sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

A praça de minha infância


Padre Prata - 18/02/2018 

A partir de 1935 minhas lembranças da praça Rui Barbosa são bem mais claras. Antes, as recordações se esvaem como nuvens que se esgarçam. Apenas alguns fragmentos teimaram em permanecer, tênues. Lembro-me dos carros de praça puxados por cavalos. Lá na frente, num assento mais alto, o cocheiro, todo empertigado. Alguns chamavam aquela condução de coche. Outros, mais pedantes, chamavam-na de tílburi. Lembro-me também de um cinema, no início da Rua do Comércio, o Cine Alhambra. Assisti ali ao primeiro filme de minha vida. Chamava-se “O segredo da múmia”. Cinema mudo. O filme vinha em partes que eram trocadas de quinze em quinze minutos. Nos intervalos, alguns músicos entretinham a plateia. Lembro-me do João Vilaça na flauta e do Tifu no violino. O negro Tifu vestia-se todo de branco, linho 120, cabelo bem aparado, gravata borboleta. Morreu de tanto beber. A partir de 1935, já havia na Praça vários carros a gasolina, o Ford-29, o Buick, o Chevrolet, o Studebacker, o Nash. 

Todos importados. Lembro-me dos nomes de alguns motoristas (chamados de chauffers), o Bahia, o Zucarelli, o Abner, o Bassoto, o Silveira, o Rola, o Miano. Este último tinha uma perna de pau, era mal-encarado e me fazia muito medo. Diziam que era jagunço do prefeito Guilherme Ferreira. Ao redor da Praça, havia uma fileira de palmeiras imperiais. Eram muito altas, lindas e majestosas. Cortadas por quem? Não sei. Cortadas por quê? Também não sei. Segundo o Mário Salvador, foram cortadas por causa dos mandruvás (marandovás ou mandarovás?) que assustavam as madames. O pessoal lá do Arquivo deve saber o nome desse prefeito. Um criminoso. Na praça não havia mão nem contramão. Cada carro trafegava à vontade. Havia os guardas de trânsito. Lembro-me perfeitamente do “seo” Alcides, pai do Alan Kardec, esse mesmo que trabalha na Universidade de Uberaba e se vestia de Rei Momo. Duzentos e quarenta quilos. Nas calçadas da Praça, à tardezinha, as moças circulavam numa direção e os rapazes na outra. 

Começavam aí os namoros, chamados de flertes. Tudo muito romântico e platônico. E o carnaval? Como era bonito! Carros enfeitados de cores alegres e vistosas, levando moças belamente fantasiadas atirando serpentinas e confetes fazendo o “corso”, em volta da Praça. Colombinas, arlequins, pierrôs. Muito lança-perfume comprado ali mesmo em qualquer esquina, até pelas crianças. Havia a bisnaga de vidro e a de metal que era mais cara, dois e cinco mil reis. “Rodo” era a marca. No centro da Praça um coreto. Nas tardes de domingo, a Banda de Música do Quarto Batalhão entretinha os passantes com chorinhos, valsas e marchas. O Hino do Uberaba Sport Club era quase o hino nacional da cidade. Enquanto isso a criançada corria pela Praça, tomando Zizi e se deleitando com os picolés vendidos pelo “seo” Chico, um alemão alto, de cabelos e bigode brancos. Também ele todo vestido de branco. Seus olhos eram azuis. Muito claros. Entre o início da Rua do Comércio e o início do jardim, havia um espaço bem grande. Ali se faziam comícios, comemorações e se armavam barraquinhas nas grandes festas. Naquele espaço havia um pedestal com uma pequena cobertura. Ali, postava-se um guarda de farda azul, armado de revólver, cassetete, de luvas brancas e apito na boca. Era o responsável pelo trânsito. Um luxo. Na parte de cima da Praça havia uma imagem do Sagrado Coração de Jesus, padroeiro da cidade. Chegava-se a ela por uma escadaria, onde trocávamos figurinhas. 

Tinha os braços abertos num gesto de quem abençoava a cidade. Não sei qual o prefeito que a tirou de lá. Esses prefeitos gostam muito de mostrar serviço... Descendo pela direita havia o Hotel Glória, a serralheria do Vitório Varotto, a sapataria do Abílio Ferreira Lau, a Casa Caldeira e o Katalian. Do lado esquerdo o Hotel Silva, do Augusto Bernardino da Costa. Lembro-me de um casarão na esquina com a Rua Santo Antônio, residência do Sr. Cacildo Arantes, pai de muitos filhos e filhas, sogro do Mário Palmério. Hoje, a praça Rui Barbosa perdeu muito de sua poesia. Tenho saudades daquela Praça onde a gente ficava e se divertia. Hoje é um lugar estranho onde a gente passa. Sempre com pressa. A memória vai deixando uma esteira de saudades. Tudo acabou. Tudo tem que ser assim. O progresso vai pisando sobre nossos sonhos. A Praça, hoje, não é mais um local de encontro da comunidade. É apenas uma praça qualquer onde as pessoas transitam isoladas, sempre com pressa, sempre suadas, procurando o quê? Nem elas sabem. Apenas sabem andar com pressa. Quem sabe procurado um sentido para suas vidas?


Padre Prata

Lançamento do e-book "Uberaba Revisitada - 1820 a 2000"


Lançamento do e-book "Uberaba Revisitada - 1820 a 2000"



A Superintendência do Arquivo Público de Uberaba, convida para apreciarem o lançamento dos e-books referentes a história do Uberaba, em comemoração aos 198 anos de nossa cidade. Os trabalhos "1ª Edição e-book - História da Civilização no Brasil Central - Por Hildebrando Pontes - e o Álbum Fotográfico - Uberaba Revisitada - 1820 a 2000" , contam com edições e imagens inéditas de nosso município e seus acontecimentos.

Ambos trabalhos serão disponibilizados nas plataformas da Superintendência do Arquivo Público de Uberaba (Facebook, blog e site), no formato e-book, facilitando o acesso à todos os consulentes e demais interessados. 


Mais um grande trabalho da Superintendência do Arquivo Público de Uberaba! 




Bibliografia sobre Uberaba

Inaugurado em 21/02/2018


Bibliografia sobre Uberaba

Acesse:https://bibliografiasobreuberaba.blogspot.com.br/

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Placa de inauguração do Jockey Club de Uberaba

Gimnasium Poly-Esportivo


“Fúlvio Márcio Fontoura”


        Esta obra, inaugurada em 11 de janeiro de 1975
           

Placa de inauguração do Jockey Club de Uberaba

                                                                Foi construída sob a gestão da seguinte    

Diretoria


Presidente----------------------------  Fúlvio Marcio Fontoura
1º Vice-Presidente----------------  Ney Martin Junqueira
2º Vice-Presidente -----------------Valdir Rodrigues Vilela
1º Secretário ------------------------ Mardônio Prata dos Santos
2º Secretário------------------------- Renato da Cunha Oliveira          
1º Tesoureiro ------------------------Salvador Cicci Neto
2º Tesoureiro-------------------------Elmo Fantato                                                                 
1º Diretor Social--------------------Jacinto Bulhões Neto
2º  Diretor Social-------------------Marco Túlio Fontoura


Dir.de Esportes:  Antônio Augusto Moura Guido
                           José Roberto Borges Prata
                           Wandir Ferreira Sousa


Diretor do Prado – Thomaz Roberto R. da Cunha


Construções de Obras e Construções


Antônio Zeferino S. Netto                               José Pinot Clavis

Heber Crema Marzola                                     Lênio de Oliveira Lima

José Cury Peres



(Foto do acervo pessoal de Valdir Rodrigues Vilela)       



                                                      
                                

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

UM HOMEM COM UMA CÂMERA


Filmes Soviéticos Década 1920


A Mágica da Arte 


Guido Bilharinho 



Os anos da década de 1920 caracterizam-se como os de maior efervescência formal da história do cinema. Não que anteriormente, ainda nos anos 10, não se preocupasse com a arte cinematográfica. Ao contrário. Ao lado da tendência espetaculosa de Cabíria (Cabiria, Itália, 1914), de Giovanni Pastrone, e da síntese espetáculo-linguagem-montagem de Griffith, vicejaram correntes essencialmente estéticas, a exemplo do film d’art francês (Henri Levedan e Charles Le Bargy) e da vanguarda italiana (A. G. Bragaglia). 

Mas, é na década de 1920 que o desenvolvimento e amadurecimento dessa linha vanguardista assume grandes proporções, principalmente, na percepção e consciência do fenômeno cinematográfico. À evidência, como sempre acontece, por força do natural desdobramento e aprofundamento das experiências anteriores. 

Assim, sincronicamente com as teoria e prática da montagem desenvolvidas por Eisenstein, exercita-se a vanguarda experimental (Dulac, Duchamp, Man Ray, René Clair, Léger, L’Herbier, Ruttmann, Cavalcanti, Buñuel, etc.) e, ainda, a concepção do “cinema olho” exposta e efetivada pelo cineasta soviético Dziga Vertov em contraposição à filmagem ficcional estruturada em cima de trama dramática com utilização de atores, estúdios e décors ou cenários montados. 

Para ele, o cinema deveria ser a amostragem artisticamente elaborada de cenas e imagens captadas diretamente no cotidiano do ser humano e nas paisagens natural e construída por seu trabalho. 

Vertov, pois, opunha o gênero documentarista ao ficcional, não considerando aquele apenas uma das possíveis variáveis da materialização cinematográfica da realidade. 

Se o cinema comercial abastarda a vida, falsificando-a, e deturpa a arte, aviltando-a ou negando-a, o cinema como tal atinge proporções ilimitadas, permitindo - e só com isso viabilizando - mediante a construção e elaboração ficcional, atingir e expor o cerne da existência humana, como o faz a literatura, evidentemente apenas nas grandes obras, que o são justamente por isso, a exemplo, em seu próprio país, dos romances de Dostoievski e Tolstoi e dos dramas de Tchekov, Gorki e Gógol. 

Se, sob esse aspecto, a concepção de Vertov é restritiva, já em si mesma é do mais relevante alcance, não só na estruturação, enriquecimento e ampliação do documentário cinematográfico, como no descortinamento de novas possibilidades da câmera no plano estético. 

Seu Um Homem Com Uma Câmera (Cheloveks Kinoapparatom, U.R.S.S., 1929), é além de tudo, obra de arte, na qual a beleza da imagem contém a beleza do objeto que a compõe, bem como esta constitui aquela num ato simultaneamente temático e formal, em que um depende do outro para existir e se manifestar. 

A simbiose imagem-objeto e vice-versa processa-se no instante mesmo em que se perfaz uma e se evidencia o outro, criando realidade nova e autônoma que se concretiza e se mantém por força da técnica submetida à criatividade artística. 

O resultado dessa atividade configura-se em belíssimas visualizações de belíssimos objetos transfigurados esteticamente numa valoração que transcende seus contornos físicos e materiais. 

O olho da câmera, as tomadas, enquadramento e filmagem da matéria efetuam, técnica e artisticamente, a mágica da arte, que tudo transforma, perpetua, descobre e revela. 

As imagens (e motivos) do filme de Vertov contêm essa beleza transfigurada e transfiguradora. São do mesmo gênero das de Walter Ruttmann, em Berlim, Sinfonia de Uma Metrópole, de 1927, realizado antes, mas, influenciado pelas ideias de Vertov, consubstanciadas em Kino Glaz (1924), feito anteriormente à Berlim. 

Mas, vendo-se um lembra-se forçosamente do outro, conquanto sejam mais líricas e suaves as imagens (forma e conteúdo) do mestre soviético e mais vigorosas as do cineasta alemão. 

A destacar-se, ainda, no filme de Vertov, algumas rápidas superposições de imagens e outras experiências vanguardistas, a exemplo da montagem horizontalizada em duplo écran, diversamente de sua apresentação verticalizada e tríplice por Abel Gance, em Napoleão (Napoléon, França, 1927). 

Além disso, salienta-se a reiterada focalização dos bondes e, ainda, diferentemente de Ruttmann, a montagem alternada entre algumas situações fílmicas. Ou seja, não obstante documentarista, Vertov não resiste à montagem temática ao mostrar o desenvolvimento de ações humanas, mesmo que não articuladas e relacionadas com outras de igual natureza, com o que, então, ter-se-ia autêntica estruturação ficcional. 



(do livro Clássicos do Cinema Mudo. Uberaba, 

Instituto Triangulino de Cultura, 2003) 


______________ 

Guido Bilharinho é advogado atuante em Uberaba, editor da revista internacional de poesia Dimensão de 1980 a 2000 (https://revistadepoesiadimensao.blogspot.com.br) e autor de livros de literatura, cinema e história do Brasil e regional, publicando desde setembro último um livro por mês no blog https://guidobilharinho.blogspot.com.br.

Trajetória poética de Jorge Alberto Nabut



Guido Bilharinho - 18/02/2011


Nos fins da década de 1960, ainda estudante secundarista, Jorge Alberto Nabut (Uberaba, 1947) inicia percurso poético que o levaria nos anos e décadas seguintes a construir considerável e valiosa obra, vincada pelo inconformismo com o formulário gasto do fazer poético e caracterizada por forte poder criativo e vigorosa força expressional, contemplando variada e variável temática, submetida a processos inovadores.

O grande escritor, como todo grande artista, é aquele que instaura processo pessoal de expressão, contribuindo para enriquecer o patrimônio artístico universal e não se limitando, como é costume, a apenas utilizar e palmilhar as vias artísticas abertas e percorridas por outros, sendo, pois, não seguidor, mas inaugurador de caminhos.

É o caso de Nabut, que baliza sua performance poética por informação, consciência artística, esforço e persistência, logrando atingir estádio superior de inventividade e expressão e incidindo em pelos menos (e principalmente) quatro vertentes, desde o experimental e o visual aos textos poéticos, infletindo, no intermédio, pelo neobarroco, estendendo no tempo e no espaço criativos sua faculdade conceptiva libertária e inventiva, aduzindo à poética – aqui tomada em seu âmbito universal, e não apenas nacional ou local – modos procedimentais inéditos e distintos de experiências e experimentos de outros artistas, nacionais ou estrangeiros, constituindo criação e contribuição próprias para ampliação do fazer artístico.

Por volta de 1969, num primeiro momento, não meramente cronológico, que se entrecruza e, frequentemente, se mescla à enunciação articulada, elabora a série iniciada por Well-Gin x Ultra-M-Atic, que se distende por variada tematização integrada num corpus singularizado, demonstrando simultaneamente capacidade criadora aliada à utilização e síntese de vários elementos composicionais, a exemplo de fatos e pessoas da história local (“Almanaque-Gazeta” e “Historiador Kreponz”) e das estórias em quadrinhos, neste caso o próprio fio condutor da obra.

No desdobramento e amplificação dessa vertente, revelando flexibilidade mental e metodológica, concebe a obra-prima Branco em Fundo Ocre: Desemboque, poderosa síntese de inúmeras variáveis sistêmicas e autonomia formulativa, arrojada e amplamente exercitadas.

A partir do dado concreto, do itinerário-viajante ao próprio arraial, Nabut evoca e imprime poeticidade aos arcanos mais profundos que formam e informam toda a saga do histórico povoado, matriz da civilização regional.

E faz isso com surpreendentes e inéditas variabilidade e flexibilidade expressional e rítmica.

Num outro momento, após exploradas e formatadas as possibilidades gerativas experimentais e visuais até então utilizadas, inflete pelas sendas inesgotáveis de neobarroco mesclado de elementos variados, hauridos nas fontes puras de impressões pautadas e conduzidas pela sensibilidade e racionalidade.

No entanto, não foram essas manifestações suficientes a capitalizar e preencher talento inventivo inquieto e em permanente ebulição, sob cuja pressão vão-se quebrando as amarras e afastados os limites que costumam cercear os processos artísticos.

Nessa fase, expande-se por textos poéticos de considerável vigor expressional e complexa tessitura verbal, nos quais conteúdo, sentido e formulação atingem novo patamar conceptivo e expressional.

Toda essa riqueza poética construída em décadas de trabalho consciencioso e responsável, alicerçado no indispensável trinômio de informação, sensibilidade e criatividade, está, finalmente, reunida na requintada Geografia da Palavra, sua obra completa.


(*) Advogado atuante em Uberaba; editor da revista internacional de poesia Dimensão, de 1980 a 2000 (revistadepoesiadimensao.blogspot.com.br), e autor de livros de literatura, cinema e história do Brasil e regional, publicando desde setembro último um livro por mês no blog guidobilharinho.blogspot.com.br

Teatro São Luís



Guido Bilharinho - 19/02/2012

Com o passar do tempo, o teatro São Luís volta ao abandono e, em 1888, o prédio novamente ameaça a ruir. Nova associação é organizada, desta feita presidida por Manuel Rodrigues Barcelos, sendo as obras dirigidas por Crispiniano Tavares, engenheiro, escritor, proprietário e organizador da modelar e legendária “Quinta da Boa Esperança”.

Em 1891, afastando-se Rodrigues Barcelos da presidência da Associação, assume-a João Teodoro Gonçalves de Oliveira, tendo Bento José Dantas como vice, José Augusto de Paiva Teixeira, o Casusa, como secretário, e Manuel Terra como tesoureiro. Essa diretoria também efetua muitas obras no prédio, tanto de conservação, como de ampliação e modernização.

Em 1897, João Teodoro é vítima, em Mato Grosso, de latrocínio, ou seja, roubo seguido de morte. Com isso e o afastamento de vários membros da diretoria, é entregue o teatro São Luís à Câmara Municipal de Uberaba, que, à época, mercê de regime parlamentarista vigente a nível municipal, representa o que hoje é o município, passando a Câmara, daí em diante, a se responsabilizar pelo teatro, operando nele, em diversas ocasiões, reformas e melhoramentos diversos.

Conta, ainda, Hildebrando Pontes no notável ensaio citado, que o teatro chega a ter em seu arquivo 72 (setenta e duas) peças teatrais oferecidas por Antônio Borges Sampaio, figura que dificilmente será suplantada, em Uberaba, como seu maior e mais extraordinário benfeitor em todos os setores. Talvez por isso mesmo, a cidade o tenha “homenageado”, como diz Santino Gomes de Matos, com “um vago nome [apenas Coronel Sampaio], numa vaga rua, com afundamento melancólico na indiferença popular, eis a injustiça que se deve corrigir em relação a Antônio Borges Sampaio” (“Palavras de Apresentação”, in Uberaba: História, Fatos e Homens, de Antônio Borges Sampaio. Uberaba, Academia de Letras do Triângulo Mineiro/Bolsa de Publicações do Município de Uberaba, 1971). Em contrapartida, deu à atual praça Rui Barbosa, transferido posteriormente para a praça onde está a Concha Acústica, o nome de seu maior malfeitor, Afonso Pena, responsável por transferir para São Paulo a estrada de ferro Uberaba-Coxim, perdendo a cidade, de um dia para outro, todo o intenso comércio mantido com Mato Grosso.

Como não poderia deixar de ser numa sociedade que se preocupa quase exclusivamente com a materialidade da vida, salvo raríssimas e, por isso, insuficientes exceções, o referido arquivo, já em 1907 e ainda em vida de Borges Sampaio, desaparecera. Acrescente-se: criminosamente. Eis que o é toda ação e omissão que atente contra a memória da comunidade.

Com o passar dos anos, a teor do texto da lei municipal 529, de 8 de maio de 1926, até o próprio prédio do teatro não mais existe.

É que essa lei concede a Orlando e Olavo Rodrigues da Cunha, para a construção de um teatro, o terreno situado na praça Rui Barbosa, “onde existia o Theatro S. Luiz”.

Em maio de 1931 é inaugurado o então cine-teatro São Luís, cuja edificação é realizada pela firma Santos Guido & Cia., sob a fiscalização do engenheiro Guilherme de Oliveira Ferreira.

A inauguração do prédio, de propriedade da empresa Orlando Rodrigues da Cunha & Cia. Ltda., a partir de então destinado a cinema e representações teatrais, alcança grande repercussão à época, dada a modernidade não só da obra e do mobiliário, como da aparelhagem de projeção e de som.

Em 1938 é feita ampla reforma no prédio, inclusive com aquisição de terreno limítrofe para ampliação de sua capacidade. No ano subsequente, a empresa proprietária do prédio adota o nome do antigo teatro, passando a denominar-se Empresa Cinematográfica São Luís.

Entre inúmeras peças encenadas no São Luís, citam-se: em 1933, pelo Grupo Dramático Artur Azevedo, presidido pelo compositor e maestro Renato Frateschi, além de outras, o drama A Órfã de Goiás e a comédia Zazá, esta de autoria de César Mendonça; em janeiro de 1954, pelo Teatro do Estudante, a comédia A Incrível Genoveva, de Franklin Botelho, triangulino de Patrocínio, sob a direção de Reinaldo Domingos Ferreira; em novembro de 1963, pelo NATA, O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, sob a direção de Deusedino Martins.

Na década de 1960 O Núcleo Universitário Teatral Uberabense – NUTU, fundado por Hildo Nunes Lourenço e Paulo Silva, leva no São Luís duas peças: O Rapto da Cebolinha, de Maria Clara Machado, dirigida pelo primeiro, e O Transviado, também dirigido por Hildo Nunes Lourenço.

Nas décadas seguintes, além das sessões cinematográficas diárias, vez por outra ocorrem representações teatrais por companhias profissionais, principalmente de São Paulo, sendo uma das últimas, e das mais significativas e importantes, a encenação da peça Coriolano, de Shakespeare, em julho de 1974, interpretada por, entre outros, Paulo Autran e Henriette Morineau.

Em 1978, o prédio sofre nova reforma, passando daí por diante a apresentar apenas sessões de cinema, sendo as representações teatrais transferidas para o cine Vera Cruz.


(*) Advogado atuante em Uberaba; editor da revista internacional de poesia Dimensão, de 1980 a 2000 (revistadepoesiadimensao.blogspot.com.br), e autor de livros de literatura, cinema e história do Brasil e regional, publicando desde setembro último um livro por mês no blog guidobilharinho.blogspot.com.br



A questão do aeroporto internacional


Nos dias de hoje - e cada vez mais no futuro - não se justifica a existência de pequenos aeroportos em cidades pouco distantes umas das outras.

Por duas (objetivas e racionais) razões principais.

Primeiro, porque a cada vez mais potencialização e alcance das aeronaves não admitem - sem uma série de prejuízos - que atendam comunidades com pequenas distâncias umas das outras, tais e tantos os inconvenientes, desde os técnicos aos de manutenção, dispêndio de combustíveis e até de segurança com constantes decolagens. Descer e subir aviões em pequenas distâncias não é o mesmo que locomotivas pararem em estações ferroviárias.

Segundo, porque tais aeroportos domésticos têm-se mostrado altamente inconvenientes para as cidades que os abrigam, tanto por ocuparem grandes áreas urbanas com limitações de construções em largo entorno, como engessarem e impedirem o desenvolvimento pleno de bairros inteiros, impedindo, inclusive, que se façam ligações viárias dentro das urbes.

Na região do Triângulo, por exemplo, não se justifica mais a existência de aeroportos domésticos em Uberaba, Araxá, Uberlândia, Patos e possíveis outros.

A construção de aeroporto na área central do Triângulo, regional do ponto de vista de seu atendimento à população e simultaneamente internacional por seu raio de ação, constitui solução técnica, econômica, geográfica e urbanística para suporte equânime a toda a região.

Em consequência, a pretensão de Uberlândia de sediar nas proximidades de sua malha urbana aeroporto nessas condições não se justifica, não passando de pretensão hegemônica e de domínio regional, além de tecnicamente desaconselhável.

Já a opinião contrária de certos (e incertos) políticos uberabenses representa patente desserviço à regionalização centralizada do aeroporto, não passando de emulação política, um costume do passado que teima em sobreviver e prejudicar Uberaba.

(*) Advogado atuante em Uberaba; editor da revista internacional de poesia Dimensão, de 1980 a 2000 (revistadepoesiadimensao.blogspot.com.br), e autor de livros de literatura, cinema e história do Brasil e regional, publicando desde setembro último um livro por mês no blog guidobilharinho.blogspot.com.br

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

HISTÓRIA DE UBERABA ERA TEMA EM DISCUSSÃO PARA APLICAÇÃO NO ENSINO ESCOLAR NO MUNICÍPIO EM 1936



Fruto de um amplo debate percorrido na década de 1990, o Ministério da Educação – MEC buscou formalizar critérios de reformar o ensino básico no País. Naquele contexto foi publicado em 1997, os “Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs)” para as então, 1ª a 4ª séries do Ensino Fundamental (atuais 2º a 5º anos). Posteriormente em 1998, vieram as propostas que vislumbravam as então 5ª a 8ª séries, (hoje 6º a 9º anos) de Ensino Fundamental; e de Ensino Médio, em 1999, acrescido ainda do PCN, as (Orientações Educacionais Complementares aos Parâmetros Curriculares Nacionais), de 2002.

Tendo em vista o ensino da disciplina de História, no documento de 1997 formulado para os primeiros anos do Ensino Fundamental, no primeiro ciclo (1ª e 2ª séries), a proposta trazia o eixo temático: “História Local e do Cotidiano”. Nesse pressuposto, os conteúdos trabalhados em sala de aula seriam voltados, preferencialmente, às diferentes histórias pertencentes ao local em que o aluno convive, dimensionadas em diferentes tempos (PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS, 1997: 40).

Na proposta havia uma manifesta preocupação com a História local como ponto de partida, no qual os alunos pudessem ampliar sua capacidade de olhar seu entorno para a compreensão de relações mais amplas. Apesar de inúmeros percalços no processo educacional brasileiro, o que há de mais inovador nos PCN’s desde sua implantação, é que seus conteúdos foram traçados através de linhas gerais, cujos referenciais se assentam nas especificidades culturais, na realidade do aluno e da localidade de um amplo país com todas suas pluralidades.

Longe desta realidade, uma matéria jornalística de 1936, encontrada pela equipe de pesquisadores da Superintendência do Arquivo Público de Uberaba, numa das páginas do jornal “Lavoura e Comércio”. Observa-se a preocupação de trabalhar pedagogicamente nas escolas públicas de Uberaba, a história local.


Trechos interessantes retirados deste texto criticavam que:



“(…) A ignorância da história do munícipio é um doloroso aspecto de nossa falta de cultura cívica. E essa ignorância é de tal modo que recente ainda, verificou-se um fato que a ilustra expressivamente. Comentava-se, numa roda de figuras doutas, o pedido que teria sido ao Sr. Dr. Paulo Costa, de mudança de denominação da rua Senador Pena.


– Quem foi esse senador Pena que dá nome a uma rua da cidade?


Ninguém o soube dizer. E só dias após, o Sr. Dr. Hidelbrando Pontes, que tem toda a história de Uberaba nos miolos, informava:


– Foi o homem que trouxe a Mogiana para Uberaba.”



Fonte: (Lavoura e Comércio, 06 de janeiro de 1936)



Texto e pesquisa: Equipe Superintendência do Arquivo Público de Uberaba.




JORNAIS E JORNALISTAS


( Jornalista tem que ter independência intelectual; caso contrário, vira vendedor de super-mercado...)

Veterano na profissão , mais de 65 anos de atividade ininterrupta, creio poder alertar aos colegas que estão “ na estrada” e aqueles que se iniciam no difícil e espinhoso caminho do jornalismo. Pululam as escolas de comunicação social em quase todas as cidades brasileiras . Verdade, o jornalismo apaixona ! Em qualquer área . Desde os que falam das flores, da noite, da comida, bebida. Mulheres, alferes, das artes, malazartes, do esporte, da policia,política, o campo é vasto, repasto, fulgurante, intrigante, alegre, doído, promissor ! Quem entra nessa seara, deve estar preparado para todos os percalços da profissão. 

Sou do tempo em que as pautas não ficavam restritas à redação, né meu querido César Vanucci ? O bom repórter ia para as ruas, “à cata” da noticia, em cada esquina, praça, repartições públicas e domínios particulares. Como um bom “ perdigueiro”, nada escapava do faro de um solerte repórter... A atual fase em que toda noticia” se recebe’ pela “internet”, fez com que o jornalista se acomodasse em berço esplendido. Vem tudo à mão ...A noticia não é “ procurada”, esmiuçada; ela se lhe apresenta como “ garota de programa” ... 

O texto das famosas e famigeradas “ assessorias de comunicação “, já vem redigidas e o redator que o recebe , não se dá ao luxo ( ou lixo ? ) de acrescentar ou mudar nem uma vírgula. Coloca tão somente o nome do “redator” responsável pela matéria e pronto ! É que, essas “ assessorias”. prudentemente, redigem os textos sempre apócrifos... Confesso- lhe , desconheço se os professores de Jornalismo, dão aos seus alunos, a exata dimensão do que é uma reportagem colhida na rua. O fato narrado pelo repórter, como “conseguiu” a noticia... 

Conversar, especular, entrevistar os personagens, sentir o seu drama ou a sua incontida euforia, é o receituário de uma boa matéria .Ascultar a sua empolgação, o senso de justiça, seriedade e verdade daquilo que está escrevendo...O jornalista deve fugir da noticia “encomendada”. O seu papel, além de relevante, é sumamente importante. Ouvir os dois lados em foco, é o “manual de redação” de qualquer grande jornal. Confrontar a “ fonte oficial” e a realidade do fato noticiado. O bom jornalismo não se deixa levar pelas duvidosas “assessorias de imprensa ( ou comunicação)” que mostram apenas o que lhes interessa. 

Os jornais, principalmente os do interior, perderam o “cheiro” das ruas, a voz do povo, o fascínio que é uma noticia verdadeira, concreta. Falta sensibilidade, coerência aos donos dos jornais, que obrigam ( sob pena de demissão )a noticiar apenas o que interessa ao dono , aliado ao seu “ grupo político “... Jornalismo é espelhar a vida. Seja de luzes ou sombras. 

È pecado mortal, ficar refém das “assessorias de imprensa”e das noticias “ maquiadas “ . 


Jornalista não pode cair ao “rés do chão”, empolgado ao que lhe apresenta geralmente o político. A liberdade de opinião e de informação, são sagradas e estão inseridas na Constituição. E triste ver, ler, ouvir aqueles “registros oficiais”. Eles ocultam a verdade ! Especialmente no caso de Uberaba , a decadência de costumes é de dar pena ! O bom jornalismo não pode se levar por paixão, dinheiro falsear a noticia. O jornalista é um transformador de costumes . A reportagem bem feita, a noticia dada com critério, isenta, sem ideologia, dignifica a profissão. 

A boa e íntegra informação, é pedra angular da cidadania. Não existe “ marketing” que suplante a inexorável verdade. Assim procedo desde os meus 16 anos ...( sua bênção, Jorge Zaidan, meu eterno professor...) “ Marquez do Cassú”.


quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

IGREJA DE SANTA TEREZINHA


Nos dezessetes anos seguintes a esta inauguração, a Capela de Santa Terezinha esteve vinculada ao Curato da Sé (atual Catedral Metropolitana) até que em 1946 o bispo D. Alexandre do Amaral – cujo episcopado foi marcado pelo incentivo à vinda de ordens e congregações religiosas no território diocesano – confiou a capela aos Padres Capuchinhos e em 20 de agosto de 1949 decretou a criação da Paróquia de Santa Terezinha. O primeiro pároco foi Frei Davi de Bronte, um jovem sacerdote de trinta e um anos nascido na Itália e vindo de Belo Horizonte.


Os padres religiosos se esforçaram durante toda a década de 1950 para arrecadar recursos para construir uma matriz mais ampla e um convento capuchinho. Os Livros de Tombo registram várias campanhas e tentativas de obtenção de terrenos junto ao poder público municipal. Após muito esforço em outubro de 1960 o bispo diocesano benzeu o lançamento da pedra fundamental da construção da nova matriz. Tendo a parte de alvenaria demorado três anos, em 1966 já se tinha completa a parte interna enquanto a parte externa só seria completamente finalizada em 1986. A antiga capela foi demolida em dezembro de 1961.


Muitos nomes de destaque da sociedade uberabense tomaram parte na construção da igreja, demonstrando a ação da providência divina em todos os períodos da história por meio da caridade e benevolência dos cristãos. O engenheiro João Laterza supervisionou a construção, a planta foi desenhada por Nicolau Baldassare, a aprovação técnica foi dada pelo engenheiro Tomás Bawden e os trabalhos de decoração e pintura foram realizados pelos artistas espanhóis Carlos Sanchez e Antônio Dias. Os vitrais foram encomendados à Casa de Vitrais Conrado Sorgenicht S.A. de São Paulo e os bancos feitos de imbuia foram trazidos de Castro (Paraná) tendo sidos patrocinados por famílias paroquianas.

Foto: Antonio Carlos Prata

Na construção da atual igreja de Santa Terezinha, de aproximadamente 3.500m², foram gastos 900 mil tijolos, 150 caminhões de pedra britada, 16 mil telhas (que foram recentemente trocadas) e 34 toneladas de pedra. A igreja atualmente é patrimônio histórico reconhecido pelo Conselho Municipal do Patrimônio Histórico (Conphau).

Os Padres Capuchinhos estiveram responsáveis pela comunidade paroquial de Santa Terezinha por quatro décadas tendo sido dezesseis párocos dessa ordem religiosa e dezenas de freis e noviços que deixaram seu testemunho na vida dos uberabenses e levaram certamente consigo a devoção à Santa Terezinha. Em 1987 retiraram-se da Paróquia durante o episcopado de D. Benedito de Ulhoa Vieira tendo assumido o Cônego Henrique Fleury Curado. Desde então encontra-se sob os cuidados do clero arquidiocesano sendo atualmente pároco o Reverendíssimo Monsenhor Célio Lima.

Na construção da atual igreja de Santa Terezinha, de aproximadamente 3.500m², foram gastos 900 mil tijolos, 150 caminhões de pedra britada, 16 mil telhas (que foram recentemente trocadas) e 34 toneladas de pedra. A igreja atualmente é patrimônio histórico reconhecido pelo Conselho Municipal do Patrimônio Histórico (Conphau).

Os Padres Capuchinhos estiveram responsáveis pela comunidade paroquial de Santa Terezinha por quatro décadas tendo sido dezesseis párocos dessa ordem religiosa e dezenas de freis e noviços que deixaram seu testemunho na vida dos uberabenses e levaram certamente consigo a devoção à Santa Terezinha. Em 1987 retiraram-se da Paróquia durante o episcopado de D. Benedito de Ulhoa Vieira tendo assumido o Cônego Henrique Fleury Curado. Desde então encontra-se sob os cuidados do clero arquidiocesano sendo atualmente pároco o Reverendíssimo Monsenhor Célio Lima.

Vitor Lacerda                 

sábado, 3 de fevereiro de 2018

BLOCO “MARIA BONECA” - UBERABA

Nos últimos anos, o carnaval de rua de Uberaba ganhou um bloco muito simpático: ”Maria Boneca” em homenagem a uma das mais populares figuras da cidade. Quem foi Maria Boneca?. Conto-lhes, carregado de emoção.

Figura marcante no cotidiano uberabense, Maria dita Boneca povoou o nosso imaginário. Quando criança, morrendo de medo. A sua pequenina figura causava receio de aproximação. Quando jovem, as brincadeiras inocentes: ”quer casar comigo, Maria?” A resposta vinha latente, quase gritando- “Não! Não!”. Maria chegava cedo ao centro da cidade, antes das 10 horas. Postava-se à porta do bar Eldorado, rua Artur Machado, onde, hoje, ergue-se o imponente edifício “Geraldino”, à espera do primeiro café da manhã, servido pelo saudoso Farah Zaidan, dono do bar. Tipo mignon, sempre muito limpinha. Vestido passado, cabelo penteado, chinela de dedo. Nos braços, a balançar com desvelo e terno carinho, enrolada em medidos panos alvos, a boneca que dizia ser sua filha. Afirmo, sem medo de errar, que Maria, ao seu tempo, foi a mais doce, querida, amada ,”paparicada” e agradável “dama de rua” de Uberaba, em todos os tempos. Não se pode imaginar Maria sem a boneca nos braços…Chico Xavier, no livro “Mãe”, psicografou do poeta Epiphânio Leite, uma poesia linda que retrata Maria Luiza Tróis , filha de Crescêncio Tróis e Anunciata Trois, com uma abertura de cortar corações: “Versos dedicados à dama feudal, há três séculos, que hoje expia, na via pública, sob a alcunha de Maria Boneca, o delito de haver exterminado o filho jovem que lhe estorvava a existência de irresponsabilidade e prazer. Medite sobre os versos:

Reencontrei-te , por fim, esmolando na rua / Nada recorda em ti a dama do castelo..
Lembro-me! Dás à fossa , o filho louro e belo / Esqueces, gozas, ris.. E a festa continua
Depois a morte vem… A memória recua / Escutas em ti mesma o trágico libelo
Choras, nasces de novo e trazes por flagelo / A sede de ser mãe que a demência acentua!
Como dó i ver-te agora os tristes olhos baços/ Guardas ,louca de amor, uma boneca nos braços
Em torno, há quem te apure a trilha merencória/ Mas, bendize senhora, lei piedosa, austera
Alguém vela por ti: o filho que te espera/ E há de levar-te aos Céus em cânticos de glória!
A nossa Maria Boneca, deve estar ao lado do filho que a dama feudal desprezou…
Ao desfilar pelas ruas da cidade, espero que reverenciem, com o carinho que merece, a nossa eterna Maria Boneca!


Luiz Gonzaga de Oliveira

Catedral Metropolitana do Sagrado Coração de Jesus

Catedral Metropolitana do Sagrado Coração de Jesus
Foto: Antônio Carlos Prata
                A Catedral Metropolitana de Uberaba é um templo católico localizado no centro da cidade de Uberaba, no estado brasileiro de Minas Gerais. É sede da Arquidiocese de Uberaba, cuja jurisdição abrange 20 municípios do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba                              

      

ESCOLAS, SOLDADOS E FANTASMAS

Centro de Cultura "José Maria Barra". Uma história de 200 anos

Muitos lugares da cidade de Uberaba têm histórias para contar. Mas poucos tiveram uma vida tão atribulada quanto o quarteirão da praça Frei Eugênio, onde hoje funciona o Centro de Cultura "José Maria Barra". Uma história de 200 anos, que começa em 1818 - quando nesse local foi erguida a capela de Santo Antônio e São Sebastião do Berava. Dois anos depois, com a criação da Paróquia, a modesta igrejinha foi transformada na primeira Matriz do arraial.

Na frente da capela, como era costume na época, passou a funcionar um pequeno cemitério local. Ali foi enterrado, em 1833, o famoso Major Eustáquio, fundador da nossa cidade. Mas em pouco tempo o terreno já não era suficiente. O vilarejo crescia e um novo cemitério foi criado atrás da capela, estendendo-se até onde hoje existe a Escola Estadual Minas Gerais. Em 1856 os dois cemitérios foram reunidos num só.

Mas nessa altura, uma igreja maior-na Praça Rui Barbosa - já assumira a posição de Matriz paroquial. Ao juntarem os cemitérios, demoliram a antiga capela. Inúmeros anônimos e famosos da história local encontraram descanso naquelas paragens na segunda metade do século XIX. Mas seu sossego foi perturbado em 1900: o novo cemitério São João Batista foi aberto longe do centro. Túmulos foram transferidos e a área desapropriada pela prefeitura.

Duas décadas depois um novo destino: a área foi cedida para que o engenheiro e deputado Fidélis Reis colocasse em prática suas ideias - avançadas para a época - sobre ensino técnico profissionalizante. Fidélis não mediu esforços para erguer no local uma escola modelo, nos moldes dos Liceus de Artes e Ofícios das maiores cidades do mundo. Conseguiu recursos dos governos, recebeu doações e obteve - de graça - um projeto do escritório do renomado arquiteto paulista Ramos de Azevedo. Em 1927 o prédio central ficou pronto, mas faltavam os galpões das oficinas, fundamentais para seu funcionamento. Para que o prédio não ficasse vazio, foi emprestado à Escola Normal de Uberaba, que passava por uma fase "sem-teto".

Para concluir a obra, Fidélis apelou até ao industrial norte-americano Henry Ford, que fez uma polpuda doação. Em troca, seu nome batizou um dos dois pavilhões - o das oficinas de metalurgia. Do outro lado, no pavilhão "João Pinheiro" seriam ensinados os ofícios das madeiras. Com as obras concluídas em 1929, faltava colocar o Liceu em funcionamento, mas nuvens surgiram no horizonte.

Quebra da Bolsa em 1929, Revolução de 1930 e a Revolta Constitucionalista de 32 interromperam o destino da escola. Num tempo em que soldados eram mais valorizados que professores e artesãos, o prédio foi cedido para alojar o 4º Batalhão de Caçadores da Força Pública Mineira. A escola teve que esperar por 15 anos: só em 1947, quando ficou pronto o novo quartel do 4º BP, os militares deixaram o prédio.

Muita água havia rolado na ditadura de Getúlio Vargas, e o ensino técnico fabril tinha agora o nome de SENAI - Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial, entidade controlada pelos sindicatos patronais. Restou ao antigo Liceu ceder o prédio ao governo, que o repassou ao SENAI. Em maio de 1948, o presidente Dutra aproveitou a vinda para a Exposição de Zebu e inaugurou a escola, que desde então formou alguns milhares de operários e técnicos.

Mas o destino reservaria ainda algumas surpresas. Fidélis morreu em 1962, e a escola ganhou seu nome, em justa homenagem. Em meados dos anos 70, o belo pavilhão João Pinheiro foi demolido para dar lugar a um novo prédio sem muito charme, onde atualmente funciona o "Centro de Formação Profissional Fidélis Reis". Em 1977 os prédios históricos foram cedidos ao SESI Minas e passaram por um longo período de abandono.

Foi somente em 2006 que a velha escola, restaurada e reformada, voltou ao antigo brilho, agora como Centro Cultural. Dentro do pavilhão Henry Ford, foi construído o mais moderno teatro de Uberaba. Mas reza a lenda que, nas madrugadas escuras, fantasmas ancestrais do antigo cemitério ainda passeiam pelas suas coxias.


André Borges Lopes é jornalista, especializado em produção gráfica, uberabense e historiador nas horas vagas.                            

sábado, 30 de dezembro de 2017

O ENCOURAÇADO POTEMKIN

Filmes Soviéticos Década 1920


A Arte da Imagem

 

Guido Bilharinho

 
A Arte da Imagem

Antonioni afirmou que sua pretensão era escrever com a câmera (Fernando de Barros, “Michelangelo Antonioni Fala: Eu Ainda Escreverei Com a Câmera”, in revista Cláudia, 1964).
         Contudo, antes dele, em O Encouraçado Potemkin (Bronenosets Potemkin, U.R.S.S., 1925), Sergei Eisenstein (1898-1948), já o fizera. E tanto e tão bem, que o filme dispensa até mesmo as legendas, bastando, não para entendimento do espectador, mas, para sua informação, que se situassem os acontecimentos - verídicos - em tempo e espaço num texto de não mais de meia página no início do filme.
         Tudo o mais é e seria dispensável porque as imagens, sua combinação e sucessividade falam por si, exprimindo verdade e significado.
         Não é apenas a montagem que infunde vigor, energia e tom epopeicos ao filme, dos mesmos teor e intensidade ocorrentes na Ilíada. Tudo o faz. A montagem é seleção, junção e ordenamento das imagens. Em O Encouraçado Potemkin, antes dela, existem as imagens, que falam, mais do que mostram, por si mesmas. Pela beleza resultante de sua qualidade intrínseca, enquadramento, angulação e conteúdo. Pouco ou nada adiantariam os três primeiros atributos se não refletissem, na captação técnico-estética procedida, análogas propriedades em posicionamento, direção e interpretação (expressões fisionômicas e gestuação) dos atores e figurantes.
         Num filme em que tudo excede a perfeição, as tomadas e imagens encerram, isoladamente ou em seu conjunto, a máxima  possibilidade estética que se lhes pode infundir e extrair. Tudo é antológico. Não há meio termo. Um poema imagético como nunca se fez e talvez nunca se fará igual. Nem em A Paixão de Joana D’Arc (La Passion de Jeanne d’Arc, França, 1928), de Carl Theodor Dreyer, filme que em tudo o mais se lhe aproxima e cuja grandeza estética e cinematográfica Jorge Luís Borges não percebeu (ver “La Fuga”, in Borges em /e/Sobre Cinema, organizado por Edgardo Cozarinsky. São Paulo, Iluminuras, 2000, p.67), e ao qual Evaldo Coutinho opõe improcedentes restrições formais (in A Imagem Autônoma. São Paulo, Editora Perspectiva, 1996, p.39).
         A sucessão fática constitui o que de mais seletivo e concentrado existe, transfundindo e fundindo, num só corpo, conteúdo e forma, tema e modo.
         O encadeamento sequencial dos acontecimentos percorre a ordem cronológica, mas, é de seu cerne que é feito o filme. O descontentamento e posterior revolta da marinhagem procedem-se  internamente, como nebulosa que paulatinamente adquire consistência e forma, não sendo esta apenas sua exteriorização ou expressão, mas, seu próprio ser, como quer Fielding com a arte. Consolidada, a insatisfação apresenta grau superior de conhecimento da realidade, desencadeando-se face às violentas imposições superiores. Essa conscientização materializa-se em revolta, que, por sua vez, conduz a patamar mais alto de compreensão e percepção dos fatos.
         A receptividade manifestada pelo povo de Odessa, onde o encouraçado revoltoso atraca, confere à circunstância dimensão que lhe transmite não apenas adição de apoiadores, mas, novos e mais amplos conteúdo e natureza.
         Se o episódio da escadaria de Odessa é, em arte e não apenas em cinema, inexcedível, representando epopeia às avessas, já que derrota do povo e não vitória de um herói, o que nele se fez - e passa a existir - é nova visão da História, em que o povo, mesmo ou até por isso mesmo esmagado, converte-se de objeto em sujeito, porque não é o resultado da ação que tem validade e encerra significado, mas, a própria ação, desde que seja libertária e processada coletivamente. Nada existe mais importante do que isso: a permanente luta pela liberdade, igualdade e respeito humano. A evolução histórica, desde seus primórdios, após vencida a etapa inicial de sobrevivência e adaptação da espécie ao cosmo, não é mais do que a busca desses objetivos.
         A cena final constitui abertura para o futuro e o infinito, dizendo, em imagens, que a ação daqueles marinheiros não foi em vão. Como também a ação no mesmo sentido de qualquer indivíduo ou grupos de indivíduos. Ao contrário, somando-se, conduzem e transformam a sociedade.
         O Encouraçado Potemkin é síntese de fundo e forma, verdade e realidade, ação e liberdade, vontade e vitória, humanismo e arte. No mais alto grau de concepção e realização. É a beleza da imagem. Da imagem que fala e significa. Da imagem discurso, mas, antes de tudo, da imagem visão.
         Se o cinema é a arte da imagem em movimento, O Encouraçado é a arte da imagem. Não é apenas o melhor filme do cinema. É cinema. O que a maioria dos filmes nega pelo menos três vezes, como são Pedro a Cristo, na intenção, na concepção e na realização.

(do livro Clássicos do Cinema Mudo. Uberaba,
Instituto Triangulino de Cultura, 2003)

______________
Guido Bilharinho é advogado atuante em Uberaba, editor da revista internacional de poesia Dimensão de 1980 a 2000 (https://revistadepoesiadimensao.blogspot.com.br) e autor de livros de literatura, cinema e história do Brasil e regional, publicando desde setembro último um livro por mês no blog https://guidobilharinho.blogspot.com.br./

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

NOTA PARA A IMPRENSA




Em face do descumprimento da Lei Municipal 10.717/2008 que estabelece normas de proteção do patrimônio cultural do Município de Uberaba e dá outras providências, o Conselho de Patrimônio Histórico e Artístico – CONPHAU e a Equipe da Seção Municipal de Patrimônio Cultural, estiveram reunidos nesta data e tomaram as seguintes providências:

1. Em relação ao imóvel (demolido) cuja fachada está sendo mantida sem qualquer tipo de proteção, localizada na Avenida Leopoldino de Oliveira nº 3294, está totalmente embargado pela SEPLAN, SEOB e CONPHAU. Não podendo ser construído no local estacionamento e nem obstruir a fachada.

2. O proprietário deverá manter o projeto original aprovado pelo CONPHAU, que é a construção de uma “Galeria Comercial” no referido local, levantar as paredes externas para proteger a fachada conforme projeto aprovado no CONPHAU.

3. O proprietário deverá apresentar alvará da obra, e ainda ter o seu projeto aprovado pela Secretaria Municipal de Planejamento - SEPLAN e Secretaria de Obras-SEOB.

4. Fica expressamente proibida a construção de estacionamento no local, por não se tratar de projeto aprovado pelo CONPHAU.

5. Deverão ser retirados do local a varanda com a estrutura do telhado, uma vez que o proprietário agiu com arbitrariedade, desrespeitando o patrimônio Histórico da cidade de Uberaba. Tendo em vista o descaso para com o Patrimônio Público Municipal e o desrespeito ás normas de proteção citada na Lei Municipal nº 10.717/2008, o Conselho de Patrimônio Histórico e a Equipe Técnica estão providenciando as devidas ações administrativas que serão enviadas ao proprietário e caso não sejam cumpridas as recomendações do Conselho de Patrimônio Histórico, serão tomadas ações judiciais de acordo a Lei 10.717/2008 que estabelece normas de proteção do patrimônio cultural do munícipio de Uberaba (cap. V – das infrações e penalidades administrativas – art.41).

6. A Fundação Cultural de Uberaba e o Conselho de Patrimônio Histórico e Artístico de Uberaba repudiam este tipo de ação arbitrária e desrespeitoso para com a memória histórica e cultural do nosso povo.

Uberaba, 28 de dezembro de 2017.

CONSELHO DE PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO

DE UBERABA E EQUIPE TÉCNICA DO SEMPAC

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

ALDO ROBERTO: O SALSICHASHAU

Aldo Roberto

Em 18 de novembro de 1939, nasce em um lar humilde, na rua 15 de Novembro, no Bairro Estados Unidos, o quinto e mais novo filho de Manuel Roberto da Silva e Olímpia da Silva Campos.
Sempre gostou de teatro! Cresceu fazendo graça e, desde os bancos escolares, contava suas piadas, vestia de palhaço...

Assim que pôde, juntou suas economias e foi para São Paulo, em busca de um sonho. Lá, trabalhou com grandes artistas no teatro e nas antigas televisões TUPI e RECORD. Com a grande atriz Irene Ravache deu os primeiros passos no teatro. Com Ronald Golias fez uma ponta na “Grande Família”. Contou piadas com Jô Soares na antiga RECORD. No “Programa do Sílvio Santos”, na TUPI, e no “Programa do Bolinha”, na antiga TV Excelsior, alegrou multidões com seu carisma. Como dublador, emprestou a sua voz para grandes artistas, interpretando personagens de filmes e séries. Nessa mesma época, fez diversas peças, dentre elas “A Cozinha”, com Juca de Oliveira, dirigida por Antunes Filho.

Aldo Roberto -   Foto: Túlio Reis

Quando eu era jovem e ia visitá-lo em São Paulo, ele me apresentava os seus amigos artistas e eu ficava todo orgulhoso pelo “tio famoso” que tinha.

Com a doença e falecimento de seu pai, ele voltou para Uberaba e por aqui ficou. O espírito de artista voltou com ele e, com a ajuda do Dr. Hugo Rodrigues da Cunha, montou a peça “Chapeuzinho Vermelho”, no Cine Metrópole. Foi um estrondoso sucesso! Depois dessa, vieram várias outras, vinte e uma pra ser mais exato, dentre elas peças infantis e adultas. Além disso, trabalhou na extinta TV Manchete e, mesmo com a idade avançada, ainda fazia participações no “Programa Se Liga”, do vereador Kaká Carneiro.

Sempre alegrava as pessoas, contando as suas piadas, e manteve várias amizades no meio artístico. Em 18 de novembro deste ano, completou 78 anos, ao lado de seu amigo Rui Rezende.

Nunca teve ambição! Viveu e morreu alegre! Era sempre irreverente e estava sempre alegrando todo mundo! Em qualquer roda era bem recebido! Fez a alegria de uma geração de uberabenses com as suas peças e até mesmo se vestindo de Papai Noel.

Nunca se casou e não teve filhos, mas teve 18 sobrinhos e 30 sobrinhos netos e se afeiçoou a um sobrinho neto ao qual ele chamava de filho: o Alexandre.

Hoje, o Alexandre é bacharel em Direito e, como um verdadeiro filho, encarregou-se de acompanhá-lo em confraternizações e até mesmo nos momentos de tristeza ele estava sempre junto ao seu tio-pai.
O grande artista nos deixou às 21 horas do dia 16 de dezembro de 2017 para alegrar seus entes queridos.

Perdemos seu convívio e sua alegria, mas o plano superior, com certeza, está mais alegre hoje.
Tio Aldo, descanse em paz!


Flamarion Batista Leite

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Seu Mário, o rei da vitamina por meio século

Em 1947, Mario Toitio chega a Uberaba e abre o Mercadinho de Verduras N. S. Aparecida,
 na r. Cel. Manoel Borges    

Laeco Muranaka casou-se, em 1952, com seu Mário, e teve seis filhos que deram-lhes 11 netos e um bisneto


  Muda-se para a pç. Rui Barbosa e instala casa de vitamina, em 1954. Três anos após, o bar atende
  no segundo quarteirão da r. Artur Machado, por 11 anos
Inaugura, em 1968, na Galeria Rio Negro, loja 13, na av. Leopoldino de Oliveira, o Rei da Vitamina



Seu Mário, o rei da vitamina inigualável por meio século


Agraciado, em 2000, com o título de cidadão de Uberaba. Morre aos 86 anos, em 2011

Herivelto, empregado há 26 anos, aprendeu a receita com seu Mário e mantém a tradição de 64 anos no primeiro “shopping” da cidade, com a primogênita de seu Mário, Regina e seu filho Pedro                   

Texto e edição

Antônio Carlos e Luiz Alberto Molinar