terça-feira, 2 de junho de 2026

TOTINHO, O HÓSPEDE FANTASMA DO GRANDE HOTEL

José Antônio Costa, Totinho. Imagem gerada por IA para fins de ilustração.

Vou contar um causo bastante conhecido do passado, lá no início dos anos 1970. Vou ser breve, peço perdão.

José Antônio Costa, o famoso Totinho, filho de Dona Ana, zeladora do Grupo Escolar Brasil, cresceu entre corredores, histórias e o vai e vem da cidade. Ruivo, cheio de pintinhas e dono de uma lábia afiada, era o típico “pau pra toda obra”, sempre disposto a ajudar em qualquer situação.

No meio da comunicação, entre rádio e TV, fazia um pouco de tudo. Tinha uma esperteza afiada, carisma de sobra e uma conversa que abria portas como mágica. Sempre bem vestido e cheiroso, era figura conhecida nos cinemas, teatros, barzinhos do centro acadêmico e nas rodas boêmias da cidade.

Quase sempre “durango”, sem lenço e sem documento, mas nunca sem companhia.

Totinho tinha o dom raro de transformar conversa em convite, e convite em rodada paga.

E foi assim que, numa noite no Bar da Viúva, se aproximou de um viajante solitário. Em poucos minutos, já dividiam pizza, cerveja e confiança. Quando o turista comentou que precisava economizar com hospedagem, Totinho não pensou duas vezes:

"Relaxa… tô no Grande Hotel. Tem cama sobrando."

Saíram caminhando pelo centro. Ao chegar em frente ao hotel, Totinho pediu que o homem aguardasse na calçada. Minutos depois, apareceu acenando da varanda do Bar Galo de Ouro, como se fosse hóspede antigo confirmando a entrada.

Na verdade, apenas subira, usara o banheiro e saíra discretamente.

A noite seguiu animada no Restaurante Bar Tip-Top, ali embaixo da ACIU, entre risadas, conversa solta e copos cheios… até que, na hora de acertar a conta, Totinho simplesmente desapareceu.

O viajante seguiu então para o Grande Hotel, confiante na tal “cama sobrando”. Ao chegar, percebeu que havia sido personagem de um dos causos mais engenhosos da cidade.

Mesmo assim, pagou a despesa e, curiosamente, saiu satisfeito, levando na bagagem uma história que valia mais que o dinheiro.

Porque Totinho era isso: malandragem leve, simpatia e uma figura inesquecível da Uberaba boêmia.

Infelizmente, teve um fim precoce. Vítima do alcoolismo, em tratamento no interior de São Paulo, saiu desorientado e acabou sendo atacado por abelhas.

Uma história hilária, com um desfecho triste,  como tantas da vida real.

Imagem gerada por IA para fins de ilustração.


Antônio Carlos Prata