domingo, 25 de julho de 2021

ARLINDO DE CARVALHO

Uma tarde trágica. Um segundo fatal. A distração de um motorista, ou a imprudência de outro, provocou, no trevo da BR 262 com a BR 50, no fatídico dia 5 de novembro de 1970, uma colisão em que perderam a vida dois uberabenses gerando forte emoção na comunidade.

        Arlindo de Carvalho.  Foto/Divulgação 

Arlindo de Carvalho aos 67 anos e sua esposa, Leonor Borges de Carvalho aos 64 anos ao se dirigirem à sua fazenda, ele conduzindo um Volkswagen, este foi abalroado com impacto tão violento por um caminhão de Ribeirão Preto que o casal teve morte instantânea.

Arlindo era natural de Igarapava- SP, nascido aos 28 de novembro de 1903. Nas palavras de seu neto, Renato, a família veio para Uberaba no começo do século XX, motivada por um desentendimento numa questão de disputa por terras. “Abandonaram tudo para evitar retaliações à família. Chegaram muito pobres e Arlindo, então com 7 anos, único filho homem, aprendeu com o pai as 4 operações e, aos 10 anos, foi logo trabalhar. Não teve tempo e nem recursos para estudar, mas gostava muito de ler e de fazer contas. Aprendeu o básico da contabilidade e, de entregador numa farmácia passou a balconista, a encarregado, a gerente”.

Segundo Renato “ele não gostava de esbanjar, não era dado a festas e bajulações. A vida o conduziu ao pragmatismo. Nunca prejudicou ninguém e, segundo ele, a ética devia estar ligada ao crescimento econômico”

Anita, irmã, conta que Arlindo trabalhou, entre outros empregos, na Casa Lealdade e, posteriormente, na Casa Violeta, de Secundino Lóes e João Hermógenes, onde permaneceu até se casar com Leonor em 24 de junho de 1927. Juntos tiveram três filhos, Lincoln Ronaldo e Maria Aparecida.

Leonor recebeu por herança a fazenda Aroeiras situada na divisa do município de Conquista. Esse fato fez com que Arlindo se transformasse num administrador rural. Nesse período trabalhou com cafeicultura e rizicultura, mas devido a uma crise econômica do país naquela época terminou por arrendar a fazenda e passou a se dedicar ao comércio.

Não chegou a se afastar totalmente do campo mantendo sociedade na criação de gado com um grande fazendeiro e um dos políticos mais influentes da cidade, Ranulpho Borges do Nascimento. Essa parceria trouxe bons resultados comerciais inclusive no ramo imobiliário.

Como representante comercial, além de outros produtos agropecuários, se destacou na distribuição do açúcar produzido pela Usina Mendonça de Conquista.

Em 1932, ao ingressar como sócio da empresa Magiotti, conheceu aquele que seria seu maior amigo e parceiro, Mousinho Teixeira Leite, então contador da Drogaria Alexandre.

Dessa amizade nasceu a união comercial para a aquisição da “Casa Ceres” de Fernando Sabino de Freitas, localizada na rua 24 de fevereiro, esquina com a rua Dona Juliana, hoje rua Carlos Rodrigues da Cunha com Olegário Maciel.

A transação sugerida pelo contador da Casa Ceres, José Marinho Junior, provocou a constituição, em 1934, da empresa “Carvalho & Teixeira”.

Três anos depois novos sócios vieram participar da organização, novos mercados foram abertos trazendo novos horizontes para os negócios, nascendo aí a Casa Carvalho que se transformou, ao longo dos anos, numa das maiores organizações comerciais de toda a região do Triângulo Mineiro.

No setor imobiliário, em sociedade com seu cunhado Hermógenes Ferreira Borges na década de 1940 adquiriram, para fins de loteamento, uma grande área no final da Avenida Almirante Barroso, bairro do Fabrício, confiantes na expansão urbana.

De espírito associativista, Arlindo de Carvalho foi Vice-Presidente da ACIU na gestão de Paulo José Derenusson (1948/1949), tendo como companheiros de diretoria, entre outros, Fernando Sabino de Freitas e Bruno Martinelli.

Foi eleito presidente da Entidade para o período de 1949 a 1951, tendo como diretores, entre outros, João Guido, Reynaldo de Melo Rezende, Lívio da Costa Pereira e Rubens Dornfeld.

Durante sua gestão entre as várias conquistas obtidas destacam-se a luta pela liberação de recursos do Estado destinados à ampliação da Usina Pai Joaquim e a criação de uma agência da Mogiana no centro da cidade

O maior destaque desta diretoria, na verdade, foi a vitória na disputa com a cidade de Conquista pela instalação da sede da fábrica de cimento, proprietária de terra no município de Uberaba e no município de Conquista.

Conta José Mousinho Teixeira que “Confirmado todos as démarches para construção da fábrica o presidente da ACIU, à época Sr. Arlindo de Carvalho, não mediu esforços para dar todo o suporte de logística para viabilização das obras de construção”.

Inaugurada em 1954 trouxe uma nova vida para o bairro rural de Ponte Alta, oferecendo empregos para centenas de operários. Transferida para Arcos em 2004 a fábrica, por 60 anos, foi uma importante alavanca para o desenvolvimento econômico de Uberaba.

Em reconhecimento ao seu trabalho Arlindo de Carvalho, passou a integrar o quadro de diretores da Companhia de Cimento.

Leonor Borges de Carvalho, esposa de Arlindo, empresta seu nome a uma rua situada no bairro São Benedito.

Lincoln Borges de Carvalho, seu filho, dá nome à Avenida inaugurada em 2019, conhecida como Avenida Interbairros.

Uma pena que Arlindo Carvalho, o grande guerreiro que a cidade adotou e que tantos benefícios relevantes propiciou para o desenvolvimento de Uberaba, não teve ainda o seu reconhecimento para ser homenageado pelo Poder Público Municipal.

Gilberto de Andrade Rezende – Ex-Presidente e Conselheiro da ACIU e do CIGRA – Membro da Academia de Letras do Triângulo Mineiro.

Fontes –

Renato Muniz de Carvalho –

Anita Carvalho

José Mousinho Teixeira

ACIU – Associação Comercial e Industrial de Uberaba.

Jornal da Manhã.