando em casa, encontrou, como sempre, meu pai já acordado e, de praxe, começou com o martírio, tentando puxar conversa com ele:

- Bom dia “seu” Armando, passou bem a noite?

E ele, mentindo, porem altivo e resignado manteve o diálogo
- Muito bem Marlene...sonhei que estava pescando com o Tufizinho (pai do Cássio Facure) e o Ari (Ari Rossi, irmão de maçonaria e companheiro de pescarias).

- Que gracinha, seu Armando, continuou ela, sem prestar atenção na pescaria dele e já cortando a sua fala, quase que maquinalmente lascou duas perguntas absolutamente impertinentes e constrangedoras:

-Fez cocozinho, seu Armando?

- Fiz sim, respondeu ele, já meio sem paciência.

- Fez muito, “seu Armando?

Eu não presenciei a cena, mas minha mãe contava que riu o dia todo da resposta do Kappa e da perplexidade com que a Marlene recebeu a resposta:
- Não sei, não pesei!!!


Marcelo Caparelli


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Cidade de Uberaba

O filante

Pelo caso das Bananadas vocês tiveram uma ideia da presença de espírito do meu pai, que para quem não sabe era o saudoso José Armando Caparelli, exemplo de caráter, honradez, honestidade e dedicação à família.

Essa passagem diz respeito ao Sebastião Carlos da Silva, vulgo Tião, morador do bairro EEUU que contava com a mesma idade do meu pai e os dois foram convocados para a guerra na mesma época.
O Tião, ao que parece, veio de fora para jogar futebol no time do independente e foi alocado nos correios, pois como salário de jogador era curto na época, tornava-se necessário arranjar alguma atividade complementar e remunerada para as contratações dos clubes.

Meu pai e o Tião eram amigos e serviram juntos em Juiz de Fora onde aguardavam ser chamados para compor as tropas brasileiras na Itália. A companhia do Tião foi embarcada no final de agosto de 1945 no Rio de Janeiro, enquanto a companhia do meu pai embarcaria cinco dias depois, ficando aguardando em Juiz de Fora.

Foi quando a guerra acabou (2/10/45), com o Tião no navio e meu pai em terra.
Parece a mesma coisa, pois nenhum deu um tiro sequer e nem ao menos pisaram em solo italiano. Mas para o governo da época não, pois o Tião deu baixa recebendo soldo de ex-pracinha e meu pai ficou “a ver navios’.

Tenho a suspeita que a expressão nasceu aí.

Contam que ele era um tanto quanto “controlado” em questões financeiras e não gastava um centavo com supérfluos, e acho que nem com os “principais”; em suma, era um belo de um “pão duro”.
O Tião que depois de dar baixa no exército nunca pegou no batente, passava todos os dias de manhã na lotérica e convidava meu pai para tomar café e comer uns biscoitinhos, coisa que meu pai às vezes ia, às vezes não, dependendo do movimento na loja. Só que o lugar desse pequeno lanche matinal, não era em lanchonete alguma; o destino do sovina, pasmem vocês, era a funerária Pagliaro onde, quando tinha velório, tinha sempre uma mesa com quitandas, café, leite e chá para os presentes.

Nessa época, meu pai praticava o tabagismo, bem como o Tião e numa dessas incursões funerárias, depois de cumprimentar os parentes do defunto, e depois de fazer a devida “boquinha”, saem os dois e meu pai saca um “minister“ do bolso, acende e dá uma bela tragada, já esperando o Tião tentar filar um cigarro dele.

Antes de voltar o cigarro à boca para a segunda tragada o Tião, seguindo seu mau hábito de filante inveterado, pediu um cigarro para meu pai, que já esperando, ironizou:
- Tião, você tá fumando muito!

Mas pão duro tem sempre uma resposta pronta:

- Caparelli, eu fumo, mas não trago...

Num átimo a resposta veio definitiva:

- Pois devia trazer, Tião!


Marcelo Caparelli


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Cidade de Uberaba

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

O menino que esqueceu o duplo

Esse caso vai para meus companheiros de loteria.

Antes de contar esse caso, cabe uma explicação para quem não sabe como funcionava a loteria esportiva na época:

O jogo custava CR$2,00 e o apostador marcava o resultado de treze jogos e se acertasse os treze palpites ganhava o prêmio. Além dessas marcações, na cartelinha de marcação (volante) deveria constar obrigatoriamente um palpite DUPLO que nada mais era do que duas marcações em um único jogo, por exemplo: digamos que um dos treze jogos constasse Bahia X Náutico e o apostador resolvesse colocar o duplo nele; então ele escolheria dois resultados possíveis (por exemplo: vitória do Bahia e empate) e se acontecesse um desses dois resultados, ele garantiria o ponto desse jogo.

Isso posto, vamos aos fatos: Já de tardezinha, depois de passar a tarde toda no caixa, me surge um senhor já entrado na casa dos setenta, acompanhado de um garoto, ao que tudo indicava, seu neto. Me entregou um punhado de “volantes” e eu, antes de perfurar os cartões na máquina, conferi os jogos para ver se estava certo, que era o procedimento para não fazer jogo errado.

Notando que um dos volantes faltava o palpite duplo alertei o senhor mostrando o volante:
- Senhor, esse volante tá faltando o duplo, o senhor esqueceu.
Uma fração de segundo e ele responde:

- Não taí não?

- Não.

Ele pensa um pouquinho e fala para o menino: - Dito, cadê o duplo?

- Uai, não sei, diz o menino, acho que esqueci em casa...

- Ô menino esquecido, puxou a mãe, né? Já te falei prá prestar atenção nas coisas.

Antes que a bronca aumentasse e me segurando para não rir, chamo o idoso:

- Senhor, eu tenho um duplo aqui de reserva e coloco para o senhor.

Dito isso fiz a marcação, registrei a aposta desejei boa sorte e ele saiu ainda ralhando com o menino.


(Marcelo Caparelli)

Par e Liga

Éramos um grupo de devotos de São Cono, que, como todos sabem, é o santo protetor dos jogadores. Como bons devotos, nos reuníamos toda segunda feira no templo erigido nos fundos da minha casa, onde realizávamos o nosso culto.

Havia ali, e há até hoje, um fogão à lenha, pilotado por mim e de onde saía um frango caipira, um arroz carreteiro, uma costelinha com canjiquinha, etc.

Ao contrário de outros cultos, o nosso era acompanhado de muita cerveja, uma cachacinha de “guia” e qualquer bebida alcoólica que algum fiel levasse.

Para quem não é familiarizado com esse importante santo da igreja católica, transcrevo aqui a oração de São Cono:

Senhor, eu não quero pecar te pedindo sorte no azar, mas quando você quer pode nos atender através de São Cono uma mão para ganhar uma aposta: se é dia 3 porque é o dia da sua morte; se é 7 e no 07 porque é o número que somam as letras do nome de São Cono; se é 18 é pela idade em que faleceu; se é 11 porque é o número da sua Igreja na Flórida (Uruguai); se é 60 é porque quando trouxeram sua imagem da Itália numa das suas sandálias estava esse número; se é 72 é porque é o final do ano em que foi canonizado em Roma; se é 85 é o final do ano em que se inaugurou sua Igreja.

Senhor, se sou merecedor da sua graça, através de São Cono conceda-me. Amém”
O “altar” que foi confeccionado pelo artista Oripinho, vulgo “bicudinho”, em razão do seu mau humor constante, consistia em uma mesa redonda que abrigava com folga doze fiéis que das 20h até por volta da meia noite, rendiam homenagens ao já citado santo.

É claro que estamos falando do jogo de Cacheta onde os amigos, muito fraternalmente, tentavam tomar o dinheiro uns dos outros.

Os mais assíduos eram: Vandinho; Carijó; Marcão; Brás; Oripim, já citado; esse que vos relata, Simeão; Márcio; Furiati, Godoy; Sakamoto; Adalberto Namura e outros que me escapa os nomes agora.

Entre os eventuais tinha o Moura Miranda, que já estava se tornando habituée das reuniões.

Mas o Moura, apesar de cartear como um príncipe, tinha um azar danado. Parece que o Santo não lhe escutava as preces, ou achava que outros eram mais merecedores que ele, (vai entender esses santos).

Juntava-se a isso as imprecações que o Moura não parava de proferir e estava formada a “tempestade perfeita”.

Numa segunda feira, o jogo seria pif-paf (uma variação da cacheta) e logo na primeira mão, o nosso glorioso Moura sai com dois jogos prontos e um par-e-liga, ou seja, estava “na boa”. Como o pif paf não tem curinga, esse é uma grande mão e vence na maioria das vezes. Para melhorar, cinco jogadores entram na aposta e a mesa fica coalhada de fichas.

Infelizmente, para ele e felizmente para o Zé Coquim, que tinha acompanhado com dois pares e uma “gaveta”, faz boa justamente na gaveta e para o desespero do Moura, depois de muitos descartes, bate com uma dama de copas que dobrou no par do Moura.

Foi a gota d’agua. O Moura, muito bravo, chinga o santo, chinga o Zé coco, maldiz a sua sorte, e, cúmulo da indignação, taca (essa é a melhor expressão que retrata o feito) o baralho na mesa, se levanta e dispara:

-Nunca mais jogo essa merda, que me dê uma doença ruim na mão se eu jogar de novo!

Disse isso e foi embora pisando duro, sem comer e sem dar ouvidos aos amigos que tentavam dissuadi-lo.

Retomada a normalidade do jogo, foi instituído um ”bolão” para saber se o Moura cumpriria a promessa. Opiniões dividas, eu apostei e fui acompanhado por mais cinco de que ele não voltaria mais.

Na semana seguinte, seguindo o protocolo, liguei chamando e laconicamente, recusou. Na outra semana a mesma coisa, bem como na seguinte.

Foi estabelecido então, para os efeitos do bolão, que o prazo seria semana seguinte. Se ele não voltasse, seria decretado a vacância da vaga e outro jogador seria colocado no lugar dele.

Na segunda liguei e ele nem atendeu o telefone!

-Ganhei o bolão, pensei com meus botões.

O menu daquela segunda era costelinha de porco e para surpresa geral, lá pelas 21:00h (que era mais ou menos a hora que saía o rango) surge o Moura, meio que desconfiado, meio que sem graça, parecendo cachorro que peidou na igreja.

-Noite!

- Baum? Respondemos.

O Moura rodeou a mesa, foi nas panelas e antes que alguém perguntasse, disse:

- Passei só prá comer essa costelinha. Disse isso e se serviu antes de todos.

O jogo pausou e todos fomos comer.

Finda a refeição, o jogo retomou e o Carijó que havia apostado que ele voltaria ao jogo começou a pressionar o Moura para ele jogar.

O Moura bisbilhotando (sapeando) o jogo, resistia heroicamente. Porem a resistência foi esmorecendo e o Carijó percebendo que ele precisava de um empurrãozinho sai com essa:

- Ô Godoy, tá sabendo do tratamento novo no Hélio Angotti?

- Sei não, responde o Godoy

- Bomba de cobalto! Cura qualquer doença ruim que der nas mãos.

O Moura, prestando atenção na conversa e já com coceira na mão de vontade de cartear, puxa uma cadeira e fala pra mim que distribuía as cartas:

-Que se dane (a palavra foi outra)! Me dá as cartas!

Parece que o santo não cobrou a promessa do Moura, que continuou com seu azar e jogando como um príncipe.  

(Marcelo Caparelli)

Lei de Murphy

Se algo puder dar errado, dará.

No dia-a-dia da lotérica, sempre acontecia de um cliente vendo o resultado, dizer que aqueles eram os seus números, mas que esquecera de jogar; que a mulher não o deixou jogar; que trocou os números na última hora; que jogava aqueles números toda semana e parou exatamente naquele sorteio; enfim, o repertório de lamúrias era grande.

Eu particularmente não acreditava em nada daquilo, mas como um bom vendedor de ilusões (como o amigo Tharsis me chama), lamuriava junto com o cliente, lamentava a sua (dele) má sorte e tascava sempre o bordão dos tempos do meu pai: “Quem não arrisca, não petisca, galinha morta não belisca, quem não morre não vê Deus!”

Parênteses para esse bordão: meu pai escutava isso na praça da Sé em São Paulo lá pelos idos de 1960 quando o comércio de bilhetes de tiras era o “Ó do borogodó” e a praça da Sé funcionava como uma bolsa de bilhetes onde o Brasil inteiro ia buscá-los para revender nas suas cidades. Para se ter uma ideia do quanto era concorrido esse tipo de sorteio, meu pai colocava um rádio de válvulas (que era ligado bem antes, dando tempo para que as válvulas esquentassem) na porta da loteria onde os apostadores acompanhavam em “ondas curtas” o resultado que era transmitido ao vivo das dependências da CAIXA.

A frente da loteria ficava lotada de apostadores, ganhando de longe da aglomeração diária na frente do saudoso Lavoura e Comércio onde os transeuntes se juntavam para ler as manchetes das notícias que sairiam à tarde.

Voltando à história: era eu o responsável por fazer os jogos dos clientes que repetiam toda semana os mesmos números. Como não existia ainda a teimosinha, meu trabalho era transcrever nos volantes os jogos dos clientes que ficavam no “caderno de jogos”.
Não mencionei o ano do acontecido, mas decorria o ano de 1987 no auge do governo Sarney, onde a inflação galopava e os aumentos no preço dos jogos eram da ordem de 80 a 100% a cada seis, sete meses.
Quando o aumento era anunciado, eu ligava antes para cada um dos clientes para saber se podia repetir os jogos com o preço novo.

Um desses clientes era o Sr. João Pedrosa, eletricista e pai da advogada Jussara Pedrosa (nem sei se ela sabe desse caso), que morou certa época na casa nos fundos da nossa, na rua Sete de Setembro. O jogo dele era, me recordo bem e ainda guardo os recibos, a LOTO, que mais à frente se modernizou e transformou-se na QUINA tal qual a conhecemos até hoje.

O jogo do seu João se consistia em 26 apostas que custavam, no preço antigo, a bagatela de CZ$300,00 (reparem a moeda da época, cruzados).

Em um desses aumentos, liguei para ele informando que o jogo passaria a custar a partir do próximo concurso o valor de CZ$ 583,00 e ele depois de muito reclamar do novo preço, e de lançar impropérios ao governo, me autorizou a repeti-lo.

Na terça feira, ele foi buscar o jogo. Pagou, já com o preço novo, conferiu com o resultado (corria às segundas), pensou um pouco, e me disse que a partir do próximo concurso faria só a metade dos jogos, pois estava ficando caro para ele. Perguntei quais jogos ele queria que repetisse e ele me pediu o caderno e riscou metade das apostas.

- Tira esses que eu risquei e repete o resto. Disse ele.

- Olha que isso não vai dar certo seu João, repliquei e já tentando dissuadi-lo argumentei, procurando provocar nele um medo de ver um bilhete seu premiado e não jogado:

- Olha que pode sair o prêmio nesses jogos que o senhor tirar, hein...

Tentei de todas as formas possíveis. Citei até a 13ª Lei de Murphy (“quando o pão cai, cai sempre com a manteiga prá baixo”), “e na terra” completou magistralmente Adoniram Barbosa o aforismo:
Porem ele ficou irredutível.

- Ô Marcelo, ponderou ele; acompanho esse jogo tem mais de três anos e só fiz terno (acerto de três dezenas, com premiação pequena) até hoje.

Desisti então da empreitada e o jogo foi feito do jeito que ele pediu para a semana vindoura e que seria o concurso Nº 423 do dia 01/06/1987.

Novamente, na terça feira seguinte ele apareceu e me chamou para pegar o jogo.
Pelo seu tom de voz e pela absoluta palidez que ele estampava no rosto, senti que havia algo errado com ele e perguntei:

- Que foi seu João?

- Me mostra o caderno para eu ver que jogos eu risquei, pois no meu jogo original eu acertei as cinco dezenas!

Como o prêmio havia acumulado, de imediato deduzi que ele havia riscado a aposta vencedora. Não falei nada e mostrei o caderno para ele, temendo que ele tivesse um enfarte assim que visse os jogos riscados. Ele pegou o caderno, deu uma olhada rápida, deu uma limpada nos olhos, olhou novamente, agora mais demoradamente, certificando-se de não ter visto errado, ficou mais pálido ainda, coçou a cabeça por uns eternos 20 segundos, me devolveu o caderno fechado e saiu sem falar um “a” e sem enfartar, graças a Deus!.

Abri caderno novamente só para conferir qual foi a aposta riscada por ele e era um jogo de 7 dezenas (21 25 32 34 40 93 94).

O resultado oficial do concurso 423 trouxe as seguintes dezenas sorteadas: 21 25 32 93 94.
Foi realmente uma pena pois o prêmio em dinheiro de hoje seria, nos meus cálculos, uns 5 milhões de reais.

O seu João continuou a repetir seu jogo comigo por mais um tempo, mas a sorte para ele sempre foi tirana. Só bateu à sua porta uma vez.

(Marcelo Caparelli)

terça-feira, 15 de setembro de 2020

O Arreio do Fernando Sabino


Essa história sempre era contada pelo meu pai nas rodas de pescaria e reuniões de amigos, então vou vender o peixe pelo preço que eu comprei, e como a memória nunca foi o forte da família, pode ser que eu troque locais, ou personagens.

Dito isso, vamos ao acontecimento:

Em meados dos anos 60, quando minha idade não passava de seis anos, o velho Kappa, na época moço, montou em sociedade com o colega de pescaria Tomain, (Luiz Tomain, que futuramente seria um dos mais conceituados artesãos de tacos de sinuca do Brasil, fazendo disso o seu ganha pão!) uma fábrica de molduras para quadros, na esquina da Rua Vigário Silva com a Praça Rui Barbosa, lugar esse que tinha sido em décadas passadas, a “venda” do Fernando Sabino, que ilustra essa história.

Naquela época os lançamentos de débitos eram feitos na boa e confiável caderneta e cada cliente que comprava fiado tinha a sua e funcionava assim: O Fernando vendia os produtos, anotava na caderneta e a caderneta era guardada no cofre, se o estabelecimento tivesse um! Mas quase todos tinham, pois era demonstração de que o negócio estava indo bem e o Fernando Sabino, com certeza tinha um dos grandes.

Fernando Sabino/Foto do Acevo pessoal de Candy Petean.        

Um certo dia, já de tardinha, o Fernando fechando o caixa diário, lembrou que vendera um arreio para um cliente, mas por mais que se esforçasse, não conseguia lembrar o freguês que levou o objeto. Aliás ele só lembrou de tê-lo vendido quando foi recolher os objetos que eram dependurados nas portas de manhã para chamar a atenção da freguesia. No outro dia, matutando sozinho e como a lembrança não lhe ocorresse, resolveu perguntar para o Zé Torquato (no meu ideário, um crioulo ladino e cheio de ardis que eu conheci já bem idoso), que ficava “sapiando” pela praça o dia todo, se ele havia presenciado a negociação.

Casa Fernando Sabino/ Foto Arquivo Público de Uberaba


- Ver eu não vi, disse o Zé. Mas eu tenho uma ideia pra você não ficar no prejuízo.

- E qual é? pergunta o Sabino.

- Te passo, mas se der certo, eu levo 10% certo?

O Sabino, na falta de opção melhor, aquiesceu e o Zé esclareceu seu plano:

- Fernando, é o seguinte: você vai lançar um arreio em cada caderneta e assim no pagamento, quem não for o comprador vai reclamar, aí você risca e no final quem comprou não vai reclamar pois a compra é dele mesmo.

O Sabino gostou da ideia e prontamente buscou as cadernetas, (que eram mais de cem!) e efetuou os devidos lançamentos.

Isto feito, foi só aguardar o fim do mês para receber os fiados e descobrir para quem foi feita a venda, que na verdade era o que mais azucrinava a cabeça do Sabino.

Pois bem, no começo do mês os clientes começaram a acertar, e para a surpresa do Sabino, mas não para a do Zé Torquato, (eu acho) aconteceu o seguinte:

Das mais de cem cadernetas, DEZ não reclamaram (por descuido mesmo, ou talvez esquecidos assim como o Sabino, ou pela confiança na seriedade do comerciante, ou sabe-se lá porque) e o Sabino recebeu nove arreios a mais.

Se, e como o Fernando Sabino devolveu o dinheiro arrecadado, essa informação me foge da lembrança.

Deu problema foi com o Zé Torquato, que exigiu 10% de dez arreios, que seria um arreio novinho.

Essa pendenga também não sei como foi resolvida.

(Marcelo Caparelli)