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terça-feira, 15 de setembro de 2020

O Arreio do Fernando Sabino


Essa história sempre era contada pelo meu pai nas rodas de pescaria e reuniões de amigos, então vou vender o peixe pelo preço que eu comprei, e como a memória nunca foi o forte da família, pode ser que eu troque locais, ou personagens.

Dito isso, vamos ao acontecimento:

Em meados dos anos 60, quando minha idade não passava de seis anos, o velho Kappa, na época moço, montou em sociedade com o colega de pescaria Tomain, (Luiz Tomain, que futuramente seria um dos mais conceituados artesãos de tacos de sinuca do Brasil, fazendo disso o seu ganha pão!) uma fábrica de molduras para quadros, na esquina da Rua Vigário Silva com a Praça Rui Barbosa, lugar esse que tinha sido em décadas passadas, a “venda” do Fernando Sabino, que ilustra essa história.

Naquela época os lançamentos de débitos eram feitos na boa e confiável caderneta e cada cliente que comprava fiado tinha a sua e funcionava assim: O Fernando vendia os produtos, anotava na caderneta e a caderneta era guardada no cofre, se o estabelecimento tivesse um! Mas quase todos tinham, pois era demonstração de que o negócio estava indo bem e o Fernando Sabino, com certeza tinha um dos grandes.

Fernando Sabino/Foto do Acevo pessoal de Candy Petean.        

Um certo dia, já de tardinha, o Fernando fechando o caixa diário, lembrou que vendera um arreio para um cliente, mas por mais que se esforçasse, não conseguia lembrar o freguês que levou o objeto. Aliás ele só lembrou de tê-lo vendido quando foi recolher os objetos que eram dependurados nas portas de manhã para chamar a atenção da freguesia. No outro dia, matutando sozinho e como a lembrança não lhe ocorresse, resolveu perguntar para o Zé Torquato (no meu ideário, um crioulo ladino e cheio de ardis que eu conheci já bem idoso), que ficava “sapiando” pela praça o dia todo, se ele havia presenciado a negociação.

Casa Fernando Sabino/ Foto Arquivo Público de Uberaba


- Ver eu não vi, disse o Zé. Mas eu tenho uma ideia pra você não ficar no prejuízo.

- E qual é? pergunta o Sabino.

- Te passo, mas se der certo, eu levo 10% certo?

O Sabino, na falta de opção melhor, aquiesceu e o Zé esclareceu seu plano:

- Fernando, é o seguinte: você vai lançar um arreio em cada caderneta e assim no pagamento, quem não for o comprador vai reclamar, aí você risca e no final quem comprou não vai reclamar pois a compra é dele mesmo.

O Sabino gostou da ideia e prontamente buscou as cadernetas, (que eram mais de cem!) e efetuou os devidos lançamentos.

Isto feito, foi só aguardar o fim do mês para receber os fiados e descobrir para quem foi feita a venda, que na verdade era o que mais azucrinava a cabeça do Sabino.

Pois bem, no começo do mês os clientes começaram a acertar, e para a surpresa do Sabino, mas não para a do Zé Torquato, (eu acho) aconteceu o seguinte:

Das mais de cem cadernetas, DEZ não reclamaram (por descuido mesmo, ou talvez esquecidos assim como o Sabino, ou pela confiança na seriedade do comerciante, ou sabe-se lá porque) e o Sabino recebeu nove arreios a mais.

Se, e como o Fernando Sabino devolveu o dinheiro arrecadado, essa informação me foge da lembrança.

Deu problema foi com o Zé Torquato, que exigiu 10% de dez arreios, que seria um arreio novinho.

Essa pendenga também não sei como foi resolvida.

(Marcelo Caparelli)