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terça-feira, 30 de agosto de 2022

POR RUAS E BECOS DE UBERABA

Ele parou, fez pose especial, olhou diretamente para a lente da câmera e sequer poderia imaginar que essa foto pudesse alcançar os dias atuais, tendo já decorridos quase 130 anos da época em que foi batida. Nela é possível ver um condutor de gêneros se preparando para transportar sacas de sal grosso que acabara de retirar junto à Casa Comercial de José Severino Soares, mais conhecido por Juca Severino, autor da foto, em 1894. Na imagem superior temos o local exato em que a carroça foi estacionada, ou seja, na Rua Municipal, 13, atual Manoel Borges, bem defronte ao comércio mantido pelo fotógrafo.

 Rua Manoel Borges (acervo APU – Arquivo Público de Uberaba) e 2 – Condutor de Gêneros (acervo Arquivo Público Mineiro)
Fonte: Jorge Henrique Prata Soares (Pratinha)

De relho na mão esquerda, barba por fazer e gorro na cabeça, o carroceiro se prepara para transportar pesada carga pelas ruas e becos da cidade. Usa traje simples, mas apropriado e tem nos pés sua indefectível botina mateira. Tudo indica ter sido previamente avisado que seria fotografado.

Será seu destino o Beco dos Aflitos, depois convertido em José Solé, no bairro do Fabrício? Ou a mercadoria seria destinada ao abatedouro? Nesse caso, era preciso sair em direção à Rua do Boi, atual Afonso Rato. Pode ser que a esteja levando-a ao Beco Zé de Sousa, hoje prosseguimento da Rua Veríssimo. Talvez ao Beco do Braga, no alto do São Benedito! Ou seria para o Beco do Bezerra de Menezes, perto do Centro Espírita!? Quem sabe ao da Liberdade, próximo ao Fórum Melo Viana!? Se entrega fosse na rua das flores, atual João Pinheiro, ele certamente teria que passar pela Coronel Ataliba, hoje Artur Machado, pois ali existia ponte favorável e resistente, a permitir o traslado sobre o Córrego das Lajes. Vai saber!

Penso então nas sábias palavras de Max Aub para dizer “Há três categorias de homens: os que contam a sua história; os que não a contam; os que não a têm.” E em seguida passo a imaginar: qual seria a história desse pobre trabalhador, cujo nome o registro fotográfico não anotou? E nessa hora me vem a memória os tristes versos de Chico Buarque, em “Gente Humilde”, que dizem:

... “E aí me dá / Como uma inveja dessa gente / Que vai em frente / Sem nem ter com quem contar / ... / E aí me dá uma tristeza / No meu peito / Feito um despeito / De eu não ter como lutar / E eu que não creio / Peço a Deus por minha gente / É gente humilde / Que vontade de chorar.”
Mas creio que lamentar não é o bastante. Melhor será retribuir o seu distante olhar, perdido no tempo, para fixá-lo, de forma indelével, em Coisas e Fatos Antigos de Uberaba.
Moacir Silveira