Na antiga Praça Rui Barbosa, no coração de Uberaba, espaço que ao longo das décadas passou por inúmeras transformações, uma fotografia da década de 1970, de autoria desconhecida, registra um fragmento vivo da história da cidade.
No primeiro plano erguia-se o belo obelisco em estilo Art Déco, obra do renomado artista Humberto Cozzo. Construído entre 1939 e 1941, o monumento foi dedicado ao governador mineiro Benedito Valadares e também ao centenário de Uberaba, simbolizando uma cidade orgulhosa de sua vocação pecuária e de seu espírito progressista. Sua inauguração contou com a presença do presidente Getúlio Vargas, numa visita que marcou profundamente a memória local. O obelisco permaneceu na praça até o início da década de 1990, quando sua estrutura de mármore foi remontada no Parque Fernando Costa, no parque da ABCZ.
Mais adiante, como uma sentinela silenciosa da história, encontrava-se a estátua do Major Eustáquio, fundador da cidade, presente da colônia sírio-libanesa, gesto de gratidão e pertencimento daqueles que também ajudaram a construir o destino de Uberaba.
À esquerda, um antigo sobrado conhecido como Notre Dame de Paris, hoje Hotel Chaves, guardava sua elegância arquitetônica, testemunha discreta das mudanças da cidade.
Próximo dali, entre as árvores que hoje escondem parte da memória, funcionou por décadas o tradicional Bar 1001, um verdadeiro ponto de encontro. Ali se conversava sobre política, futebol, negócios e a própria vida. Foi também um lugar onde o médium Chico Xavier muitas vezes parava para um café simples, cercado pelo carinho silencioso de quem o reconhecia.
Seguindo à direita, em direção à Rua Vigário Silva, as árvores hoje ocultam o que antes fazia parte do cotidiano urbano. Ali existia uma banca de revistas, ponto de encontro de leitores e curiosos. Um pouco adiante ficava a tradicional Ótica de seu Lilito Chaves, seguida pela famosa Livraria ABC, de Mário Rosa e Benedito Eurípedes Carmelita. Na parede lia-se uma frase que ficou marcada na memória da cidade:
“As maiores inteligências do Brasil passaram pela ABC.”
Mais à frente havia um posto de saúde com um longo corredor onde eram realizados exames de imagem torácica, como a antiga abreugrafia, utilizada para detectar tuberculose e também em exames de admissão de emprego.
Era comum ver verdadeiros varais com radiografias penduradas para secar, expostas à vista de quem passava, uma cena curiosa e típica de um tempo em que a medicina preventiva fazia parte do cotidiano.
Seguindo adiante surgiam outros marcos urbanos: o tradicional jornal Lavoura e Comércio, a Loja Americana e, em frente, o antigo Hotel do Comércio, hoje desaparecidos, levados pelas transformações do tempo.
À esquerda, logo abaixo do prédio Notre Dame de Paris, existiam outras referências queridas da memória urbana: uma loja de brinquedos, a Farmácia Triângulo, o armazém Barros e Borges e a tradicional Padaria Brasil, de seu Clarimundo e dona Thomásia.
Ao lado da padaria funcionava o Manogra, ponto famoso onde se jogava sinuca e onde se reuniam alguns dos melhores sinuqueiros da cidade. Hoje, naquele espaço, encontra-se a loja Têxtil Abril.
Em frente à praça, os táxis formavam uma fileira quase cerimonial. Os carros do ano, bem alinhados e reluzentes, aguardavam passageiros com a paciência serena de um tempo em que a pressa ainda não dominava as cidades.
Ao fundo, seguindo pela antiga Rua do Comércio, hoje Rua Arthur Machado, surgiam sinais da modernidade: a loja Modelar e o edifício da Drogasil, inaugurado em 10 de outubro de 1966. A rua viria mais tarde a se transformar no calçadão, inaugurado em 18 de novembro de 1994, mudando novamente a paisagem do centro da cidade.
No entorno da praça existiam ainda muitos outros pontos que fazem parte da memória de Uberaba: o Bar Ana Rosa, o vizinho Cine-Teatro São Luís, o tradicional Jóquei Clube, a Panificadora Monte Líbano, que funcionava no térreo do edifício Vitório Varotto, além da Casa Caldeira, do Café da Praça e da elegante loja Caprichosa.
Mas vou parando por aqui… são tantas lembranças que caberia quase um livro inteiro.
Deixo agora com vocês, para que cada um também possa ativar suas próprias memórias.
Assim era aquela praça: um palco onde passado, cotidiano e memória caminhavam juntos. Cada árvore, cada fachada e cada carro estacionado compunham um cenário que hoje sobrevive não apenas nas fotografias, mas também na saudade de quem viveu aquele tempo em que Uberaba parecia caber inteira dentro de sua praça.
Antônio Carlos Prata
