Foto gerada por inteligência artificial para ilustrar o texto sobre os antigos leiteiros da Copervale e a paisagem urbana de Uberaba nas décadas de 1960 e 1970.Cooperativa Regional dos Produtores de Leite do Vale do Rio Grande - Copervale, instalada na antiga Praça Manoel Terra, onde hoje funciona um posto de combustível, foi, durante as décadas de 1960 e 1970, um dos símbolos mais vivos da paisagem humana de Uberaba. Este casarão foi a sede da Copervale, onde funcionou por décadas, tornando-se um dos pontos mais conhecidos e tradicionais daquela região da cidade.
Naquele tempo, o Córrego Olhos d’Água ainda corria aberto. Vizinha ao Mercado Municipal, a Copervale acompanhava o curso do córrego, margeado por balaustradas até as proximidades do antigo Cine Uberaba Palace. A avenida era iluminada e arborizada dos dois lados, compondo um dos cenários mais marcantes da Uberaba antiga.
O Córrego Olhos d’Água encontrava-se com o córrego da Avenida Guilherme Ferreira, conhecido como Córrego Barro Preto. A partir dessa junção, recebia o nome de Córrego das Lajes, fazendo parte importante da geografia urbana e afetiva da cidade.
Naqueles tempos, os leiteiros percorriam ruas, avenidas e bairros de Uberaba em suas tradicionais carroças-baú totalmente brancas, puxadas por cavalos, levando leite fresco de porta em porta. Vestiam-se de maneira simples: o latão de bico numa das mãos, o caneco medidor na outra e a carroça carregada de grandes latões de leite.
Com o passar dos anos, o leite também passou a ser vendido em garrafas de tampa prateada e, depois, nos conhecidos saquinhos plásticos. Os produtos traziam estampada a tradicional logomarca em forma do Triângulo Mineiro, além das marcas Trianon e Produtos Centenário, muito conhecidas pelos uberabenses da época.
Antes mesmo de dobrar a esquina, o leiteiro já era reconhecido pelo som característico da pequena campana de freio de automóvel presa à lateral do banco do carroceiro. Com um pedaço de ferro, ele batia naquele aro metálico improvisado, produzindo um som inconfundível pelas ruas ainda tranquilas da cidade. Em seguida vinha o grito comprido e inesquecível:
“Olha o leiteiroooooo!”
As donas de casa saíam apressadas com suas vasilhas leiteiras nas mãos, enquanto as crianças observavam fascinadas aquele ritual diário. O leite era retirado diretamente dos grandes latões transportados na carroça.
Muitos desses recipientes possuíam uma pequena torneira para facilitar a retirada do leite. Quando não havia torneira, o próprio leiteiro utilizava uma caneca metálica padronizada e dosada, medindo cuidadosamente a quantidade deixada para cada freguês.
Uberaba possuía então uma coleção de figuras populares que davam alma às ruas. Havia os verdureiros, os compradores de garrafas, o homem do algodão-doce, o vendedor de picolé, o do pirulito, cada qual com seu pregão característico. E havia também o inesquecível “Seu” Roque Manuel da Silva, o lendário “Roque do Biju”, cujo triângulo metálico fazia a meninada correr para dentro de casa atrás de algumas moedas.
No meu tempo de criança, lembro exatamente dessas cenas que hoje compartilho com vocês. Eram momentos simples, profundamente marcantes, guardados na memória afetiva de toda uma geração.
Esses personagens ajudaram a construir a identidade popular de Uberaba. Eram sons, vozes e costumes que hoje pertencem à história sentimental da cidade, uma época em que o leiteiro da carroça branca não vendia apenas leite fresco, mas também convivência, proximidade e humanidade.
Antônio Carlos Prata