Vou contar um causo bastante conhecido do passado, lá no início dos anos 1970. Vou ser breve, peço perdão.
José Antônio Costa, o famoso Totinho, filho de Dona Ana, zeladora do Grupo Escolar Brasil, cresceu entre corredores, histórias e o vai e vem da cidade. Ruivo, cheio de pintinhas e dono de uma lábia afiada, era o típico “pau pra toda obra”, sempre disposto a ajudar em qualquer situação.
No meio da comunicação, entre rádio e TV, fazia um pouco de tudo. Tinha uma esperteza afiada, carisma de sobra e uma conversa que abria portas como mágica. Sempre bem vestido e cheiroso, era figura conhecida nos cinemas, teatros, barzinhos do centro acadêmico e nas rodas boêmias da cidade.
Quase sempre “durango”, sem lenço e sem documento, mas nunca sem companhia.
Totinho tinha o dom raro de transformar conversa em convite, e convite em rodada paga.
E foi assim que, numa noite no Bar da Viúva, se aproximou de um viajante solitário. Em poucos minutos, já dividiam pizza, cerveja e confiança. Quando o turista comentou que precisava economizar com hospedagem, Totinho não pensou duas vezes:
"Relaxa… tô no Grande Hotel. Tem cama sobrando."
Saíram caminhando pelo centro. Ao chegar em frente ao hotel, Totinho pediu que o homem aguardasse na calçada. Minutos depois, apareceu acenando da varanda do Bar Galo de Ouro, como se fosse hóspede antigo confirmando a entrada.
Na verdade, apenas subira, usara o banheiro e saíra discretamente.
A noite seguiu animada no Restaurante Bar Tip-Top, ali embaixo da ACIU, entre risadas, conversa solta e copos cheios… até que, na hora de acertar a conta, Totinho simplesmente desapareceu.
O viajante seguiu então para o Grande Hotel, confiante na tal “cama sobrando”. Ao chegar, percebeu que havia sido personagem de um dos causos mais engenhosos da cidade.
Mesmo assim, pagou a despesa e, curiosamente, saiu satisfeito, levando na bagagem uma história que valia mais que o dinheiro.
Porque Totinho era isso: malandragem leve, simpatia e uma figura inesquecível da Uberaba boêmia.
Infelizmente, teve um fim precoce. Vítima do alcoolismo, em tratamento no interior de São Paulo, saiu desorientado e acabou sendo atacado por abelhas.
Uma história hilária, com um desfecho triste, como tantas da vida real.
Imagem gerada por IA para fins de ilustração.
Antônio Carlos Prata
