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domingo, 28 de julho de 2019

As valiosas mangueiras de Alexandre Barbosa

No peculiar texto publicado em 1916 no álbum: Uberaba: a Princesa do Sertão, organizado por Roberto Capri, é apresentada a interessante produção de mangas do engenheiro agrônomo uberabense Alexandre Barbosa. 

No bairro Mercês, às margens da antiga rua Cassu, no entorno onde hoje é a rua que leva seu nome, Alexandre Barbosa cultivava mais de 3000 árvores de inúmeras variedades de manga, nas terras que eram chamadas de Chácara das Mangas. As mangas de Alexandre Barbosa, como diz o texto, eram vendidas em mercados do Rio de Janeiro e São Paulo. Além das frutas, eram distribuídas mudas da espécie. É importante dizer que, desde o final do século XIX, os triangulinos rumavam a Índia à busca de importar o gado Zebu, a exemplo de Teóphilo de Godoy, Armel Miranda, Ângelo Costa, João Martins Borges, Alberto Parton, Quirino Pucci, Josias Ferreira de Morais, entre outros que nos anos posteriores a 1916, seguiriam o destino da distante colônia inglesa da Ásia.

Em meio a demais novidades, os importadores de Zebu traziam em sua bagagem, mudas de mangas para Alexandre Barbosa que ainda não eram produzidas no Brasil, o que faria de seu pomar um dos viveiros mais diversificados do país da saborosa fruta. Até hoje ao passar pela rua Alexandre Barbosa, é possível observar em suas laterais algumas mangueiras remanescentes daquela época. Nesse espaço, ele também desenvolveu novas variedades da manga.


Mas quem foi Alexandre Barbosa?

Alexandre Barbosa era engenheiro agrônomo, tendo se graduado no Instituto Zootécnico de Uberaba em 1898. Essa foi primeira escola de ensino superior fundada no Triângulo Mineiro.

Nesta única turma do Instituto Zootécnico de Uberaba, estudaram com Alexandre Barbosa, outras proeminentes figuras do cenário político, intelectual e social de Uberaba, como: Hidelbrando Pontes, Fidélis Reis, José Maria dos Reis e Militino Pinto de Carvalho.


A referência na formação desta brilhante turma foi o diretor e professor do Instituto Zootécnico, Frederich Draenert. Alemão de Weimar, Draenert mudou-se para o Brasil em 1855 quando foi contratado pelo Barão de Paraguassu (Cônsul Geral do Brasil em Hamburgo) para educar os filhos de um dono de engenho na Bahia. Foi professor da Escola técnica da Bahia que ajudou a criar em 1877. Em 1889 foi nomeado consultor técnico do Ministério da Agricultura e, em 1896, chamado para dirigir o Instituto Zootécnico de Uberaba. Escreveu inúmeros artigos científicos, motivo pelo qual teve reconhecimento internacional

Nas primeiras décadas do século XX Alexandre Barbosa familiarizava-se com o Anarquismo. Nos anos de 1920 integrou-se ao comunismo. Correspondeu com jornais internacionais como L´Humanité na França e produziu inúmeros artigos na imprensa uberabense. Barbosa também foi autor do mais completo dicionário da língua Caiapó que se tem notícia, segundo pesquisas do antropólogo Odair Giraldin. Este pesquisador, professor da Universidade Federal de Goiás, encontrou o dito documento por acaso no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), datado de 1918. O documento produzido por Alexandre Barbosa possibilitou um inédito estudo sobre o assunto. Cf. GIRALDIN, Odair. Cayapó e Panara: luta e sobrevivência de um povo. 1994. 208 p. Dissertação (Mestrado) - Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 1994.


Por Thiago Riccioppo: Mestre em História pela Universidade Federal de Uberlândia - UFU, historiador da Superintendência do Arquivo Público de Uberaba e Gerente Executivo da Fundação Museu do Zebu Edilson Lamartine Mendes.


Fontes:

CAPRI, Roberto. Uberaba: a princesa do Sertão. São Paulo: Capri, Andrade & C. Editores, 1916.

GIRALDIN, Odair. Cayapó e Panara: luta e sobrevivência de um povo. 1994. 208 p. Dissertação (Mestrado) - Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 1994.

MACHADO. Sonaly. História do Instituto Zootécnico de Uberaba: uma instituição de educação rural superior (1892-1912). 2009. 232 f. Dissertação (Mestrado em Educação) – Programa de Pós-Graduação em Educação, Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2009.

RICCIOPPO FILHO, Plauto. Ensino Superior e Formação de Professores em Uberaba/MG (1881-1938): uma trajetória de avanços e retrocessos. 2007. 508 f. Dissertação (Mestrado em Educação) – Programa de Mestrado em Educação, Universidade de Uberaba, Uberaba, 2007.


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Cidade de Uberaba

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

JOÃO MARTINS BORGES, A BREVE AVENTURA DE UM IMPORTADOR UBERABENSE NA ÍNDIA

João Martins Borges em foto do início do século XX. 




               João Martins Borges, a breve aventura de um importador uberabense na Índia
    João Martins Borges entrou para a história como um dos mais importantes nomes na importação das raças zebuínas, tanto pela abertura do mercado ao Brasil, no duro contexto do maior conflito bélico vivido pela humanidade até aquele momento – a Primeira Guerra Mundial (1914 – 1918) -, quanto pela tragédia que culminou no seu inesperado falecimento na Índia em 1918. Apesar dos pesares, como mártir que foi em ocasião fortuita, esse pioneiro soube como tantos outros escrever o protagonismo no mármore do tempo.
   Os detalhes dos lugares visitados, das pessoas conhecidas, as dificuldades e as impressões das viagens percorridas ao longo de três expedições foram narrados com sensibilidade pelo viajante em cartas enviadas a compradores e familiares, além de diários e poesias exóticas. São relatos que descortinam aos olhos do leitor um mundo completamente novo, onde o estranhamento e o deslumbre sobre o desconhecido se confundem. Convém ressaltar que o foco do importador era, sobretudo, analisar a qualidade dos animais e avaliar as experiências da pecuária indiana, além de aprimorar as condições favoráveis aos ventos propícios ao agronegócio no exterior. Em 1914, o jovem filho do fazendeiro Cel. Joaquim Martins Borges, resolveu ir à Índia com a finalidade exclusiva de comprar gado zebu. O resultado do empreendimento realizado em sociedade com o pecuarista José Caetano Borges foi muito bem sucedido. Chegaram a Uberaba cerca de 80 animais importados, aproximadamente. No ano seguinte, retornou ao distante e exótico continente sem conseguir, contudo, regressar ao Brasil trazendo algum exemplar. A frustração se deu, em parte, devido às dificuldades de manter navegação em mares outrora considerados “belicosos”.
    Convictos de que poderiam superar a crise, planejaram retornar mais uma vez à longínqua Índia em 1917. Na ocasião, João Martins Borges faria o trajeto acompanhado de seu irmão mais jovem, Virmondes Martins Borges, e do primo Otaviano Borges Júnior. Em 15 de agosto daquele mesmo ano, os três mineiros seguiram para o Rio de Janeiro a fim de tomar o vapor que os levaria à Europa, apesar dos riscos.
    O trabalho de seleção de compra de guzerá iniciou-se de forma muito proveitosa. Várias regiões foram visitadas, ficando os detalhes criteriosamente avaliados para escolha dos animais. Entretanto, no contexto da guerra, as dificuldades nas transações foram inúmeras. Não raro, o dinheiro que o grupo necessitava para as despesas demandava tempo e paciência para chegar. Os importadores enfrentaram adversidades a mais, pois a colônia britânica impunha medidas administrativas que afetavam os meios de transportes e infligiam embaraços permanentes à exportação do gado.
    Para aliviar os trâmites e acessar os recursos enviados às agências bancárias britânicas na Índia, João Martins Borges viajou até Calcutá, quando o destino concedeu-lhe pena indecorosa – em apenas cinco dias adoeceu gravemente, falecendo em 19 de maio de 1918, aos 27 anos, em um quarto do Hotel Continental. Avisados sobre o fortuito, irmão e primo rumaram à cidade e providenciaram o enterro no “Christian Cemetery”. Houve a necessidade de adequar-se às burocracias dos termos o quanto antes, fazendo com que Virmondes e Otaviano permanecessem no continente por dois longos e duros anos.
   Em 1975, com apoio do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, a ABCZ solicitou o translado dos restos mortais de João Martins Borges para o cemitério São João Batista em Uberaba com o intuito de render-lhe as homenagens merecidas diante protagonismo exercido em contribuição à pujante trajetória da pecuária zebuína no Brasil.
Museu do Zebu