Volkswagen TL semelhante ao que pertenceu ao ator Older Cazarré e que protagonizou uma divertida história nos bastidores do Teatro Experimental de Uberaba, na década de 1970. Foto de acervo de Uberaba em Fotos.
Vou contar um episódio que aconteceu comigo, com Aldo Roberto Silva, o Salsichachau e o Natal Raphael, hoje barbeiro, filho do saudoso Domingos Caparrelli, o “General Barbeiro”.
Isso aconteceu em meados da década de 1970, na porta do Teatro Experimental de Uberaba, que funcionava na Rua Alaor Prata, nº 20.
Naquele dia estava em cartaz a peça Marido, Matriz e Filial, estrelada pelo ator Older Cazarré, ao lado das atrizes Ivete Bonfá e Georgia Gomide.
Eu e o Natal tínhamos 12 ou 13 anos. Éramos amigos de infância e vizinhos.
Já Aldo Roberto Silva, além de ator e diretor, fazia de tudo no teatro: cenografia, figurino, iluminação, maquiagem e até faxina quando precisava.
Quando morou em São Paulo, Aldo chegou a fazer novela de rádio e fez amizade com vários atores e atrizes. Depois passou a convidá-los para trazer suas peças para se apresentarem em Uberaba.
No teatro havia um bar, e todo o caixa era responsabilidade do Aldo. Eu e o Natal ajudávamos durante o intervalo das peças, servindo o público.
O elenco de Cazarré entraria em cena às 19 horas.
De repente, o Aldo percebeu que tinha esquecido de comprar gelo. Na mesma hora pediu a chave do carro ao Cazarré, um Volkswagen TL azul, impecável, dizendo que iria comprar gelo e voltaria rapidinho.
Cazarré respondeu na hora:
"Nunca! "Aqui não". "Não empresto o carro!" "Você não sabe dirigir!"
Mas o Aldo era bom de conversa e insistiu tanto que acabou convencendo o ator a emprestar o carro.
E lá fomos nós três: Aldo ao volante, eu no banco da frente e o Natal no banco de trás.
Na hora de sair, o Aldo apanhou um pouco para engatar a marcha e não conseguiu controlar direito a embreagem. O carro deu um arranco, voltou um pouco em diagonal e acabou batendo em outro carro que estava estacionado, amassando a lateral direita do lado do passageiro.
A lata era dura, mas afundou o paralama e chegou a apertar o pneu. O Aldo e algumas pessoas que estavam por perto puxaram a lataria para não pegar na roda.
Nessa hora já tinha gente olhando, porque o movimento na porta do teatro começava a aumentar.
O Aldo olhou o estrago e disse com a maior calma do mundo:
" Ahhh… isso é só um amassadinho de nada."
Entramos no carro novamente e ele saiu cantando pneus.
Enquanto isso, já começava a formar fila na porta do teatro.
Fomos primeiro na peixaria Pororoca, no final da Rua Tristão de Castro. Não tinha gelo.
Seguimos então para a Pescave, na Avenida Prudente de Moraes. Lá conseguimos o gelo.
Foi nesse momento que descobrimos uma coisa: o Aldo era “barbeiro” no volante.
Na volta, faltando poucos minutos para começar a peça, o Cazarré estava na porta do teatro esperando, com as veias do pescoço saltadas de nervoso.
"Aldo, eu te mato!"
O Aldo, tranquilo como sempre, respondeu:
"É só um arranhadinho de nada… sua peça cobre isso e ainda sobra dinheiro! Cazarré para de birra".
Cazarré continuou esbravejando até chegar ao bar.
Então o Aldo abriu um refrigerante, deu um beijo no Cazarré e tudo terminou em risada.
No dia seguinte, mesmo com o carro amassado, o Cazarré seguiu viagem com as atrizes para Araxá.
Peguei esta foto apenas para ilustrar o carro, um Volkswagen TL semelhante ao que o ator Older Cazarré tinha na época, usado naquela corrida atrás de gelo antes da peça no Teatro Experimental de Uberaba, na Rua Alaor Prata, em Uberaba.
Antônio Carlos Prata
