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terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Carta ao Major Eustáquio

Prezado fundador de Uberaba,


Cordiais saudações.


Por um impulso de cidadania, tomo a liberdade de, depois de quase 200 anos escrever-lhe essas mal traçadas linhas.

Embora a matéria tenha perecido pelo tempo, o seu espírito continua vivo e forte, além de valente e desbravador, percorrendo os caminhos da eternidade. Evidente o que vou contar-lhe não remonta ao seu nascimento em Ouro Preto (1772) ao seu falecimento na cidade que fundou (1832). Nos 60 anos que viveu, deu demonstrações eloquentes de valentia, operosidade e ações comunitárias. Enfrentar aqueles tempos onde tudo era muito difícil, principalmente a locomoção de um lugar para outro, requeria muita bravura e estoicismo. O senhor alcançou tudo isso… Parabéns!


Tomei conhecimento das peripécias da vinda do senhor e comitiva para as nossas bandas, lendo, ouvindo, bisbilhotando, pesquisando livros e documentos de historiadores uberabenses que enalteciam a coragem e o heroísmo do senhor e outros bandeirantes. Hildebrando Pontes, Desgenetes, Paschoal Toti, falavam maravilhas da epopéia. Assino embaixo tudo que eles escreveram desses quase dois séculos da sua chegada pelas nossas plagas. Todos ele são unânimes em afirmar, com maiúscula propriedade, a história indesmentível de homens, fatos, coisas e peripécias acontecidas quando da chegada ao “arraial da farinha podre”.



      

É uma pena, major Eustáquio, que poucas pessoas, principalmente o uberabense, se interessam em saber, tomar ciência dos primórdios de nossa civilização, conhecer a saga dos heróis que fizeram a grandeza dessas fertilíssimas terras do Brasil Central. Dá dó a ignorância dos nossos concidadãos em não procurar saber a beleza da nossa história.

Ah! “Seo” major, depois de 1929 aos dias de hoje, passados quase 90 anos, Uberaba mudou muito. Claro que mudou para melhor. Afinal, o progresso foi mundial e a terrinha-mãe não iria ficar de fora, embora rasgos de incompetência e más administrações tenham ocorrido escancarada e descaradamente, por um bando de incompetentes. Pelo que o senhor plantou, seus seguidores poderiam dar uma maravilhosa e vertiginosa sequência, Uberaba estaria num patamar bem mais alto…

Outrora, a principal cidade da rota-civilização-sertão, ou, capital-interior, Uberaba teve tudo para consolidar-se (chegou a ser chamada em certa ocasião) capital do Brasil Central. Evoluímos no setor primário, produção hortifrutigranjeira, na agropecuária, áreas de leite e carne, ganhamos a fama de “capital mundial do zebu”.Fomos bem no setor terciário, de entretenimento, educação e saúde. Falhamos, “seo” major, no setor secundário, pois que não soubemos segurar as boas e produtivas indústrias que nos pertenciam. Estamos à busca de novos segmentos industriais que viriam enriquecer o nosso parque industrial. Ademais, “seo” major, é preciso que se diga, o nosso empresariado é muito tímido, visão ainda curta no que diz respeito a ampliação, modernização e crescimento da nossa cadeia produtiva. Precisamos ser mais ousados. Não ter receio de grandes empreendimentos e conquistas

Praticamente depois de terem ficado “fora de cena”, políticos da estirpe de Fidélis Reis e Mário Palmério, os grandes artífices (além de benfeitores) da política local, aos poucos homens públicos que se aventuraram à tarefa de representar Uberaba nas esferas estadual e federal , não se sabe por que “cargas d’água”, não deram conta do recado. Suas atuações na Assembléia Legislativa e Câmara Federal, não deixaram saudade. Suas presenças foram opacas, muito pouco brilho, medíocre até. É bem verdade que tivemos regimes de exceção, a ditadura de Getúlio Vargas, de 1934-1945 e a “quartelada” que começou em 1964 e durou até 1985.

Esse último período ditatorial (21 anos) foi amargo e terrível para Uberaba, meu sempre saudoso e caro major. Se ainda respirávamos um surto de progresso, à época do saudoso presidente Juscelino Kubistchek, o advento da chamada “revolução redentora”, foi altamente maléfica para o progresso e crescimento da terrinha. Nossos políticos aliados à “revolução” preocuparam-se mais em mandar prender jornalistas, sacerdotes, líderes sindicais e políticos da “oposição ao sistema”. Promoveram uma verdadeira “caça às bruxas” e se esqueceram de tirar proveito em favor de Uberaba .

Em Uberlândia, “seo” major, as ações foram completamente diferentes. Os políticos “de lá”, ocuparam-se de estar em paz com a ditadura . Fizeram do então deputado meio-tigela, Rondon Pacheco, seu grande líder. Guindado à chefia da Casa Civil do governo revolucionário, deram o grande tiro de partida para o progresso e crescimento que Uberlândia nem esperava. Aqui na terrinha que o senhor fundou, “seo” major, continuamos com as picuinhas de sempre. Quem era da UDN, não dava “colher de chá”para a turma do PSD e PTB, aliados quase sempre.

A vertiginosa ascensão uberlandense em todos os setores (educacional, prestação de serviço, ambiental e principalmente industrial), foi notória, marcante e decisiva. Enquanto criavam a Universidade Federal, aqui não deixamos que Mário Palmério tentasse federalizar suas escolas, perdendo tudo. Sem representação no Estado, nem na União, víamos com o “rabo entre as pernas”, a nossa rival crescer e crescer. Cresceu tanto que Rondon, da Casa Civil, foi “escolhido” pela ditadura, Governador de Minas. O “caldo entornou” de vez. Comemos o pão que o diabo amassou… Infelizmente, não tivemos vozes a se levantarem para denunciar toda a perseguição que Uberaba sofria… Até hoje, fico a pensar com meus botões, será que adiantaria qualquer tipo de reação? De lá para cá, foi o que se viu. Não conseguimos mais “equilibrar o jogo”. A derrota estava decretada. A missa de réquiem não teve choro. Nem vela.

O uberabense, acostumado a perder durante 21 anos, ainda fraqueja. Respiramos um pouco, aumentamos o fôlego, quando da vinda da Fosfértil, a”fábrica das fábricas”. Acendeu a nossa auto estima. Ainda bem. A”Vale” está segurando a “barra”…

Fomos perdendo competitividade. Nossos principais atacadistas desaparecendo com a ação do tempo. As grandes lojas de uberabenses, com o advento da globalização, sucumbiram ante a avalanche dos grandes magazines nacionais. Na economia, em outros tempos, altamente sólida, com bancos locais e regionais, cooperativas de crédito, virou apenas uma “estação-dormitório”. O avanço da informática , toda a “grana” arrecadada durante o dia, ao início da noite, ao simples apertar de um botão, está depositada em outros bancos de outras grandes cidades brasileiras. O dinheiro, nem aqui dorme mais…

Para piorar a situação, “seo” major, os prefeitos que tivemos não foram essas coisas… Deixaram a desejar. Uns por absoluta preguiça ou falta de operosidade, acomodados, agindo sempre no apadrinhamento de afilhados, inchando a máquina administrativa sem necessidade. Outros, sabidamente, oriundos de classes humildes, berços simples, ostentam, hoje, grande patrimônio pessoal…

A verdadeira cidadania, o amor obrigatório que deveríamos ter pela terra em que vivemos, é mera ficção. Os políticos da terrinha querem apenas o seu bem estar. Às favas o desenvolvimento da cidade. Em Uberaba, “seo” major, vereador de primeiro mandato, ainda nos “cueiros” da política, mal tomam posse e, na semana seguinte, começam campanha para deputado estadual. Vê se pode, “seo” major!…

No campo esportivo, uma lástima! Mais de 40 anos e não concluem o “Uberabão”. O Uberaba Sport, disputa a 2ª divisão mineira. Decadência plena. Nacional e Independente, na escória do futebol estadual. Nos esportes especializados, em outros tempos, campeões estaduais em natação, futebol de salão, vôlei e basquete, só as saudosas lembranças…

Na comunicação, “seo” major, as rádios das mais antigas do interior, PRE-5 e Difusora, não existem mais. Os jornais “Lavoura e Comércio” e “Correio Católico”, mais de 100 anos de circulação, “descansam em paz”. A TV-Uberaba, orgulho uberabense, não existe mais. Está “lá”…

Perdemos muita coisa importante que, pelo tempo, não vale recordar. “Dói” muito. Pedimos a Deus, proteção. Que a nossa “ vaquinha não vá para o brejo”…

Ao receber esse longo, mas honesto desabafo, “seo” major, por favor, junte-se a Mário Palmério, Fidélis Reis, Alaor Prata, D. Alexandre Amaral, Mons. Juvenal Arduini, Jorge Furtado, Hélio Angotti, José Humberto R. Cunha, Joubert de Carvalho, Cacaso, Antenógenes Silva, Leopoldino de Oliveira, Glycon da Paiva, Pedro Moura, Avelino Ignácio de Oliveira, Álvaro Lopes Cançado, Randolfo Borges Jr., Ovidio Fernandes, José S. Bilharinho, Chico Xavier, Odilon Fernandes, Inácio Ferreira, João Guido, Wagner Nascimento, Aparecida Conceição Ferreira, Antusa Martins, Celso Afonso, José Ribeiro, Augusto César Vanucci, “Doca”, Hugo Rodrigues da Cunha, entre outros que, por absoluta falta de memória, não foram citados, deem as mãos, ecumenicamente, e peçam pela cidade que tanto amavam e nos abençoem!


Luiz Gonzaga de Oliveira, jornalista, advogado e filho dessa terra-mãe.